A arte nem pode, nem anti-pode

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Marilyn desreprimiu o baixo-ventre do cinema

A fúria com que, em “Red River”, Montgomery Clift e John Wayne esmurram as ventas um do outro não é de esquerda nem de direita. Os murros deles não são políticos. Nem é político o rabo de Marilyn Monroe, que em curtas cenas de 20 segundos, desreprimiu o recalcado baixo-ventre do cinema, a cores em “Gentlemen Prefer Blondes” e a preto e branco em “Some Like It Hot”, por obra e graça do bom olho de Hawks e de Wilder.

Filmes, poemas, romances, pintura, mesmo a do comunista Picasso, não são políticos. Não me venham dizer que a poesia é anti-poder ou pró-poder. O poeta pode ser fascista ou comunista. Maiakovski ou o dúbio Aragon eram comunistas, Ezra Pound era fascista e T. S. Eliot talvez andasse lá perto; o pluralíssimo Pessoa, se alguma coisa fosse, era de direita, e o queixinhas Ginsberg uivava parvamente à realidade. Mas se ainda os lemos como poetas é porque a poesia deles continua a transfigurar a modesta realidade política que na vida os entretinha.

Camões cantou o Gama em “Os Lusíadas”, mas um só olho de Camões criou em dez cantos um herói que o real e cruel Vasco da Gama, ocupado com a canela e a pimenta, não reconheceria. Como não reconheceria o Gama que Robert De Niro teria sido se algum desmiolado estúdio americano tivesse decidido pagar a Samuel Fuller o filme com que o cineasta americano queria incensar o navegador português.

Poemas, filmes e romances seriam muito pequeninos se reduzidos à deslavada ideia de serem anti-poder. Nem há mal intrínseco em haver poder, afinal uma humaníssima e necessária realidade. E os males que escorram do exercício do poder são para se lavar na cama real da política. Mas as traições e as conspirações de Shakespeare, as bruxas de Macbeth e o fantasma de Hamlet, o arrebatado discurso de Marlon Brando com o cadáver de Júlio César aos seus pés, já são da matéria dos sonhos.

A beleza de poemas e filmes, de canções e pintura está na sua esplendorosa inutilidade. A grandeza das artes está na individualíssima convulsão que precisam de nos provocar se quiserem ser arte: uma convulsão íntima, vergonhosamente espiritual e libidinosa. Os nossos melhores cantores de intervenção, no PREC, quiseram servir uma forma dita utópica de poder. “E se eles ganharem?” perguntou um amigo meu a um desses cantautores, que era genuíno e grande. “Bom – disse ele –, temos de ser os primeiros a fugir.”

A Winchester de John Wayne, a voz e a guitarra da canção não são armas de serventia. Seja do poder, seja do antipoder.

Quem construiu o muro de Berlim?

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O Muro nos anos 60

É preciso gritar para corrigir a História. Quem construiu o muro de Berlim foi o cineasta Billy Wilder. Em 1961, no último estertor da Hollywood clássica, Wilder filmou “One, Two, Three” em Berlim e a vertiginosa velocidade das peripécias do filme forçou as pobres autoridades soviéticas – só podia, caro Jerónimo! – a proteger as cândidas almas germânicas dos cidadãos de Berlim Leste.

Resumindo o irresumível, eis a trama de “One , Two, Three”: um executivo da Coca-Cola, o actor James Cagney, fracassou numa missão de implantação da petulante bebida no Médio Oriente. Tem agora de se redimir conseguindo que a garrafinha sexy conquiste Moscovo.  Está já no maior ardor capitalista, quando recebe nova missão: cuidar, em Berlim, das férias da filha do patrão, 17 aninhos milionários, corpo de sereia sulista, cabecinha morangos com açúcar.  Um ser humano pré-Muro, já se vê.

O caos, todo o português sabe, tem braços. E vejam, os braços do caos tomam conta do filme e abraçam a menina milionária: ela apaixona-se por um jovem militante comunista de Berlim Leste. Eis o que o Muro, tivesse sido construído a tempo, teria evitado. Mas não, circulava-se entre as duas Berlins com uma liberdade que nem na IC19, e o casalinho, numa moto com sidecar a desbordar toneladas de CO2, extravasa de exaltação política ostentando balões com a palavra de ordem “Yankees Go Home”. James Cagney ainda tenta explicar à doce criatura que aquilo são actividades antiamericanas. “Por atacar os yankees?”, admira-se ela. “Do Sul, de onde venho, somos todos contra os yankees!” E o casalinho já pensa casar e ir viver para Moscovo, onde a utopia lhes promete duas assoalhadas não muito longe de uma casa de banho.

O hediondo capitalismo recorre aos velhos métodos. Corrompe o coração popular-democrático dos polícias de Leste, que prendem o genuíno revolucionário. Torturam-no, pondo-o a ouvir sessões contínuas da canção “Itsy Bitsy Teenie Weenie Yellow Polka Dot Bikini”. Nem a paciência de um Mário Centeno resistiria! Muito menos a do veemente jovem comunista: prefere confessar ser um espião da CIA à indigna tortura.

Mas o capitalismo, cuja morte científica está atestada e garantida, apesar das sucessivas e inúmeras mudanças de data de falecimento… o capitalismo, dizia, também tem os seus reveses: a rapariga está grávida. Ora, já se sabe que a versatilidade trafulha do capitalismo tanto mete a colher no tutu-de-feijão como no ensopadinho de abóbora, e já temos o capitalista da Coca-Cola a negociar o resgate do jovem comunista com três camaradas epicuristas, charutos havanos na boca soviética. James Cagney promete-lhes, se soltarem o rapaz, além de Coca-Cola, vender-lhes misseis em troca de havanos.

Talvez eu esteja a mentir: julgo que essa cena, Wilder a filmou na tarde de 13 de Agosto de 1961, perto da Porta de Brandeburgo. Quando voltou, no dia seguinte, e já não estou a mentir, ficou de olhos esgazeados. Pela calada da noite, céu cinzento, sob o astro mudo, as forças da utopia tinham construído um muro no meio do seu cenário. E o fumo dos charutos, da cena a que aludi, ainda conspurcava a ecológica lindeza do planeta, quando, em 1962, a proposta troca de misseis por havanos do homem da Coca-Cola de Billy Wilder teve tenebrosa e realíssima réplica em Cuba, mesmo à porta da casa dos yankees.

Wilder, a 13 de Agosto de 1961, agarrou nos actores e técnicos e zarpou para Munique, onde acabou “One, Two, Three”, a mais veloz comédia da história do cinema, que nem a tragédia de betão de um muro foi capaz de parar.

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Wilder e os seus actores a pensarem construir o Muro…

Publicado na minha coluna “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo”, no Jornal de Negócios

 

A culpada e muda nostalgia

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Bem sei que o país está ufano e, turístico,, e já só de esguelha olha para o deficit. Mas o meu sentimento de culpa é inabalável. Parte do deficit do país está em duas estantes à minha frente. Devia ter-me prometido, de joelhos e a mim mesmo, não comprar mais de 1.001 “dêvê­dês”, mas com­prei. Só de fil­mes. Por­que, como o odi­oso Billy the Kid que não con­tava mexi­ca­nos entre os tipos a quem furava o cora­ção com uma bala, tam­bém não conto “dêvê­dês” de séries tele­vi­si­vas.

A der­ra­pa­gem des­con­tro­lada, a hemor­ra­gia orça­men­tal, são bem visí­veis na forma como as estan­tes com fil­mes foram, como euca­lip­tos, comendo ter­reno à flo­resta dos livros.

Nas minhas estan­tes, o pai fun­da­dor Grif­fith, os dis­cu­tí­veis irmãos Cohen, a mafi­osa obra de Cop­pola, o con­ser­va­dor Ford a quem a ordem alfa­bé­tica colou o ico­no­clasta Godard, empur­ram sécu­los de civi­li­za­ção com cega ener­gia. De Pla­tão a Tols­toi, da “Ilíada” aos sete vaga­mente entu­me­ci­dos volu­mes de “Em Busca do Tempo Per­dido”, os livros acantonam-se, frá­geis, tigres de papel tre­mendo e temendo as faú­lhas de tanta luz, tanta explo­são.

E para quê? Em primeiro lugar, não valem nada a não ser a imensa gargalhada de hiena que a Netflix, e mais umas inenarráveis plataformas de streaming, soltam com a altivez de quem diz «isso já não serve para nada». Em segundo e patriótico lugar, os mil e um fil­mes na minha estante, de impro­du­ti­vos, só dão razão às agências de rating, e são mil e uma agu­lhas de trai­ção que fui espe­tando no cora­ção do cinema a que jurei fide­li­dade.

De repente, com a boca a saber a mada­le­nas, lembro-me do Grande Audi­tó­rio da Gulbenkian na noite em que, mil e duzentas pes­soas a trans­bor­dar das cadei­ras, bal­cão e pla­teia em over­bo­o­king, o João Bénard subiu ao palco para apre­sen­tar, em ses­são dupla, o “Nosfe­ratu” de Mur­nau e o “Nos­fe­ratu” de Her­zog.

Pare­cia o cos­tume, uma sala con­tente de o ver e ouvir, à espera de ima­gens e movi­mento. Veio o escuro e veio a mudez do filme de Mur­nau, num tempo em que as cine­ma­te­cas ainda pro­jec­ta­vam fil­mes mudos sem música. A sur­presa do total silên­cio, para uma plateia sem hábi­tos desse cinema, sem o hábito dos ges­tos des­me­su­ra­dos de Max Sch­reck o mais nos­fe­ratu, o mais vam­piro actor que algum dia se fil­mou, fez a sala tos­sir, pigarrear.

Nor­mal­mente, aba­fa­dos pela banda sonora, no cinema não nos ouvi­mos. Ali, a sala ouvia-se: mexer o rabo na cadeira ouvia-se, engo­lir ouvia-se, bater as pes­ta­nas tam­bém. E a sala, ner­vosa de se ouvir, frente a um ecrã de som­bras e silên­cio, come­çou a rir-se. Foram os pri­mei­ros vinte minu­tos de cinema mudo mais memo­rá­veis de que me lem­bro: até que o filme de Mur­nau, sin­fó­nico, rap­tou os risos, as gar­gan­tas e os catar­ros, os rabos inqui­e­tos e, dos anos 80 em que esta­vam, levou os espec­ta­do­res para os anos 20.

Nenhum DVD me dará a expe­ri­ên­cia que é o espec­tá­culo de uma sala a render-se a um filme, uma sala a des­co­brir o sublime em ges­tos que, sem a con­fi­ança da entrega, seriam ridí­cu­los, 1200 pes­soas des­co­nhe­ci­das, odi­o­sa­mente dife­ren­tes, com o san­gue gelado pela noc­turna silhu­eta de um vam­piro que só pode ser ven­cido pela glo­ri­osa luz da aurora.

O que podem contra os vampiros do Auditório da Gulbenkian os exércitos de 1001 DVD?