Os olhos dos seus filhos

Bica Curta servida no CM, 5.ª feira, dia 5 de Agosto

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De que cor são os olhos dos nossos filhos? Sabemos lá! De olhos postos em pequenos ecrãs, eles já nunca olham para nós. Os ecrãs dão uma prodigiosa liberdade, informação e desenvolvimento à vida de milhões de humanos. Mas estão a assediar os nossos filhos: são sete horas por dia de cabeça enfronhada em ecrãs. Os telemóveis rebentam-lhes com o sono e o cérebro, roubam-lhes o domínio da fala, a concentração, arrastam-nos para a depressão.

As neurociências avisam: os miúdos vão ser agressivos, obesos, até suicidas. Bom exemplo é a receita de Bill Gates, um dos criadores do monstro: telemóveis só depois dos 14 anos e às refeições desligados.

 

o mundo já é de fusão, mestiço, mulato

O Velho é meu kamba. Apresentei-o aqui e ele presenteou-nos com prosa a preceito. Hoje, nestas voltas de rescaldo natalício, encontrei esta prosa, que escrevi e li na apresentação do livro dele, Amor(es) em Lualis. Aqui fica, nesta Página Negra, para memória futura.

AMORESEMLUA

O Fernando Machado Antunes, figura sereníssima e lúcida, que, nos tempos imemoriais de Luanda, eu e todos conhecíamos pelo carinhoso nome de Velho, teve um momento fracativo e, nesse momento fracativo, convidou-me para apresentar este seu livro de poemas, “Amores em Lualis”.

Eu bem disse ao Fernando que a minha reputação não é famosa e a minha experiência a apresentar livros de poemas é nula. Mas, agora que os dados estão lançados e a maka está instalada, vamos ter de superar a difícil situação e, no fim, peço que perdoem ao Velho, porque a culpa do que correr mal é só minha. Vamos então, virar a página e entrar nos finalmente deste livro.

A verdade é que, aberto o livro e passada a dedicatória, o leitor de “Amores em Lualis” encontra uma introdução. É só uma página, mas nessa singela página de introdução, o leitor encontra, e eu encontrei também, matéria declarativa em que logo ficamos a saber ao que o autor vem e ao que o leitor vai.

Fernando Machado Antunes declara, assertivo, que a sua vocação é narrativa – ele quer e vai contar-nos estórias. Percebemos que nessas estórias está uma vida inteira – a vida dele, a vida de poeta Fernando Machado Antunes, do poeta que é só o alter ego do meu amigo de Luanda e Lisboa, a quem todos chamamos Velho.

“Amores em Lualis” é, portanto, um livro de poemas, um livro de 60 poemas em que se espelha e se conta uma biografia. Como não vos quero induzir em erro, ao contrário do que possa ter-vos até agora sugerido, tenho de voz dizer que essa biografia não é romanesca. Ou seja, não conta, de cabo a rabo, os episódios que aconteceram. Neste livro, está uma biografia simbólica: superamos os incidentes que a espuma dos dias levou e ficamos só, nos versos do Fernando, com a essência.

Explico-me. Há lugares, mas o que neste seu livro o Fernando conserva e nos dá é o perfume dos lugares. Há acções de infância, adolescência e dessa idade adulta que já quase só é idade de memória, mas mais do que as acções o que o poeta retém é o estado de espírito, é a alma dessas acções.

Vamos então à biografia simbólica que “Amores em Lualis” nos conta. E, no princípio, vamos quase descobrir o poeta de bibe. Fernando Machado Antunes foi menino e é esse menino que primeiro nos aparece. Em seis linhas de prosa poética, Fernando faz o preâmbulo da sua meninice. Logo ali, nessas seis linhas, o poeta nos diz e mostra qual é a sua língua portuguesa. A língua portuguesa do Fernando Machado Antunes é, para minha profunda alegria, uma língua portuguesa inventiva, branca e negra, uma língua que vai do alcatrão ao musseque, uma língua que tem consciência da secular tradição de onde vem, mas que se abre, abraça e beija a novidade dos trópicos, a inventada palavra angolana.

O poeta Fernando Machado Antunes que me desculpe, mas eu sabia que aqui, na linguagem, o Velho, o meu amigo Velho ia impor a sua marca. Ao ler, como leio, nessa belíssima página 9 esta expressão: “Quando barulhávamos na ingenuidade do início do caminho”, o meu cérebro voltou a ser o atleta que era em Luanda e deu um enorme salto, à Nelson Évora.

Eh pá, Velho, essa palavra “barulhávamos” não existe, meu! Ou existe? Essa inventada palavra, palavra de candengues que brincam com a linguagem, se não existia, merece existir. É visual como um ideograma chinês, é sonora como tudo o que é infantil tem de ser sonoro.

“Barulhávamos” sim. Basta dizer “barulhávamos” e sabemos que estamos no recreio de uma escola com miúdos aos gritos, a correr e a jogar à bola – a bulhar, a fazer barulho, a baralhar o mundo. Às vezes é preciso uma palavra completamente nova para dizer com exactidão uma realidade que as velhas palavras já não conseguem descrever e nomear.

São muitas as palavras novas do poeta de “Amores em Lualis”. Há descompromissos, há quitandeiras goiabando-se no pregão. Goiabando é um gerúndio que traz um frutado perfume à nossa língua. E a língua portuguesa só pode agradecer essa ecologia, esse doce sabor africano.

Por muito mal que isto esteja a correr, devo dizer em minha defesa, que já consegui dizer duas coisas muito sinceras: em primeiro lugar que este livro é uma biografia simbólica, uma espécie de canção em que só se ouve a música instrumental, uma cavatina em que o cantor se reserva ao silêncio. E acabei agora de dizer que este livro inventa palavras, oferece novas palavras sonoras, perfumadas e frutadas à velha língua do nosso velho Camões.

Mas vamos em frente que o miúdo Fernando à página 17 já é um adolescente. Como nos aconteceu a todos, também o poeta adolescente descobre o desejo e o desejo do desejo. São 6 poemas em que o “eu” domina. O “eu”, diz ele, desliza por entre as trepadeiras do vento e veste-se de ternura. Em 6 poemas, o “eu” do poeta descobre as meninas, descobre-as de coração na garganta e confessa que tem vontade de lhes cerzir o corpo de veludo.  Quem não teve?!

São poemas de segredos adolescentes e de murmúrios adolescentes. Aviso já os leitores que tenham a minha provecta idade que esses poemas nos causam uma avassaladora saudade. Quiçá mesmo uma dolorosa saudade. A consciência de que não voltaremos a ter esse genuíno, ingénuo, inocente e vital encantamento, bate forte dentro de nós. A mim bateu! Bate cá em cima e lá em baixo e dói bué, meu.

Mas por falar em consciência, peço-vos que abram o livro na página 22 e leiam o poema que começa com este verso: “Jurámos passear o mundo…” Poema de adolescência também, é o primeiro poema em que o Fernando nos dá um sinal da sua consciência do mundo e eu acho muito curioso que ele o faça, já não usando o “eu” protagonista dos outros poemas adolescentes, mas sim dando a palavra a um “nós” que talvez seja o “nós” de um par amoroso, mas também pode ser o “nós” de um grupo, de um grupo de amigos que partilham o mesmo ideal, o mesmo sonho. E leio:

Jurámos desalgemar a inocência
libertar o verso e o silêncio
beijar o pôr-do-sol
nas nuvens.
Penugens
de asas por voar.

         Se as asas do poeta aqui ainda são de penugem, a verdade é que já estão firmes à página 25, quando ele nos apresenta ao tempo de entrada na idade adulta, período a que ele chama “Pelos tempos e contratempos dos amores e das paixões”. Os poemas desse ciclo são poemas de fruição, os mais físicos de todo o livro, carnais, ao ponto de o poeta evocar anoiteceres que gemiam melodia. E leio-vos, para não estarem a pensar que vos minto:

Fizemos anoitecer
gemendo melodia
de acontecer.
E acontecia
o que um e outro
queria…

         “Amor casado a dois” é o conjunto de poemas que se segue. Conta-nos a que, hoje em dia, é a meu ver a mais subversiva das experiências, a do amor casado, legítimo, o amor da rotina e repetição infindável dos dias. Fernando Machado Antunes canta o casamento como uma viagem e um bom porto. Mas é com ternura e lucidez, com um estoicismo romano, que ele identifica também os perigos, o risco de uma sonolenta banalidade:

Sei, meu amor, que me inquietam os dias
ficando palavras por dizer
e que das tranquilas sonolências das poesias
não nascem melodias
poéticas
de amor e bemdizer…

Sei meu amor, que me desassossegam as horas
ficando gestos por aparecer
e que de olhos perdidos em lonjuras
não nascem auroras

         É já um poeta em plena maturidade, seguro da sua linguagem, seguro dos seus amores, seguro da sua visão do mundo, que depois vai ao reencontro do seu passado. Primeiro ao encontro dos seus amigos, depois em revisitação a Luanda, Coimbra e Lisboa, esses lugares chave da sua biografia. O poeta entra, como ele mesmo confessa, “nos mambos da amizade”. Amizade a pessoas que vêm com mãos de dar, reconhecimento das ruas de Luanda, “lugar da minha vida”, “terra de cheiros, tons e sons e chão”, Luanda mil vezes cantada, mil vezes traída e Lisboa, cidade “toda menina, toda moça”.

         O poeta Fernando Machado Antunes tudo isto canta, poética e sinceramente. Mas, de repente, o Velho, o meu amigo Velho dos tempos imemoriais de Luanda, volta a tomar conta deste seu primeiro livro de poemas. E faz irromper a utopia. O mundo que viveu é tão rico que não o quer perder. Reinventa, por isso, esse mundo de memórias, esse mundo em que sonhar a invenção de um mundo novo fazia sentido e era permitido. E surge o ciclo de poemas que encerra o livro. Chama-se “Em Lualis”. Em cinco poemas e uma coda, o poeta, que já para a infância e adolescência inventara palavras novas, inventa agora uma cidade virtual, uma cidade utópica, cidade mestiça, fusão lindamente mulata de Luanda e Lisboa. 

Leio-vos uma estrofe:

Queria imaginar uma avenida
de porto a porto, mestiça de voar
mil desejos e um olhar
vinda dos caminhos de ontem
aos amanhãs da vida…

         Será ingénuo o desejo de Fernando Machado Antunes? Nem é preciso ser muito céptico para se dizer que sim, que a vida não é assim, que isto é conversa de poeta e que essa cidade nunca há-de existir. Se querem que vos diga, não estou tão certo. Existe o que existe nas nossas cabeças e até eu, de vez em quando, já vejo essas ruas mestiças, já na minha pituitária se cruzam cheiros, regressam ao meu palato o sabor nostálgico da paracuca ou do calulu.

Fecho este “Amores em Lualis” com a quase certeza de que este livro e o seu autor estão certos. Não há vencedores, nem vencidos: no mundo que o Velho, poeta de Lualis, quer, cai champagne dos céus.

E o mundo vai dar-lhe razão. O mundo que está à nossa frente ou é um mundo de amores ou não será mundo. O mundo que está à nossa frente ou é de fusão, mestiço, mulato, ou não será mundo. Obrigado, Velho, pela lição.

Ah, mas lá que se vão rir, isso vão

O editor da Guerra e Paz editores, com quem mantenho relação de grande promiscuidade e gosto duvidoso – sobre a qual se pode dizer, de forma indesmentível, que somos unha com carne – pediu-me que escrevesse algumas palavras sobre um livro que vai chegar às livrarias a 16 de Outubro, mas que ele, com aquela ganância típica de empresário, quer já pôr a render. Enfim, sou contra, disse-lhe dois ou três palavrões, mas acabei a render-me também eu à marcha inexorável do capitalismo 

3D Book Insultos

 

Pede-me o editor da Guerra e Paz que, na minha qualidade de autor, vos fale deste O Pequeno Livro dos Grandes Insultos.

Escolho pensar no que gostava que acontecesse quando tivessem este livro na mão. A primeira coisa que espero é que se riam. E que se riam muito. O livro reúne os piores insultos, os piores palavrões da língua portuguesa, como nunca foram postos num livro. E a minha primeira preocupação foi que este livro nada tivesse de ofensivo. Ora, como sabemos, mais do que nada, mais do que tudo, o que nos salva é o humor. Este é um livro para nos rirmos com o que, se fosse no trânsito ou se fosse o mono do vizinho de cima a dizer-nos, nós iríamos logo para a guerra. Portanto, primeira promessa, este livro vai fazer-vos rir.

A minha segunda preocupação foi ser útil e procurar fazer um trabalho de recolha cuidado, enquadrado com fundamento e de forma despretensiosa. Não posso ser juiz em causa própria, mas procurei avaliações de especialistas da língua e o exame correu bem, quero agora a vossa opinião sobre um livro que reúne pela primeira vez os insultos e palavrões da língua portuguesa em situação. Portanto, segunda promessa, este livro vai ser-vos útil.

A minha terceira preocupação foi fazer um livro que o leitor não tivesse de ler em segredo e em zonas reservadas. Este é um livro que o leitor pode mostrar e vai querer partilhar com os seus amigos. É um livro para homens e mulheres. Tem palavrões – os piores – mas foi pensado para ser elegante, tanto no seu aspecto exterior, como no interior. Quer no texto, quer na mancha gráfica. Nesse sentido é um livro meu, mas é também um livro do Ilídio Vasco, o designer gráfico que comigo trabalha vai para 12 anos. Portanto, terceira promessa, este livro é bonito.

Com este livro vai saber porque insulta, quem insulta, como insulta e donde vem o insulto que larga quando larga um rutilante palavrão. Escuso de dizer que o livro lhe oferece algumas centenas de sinónimos para poder variar a sua «gama de produtos» disponíveis. Vai descobrir que «Dalila do meu Sansão» ou «alavanca de Arquimedes» têm sentidos inesperados e bem sugestivos. Portanto, quarta promessa, este livro vai mesmo alargar o seu horizonte vernacular.

Deixem-me dizer o que vão encontrar. Num primeiro capítulo, organizados por certas áreas do corpo humano que são as mais procuradas para insultar alguém, estão os maiores insultos que todos nós já usámos naquele momento de som e fúria em que vemos tudo em sangue. Num segundo capítulo, estão as expressões com palavrões que já entraram na língua e são hoje expressões idiomáticas, como por exemplo a expressão “bom, isso é em casa do c… mais velho”. Num terceiro capítulo estão lengalengas, cantilenas e outras amenidades populares, como a que esperamos ouvir quando alguém grita «Ó Abreu, abre o…» ou que, começando por «bonito, bonito, é …» não me atrevo a terminar aqui. Num quarto capítulo, reúnem-se as expressões eufemísticas, aquelas em que dizemos aquilo sem dizer aquilo, forma hábil de contornar o palavrão, como quando dizemos que o que era mesmo bom era agora «molhar o biscoito» ou «passar a linguiça na farinheira». Por fim, no último capítulo, descobrimos, através de expressões ultrajantes, que o palavrão é eterno e é de todos os lugares. Vai ver como foi e é usado, dos poetas romanos à China ou Finlândia dos nossos dias.

O livro chega às livrarias no dia 16 de Outubro, mas nesta pré-venda, juram-me o editor e o Américo Araújo, director comercial, que há condições únicas: com os Insultos a ediotra oferece um livro maravilhoso, O Bordel das Musas, com os poemas eróticos de Claude Le Petit, que os franceses queimaram na fogueira, e com ilustrações muito bonitas de João Cutileiro: o pior é que também levam com um autógrafo deste autor de tão má caligrafia. Não percam.