A água tudo lava

Já não sei há quantos séculos escrevi este texto. Nele se conjugava o meu amor pela forma de filmar de John Ford, esse intratável e inclassificável americano de sangue irlandês, e o meu concupiscente amor pelo rastejante rabo de Gene Tierney. Deve dizer-se que o rabo de Gene Tierney nunca foi verdadeiramente chamado para o cinema, toda a sua carreira tendo sido fundada no seu tão belo e sublime rosto. Foi preciso o sacana de um irlandês, católico arrevesado, para a tirar dos vestidos de cetim e casacos de arminho e, já o cinema todo se esfregava em technicolor, vesti-la de trapos, atirá-la para um chão de poeira e fazer dela uma rattlesnake papa nabos. (Se virem o filme, saberão o que quero dizer.)
Na imagem abaixo, as pernas dela são as mesma pernas que, depois, fim da década de 50, o anarquista (logo católico e ateu) Luis Buñuel, usaria na rapariga menor de idade de que ele, abusadamente, fez a protagonista desse filme que, de tão dúbio, teve dois títulos, La Joven e The Young One. 

gene tierney

Vou meter-me na cama de Gene Tierney tentando convencê-la com as piores razões.

A preto e branco, nos anos 40, Tierney deu o corpo e a alma a “Laura” e foi a terna amante de “The Ghost and Mrs. Muir. Pensam que as mil cores 3D de “Avatar” são deslumbrantes? Vejam o preto e branco de mil cinzentos, vejam a brancura cega da fotografia daqueles filmes e falem-me, depois, de visões e deslumbramentos.

A Gene Tierney que arrasto pelos cabelos não é a desses filmes, nem é ao glamour calculado ou à complexidade psicológica de femme fatale que a quero ir raptar.

Roubo-a a “Tobacco Road, de John Ford. Contas mal feitas, tem três cenas no filme, diz uma só fala, anda descalça e mal vestida. Mas mexe-se e começam os sarilhos. Se virem como se mexe, percebem porquê.

Situo-vos. Uma família falida: os pais, a filha que é ela e um irmão louco. O cenário é uma casa a cair, árvores nuas, folhas murchas que o vento sopra, poeira que tudo invade. Minto: o cenário é a cara da miséria e a barriga da fome.

Chega o cunhado de Tierney. Queixa-se aos sogros do comportamento da outra filha com que o casaram. Ao ombro traz um saco de nabos. Para o cavernoso apetite deles, um saco de nabos é um repasto gourmet. O cunhado, o compacto Ward Bond, sabe e guarda-o como dragão desconfiado. Mas a fome inspira a Gene uma sexualidade predadora: senta-se no chão e de costas inicia um movimento de réptil na direcção de Bond e dos suculentos nabos, faiscando olhares que esclarecem as baixas intenções dela. O físico de Bond falece e os murmúrios que se lhe ouvem atestam a fraqueza da carne.

É a melhor cena de sedução duma mulher serpente. Gene rasteja pela obscena poeira, oferecendo à vítima o espectáculo das suas costas e do que, no fim delas, é o seu majestoso e redondo trono. Tudo por um saco de nabos.

O trajo de Tierney resume-se a um vestido de chita amarrotado e sujo, como ternamente suja e tisnada traz a perfeição da apetecida e macia carne das pernas. O erotismo de Ford, o de “Quiet Man cujo beijo Spielberg replicou em “E.T., costuma ter ardor romântico. Mas com Tierney, Ford foi buñueliano e tão perverso como o anarquista espanhol. Penso em “Los Olvidadose “La Joven, filmes em que a sujidade dá à pele e aos corpos a mancha de humanidade que faz do sexo o verdadeiro sal da terra.

No fim do filme, o cunhado regressa à quinta chorando a fuga da mulher. Os sogros dão-lhe em casamento Gene Tierney, a última filha. Sim, diz ela – é a única coisa que diz no filme – e corre para o mais glorioso plano desse Ford: mergulha as mãos na água e lava-se pela primeira vez, a pele a libertar-se do pó, gotas a deslizarem límpidas por um rosto que antevê a consumação da felicidade.

Não há nada que a água não lave.

Grandes cenas do cinema: The Searchers

A primeira vez que nos encontrámos, no Grande Auditório da Fundação Gulbenkian, este filme entrou pela minha vida dentro. Trouxe com ele, por junto, um vale de lágrimas, uma aflição de amor e medo, a certeza de que, pelo que via na cara e no corpo a desabar de John Wayne, ainda tinha muito ou quase tudo a perder por praticamente ainda nada ter eu perdido, a não ser a pátria angolana que eu julgava ser a minha.
Hoje, quando me encontro com
The Searchers é já a minha vida e dois amores perdidos, a minha Guerra da Secessão, que leva os nomes de Bénard (ou só João) e de Cintra Ferreira (ou só Manel). Nem The Searchers, nem John Ford esperariam que eu metesse entre Wayne e Natalie, entre pioneiros e índios, estes dois, João e Manel, cavaleiros vigilantes, Ulisses perdidos numa viagem que também me espera. Tenho neste filme os meus cinéfilos mortos.

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THE SEARCHERS (1956), de John Ford (A desaparecida)
cena de resgate de Natalie Wood por John Wayne

Vamos agora falar daquele que é, com mais cem outros filmes, o mais belo filme da história do cinema. Chama-se The Searchers (A Desaparecida). Se quisermos dizer as coisas de uma forma simples, é um western e realizou-o John Ford. Godard, no estado de incontrolada exaltação estética que é o seu estado natural, comparou-o à Odisseia de Homero.  A mim parece-me uma pura tragédia grega. O filme começa e adivinhamos uma história de amor proibido e nunca consumado de John Wayne pela cunhada. Mal percebemos isso e logo um ataque dos índios mata a família toda, menos Debbie, a menina mais nova, o anjo da família que os índios raptam. John Wayne, que é neste filme, um tipo raivoso, cheio de ressentimento, vai dedicar os anos que se seguem a perseguir os índios e a tentar localizar a sobrinha desaparecida.

Vai com ele um meio-sobrinho e meio índio, meio-irmão de Debbie. A este meio-índio move-o a vontade heróica de resgatar a meia-irmã. Mas ele sabe que John Wayne leva às costas um alforge de ódio e de preconceito e só quer encontrar Debbie para a matar, poupando-a, quer ao opróbrio da vida com os índios, quer à vergonha que seria voltar a trazê-la para o meio dos brancos, depois da perda da inocência com os selvagens.

Poucas vezes o cinema filmou um olhar tão carregado de maldade, como o dos olhos maus e impiedosos de John Wayne. Vamos ver a cena em que eles atacam o acampamento índio e encontram Debbie que é Natalie Wood.

Este movimento, o do homem que agarra e ergue em peso uma jovem mulher e a levanta aos céus, para depois a segurar contra o peito, é um gesto que nos resgata de todo o preconceito, de toda a amargura e ressentimento. Quando a voz cansada e grave do John Wayne diz aquele manso, “let’s go home, Debbie”, por mais desgraçada que seja a caverna onde estamos, por mais desérticas que sejam, como estas, as montanhas onde somos peregrinos, desiludidos e vencidos, todos acreditamos que também nós voltaremos um dia a casa, aos braços de quem nos ame e proteja.

John Wayne, herói sem lar que o espere, Ulisses sem Ítaca coisíssima nenhuma, redime-se num dos mais belos planos da história do cinema, momento epifânico em que erguendo Nathalie Wood, contra o azul e as nuvens dos céus, a perdoa. Ou quem sabe, talvez tenha sido esse prodigioso e humaníssimo medo que vemos nos olhos de Natalie Wood a fazê-lo desistir de ser o anjo negro da vingança que vinha preparado para cortar a garganta juvenil. É impossível ver esta cena e não sentirmos a nossa garganta de espectador a afligir-se, a torturar-se, a comover-se.

Há uns bons anos, a visitar a Capela Sistina com a Antónia Fonseca, no meio de turistas de mil línguas, extasiados com o tecto pintado por Miguel Ângelo, ouvimos um miúdo dizer a outro, num sonoro português: “Eh pá, fixe, a cena do ET, a cena da criação.” Eu vejo esta cena de John Ford e só posso dizer, “Ah, meu Deus, fixe, a cena de John Wayne, a cena da redenção.”