Origem e Viagens da Língua Portuguesa

Eu não sei se posso, como editor, desatar a fazer confissões. Não sei se posso, de olhos em bico, desatar a fazer envios estéticos. Não sei se posso, de lágrimas nos olhos, desfazer-me em lamechices. Possa ou não possa, e enquanto venhamos e vejamos, já estes três livros me arrebatam aos céus como o carro alado de Apolo.

Venhamos, pois, e entremos no livro de Fernando Venâncio, Assim Nasceu uma Língua. Saudaram-no tanto os especialistas, como os epicuristas do Governo Sombra, levantando-o bem alto, como a um estandarte, as mãos esquerdistas de Ricardo Araújo Pereira, ou mesmo, num movimento mais ascético, as de Francisco Louçã. Da Galiza ao Brasil, os encómios derramaram-se sobre este livro como mirra, incenso e ouro sobre o menino ou o cordeiro de Deus. De que fala este livro? Da origem e da evolução da língua portuguesa. Mas a questão não é essa, não é do que, mas como. Como fala este livro? Este livro fala com uma linguagem parecida como um rio alegre e suave em dia de Primavera. É essa alegria fresca que faz o sedutor encanto de Assim Nasceu uma Língua. O que se só o consegue quem tenha o saber desprendido e quase anti-académico de Fernando Venâncio. Que pena eu tenho de quem gosta de ler e saber e ainda não tem este livro.

E agora, desçam, faz favor, desse pedestal, ponham o pé se precisarem na minha mão e subam ao duplo pedestal que Marco Neves, linguista também, nos oferece com o Almanaque da Língua Portuguesa e com o Palavras que o Português deu ao Mundo. No primeiro desses livros, o Almanaque, a língua portuguesa entra em regime de turismo interno. Descobre com a mão direita os segredos que a esquerdas escondia. Mas que estranhos e insólitos territórios Marco Neves nos revela no que pensávamos ser só um país uniforme. E, a seguir, transformado o linguista num industrial do turismo, Marco Neves leva-nos de viagem pelo mundo. Palavra a palavra, como quem se mete num avião ou num barco, batemos oceanos, enseadas, ilhas e cidades, sempre pela mão do mesmo guia, a língua portuguesa. Eu disse que Fernando Venâncio era quase um anti-académico? Fiquei assim sem saber o que dizer de Marco Neves, da simplicidade narrativa, da doçura das histórias e episódios, da sua arte ficcionista. Os livros de Marco Neves são livros de ler, e quem gosta de ler, sabe o que eu quero dizer. Já estão em sua casa, na mesinha de cabeceira? Também na minha.

Um anjo chamado Venâncio

Há momentos na vida de um editor tocados pela graça da asa de um anjo. Vejamos, conheci Fernando Venâncio, quando Helder Guégués, então autor da Guerra e Paz, o convidou para apresentar o seu livro, Em Português, Se Faz Favor. Conversámos uns dez minutos à sombra de uma estante no meio da livraria Bertrand Picoas-Plaza. Da segunda vez, a asa do anjo foi a mão de Marco Neves, outro autor da Guerra e Paz, que o convidou para novo lançamento. Ao meio amor da primeira vista juntou-se o meio amor deste breve encontro. Dois episódicos meios amores são matéria de se tirar a limpo e a amizade desinteressada e o espírito voluntarista de Marco Neves organizou um almoço que os deuses quiseram que fosse em Évora. Nasceu, assim, a uma mesa alentejana a língua portuguesa. Perdão, e eu sei que exagerei e não tem graça, nasceu assim o Assim Nasceu uma Língua, acordo rematado com um puro café sem bagaço ou licor.

O que depois aconteceu, quando este livro de capa vermelha entrou nas livrarias, é já, mais do que história, lenda. Já devo ir em dez reimpressões da obra que arrebatou os portugueses, de eruditos a celebridades, incluindo políticos e os amorosos leitores comuns, que são quem dá vida aos livros. Exaltou os espíritos na Galiza, tanto que uma editora galega já comprou os direitos.

Bem sei, professor Venâncio, que não sou digno de entrar na tua morada, mas atrevo-me, por honra da firma, como diria outro antigo mestre, vir sussurrar aos ouvidos dos leitores da Guerra e Paz algumas razões pelas quais devem ler com urgência este livro, se ainda o não fizeram

Pela sedutora graça da escrita. É um ensaio, mas conduzido pelos ágeis dedos da ironia, da leveza, de pequenas histórias ou episódios.

Pelo rigor do conhecimento. Traça-se aqui uma história da origem e da evolução da língua portuguesa, palavra a palavra, como se assistíssemos a conquistas militares a assaltos a castelos, a retiradas dramáticas e a reconquistas gloriosas.

Pelo triunfo da ciência linguística, da sua razão e lógica, desfazendo-se preconceitos. Curiosamente, este é um livro anti-populista, “populismo” de que o Acordo Ortográfico de 1990 é expressão. Esta viagem de Fernando Venâncio pela origem e história do nosso idioma expõe  a língua portuguesa ao convívio largo e aberto com outras línguas, a começar pelo galego, passando pelo espanhol e francês, e abrindo-a hoje ao mundo e à possibilidade de se desdobrar noutras línguas, de que é cada vez mais exemplo o português do Brasil.

De tudo isto é testemunho este capítulo que, em tempos de confinamento, deixamos ao leitores da Guerra e Paz, aperitivo para que levem já para casa o livro inteiro.

Assim Nasceu Uma Língua

 

Assim Nasceu uma Língua

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Esgotou. Os últimos exemplares da primeira edição de Assim Nasceu uma Língua estão na Guerra e Paz e podem ser adquiridos no nosso site. Mas vem aí a 2.ª edição, que já estava em curso, e que chegará às livrarias nos dias 6 e 7 de Janeiro.

Assim Nasceu uma Língua, livro exacto, rigoroso, bonito, e com todo o sentido de humor de Fernando Venâncio, não podia ter sido mais bem recebido – da Galiza ao Brasil sucedem-se os elogios e, em Portugal, dos especialistas às figuras mais mediáticas ou políticas, Assim Nasceu uma Língua foi merecidamente saudado.

Mas o que mais me toca é ver o prazer com que uma bela multidão de leitores se agarrou ao livro e fez dele Noite de Consoada, como agora se prepara para dançar com ele na Noite de Passagem de Ano. Há quanto tempo um livro não nos levava em pas de deux de uma década para outra?

Assim Nasceu uma Língua

Foi esta sala cheia que recebeu o livro de Fernando Venâncio que nos obrigar a revisitar as origens da língua portuguesa. Que língua é a nossa língua, de onde vem, em que concubinagem se entreteve ao longo de séculos e aonde, agora, vai?

Assim Nasceu uma Língua, de Fernando Venâncio é, arrisco dizer, eu que sou o editor e parte interessada, o livro do ano.

plateia

A mesa, sorridente, foi esta: Susana Santos na ponta direita, o autor, Fernando Venâncio a segui, ao seu lado a Professora Esperança Cardeira, que apresentou o livro com o meu outro querido autor Marco Neves, e eu aqui, na extrema esquerda, a dizer disparates.

a mesa_

Com o meu autor, Fernando Venâncio, na minha mão esquerda um livro, Assim Nasceu uma Língua, que já está nas livrarias portuguesas e galegas. E tu, Espanha ingrata de que estás à espera?

Venancio