Lolita

Lolita

Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul.” É com esta frase que Vladimir Nabokov começa o romance que mais fama e mais proveito lhe deu em toda a sua vida de escritor.

A tradução portuguesa, na versão que tenho, editada pela Teorema em 1987, acompanha com correcção o exaltado garbo com que Nabokov tratou a língua inglesa, e cito: “Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma.” Reconhece-se o honesto esforço, mas escapa-lhe a cadência da aliteração do original e, tratando-se do que se trata, é pena que a tradução portuguesa tenha associado o fogo que emana da visão de Lolita a uma conceptual “virilidade”, quando em inglês o mesmo fogo abrasa com precisão anatómica os “loins” que são o pecado e a alma do narrador.

Se falo de “Lolita”, o romance de Nabokov que Graham Greene foi o primeiro a louvar e Stanley Kubrick o primeiro a adaptar ao cinema, não é para exercitar dotes de crítico literário que não tenho.

Recordo apenas que, neste 2018 em curso, fez 60 anos que o romance viu a luz do dia nos Estados Unidos da América. Antes, quatro editores tinham recusado o livro com receio – melhor, com medo, miúfa, com eles pequeninos – da controvérsia. Não era caso para menos. Por mais voltas que lhe possamos dar, “Lolita” é a história de um pedófilo. Narrada com admirável estilo – ou não tivesse Nabokov dito do seu narrador, Humbert Humbert: “É sempre de esperar num assassino uma prosa de estilo caprichoso” – continua ainda assim a ser a história de um pedófilo. Tratada com brilho literário, a monstruosidade não deixa de ser monstruosidade, a perversão tem sempre o leve cheiro a esgoto da perversão.

As fantasias desviantes de Humbert Humbert acabaram por ser acolhidas em livro, pela primeira vez, em França. O facto é tão irónico como justo. Afinal, Humbert Humbert, o protagonista de “Lolita”, é um parisiense, especialista em literatura francesa. E fora em França que se animara à inclinação para as ninfitas (ou ninfetas?) que constitui o centro do que virá a ser o seu périplo americano, “depois de um Inverno de tédio e pneumonia em Portugal”.

A publicação em França foi pacífica e discreta. Seguiu-se o escândalo da edição inglesa, em 1956. Dois anos depois, o livro foi editado nos Estados Unidos. Surpresa: sem polémica e com vendas astronómicas.

Não admira. Há coisas que baralham o mais pudico e resistente dos leitores: “Lolita”, a história de um pedófilo francês envolvido com uma ninfeta americana, é superiormente escrita em inglês por um autor russo. Depois de tão nebuloso e improvável puzzle, o leitor está pronto para enfrentar alguma lascívia, que é como quem diz, o carmesim da obscenidade.

2 thoughts on “Lolita”

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