Em defesa da alegria

Seberg

Se, excluída a sobrevivência e reprodução da espécie, fosse obrigado a escolher só uma das coisas que me dá prazer, escolhia a leitura. Ler é melhor do que tudo, do que ouvir música, do que ver futebol, muito melhor do que escrever.

Estou a dizer isto e leio o que Borges escreveu sobre um ensaio em que Montaigne fala de livros e de leitura:

Nesse ensaio há uma frase memorável: “Não faço nada sem alegria.” Montaigne dá a entender que o conceito de leitura obrigatória é um conceito falso. Diz que se encontra uma passagem difícil num livro, logo o deixa; porque vê na leitura uma forma de felicidade.

Recordo que há muitos anos se realizou uma sondagem sobre o que é a pintura. Interrogada, a minha irmã Nora respondeu que a pintura é a arte de dar alegria com formas e cores. Diria que a literatura é também uma forma de alegria. Se lemos algo com dificuldade, o autor fracassou. Por isso considero que um escritor como Joyce no essencial fracassou, porque a sua obra requer um esforço.”

Eis a grande missão do escritor: escrever tão bem que o leitor não tenha esquinas nem obstáculos. Dito de outra maneira: saber dar alegria, espalhar a felicidade linha a linha.