Se não fosse imoral não queríamos! Mas o primeiro romance de André Fontes, «Saturnália», é imoralíssimo e é também o primeiro romance millennial da literatura portuguesa.
O romance? Somos nós, é o nosso retrato: bem-vindos a esta Saturnália moderna, carregada de erotismo, boémia e angústias de uma nova geração num mundo igualmente novo. Precária em erário mas abundante em avidez.
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Bento Kissama
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O que é que se faz a um livro de guerra, cama, desespero e embriaguez?
Faz-se necessariamente uma coisa: devora-se sem interrupção da primeira à última página.

Que romance é este?
Que livro é este? Sim, é um romance. Mas que romance é este?

Quem matou e quem na guerra mata, porque mata?
Pode o soldado que mata, reencontrar, cara a cara, quem chora a horrível perda de um irmão de 20 anos?
Haverá redenção e reconciliação possíveis?
Lolita

“Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul.” É com esta frase que Vladimir Nabokov começa o romance que mais fama e mais proveito lhe deu em toda a sua vida de escritor.
A tradução portuguesa, na versão que tenho, editada pela Teorema em 1987, acompanha com correcção o exaltado garbo com que Nabokov tratou a língua inglesa, e cito: “Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma.” Reconhece-se o honesto esforço, mas escapa-lhe a cadência da aliteração do original e, tratando-se do que se trata, é pena que a tradução portuguesa tenha associado o fogo que emana da visão de Lolita a uma conceptual “virilidade”, quando em inglês o mesmo fogo abrasa com precisão anatómica os “loins” que são o pecado e a alma do narrador.
Se falo de “Lolita”, o romance de Nabokov que Graham Greene foi o primeiro a louvar e Stanley Kubrick o primeiro a adaptar ao cinema, não é para exercitar dotes de crítico literário que não tenho.
Recordo apenas que, neste 2018 em curso, fez 60 anos que o romance viu a luz do dia nos Estados Unidos da América. Antes, quatro editores tinham recusado o livro com receio – melhor, com medo, miúfa, com eles pequeninos – da controvérsia. Não era caso para menos. Por mais voltas que lhe possamos dar, “Lolita” é a história de um pedófilo. Narrada com admirável estilo – ou não tivesse Nabokov dito do seu narrador, Humbert Humbert: “É sempre de esperar num assassino uma prosa de estilo caprichoso” – continua ainda assim a ser a história de um pedófilo. Tratada com brilho literário, a monstruosidade não deixa de ser monstruosidade, a perversão tem sempre o leve cheiro a esgoto da perversão.
As fantasias desviantes de Humbert Humbert acabaram por ser acolhidas em livro, pela primeira vez, em França. O facto é tão irónico como justo. Afinal, Humbert Humbert, o protagonista de “Lolita”, é um parisiense, especialista em literatura francesa. E fora em França que se animara à inclinação para as ninfitas (ou ninfetas?) que constitui o centro do que virá a ser o seu périplo americano, “depois de um Inverno de tédio e pneumonia em Portugal”.
A publicação em França foi pacífica e discreta. Seguiu-se o escândalo da edição inglesa, em 1956. Dois anos depois, o livro foi editado nos Estados Unidos. Surpresa: sem polémica e com vendas astronómicas.
Não admira. Há coisas que baralham o mais pudico e resistente dos leitores: “Lolita”, a história de um pedófilo francês envolvido com uma ninfeta americana, é superiormente escrita em inglês por um autor russo. Depois de tão nebuloso e improvável puzzle, o leitor está pronto para enfrentar alguma lascívia, que é como quem diz, o carmesim da obscenidade.
Rei Jesus, o mais heterodoxo dos romances

Para dizer o mínimo, Rei Jesus, da autoria de Robert Graves, é um romance controverso. Alguns, mais eufóricos, dirão que é dos mais controverso dos romances do século XX. Outros, mais exaltados, invocarão o direito (a obrigação até) de o considerar uma blasfémia.
O Jesus de Graves é-nos apresentado como o herdeiro autêntico do reino de Israel, tanto pela lei hebraica, como pela lei de Israel. O Jesus do romance tinha, por nascimento, legitimidade para reclamar o trono. E era assim por que a natividade de Jesus, filho de Maria, mas não do Espírito Santo e, uma vez mais, também não de José, nada tem que ver, no romance de Graves, com o mistério, com a versão mística, que a teologia católica consagrou. A tese da Virgem Mãe é liminarmente rejeitada por Graves que retrata Jesus como poeta, sage e um confessado inimigo das mulheres, que acaba, por fim e por ironia, adoptado como herói delas, o que outro livro muito mais recente, feminista até, Jésus, l’homme qui préférait les femmes, de Christine Pedotti, parece confirmar.
Heterodoxo como já se percebeu, publicado em 1946, o romance semi-histórico provocou incómodos vários e dizem que Churchill adorava o livro, mas teve publicamente de se reservar nos cumprimentos a Graves. É claro que passaram os anos 40, 50, 60 e até o 25 de Abril e o romance de Graves nunca foi editado em Portugal. Foi preciso esperar pelo século XXI e editou-o a Guerra e Paz, com tradução brilhante de Rui Santana Brito, que entretanto já nos deixou para, talvez, se encontrar com Graves.
Atrevo-me a dizer que o tão pagão Ricardo Reis, contagiado pelas incursões mitológicas de Robert Graves, era bem, capaz de gostar muito deste romance. E Fernando Pessoa também, se levarmos a sério o gnosticismo de que se reclamava. Nem Ricardo Reis, que não sabemos quando morreu, por não sabermos também quando nasceu, nem Fernando Pessoa, que estava a começar a ressuscitar quando Graves o escreveu, em 46, leram este romance ultrajante, que não é, em absoluto, um romance religioso.
Uma nota prosaica do editor da obra, para terminar em aflição e beleza. O livro custou um dinheirão à editora (são 539 páginas aventurosas), o que é uma rematada loucura, quando toda a gente nos diz, e é mais do que sabido, não haver leitores para o maravilhoso destas “escavações bíblicas”. A verdade é que, editado em Novembro de 2007, o livro teve duas edições e a segunda capa, azul, sem figuração, faz justiça ao romance. Esgotado, há dois mil felizardos que o têm em casa.
Vida e destino, Vassili Grossman
Não li, como ninguém leu, todos os romances do século XX. Dos que li, e dos que, não os tendo lido, tive conhecimento, este é porventura o maior romance do século. Caótico, convulso, irrespirável, restitui-nos a abjecção, pejada de heroísmo, idealismo, tortura e massacre, dos dois cancros do século, o nazismo e o comunismo. Vida e Destino não é um romance como os outros. Rasga-nos por dentro.

Vida e Destino: os filhos da puta sabiam
Manuel S. Fonseca
O século XX teve dois tumores cerebrais: o nazismo e o comunismo. Malignos os dois. Ambos praticaram genocídios em que pereceram milhões de seres humanos. No holocausto nazi, os judeus foram as principais vítimas: 6 milhões assassinados nas ruas, comboios, campos e crematórios; no holocausto estalinista, os judeus voltaram a ser um dos alvos, fazendo parte dos 10, 15 (ou terão sido 20?) milhões de vítimas com que a barbárie do Partido Comunista, a purgas, deportações e gulags, atapetou o socialismo soviético.
Tudo isto, sendo, com a passagem dos anos, da banal da ordem dos factos, constitui um inominável horror. Pela arbitrariedade e ausência de razão, a não ser que o puro mal seja razão, este é o maior horror da história conhecida da humanidade. Faltava ao século XX um livro que, em espelho, devolvesse ao nazismo e ao comunismo o rosto comum, rosto de las viejas goyescas. As 855 páginas de “Vida e Destino” são as páginas desse livro.
Vassili Grossman, o seu autor, toma como centro um episódio, a batalha de Estalinegrado. A cidade é uma Tróia desfeita: ruínas, fome, cadáveres pintam o caos de vinte Guernicas. Alemães e soviéticos combatem e matam-se, heróica e patrioticamente, por cada metro de rua, parede a parede, casa a casa. Aquiles e Heitor reincarnaram no heroísmo de milhares de soldados soviéticos, na valentia dos seus capitães e generais.
Mas “Vida e Destino” é uma falsa epopeia. Quando Vassili Grossman nos leva para longe de frente de combate, correm-se as cortinas das ideologias totalitárias e entramos nos campos de concentração. Nos fascistas primeiro, nos comunistas depois. Os olhos de Grossman tinham visto antes o que os dedos dele escreveram depois neste livro. Ele viu e fez os primeiros relatos sobre os crematórios nazis para os jornais soviéticos. No julgamento de Nuremberga, esses relatos foram apresentados como documentos de prova. Neste livro, num dos capítulos, o leitor acompanha a inspecção de altos quadros do Reich a um campo que vai ser inaugurado. Toda a gente fez o seu trabalho e os fornos estão prontos a queimar carne, a queimar nervos e ossos. Os altos quadros, generais e ministros de Hitler, cumprimentam-se pela eficácia, pela qualidade inexcedível dos equipamentos, e comemoram erguendo taças de champagne – têm orgulho na sua fábrica de morte.
Não são as únicas páginas de “Vida e Destino” que se lêem com um sobressalto visceral. Se a inumanidade amoral dos SS nos faz estremecer, também é convulsa a leitura dos capítulos em que seguimos Sófia e David. O acaso e os alemães juntaram-nos num comboio que vai da Rússia para um dos campos. David é um miúdo de cinco anos e está só. Sófia é uma jovem médica e tropeça nele, no escuro da carruagem cheia de prisioneiros. Adopta-o. Protege-o ao longo da viagem agónica. No campo, os alemães esperam estes judeus russos com a festiva música, o ladrar dos cães, a gritada e velocíssima organização que aterroriza e confunde. Grita-se banho; vão levá-los para o banho. Médicos e outros especialistas podem passar para outra fila. Sófia percebe logo a diferença entre as duas filas. Tem escolha e escolhe não abandonar este David de estrela ao peito e cinco anos solitários e inocentes. Acompanha-o, serena, para essa luctífera sala de banho. Aperta-o contra o seu ventre e no momento fatídico, quando as luzes se apagam e um acre odor se espalha, sabe que é mãe. Ser mãe tanto é dar à luz, como dar um filho à eterna escuridão.
Nas 855 páginas deste livro há outras mães. A mais pungente é a mãe da Víktor Strum, o mais protagonista dos vinte ou trinta protagonistas de “Vida e Destino”. Ela ficou numa cidade ucraniana que os alemães ocuparam. Os conquistadores logo lhe lembram o que já esquecera, que é judia. Despejam-na num gueto e sabe que a vão enterrar na vala comum que os próprios judeus rasgam na terra fria. A mãe de Víktor consegue ainda escrever ao filho uma carta de despedida. São páginas cheias de vida e morte, onze páginas que carregam a bondade e a maldade da condição humana. Onze páginas de traição e mesquinhez, de absurdo e abjecção, de inesperados e reveladores gestos redentores. Uma mãe escreve a um filho sabendo que é a última vez que lhe fala e é tão difícil, tão atroz, escrever a última linha, a que se sabe que é a última linha, porque todas as cartas têm de acabar.
Entretanto, em Estalinegrado combate-se. Já nem é o heroísmo que move as tropas russas. Uma desmedida disponibilidade para o sacrifício, a abdicação de tudo o que é humano, leva o Exército Vermelho ao triunfo. E tal como Napoleão Bonaparte foi personagem da “Guerra e Paz”, de Tolstoi, também Adolf Hitler é convocado por Grossman para a sua “Vida e Destino”. Quase ouvimos os passos macios e outonais do monstro alemão na floresta de Görlitz. Hitler caminha num recolhimento monástico, um pé na Polónia, outro na Lituânia. Ele era, ontem, o poder ululante, a águia de asas maiores do que o mundo. Hoje, de Estalinegrado, anunciaram-lhe a derrota do seu 6º Exército. Para grandeza da Nova Alemanha, Hitler ateara a guerra ao mundo, cremara milhões de humanos nos seus fornos. Agora, os tanques soviéticos abrem-lhe no coração um inferno de gelo e dúvida. Esta gelada derrota acaba de lhe meter uma lâmina de medo no ventre.
Hitler sabe que, atrás das árvores, há mil soldados invisíveis a protegê-lo, mas caminha sozinho e a floresta húmida acorda nele um sonho aflitivo. Sente que se transformou no Pequeno Polegar. Esquecido dos mil soldados vigilantes, adivinha olhos e dentes de lobo mau, entre as altas árvores, prontos a estraçalharem-no. Um terror infantil apodera-se deste senhor do mundo. Em duas páginas, Grossman faz a mais arrepiante descrição de Hitler que já li. O medo que lhe congela os ossos é o medo de quem sabe o que fez. O filho da puta sabia. Não há nenhuma banalidade. Hanna Arendt estava enganada.
“Vida e Destino” é um vasto mural que pinta a pátria de Estaline como um labirinto de terror. Não há sossego para o homo sovieticus. Um herói de guerra, mesmo vitorioso, pode ser acusado no seu regresso a casa. Não há cá Penélopes à espera. Uma ligeira hesitação antes do assalto vitorioso para evitar perdas desnecessárias aos seus soldados, uma frase perdida que disse na cama à agora ex-mulher, bastam para que um dedo acusador, um rumor anónimo, uma acusação sem rosto, abatam o herói. Feita a denúncia, iniciado o processo de prisão e tortura já nada o pode deter. O herói preso é como o leproso: quem o tocar contamina-se. Todo o heroísmo é suspeito, suspeita é toda a fidelidade E não há defesa. É o que o Comissário Krimov vai aprender na carne e no espírito: não há defesa contra a acusação em nome de um Partido rutilante que exsuda a mais maiúscula Verdade. Não há limites para a tortura, inescapável, imparável, enquanto ao acusado sobrar uma réstia de identidade. Não é o corpo esfrangalhado e em sangue, os rins rebentados, cagares-te todo, que os interrogadores querem. Estás preso, já fizeram de ti uma suja e doida ratazana no esgoto e isso é só o começo. Os interrogadores querem-te a ti. Querem esse teu eu, querem que ele se entregue, que confesses ter feito o que nem pela cabeça te passava que podia ser feito. Foda-se, alguma culpa hás de ter, lá no fundo, mas não te esforces a procurar, aceita as acusações que te oferecem. (Assina, caralho!) Confessa, assina e denuncia alguém ou mais dois ou três. Uma sovela incandescida perfura-te o crânio: estás sozinho e não sabes quem te denunciou. Perdeste a confiança na tua mulher, na tua mãe, nos teus filhos. És ninguém e só ninguém sobreviverás.
No campo de concentração soviético, encontramos Abartchuk, o fiel comunista que o Partido condenou: ele sabe que nada fez contra o Partido, que o acusam injustamente. Todavia, Abdartchuk resigna-se. O Partido tem de castigar e Abdartchuk aceita, mais humilde do que Job, fazer parte da suposta pequenina margem de erro que o vitimou. Mesmo ali, no campo de concentração, castigado e sem culpa, tem uma necessidade infantil, religiosa, de aprovação. No teu íntimo pensas que estás inocente?Mas que suspeitíssimo íntimo é esse que se arroga certezas contra a vontade do Partido? Não se é preso por nada. As purgas de 1937, o torpe terror das deportações, milhões de camponeses, trabalhadores, professores, padres, músicos, comunistas assassinados, não foram um erro. Os milhões de mortos, a denúncia permanente, os pais denunciados pelos filhos, o terror de se dizer uma palavra equivoca, são a consequência lógica, a instabilidade intrínseca ao mundo novo de que o Partido é o único sol. As teorias políticas heliocêntricas são fodidas.
Já disse que Víktor Strum é o mais protagonista dos protagonistas de “Vida e Destino”. A Academia de Ciências reconhece-lhe o génio matemático e uma descoberta na sua área da física nuclear converte-o quase numa vedeta. Fez uma descoberta científica decisiva. Mas será que a ciência, essa pretensa guardiã da razão, pode prevalecer contra os princípios leninistas? Nunca! E muito menos se o cientista é um judeu. Os nazis tinham recordado à mãe de Viktor, numa cidadezeca da Ucrânia, que ela era judia. O Partido lembrará a Viktor o mesmo opróbrio. Acusam-no de desvio ideológico, porque podiam acusá-lo do que quisessem. Tiram-lhe tudo, a começar pelo laboratório na Academia. O porteiro da casa onde vive já nem sequer o cumprimenta. Víktor começa a dolorosa peregrinação pelos esconsos túneis que conduzem ao Vale das Sombras. E é neste ponto do romance que, tal como Hitler, também Estaline aparece. A descoberta científica de Víktor é demasiado importante para o Poder. Estaline precisa dele e telefona-lhe: “Como é que está a correr o seu trabalho?” Fala dois minutos com ele. No dia seguinte, o laboratório reabre-se, o porteiro cumprimenta-o. Como se as acusações, o terror das semanas anteriores tivessem sido apagadas, nunca tivessem existido. Estaline ia deixá-lo ser condenado, provavelmente ser morto num campo gelado, só porque era um judeu, sem outra culpa, sem nenhuma culpa, porque podia acusá-lo do que quisesse. Bastou um telefonema de Estaline, tão arbitrário a salvá-lo, como arbitrária seria a condenação. Tal como Hitler, também este filho da puta sabia.
Na parte 2, capítulo 15 de “Vida e Destino”, Grossman põe-nos a ouvir a conversa entre um filosófico comandante de um campo de concentração nazi e um velho bolchevique prisioneiro, camarada de Lenine, um dos heróis da Revolução de 1917. O nazi ama o revolucionário comunista e quer ser amado por ele. Diz-lhe: “Quando nos olhamos na cara um ao outro, olhamos não só para uma cara odiosa, mas também para o espelho.” E é só o alemão que fala: “Seja hegeliano, meu mestre… Acha que hoje olham para nós com terror e para vocês com amor e esperança? Acredite que não: quem olha com terror para nós, olha para vós com o mesmo terror.”
“Vida e Destino” é o livro que recolhe as duas grandes tempestades do século XX. Um livro convulso, caótico, às vezes irrespirável. Nele se escreve a impiedosa confrontação do nazismo e do comunismo, a impiedosa fusão dos dois no mesmo processo de terror arbitrário, imoral, abjecto. E, no entanto, as pessoas movem-se. Apesar do terror, do dantesco espectáculo de tortura e morte, os seres humanos continuam a viver. “Vida e Destino” termina no silêncio de uma floresta fria. Ficamos a saber – é Vassili Grossman a dizê-lo – que há mais funda tristeza nesse silêncio do que no silêncio de qualquer Outono.
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Vassili Grossman escreveu “Vida e Destino” no final dos anos 50. Em 1960, quis publicá-lo na revista “Znamya”, mas o KGB apreendeu o manuscrito. Em 1962, fez nova tentativa junto das autoridades, mas foi-lhe dito que a publicação do romance provocaria mais danos ao regime do que os que já causara “o Doutor Jivago”, de Pasternak. “Nem daqui a 200 anos, o seu romance será publicado”, disse-lhe o grande ideólogo do Politburo, Mikhail Suslov. Grossman morreu dois anos depois. Julgou-se que a obra teria sido destruída pelo KGB, mas um amigo de Grossman e o cientista Andrei Sakharov conseguiram, em 1974, fazer chegar uma cópia a França, onde primeiro foi editada. Na Rússia, foi publicada, depois da Glassnost de Gorbachev, em 1988. A edição portuguesa, da Dom Quixote, é de 2011.
