Os olhos dos seus filhos

Bica Curta servida no CM, 5.ª feira, dia 5 de Agosto

smartphone

De que cor são os olhos dos nossos filhos? Sabemos lá! De olhos postos em pequenos ecrãs, eles já nunca olham para nós. Os ecrãs dão uma prodigiosa liberdade, informação e desenvolvimento à vida de milhões de humanos. Mas estão a assediar os nossos filhos: são sete horas por dia de cabeça enfronhada em ecrãs. Os telemóveis rebentam-lhes com o sono e o cérebro, roubam-lhes o domínio da fala, a concentração, arrastam-nos para a depressão.

As neurociências avisam: os miúdos vão ser agressivos, obesos, até suicidas. Bom exemplo é a receita de Bill Gates, um dos criadores do monstro: telemóveis só depois dos 14 anos e às refeições desligados.

 

O peixinho vermelho

peixinho
o meu peixinho leitor

Bica Curta servida no CM, 4.ª, dia 28 de Agosto

Ia falar do peixinho vermelho, mas falo antes de livros. Na América, 50% dos livros são comprados online na Amazon. Os leitores desertaram da livraria. Há menos leitores e não há leitores jovens. E agora sim, falo do peixinho vermelho. Os neurobiólogos fixaram o tempo de atenção das gerações formadas pela net: é de nove segundos, mais um do que o tempo de atenção do peixinho vermelho. O livro, em papel ou digital, perdeu a batalha dessa economia da atenção.

Sem leitores, livrarias exangues, os editores caem e a indústria do livro morre. A indústria cala-se, envergonhada, mas em Portugal já é pelos livros que os sinos dobram.

adieu to you, ladies of Spain

Borges

Senhoras da Nossa Idade é um blogue escrito pela Céu. Aqui há atrasado, como se costuma dizer, a Céu, muito simpaticamente, convidou-me, como já convidou mais de uma centena de pessoas, a responder a um inquérito. Um inquérito feito à medida de alguém que gosta de ler. Respondi e acho que, mesmo mais de um ano depois não é despropositado depositar as respostas nesta Página Negra. Agradecendo muito à Céu e às Senhoras da Nossa Idade o convite e dizendo que foi uma alegria responder e ver tudo publicado num blogue tão bem frequentado, convido-vos a irem lá fazer uma visita. Vão, estou certo, ficar clientes.

E agora o inquérito.

1. O que está a ler neste momento?

Estou a ler, por obrigação profissional e por gosto a Economia do Bem Comum, um livro de Jean Tirole, Prémio Nobel da Economia, que vou publicar já no dia 15 de Maio. Uma lição: só há serviço aos outros onde há pensamento e inteligência. Mas no fim de semana comecei também a ler, de um americano de ascendência russa, Yuri Slezkine, um livro monumental, de 1290 páginas, que se há-de vir a chamar, se for um dia traduzido para português, A Casa do Governo, A Saga da Revolução Russa. Um livro prodigioso sobre um fenómeno criado por Estaline. Estão a ver o edifício das Amoreiras? Bom, ele mandou fazer uma construção monumental desse tipo: 505 apartamentos, para as famílias bolcheviques no poder, com biblioteca, refeitório, teatro, courts de ténis, correios. Estava ali a elite e estava ali o modo de vida quotidiano comunista. Ali se beijava a boca comunista da glória e ali se caía em desgraça e se era preso por traição. Que inveja raivosa Shakespeare teria deste teatro vivo de sangue, tortura e lágrimas que faz de Hamlet e Macbeth meninos de coro.

2. O que leu antes e o que vai ler a seguir?

Li antes uma biografia de Louis B. Mayer, Merchant of Dreams, de Charles Higham, e vou ler agora, de Alain Tapié, Vanité, Mort Que Me Veux-Tu?, um livro-catálogo, lindíssimo, que acompanhou, em 2010, a exposição homónima da Fundação Bergé-Yves St. Laurent. É das Éditions de la Martinière, que tem a ousadia de editar certos livros na linha das edições de luxo da minha Guerra e Paz editores, mas com dinheiro à séria.

3. Conte-nos uma memória de infância relacionada com livros

Li um livro de Zane Gray, Ouro do Deserto, julgo, que metia uma misteriosa, doce e tensa mulher mexicana chamada Mercedes, um bandido chamado Rojas e um índio Yaqui que se fundia com as sombras, as ervas e o vento. Quis ser esse índio e é provável que ainda hoje eu ame Mercedes como jamais algum homem amou uma mulher.

4. Que livros marcaram a sua adolescência?

O Fio da Navalha, de Somerset Maugham. A Náusea, de Sartre. Tortilla Flat e A Leste do Paraíso, de John Steinbeck. Lord Jim, de Joseph Conrad. Terna é a Noite, de Fitzgerald. Os indecorosos livros proibidos do Vilhena. Alguns poemas de Fernando Pessoa ditos por João Villaret. Os Centuriões e Os Pretorianos, de Jean Lartéguy. O Canto IX de Os Lusíadas. Salambó, de Gustave Flaubert.

5. Um local público onde goste de ler

Gosto de ler nos jardins da Gulbenkian. Gostaria de poder ter lido nas calles que Jorge Luis Borges cantou no seu Fervor de Buenos Aires.

6. O seu recanto preferido de leitura (em casa)

Quando era miúdo, em Luanda, na Vila Alice, lia sentado, horas seguidas, nos ramos da mangueira do meu quintal. Não é fantasia, é mesmo verdade. Agora, com três almofadas, na vasta planície que é a minha cama.

7. Uma biblioteca importante para si

A tão bonita biblioteca do mais belos dos liceus, o Salvador Correia, onde li O Crime do Padre Amaro, joelho contra joelho de uma colega de longas pernas. A Biblioteca da Câmara Municipal de Luanda – vinha cá para fora, para o relvado sobre a Mutamba, e foi assim que li As Vinhas da Ira. Depois, a Biblioteca Nacional de Angola, dirigida pelo professor Carmo Vaz, no começo dos anos 70. Foi lá que ao ouvido me sussurraram o 25 de Abril que houvera na distante Lisboa.

8. As livrarias que costuma visitar

A minha primeira livraria fornecedora foi a livraria Goya, na Avenida dos Combatentes, em Luanda, só depois a Lello, na Baixa. Agora, em Lisboa, passo muitos fins de tarde na Bertrand Picoas-Plaza, mas a apresentar livros. Gostava da Pó dos Livros. Gosto da Livraria Francesa, devia ir lá mais vezes.

9. Uma editora de que goste particularmente

Da Guerra e Paz editores, está claro 🙂 . Mas gosto da Dom Quixote, da Quetzal, da Relógio de Água, da Porto Editora, da Presença, da Tinta da China, da Leya, da Bertrand, da Gradiva, da Antígona, da Imprensa Nacional, da Paulinas, da Sistema Solar, da Planeta e da Penguin. Gosto da diferença entre os grandes e os pequenos editores. Gosto dos editores que chamam negócio ao negócio e gosto dos editores que julgam ser sacerdotes dominicanos em defesa dos happy few. E, olhem, tenho saudades da Assírio do Hermínio Monteiro. Podiam ser insustentáveis, mas eram uns tempos deliciosos, uma espécie de kir royal de fim de tarde.

10. Que livros gostaria de reler?

Estou sempre a reler o raio de um livro que o meu professor de Filosofia Antiga e História e Filosofia das Ciências, o José Gabriel Trindade dos Santos, me deu em Novembro de 1980. É um calhamaço verde, da Emecé Editores, e tem parte da Obra Completa (1923-1972) de um poeta cego rendido «a los espejos, laberintos y espadas» e também a «el outro y el olvido». O velho volume já se vai desfazendo, soltam-se páginas, apagam-se algumas letras, mesmo um inteiro verso. Na decadência dele, a minha decadência: morreremos nos braços um do outro.

11. Que livros está a guardar para ler na velhice?

Já nada guardo, nem tão pouco a velhice. Se é para o apocalipse, apocalipse now.

12. Acessórios de leitura que não dispensa

Já dispenso muitas vezes os óculos de ver ao perto. Voltei a ler de olhos nus, sem intermediação, as piedosas pestanas a roçar a meiga página.

13. E se um livro não prende, põe-se de lado ou insiste-se?

Nada de promiscuidade, já só leio por amor.

14. Costuma ler sobre livros? Quais são as suas fontes?

Claro, claro. Na Le Point, belíssima revista francesa de centro-direita. Num filosófico agregador australiano, o Arts & Letters Daily que me selecciona o que de melhor se pode ler diária ou semanalmente no TLS, Aeon, New Yorker, Beirut Daily Star, Arion, Jerusalem Post, Cabinet, Fortnightly Review, Laphams Quarterly, Philosophy & Literature, enfim uma snobeira desatada que já me aconteceu descambar em simplicidade e beleza.

15. Uma citação inesquecível que queira dedicar às Senhoras da Nossa Idade

Se me permitem, cantar-lhes-ei uma canção:
Farewell and adieu to you, Spanish ladies
Farewell and adieu to you, ladies of Spain;
For we have received orders
For to sail to old England,
And we may ne’er see you fair ladies again.

DesertGold

Livro à chuva molha-se

 

3D Book Banqueiro

Bica Curta servida no CM, 3.ª feira, dia 2 de Julho

Que bom é tirar o cavalinho da chuva. É tudo culpa deles. Mas eles não somos nós? Um exemplo, os governos de Sócrates, Passos Coelho, Costa são “eles” ou somos “nós”? Não fomos “nós” a dar-lhes a bica cheia do poder?

 Escrevi, há dias, que o livro está a morrer. Vieram consolar-me culpando os poderosos. Ah, caneco: “Eles!” Ora, o livro está a morrer é mesmo por “nós”. Todos. Por não lermos, por não irmos às livrarias comprá-lo. Nós mudámos e na mudança a leitura deixou de contar. Não foram “eles” que proibiram, somos “nós” que não lemos. Se achamos que perder o livro é uma catástrofe, somos “nós” que temos de parar o terramoto.

Pés pelas mãos

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Bica Curta servida no CM, 5.ª feira, dia 20 de Junho

O que têm os pés de João Félix que as mãos de Agustina, Lobo Antunes, Camões, juntas, não têm?

O Atlético de Madrid pagou 120 milhões e uma bica para ter João Félix na sua lustrosa estante. É o que os portugueses pagam, num ano, pelos livros das estantes lá de casa. Os pés de um miúdo de 19 anos valem quase o mesmo que o nosso miserável mercado do livro. Benfiquista, e editor, confesso: adoro os pés de Félix, as mãos de Agustina e Lobo Antunes. Mas o livro, ao contrário do pé de Félix, já não marca golos. O livro está fora de jogo: mais um penalty e morre. Grito e não é golo: livros e livrarias são bichos em extinção. Alerta!

joao-felix

Deixai vir a nós as criancinhas

Neste sábado, dia 1 de Junho, comemora-se o Dia Mundial da Criança. Eis o que a Guerra e Paz tem a dizer a todos os pais: deixai vir a nós as criancinhas. Temos um Principezinho para dar a cada menino ou menina que bata à porta do Pavilhão D 48 e compre um livro infantil.

O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry, é um livro de descoberta, mágico, de uma delicadeza admirável. Um dia, os seus filhos dirão: «Foi este o livro que mais marcou a minha personalidade, que me fez amar o mundo. Deram-mo os meus pais, numa feira do livro, em Lisboa, num sábado quente e luminoso. Se não era, parecia Verão.»

ps – Ei, ei, não se esqueçam: Pavilhão D 48, lá em cima, do lado esquerdo de quem vem a subir do Marquês.

Compre um livro

Multi ethnic group of pre school students in classroom

Bica Curta bebida no CM, 4ª feira, dia 24 de Abril

Amar os livros é lê-los. Os franceses, nisso, dão-nos um ganda baile. Lêem em média 21 livros por ano. Na 3ª feira, foi o Dia Mundial do Livro. Leu um romance? E acrescento, foi também Dia Mundial dos Direitos de Autor. Comprou um livro?

Comprar livros é sexy e é um acto de amor. É pôr na boca de autores, editores, livreiros, uma colher de sopa, uma bica cheia. Liguem os alarmes: o livro está a morrer. Mesmo o bestseller que vendia 150 mil exemplares, vende hoje 60 mil. As livrarias estão exangues. Os descontos das grandes cadeias sufocam os editores. O livro está de gasganete apertado. Quem o ama tem de ir a correr comprá-lo.

As boas leituras

miller

“Acho que deve­mos ler o tipo de livros que nos abram feri­das, que nos esfa­queiem.” Este con­ceito tão vis­ce­ral da lei­tura defendia-o Franz Kafka. Antes ou depois, com pro­pó­si­tos cer­ta­mente tera­pêu­ti­cos, Henry Mil­ler ofereceu-se como exem­plo: “As minhas boas lei­tu­ras bem se pode dizer que tive­ram lugar na casa de banho.”

Ainda me lem­bro de ouvir o, tan­tas vezes admi­rá­vel, João César Mon­teiro, dizer sono­ra­mente: “Eu quero que o público se foda!” Mais pene­trante embora, não era mais ori­gi­nal do que a ori­gi­na­li­dade de Gabriel Gar­cia Marx (per­dão, Mar­quez) ao jurar que, no fim de con­tas, todos os livros são escri­tos só para os amigos.

Con­tra­po­nho a esta teo­ria dos happy few a teo­ria das unhappy few: Agus­tina Bessa-Luís disse-me um dia, ali para os lados da Bue­nos Aires, que mui­tos escri­to­res machos se vira­vam para ela e a lou­va­vam, rema­tando com acinte: “A minha mulher é que gosta muito e lê os seus livros todos!” O tempo que eles não tinham para a ler, não o tinha dou­tra maneira o sublime e exe­crá­vel aus­tríaco Karl Kraus, cujo motto de lei­tura tal­vez fosse uma apro­xi­ma­ção à teo­ria da rela­ti­vi­dade: “Como é que vou des­co­brir o tempo para não ler tan­tos livros?”

Mais non­cha­lant parece ser V. S. Nai­pul: “Sou o género de escri­tor que as pes­soas pen­sam que as outras pes­soas andam a ler.” Mas se a sin­ce­ri­dade, a genuína sin­ce­ri­dade, ainda é uma vir­tude, con­fesso que Oscar Wilde é o meu favo­rito: “Nunca viajo sem o meu diá­rio. Uma pes­soa tem de ter alguma coisa sen­sa­ci­o­nal para ler no comboio.”

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