Primeiro poema do primeiro livro

Borges_calle

Foi este o primeiro poema do primeiro livro que Jorge Luis Borges publicou. Em 1922, a abrir Fervor de Buenos Aires, após advertência sublinhando ser trivial e fortuita a circunstância de que nós fossemos o leitor do livro e ele o seu redactor, Borges deambulava assim pelas ruas de Buenos Aires:

LAS CALLES

Las calles de Buenos Aires
ya son mi entraña.
No las ávidas calles,
incómodas de turba y ajetreo,
sino las calles desganadas del barrio,
casi invisibles de habituales,
enternecidas de penumbra y de ocaso
y aquellas más afuera
ajenas de árboles piadosos
donde austeras casitas apenas se aventuran,
abrumadas por inmortales distancias,
a perderse en la honda visión
de cielo y llanura.
Son para el solitario una promesa
porque millares de almas singulares las pueblan,
únicas ante Dios y en el tiempo
y sin duda preciosas.
Hacia el Oeste, el Norte y el Sur
se han desplegado –y son también la patria– las calles;
ojalá en los versos que trazo
estén esas banderas.

Pode um poeta, com obra grandiosa, desmesurada, como é a de Borges, adivinhar-se todo no seu primeiro poema? Amanhã pensarei talvez outra coisa, hoje penso que sim. A imortalidade, o tempo, o céu e a planura que o poema dramatiza ou evoca são violinos de Borges, futuramente recorrentes. O mais pequeno pormenor no qual, como na mónada leibniziana, se inscreve ou reproduz todo o universo, essas pequena ruas “enternecidas de penumbra e ocaso”, voltaremos a encontrá-las nos contos fantásticos, nos de aventura, noutros poemas de maturidade. O feliz casamento entre o concreto, as ruas “desganadas del barrio”, e a metafísica – a “funda visão”, as “imortais distâncias”- que as assombra, voltará mil vezes e em mil formas no deslumbramento barroco das Ficciones ou na fantasmagoria do Aleph. Nas ruas apáticas de um bairro dos arrabaldes pressente-se já a refutação do tempo, tema tão caro nos contos e inquisições: estas ruas solitárias e desoladas são únicas perante Deus e o tempo. No primeiro poema do primeiro livro, Buenos Aires e Borges fundem-se num destino e num cenário labiríntico que milhares de almas singulares virão povoar. Inúmeras e solitárias palavras que a seguir tenha escrito não fizeram mais do que reescrever estes primeiros versos.

 p.s. – Tradução directa e pobre:

As Ruas
As ruas de Buenos  Aires
são já as minhas entranhas
Não as ruas ávidas,
incómodas de turba e azáfama,
mas sim as ruas indolentes do bairro,
quase invisíveis de habituais,
enternecidas de penumbra e ocaso
e aquelas mais longe
vazias de árvores piedosas
em que austeras casitas mal se aventuram,
assombradas por imortais distâncias,
a perder-se na funda visão

de céu e planura.
São para o solitário uma promessa
porque milhares de almas as povoam,
únicas ante Deus e o tempo
e sem dúvida preciosas.
Para o Oeste, o Norte e o Sul
se estendem – e são também a pátria – as ruas;
oxalá nos versos que traço
estejam essas bandeiras.

Regresso

Regresso de um passeio de barco
Regresso de um passeio de barco, Pierre Auguste Renoir

Nada a dizer do remanso dos dias, do céu limpo, do ritmo incansável das marés. As férias deixam-nos sem assunto.

Sobretudo quando, ao escoarem-se os ansiosos últimos dias, a brisa do fim da tarde nos sopra um dos inconversáveis aforismos de Karl Kraus: “Não gosto de me imiscuir nos meus assuntos privados.” Logo eu que não tenho outros.

Brisa de Schubert soprada por Rostropovich