Deixai vir a nós as criancinhas

Neste sábado, dia 1 de Junho, comemora-se o Dia Mundial da Criança. Eis o que a Guerra e Paz tem a dizer a todos os pais: deixai vir a nós as criancinhas. Temos um Principezinho para dar a cada menino ou menina que bata à porta do Pavilhão D 48 e compre um livro infantil.

O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry, é um livro de descoberta, mágico, de uma delicadeza admirável. Um dia, os seus filhos dirão: «Foi este o livro que mais marcou a minha personalidade, que me fez amar o mundo. Deram-mo os meus pais, numa feira do livro, em Lisboa, num sábado quente e luminoso. Se não era, parecia Verão.»

ps – Ei, ei, não se esqueçam: Pavilhão D 48, lá em cima, do lado esquerdo de quem vem a subir do Marquês.

Compre um livro

Multi ethnic group of pre school students in classroom

Bica Curta bebida no CM, 4ª feira, dia 24 de Abril

Amar os livros é lê-los. Os franceses, nisso, dão-nos um ganda baile. Lêem em média 21 livros por ano. Na 3ª feira, foi o Dia Mundial do Livro. Leu um romance? E acrescento, foi também Dia Mundial dos Direitos de Autor. Comprou um livro?

Comprar livros é sexy e é um acto de amor. É pôr na boca de autores, editores, livreiros, uma colher de sopa, uma bica cheia. Liguem os alarmes: o livro está a morrer. Mesmo o bestseller que vendia 150 mil exemplares, vende hoje 60 mil. As livrarias estão exangues. Os descontos das grandes cadeias sufocam os editores. O livro está de gasganete apertado. Quem o ama tem de ir a correr comprá-lo.

As boas leituras

miller

“Acho que deve­mos ler o tipo de livros que nos abram feri­das, que nos esfa­queiem.” Este con­ceito tão vis­ce­ral da lei­tura defendia-o Franz Kafka. Antes ou depois, com pro­pó­si­tos cer­ta­mente tera­pêu­ti­cos, Henry Mil­ler ofereceu-se como exem­plo: “As minhas boas lei­tu­ras bem se pode dizer que tive­ram lugar na casa de banho.”

Ainda me lem­bro de ouvir o, tan­tas vezes admi­rá­vel, João César Mon­teiro, dizer sono­ra­mente: “Eu quero que o público se foda!” Mais pene­trante embora, não era mais ori­gi­nal do que a ori­gi­na­li­dade de Gabriel Gar­cia Marx (per­dão, Mar­quez) ao jurar que, no fim de con­tas, todos os livros são escri­tos só para os amigos.

Con­tra­po­nho a esta teo­ria dos happy few a teo­ria das unhappy few: Agus­tina Bessa-Luís disse-me um dia, ali para os lados da Bue­nos Aires, que mui­tos escri­to­res machos se vira­vam para ela e a lou­va­vam, rema­tando com acinte: “A minha mulher é que gosta muito e lê os seus livros todos!” O tempo que eles não tinham para a ler, não o tinha dou­tra maneira o sublime e exe­crá­vel aus­tríaco Karl Kraus, cujo motto de lei­tura tal­vez fosse uma apro­xi­ma­ção à teo­ria da rela­ti­vi­dade: “Como é que vou des­co­brir o tempo para não ler tan­tos livros?”

Mais non­cha­lant parece ser V. S. Nai­pul: “Sou o género de escri­tor que as pes­soas pen­sam que as outras pes­soas andam a ler.” Mas se a sin­ce­ri­dade, a genuína sin­ce­ri­dade, ainda é uma vir­tude, con­fesso que Oscar Wilde é o meu favo­rito: “Nunca viajo sem o meu diá­rio. Uma pes­soa tem de ter alguma coisa sen­sa­ci­o­nal para ler no comboio.”

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Carta Aberta a Marcelo

Por amor aos livros, no que se deseja que não seja apenas um gesto quixotesco para conseguir que os nossos filhos e netos continuem a alimentar no livro a sua imaginação, a sua afectivdade e o seu conhecimento, um editor, que por acaso também é o dono desta Página Negra, escreveu esta Cara Aberta ao Presidente Marcelo.

loucos

 

Carta Aberta
ao Presidente da República Portuguesa

Presidente Marcelo,

Dê-nos mais bebés. O país inteiro, Senhor Presidente, pede-lhe mais bebés, e a Guerra e Paz, Editores, por razões egoístas, mas benignas, junta-se ao coro. Dê-nos mais bebés, Presidente Marcelo! Conhecendo e admirando o seu espírito voluntarioso, não lhe pedimos que seja o Presidente a fazê-los, pondo em alvoroço milhares de lares portugueses. Mas conhecendo todos, e todos admirando a sua veia inovadora e o seu azougado dinamismo, pedimos-lhe que inicie uma campanha que lance os portugueses e as portuguesas nos braços uns dos outros para que uma nuvem de mil cegonhas cubra os céus de Portugal.

Atrevemo-nos a sugerir que, a partir de agora, o Presidente Marcelo, num acto de discriminação positiva, só faça selfies com casais que apresentem sinais exteriores de estado interessante. Estamos certos de que, num salto de fé, um milhão de portugueses se apressaria a mergulhar na cálida enseada em que é preciso mergulhar-se para que nasçam bebés, com o mesmo entusiasmo e lírica graça com que já o vimos a si mergulhar nas fecundas águas de tantos rios e praias de Portugal.

Eis, senhor Presidente, o lema para a próxima fase do seu mandato: «Já se fazem, outra vez, bebés em Portugal.»

Permita-nos, Senhor Presidente, que confessemos as nossas razões particulares para o termos vindo desinquietar nestes propósitos. Vaidade de pais babosos, achamos que temos a mais bonita colecção do mundo de livros infanto-juvenis. Chama-se «Os Livros Estão Loucos» e foi feita à sua imagem e semelhança: são livros cujo exterior, pintado à mão, causa logo o mesmo oh! de espanto e alegria que o belo bronzeado do seu rosto provoca aos portugueses; por dentro, são livros tão imprevisíveis como o Senhor Presidente, nem sempre vão escritos por linhas direitas e podem até obrigar os jovens leitores a andar com a cabeça à roda se os quiserem ler, como o Senhor Presidente faz tão bem a jornalistas ou a políticos.

Mas que livros são esses, exige-nos agora saber? São clássicos, como clássicos são os melhores modelos que inspiram a sua acção política. «Os Livros Estão Loucos» são adaptações de Shakespeare ou de Cervantes, por exemplo, o Robinson Crusoé, o Romeu e Julieta, o Oliver Twist ou o último, o Dom Quixote. Tal como o Senhor Presidente tem adaptado a Portugal as lições dos grandes estadistas do passado, colorindo-as à sua maneira, nós adaptámos estes clássicos de forma a que os jovens leitores, dos oito aos 14 anos, tenham aqui a mesma sensação de frescura e aventura que o Presidente Marcelo teve, pequenino e bem antes de ser Presidente, quando se atirou pela primeira vez às bravas ondas do Guincho.

A Guerra e Paz, Editores, em pouco mais de um ano, fez nove filhos, estes livros que estão cheios de aventura, de irreverência, de cores e até de algumas provocações. E veja, estimado Presidente, com os seus próprios olhos, se não são bonitos! Há uma geração que está já a lê-los. Mas não queremos que, amanhã, estes livros fiquem tristes, na solitária estante, sem os leitores que merecem ter. Presidente Marcelo, dê-nos hoje os bebés que hão-de ler estes «Livros Loucos» amanhã.

Presidente, aconselhe o nosso Primeiro, mande recado ao Parlamento: que os portugueses se amem para que o país se encha de alegria e possamos voltar a ver as ruas cheias de risos e filas e filas de felizes catraios a cantarem «Que linda falua, / que lá vem, lá vem, / é uma falua, / que vem de Belém.»

Dê mais bebés a Portugal, Presidente. Nós já temos os livros que os hão-de encantar. «Os Livros Estão Loucos» do presente sonham com os jovens leitores do futuro, e o futuro está na sua mão.