Uma foto para a eternidade

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A foto de Capa

“Não havia escola, nem cinema, nem teatro”. Xavier Camps e os amigos, protegidos pela impunidade dos 15 anos, acorreram aos Jardinets de Gràcia, em Barcelona, para ver o avião alemão que, abatido, se oferecia como espectáculo de bairro. Corria o ano de 1939 e a Guerra Civil, de Franco e republicanos, voara já, e em piloto automático, para o fim mítico e shakespeareno. Xavier e os amigos buscavam aventura e a palpável proximidade com as “metralhadoras, balas e bombas” que na sua imaginação enchiam a carlinga do alado monstro germânico.

Coincidiram, nesse dia, nessa hora, com a câmara do fotógrafo Robert Capa que sobre eles disparou com suavidade e discrição, ferindo-os para a eternidade. As fotos de Capa estiveram perdidas 69 dúbios anos. Guardou-as com nobre reserva o general mexicano Francisco Javier Aguilar González. Descobertas há dez anos e apresentadas pelo “NY Times” e pelo “El Periódico de Catalunya”, as imagens de Capa reencontraram-se com os fantasmáticos protagonistas que, em 39, correram pressurosos aos Jardinets de Gràcia e aos despojos que fulminados caíram do céu.

Xavier recordou, 69 anos depois, o orgulho e ousadia que, nesse dia, o fizeram avançar para uma posteridade que a estatura tímida e a deselegância de umas calças largas e de mau tecido não podiam adivinhar.

Poderia acontecer a qualquer um de nós? Poderia ter-me acontecido? Que Capa (e se fosse o local, competente e velho Quitos fotógrafo já iríamos muito bem servidos) terá fotografado o dia em que, sôfrego, vim a correr, com o RA, ao Terreiro do Pó, no Lobito, para assistir ao ataque (a metralha e granada) à delegação da Unita, por uma unidade mínima do MPLA, num só jipinho Suzuki amarelo (só quem viu sabe do que falo), comandada pelo camarada JM, que acabou atingido com um tiro na cabeça que o imobilizou por três meses? Alguém – que outro Capa? – terá em Luanda, e em 1975, fotografado a conveniente explosão do jornal “Provincia de Angola”, a que o JS e eu fomos os primeiros a chegar, já passava do recolher obrigatório, e que serviria depois, mutatis mutandis, como acusatório “incêndio do Reichstag” contra a FNLA?

Nunca ninguém nos avisa de que nem todas as livres escolhas de juventude garantem a música da eternidade.

CAPA FOTOGRAFÍAS
O menino da foto refotografado

Maio de 68, o incrédulo estupor de um homem

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Maio de 68, Cartier-Bresson: Jouissez Sans Entraves

A foto é de Cartier-Bresson. Maio de 68.

Um velho olha, perplexo, para um slogan utópico e inalcançável. Há quem diga que é um velho de direita, escandalizado. No taipal, uma mão escreveu a frase sem freio: «Gozai sem entraves.» Talvez seja um pouco mais do que escândalo, o que vem à mente do homem e se instala debaixo do seu chapéu. O incrédulo estupor deste homem é o mesmo que Philip Larkin, um poeta nos antípodas do Maio de 68, cantou sofregamente em “High Windows”:

When I see a couple of kids
And guess he’s fucking her and she’s
Taking pills or wearing a diaphragm,
I know this is paradise

Everyone old has dreamed of all their lives–
Bonds and gestures pushed to one side
Like an outdated combine harvester,
And everyone young going down the long slide

To happiness, endlessly. I wonder if
Anyone looked at me, forty years back,
And thought, That’ll be the life;
No God any more, or sweating in the dark

About hell and that, or having to hide
What you think of the priest. He
And his lot will all go down the long slide
Like free bloody birds. And immediately

Rather than words comes the thought of high windows:
The sun-comprehending glass,
And beyond it, the deep blue air, that shows
Nothing, and is nowhere, and is endless.

Ou no meu rançoso português:

Quando vejo um casal de miúdos
E percebo que ele a anda a foder e ela
A tomar a pílula ou a usar diafragma,
Sei que é esse o paraíso

Com que todos os velhos a vida inteira sonharam –
Sentimentos e gestos arrancados para um lado
Como numa velha debulhadora
E toda a juventude deslizando para o lado

Da felicidade, sem fim. Pergunto-me se
Alguém olhou para mim, quarenta anos atrás,
E pensou, Isto é que é a vida;
Nem Deus, nem nada de suores no escuro

Por causa do inferno, ou ter de esconder
O que se pensa do padre. Ele
E todo o seu desejo vão por aí abaixo, deslizando
Livres como aves rebeldes. E imediatamente

Mais do que palavras surge a ideia de altíssimas janelas:
Vidros feitos de sol,
E mais além, o fundo ar azul, que nada
Revela, inefável, e sem fim.

Consola-me pensar que também o burguês da foto de Bresson rejeita por instantes a morte, imaginando “o fundo ar azul, que nada revela, inefável, e sem fim”.