O lindo livro de Koons, Jeff

KOONs
Caixa aberta

Caixa vermelhíssima de 38 por 49 cm. As letras prateadas anunciam o artista: Jeff Koons. Abre-se a caixa e sai o livro. Pesado e gigantesco, 600 páginas. Na capa em tela, em colagem de plástico, está a Lagosta que Koons, em tributo daliano, concebeu em 2003.

A edição é limitada, de apenas 1600 exemplares, todos numerados e assinados pelo artista. Tenho o nº 1? Nem o 2. Saiu-me o 1323, quase no fim da lista, número de lista de espera.

Porque é que chamei o livro à colação, juntando-o aos belos livros que já aqui louvei? Porque me diverte e se Koons é mais do que discutível o livro não. Robert Hughes, crítico de arte da minha estimação, jurou:

Koons is the perfect product of an art system in which the market controls nearly everything, including much of what gets said about art.” E depois disse muito pior, coisas sulfúricas.

JK
Naked

Não juro por Koons, pela tão tardia art pop dele. Sei que um dia lhe saiu ao caminho (acho que foi ele que a procurou) Cicciolina, o seu ready made. Vivant, está claro. Foi com ela que Koons, ele mesmo centro da sua arte, edificou o succès de scandale. “Made in Heaven” a série de retratos, esculturas e pinturas que Koons e Cicciolina protagonizaram, teve um retumbante triunfo na Bienal de Veneza, de 1990. Pornografia? Não creio, como não acho que a justificação de Koons, sugerindo que a pornografia pode ser inocente, o sujo belo, ou a insídia converter-se em confiança, esteja espelhada no kamasutra deles.

JHI
Fingers and legs

Arte insuflável, de cores primárias, de matérias brilhantes e neo-barrocas, talvez a mais sincera declaração que nela encontramos seja a forma como Koons ele mesmo, a sua imagem, surge obsessivamente, oferecendo-se como commodity. Tão commodity como os seus aspiradores Hoover da primeira fase, máquinas que respiram. “The suck dirt…” disse ele.

O livro? Já não podem comprar: edição esgotada.

A terrível incompreensão

Não, não vou voltar a Van Gogh. Mesmo se o caso dele é um excepcional desmentido do que vou dizer. E lembro: quando morreu tinha vendido um quadro.

shoes

Há um mito que, de tão tranquilizador para críticos idiotas e artistas cabotinos, me encanita um bocadinho. Reza assim: “As obras incompreendidas hoje serão descobertas amanhã”.

Com boa vontade, mas mesmo muito boa vontade, talvez aconteça num ou dois casos. Prefiro pensar que, maioritariamente, as obras incompreendidas hoje continuam a ser incompreendidas amanhã. Milhares, mesmo milhões de obras, incompreendidas hoje, serão irremediavelmente esquecidas amanhã e ainda mais depois de amanhã. Por mais euforia estética que me invada e por mais optimista que tente ser, acabo submerso por este cepticismo cartesiano a que o veneno do tempo acrescenta, ainda, este azedo tempero: “Muitas obras compreendidas hoje serão, lógica e legitimamente, incompreendidas amanhã.

 

Cristo nu

cristo michelangelo

Em 2001, os especialistas confirmaram-na como obra de Michelangelo. A estrutura física e as proporções de ossos e músculos deste Crucificado corresponderiam ao estilo do artista, e o estilo é a assinatura. Agora, a compra da escultura pelo estado italiano reabriu a autoral controvérsia. Mas suponhamos para o que interessa que sim, que é de Michelangelo Buonarroti.

A datação da escultura em madeira determinou que deverá ter sido criada em 1492. Michelangelo, seu presumível criador, tinha então 18 anos, mas já razoável experiência de estudo anatómico de cadáveres exumados de cemitérios e igrejas.

Na cruz, um Cristo nu. Jovem e moldado por um jovem. Nem o corpo do crucificado, nem as mãos do escultor mostram sinais de conhecer o sofrimento, a tortura da carne, o desolado abandono. A verdade é que n Evangelho de João, presumível relato de relato do apóstolo que ficou à beira da Cruz, a assistir à morte do Filho, também narra assim, em silêncios e pose branda, a crucificação no Calvário.

Era o mais jovem dos apóstolos. Só os ausentes, inspirados no relato do também ausente Mateus, introduzem as notas dramáticas e a convulsão angustiada do corpo que sofre.

Lucas fala de um grande grito e de uma exclamação de alívio: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”. Igual é o dramatismo dos relatos de Marcos e Mateus: contam ambos terem caído trevas sobre a terra, rasgando-se as cortinas do Templo enquanto se fendiam rochas e as sepulturas se abriam.

Nenhum destes sinais de martirologia é visível na madeira policroma do Cristo nu de Michelangelo. Vemos confiança na carne, na sua incorrupção, na preservação de uma harmonia eterna, tudo marcas do optimismo desabrido e orgulhoso dos 18 anos: de Michelangelo? Fosse quem fosse o escultor, desconhecia a agonia e quis negar a morte. Paradoxalmente é o mais cristão dos propósitos.

Miguel_Ángel,_por_Daniele_da_Volterra_(detalle)

 

 

Um pouco de pão, uma garrafa de tinto

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Kiki de Montparnasse inventou a mulher livre antes que alguém explicasse ao mundo o que era a mulher livre. Em Paris, aos 15 anos, por dez cêntimos, mostrava os seios, ainda mais bonitos do que os do busto da nossa República. Resgatou-a um miserável pintor expressionista da escola de Paris, Chaim Soutine. Para a aquecer, Soutine escavacou e pôs na lareira a última mesa, o que lhe restava de cadeiras. Eis o que devia fazer de todos nós defensores acérrimos do expressionismo francês.

Filha de mãe solteira, ou como ela diria, filha de uma coisinha de nada, Alice Prin, a futura Kiki, foi criada pela avó e veio ter com a mãe a Paris, aos 14 anos. Lavou pratos em restaurantes e deu-se mal com ordens e abusos. Tinha um corpo de Scarlett Johansson e ofereceu-se como modelo de escultores. A mãe, a visão da arte de um Santo Inácio de Loyola ou de um Santo Estaline, tomou aquilo por prostituição e pô-la no gélido olho da rua.

Soutine tirou-a da rua, aqueceu-a e vestiu-a. Alice logo posou para a alcateia de pintores que uivava, famélica, pelas vielas de Montparnasse. De Alice a Kiki, seu imortal nome artístico, foi um passo. Pintaram-na Modigliani, Kiesling, o franco-japonês Foujita. Oferecia-lhes um ventre lisinho, ainda sem um pêlo púbico sequer. Foujita vinha olhá-la de muito perto na esperança de assistir ao nascimento do primeiro.

E estou a ser cobarde, escondendo o essencial. Kiki veio posar por amar as artes. Sem estudos, descobriu na liberdade dos escultures e pintores, a sua liberdade. Fundiu-se nas artes e as artes nela com um primitivismo feroz. A primeira vez que foi, por 40 cêntimos, posar para Foujita, tirou o casaco comprido e logo ficou numa nudez de origem do mundo, mas mandou Foujita pôr-se com dono e, nuíssima, começou ela a desenhá-lo. Cantava, dançava, comia pão e camembert. No fim, cobrou o seu dinheiro, vestiu o casaco e levou o desenho. No café, um marchand, para espanto de Foujita, pagou uma pipinha de massa por ele.

Era boa e era livre. Foi o que descobriu Man Ray, pluralíssimo artista americano, pintor e fotógrafo. Conheceram-se num café e foram esconder o inconfessado desejo num cinema. Man Ray quis fotografá-la em esplendor bebé. Kiki recusou: a fotografia era uma reprodução mecânica da realidade e se ela se despia era para se dar à imaginação e à transfiguração. Ray demorou cinco dias a convencê-la. Convenceu-a e ela disse-lhe, com uma timidez de me fazer chorar, que não tinha púbis. Ele sorriu: “Tanto melhor, menos problemas temos com a censura.” Agora, num tabuleiro lá de casa, eu tomo o pequeno-almoço, todos os meus santos dias, sobre as costas nuas de Kiki, esse violino de Ingres, a mais famosa fotografia de Man Ray, que lhe assegurou a terna eternidade.

violon d'ingres
Violon d’ Ingres, a célebre fotografia de Man Ray

Foram amantes no sobressalto de seis e mais dois anos. Mas Kiki de Montparnasse foi mais do que a amante e modelo de Man Ray.

A primeira exposição de desenhos e pinturas dela vendeu todos os quadros. Fez espectáculos em Paris e Berlim, rivalizando ao tempo com a Piaf. Publicou as suas memórias, que Hemingway quis prefaciar. Deu fama ao corte de cabelo que Louise Brooks usaria no erotíssimo filme “Loulou”, do alemão Pabst. Usava as mesmas egípcias sobrancelhas de Cleópatra, o escândalo de uma boca escarlate, meias e ligas negríssimas nas actuações de cabaret.

Foi a alma e a rainha de Montparnasse nos loucos anos 20, há cem anos, guiada por uma filosofia simples: “Só preciso de uma cebola, um pouco de pão, uma garrafa de tinto e vou sempre ter alguém que mos ofereça.”

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Kiki de Montparnasse: à esquerda por Kees van Dongen; à direita por Moise-Kisling

Publicado em Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo, no Jornal de Negócios

O Nu e o Óbolo

 

Andava eu com o meu amigo Norton por um blog chamado Geração de 60 e não é que, em Paris, nas Belas Artes, os modelos fizeram uma greve vindo posar nus para a porta da academia. Tinham boas e nuas razões para isso. Apoiei como pude essa greve. Eis o que a minha indignação de 2008 me mandou escrever.

nus

Seria capaz de se despir face a uma bateria de homens e mulheres com uma folha de desenho à frente e um lápis na mão? Ao meu «não», rotundo e robusto, assistem razões de peso. Poupo-me à humilhação de as enumerar.

Não me poupo a uma confissão: o nu excitou mais a minha paixão pela pintura do que dezenas de sábias histórias de arte.

Como em todas as grandes histórias, também na história do nu em pintura, toda a gente conhece os generais – de Botticelli a Picasso, de Courbet a Egon Schiele – mas poucos reconhecem o soldado desconhecido que garantiu a vitória nas trincheiras. E sem eles – sem elas – nem a guerra teria sido ganha, nem sequer teria havido guerra.

Agora, arriscamo-nos a perder todas as batalhas. Em Paris, por decisão de Monsieur le Maire, os modelos estão mais nus e arriscam-se a ficar muito mais magros. Explico-me. Sem intervenção da nossa dedicada e zelosa ASAE, acaba de ser proibida uma prática ancestral. Nas Belas Artes, era norma os modelos despirem-se, posarem e, no fim, dobrarem uma folha de desenho formando um «cornet», para recolha das mais ou menos generosas gorjetas com que artistas e alunos entendiam recompensar a mais árdua das tarefas: «não falar, não se mexer, nada produzir» que é como os próprios modelos definem a voluntária escravidão a que se dedicam.

Pagos a 10 euros a hora, estes e estas amantes da arte tinham no óbolo dos artistas um complemento espiritual que o respectivo físico também não desdenhava. Chamo a vossa atenção para um pequeno pormenor : é preciso compreender o nu. O nu, nas Belas Artes, custa e custa muito. É feito de sofrimento e imobilidade. Os modelos despem-se e vestem-se atrás de um biombo. Se querem saber, entre uma pose e outra pode passar uma hora: nesse intermezzo não há aquecimentos, nem salas de espera. Não será preciso se-se de ferro, mas é preciso ter uma anatomia temperada. E as gorjetas ajudavam: valiam, dizem os modelos sem fronteiras, um quarto do salário. Autorizavam alguma piscina e, quando calhava, o ginásio. Por isso é que a gorjeta, embora proibida, continuava a ser tolerada nas Beaux-Arts. Agora – dura lex – nem proibida, nem tolerada.

Os modelos vieram para a rua e manifestaram-se. Em carne e osso – e com justiça. Ao contrário do que costuma acontecer, as ruas ficaram melhores. Mais belas e menos perigosas. Foi só um gesto. A mim pareceu-me artístico : vejam as imagens. A cada um de nós, homens e mulheres, vai apetecer-nos abraçar a causa e pôr o objecto da nossa escolha no merecido pedestal. Temos por onde escolher e para todos os gostos. Com uma vantagem : não falam, não se mexem, nada produzem!

O vil metal

chagall

Bica Curta tal qual a bebi no CM, 4ª feira, dia 17 de Abril

Se queremos dar beijos, o melhor é dar beijos à realidade. Aprenda-se com os artistas : bebem a bica, cantam a revolução e desprezam o dinheiro. Mas Chagall, grande pintor do século XX, quando veio a revolução russa deu-se mal e fugiu. Em França, já De Gaulle no poder, o ministro Malraux convidou-o a pintar o tecto da Ópera de Paris. Quanto custaria, perguntou. Chagall fez-se humilde e foi todo ora essa, é uma honra servir a França, não é nada. Malraux virou-se para a mulher do pintor, que fosse ela a dar o preço. Nas suas costas, pelo espelho, vê Chagall a fazer sinais com as mãos: vinte mil. Sem dinheiro nunca houve palhaços.

Arte ao meio-dia, lixo à meia-noite

Elmyr Welles
Orson Welles e Elmyr de Hory

Não se dá o devido valor ao arrepio na espinha, forma popular de designar o orgasmo estético. Recuemos aos anos 60 e visitemos o Fogg Museum, em Harvard. Uma tela de Matisse prende os nossos olhos. Uma chispa de prazer corre-nos pela medula com a velocidade e o estonteante drible do benfiquista Rafa: é só uma tela, um rosto de mulher, e é como se uma colher de paraíso se derramasse na ilha triste que é qualquer coração. Sai-nos boca fora, com dois pontos de exclamação, esta alegria infantil: que bonito, oh, que bonito.

Porém, uma semana depois, os jornais dizem que o quadro é falso. Pode o arrepio na espinha ser retráctil? Pode o benfiquista Rafa desfazer os dribles e correr veloz às arrecuas?

Foi este o pão e manteiga dos dias de Elmyr de Hory, herói do filme “F de Fraude”, de Orson Welles”. Antes da manteiga, já Elmyr comera o pão que o diabo amassou. Até pode ter nascido num estábulo, na remota Hungria, sabe-se lá. O que interessa é que Elmyr substituiu essa risível realidade por ascendência aristocrática e um pai embaixador austro-húngaro. Mentia e dava gosto acreditar nele. Foi uma sopa de mentiras que deu gasolina à fuga do campo de concentração nazi onde o vazaram, por ser judeu e homossexual. Meia-verdade nazi: de judeu nada tinha, homossexual era sempre que podia.

Lixe-se a verdade e falemos do amor. Em Paris, Elmyr estudou belas artes com o cubista Fernand Léger. Quando fecho os olhos e vou à Paris dos anos 40, vejo Elmyr a vender os seus quadros, na Place du Tertre, o Sacré Coeur tão perto. Mas vejo também que Elmyr está num desassossego que poria apopléctico o Bernardo Soares de Fernando Pessoa. Lembram-se daquela coisa das ideias inatas? Paris despertou e pôs em brasa a inata vontade de luxo e volúpia de Elmyr: festas, caviar, o efervescente champagne, todo o frufru, seda ou veludo, que o corpinho humano pede. A vender os seus próprios quadros, está bem, abelha, nunca Elmyr lá chegaria.

Um dia, Elmyr desenha à Picasso, um Picasso original. Num silêncio interrogativo, põe-o na mão amiga de um art dealer inglês, que logo sobe ao céu: um Picasso, diz, e oferece uma pequena fortuna. Foi o dia da Criação para a alma de Elmyr. Pintou Picassos, a seguir Matisses, Modiglianis, Renoirs. Sempre originais. Primeiro conquistou Paris, depois Manhattan. O Texas petrolífero por fim.

Pequeno sobressalto a roçar o opróbrio: um galerista de Los Angeles, desconfiado do portfólio de originais de Elmyr, grita-lhe «a porta da rua é a serventia da casa». Na rua, humilde, Elmyr murmura: «Mas acha que os quadros não são bons?» Não são bons, são obras-primas de falsificação, festa dos olhos e dos sentidos, que o Fogg Museum não só compra como expõe. E foi aqui que o busílis chegou dos olhos ao nariz: um, dois, três especialistas viraram do avesso um Matisse de Elmyr. Verdadeiro nas duas primeiras avaliações, que maravilha; falso, à terceira, que vergonha. Já foste Elmyr: era arte ao meio-dia; é lixo à meia-noite.

No Texas, Algur H. Meadows, magnata do petróleo, fica a saber que tem a maior colecção do mundo de falsificações de Degas, Bonnard, Matisses e Picassos. Numa raiva inestética, põe o FBI à caça de Elmyr. Para escapar, o nosso herói esconde-se na Espanha de Franco e trata a clandestinidade a pata negra e botellas de Vega Sicilia. Mas o ditador Franco vai extraditá-lo – fascista! Com o sossego da uma mão cheia de comprimidos, Elmyr deixa este mundo legalista: finta a prisão e vai direito ao céu dizer a Picasso que pintava tão bem como ele.

Publicado no Jornal de Negócios