Maio de 68, o incrédulo estupor de um homem

jouissez_sans_entraves
Maio de 68, Cartier-Bresson: Jouissez Sans Entraves

A foto é de Cartier-Bresson. Maio de 68.

Um velho olha, perplexo, para um slogan utópico e inalcançável. Há quem diga que é um velho de direita, escandalizado. No taipal, uma mão escreveu a frase sem freio: «Gozai sem entraves.» Talvez seja um pouco mais do que escândalo, o que vem à mente do homem e se instala debaixo do seu chapéu. O incrédulo estupor deste homem é o mesmo que Philip Larkin, um poeta nos antípodas do Maio de 68, cantou sofregamente em “High Windows”:

When I see a couple of kids
And guess he’s fucking her and she’s
Taking pills or wearing a diaphragm,
I know this is paradise

Everyone old has dreamed of all their lives–
Bonds and gestures pushed to one side
Like an outdated combine harvester,
And everyone young going down the long slide

To happiness, endlessly. I wonder if
Anyone looked at me, forty years back,
And thought, That’ll be the life;
No God any more, or sweating in the dark

About hell and that, or having to hide
What you think of the priest. He
And his lot will all go down the long slide
Like free bloody birds. And immediately

Rather than words comes the thought of high windows:
The sun-comprehending glass,
And beyond it, the deep blue air, that shows
Nothing, and is nowhere, and is endless.

Ou no meu rançoso português:

Quando vejo um casal de miúdos
E percebo que ele a anda a foder e ela
A tomar a pílula ou a usar diafragma,
Sei que é esse o paraíso

Com que todos os velhos a vida inteira sonharam –
Sentimentos e gestos arrancados para um lado
Como numa velha debulhadora
E toda a juventude deslizando para o lado

Da felicidade, sem fim. Pergunto-me se
Alguém olhou para mim, quarenta anos atrás,
E pensou, Isto é que é a vida;
Nem Deus, nem nada de suores no escuro

Por causa do inferno, ou ter de esconder
O que se pensa do padre. Ele
E todo o seu desejo vão por aí abaixo, deslizando
Livres como aves rebeldes. E imediatamente

Mais do que palavras surge a ideia de altíssimas janelas:
Vidros feitos de sol,
E mais além, o fundo ar azul, que nada
Revela, inefável, e sem fim.

Consola-me pensar que também o burguês da foto de Bresson rejeita por instantes a morte, imaginando “o fundo ar azul, que nada revela, inefável, e sem fim”.

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