A primeira frase

Em louvor da primeira frase dos romances, escrevi este texto há dez anos. De lá para cá, pé em 2016, pé em 2017, já publiquei três dos livros que então citava. Nos meus clássicos Guerra e Paz. Dois com traduções novinhas em folha: O Amante de Lady Chatterley e Orgulho e Preconceito. O outro, El Rei Junot, em bom português, costas voltadas ao desgraçado Acordo Ortográfico de 90. 

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Todas as famílias felizes são iguais. Cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Se eu fosse autor destas duas frases, a minha crónica terminaria aqui. Mas não, não sou. A feliz conjugação saiu armada e imortal da imaginação de um russo, anárquico e prodigioso. É assim que começa “Anna Karenina”, um dos romances maiores (são todos) de Leão Tolstoi. Parafraseando o que em tempos disseram os nossos Correios, numa campanha ganhadora aliás, começar bem é meio caminho andado.

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Há, na história da literatura, alguns começos extraordinários. D. H. Lawrence abria o seu controverso “O Amante de Lady Chatterley” com uma frase severa: “A nossa época é essencialmente trágica, por isso nos recusamos a levá-la a sério”. O livro encabeçado por esta frase, relatando no miolo a fusão tórrida de um guarda florestal com uma aristocrata, foi levado tão a sério que, publicado pela primeira vez, em 1928, na católica Florença, só em 1960 teve impressão autorizada no liberal Reino Unido. Claro que o facto da dita fusão ser, na prosa de Lawrence, reduzida a uma palavra inglesa com quatro letras explica em parte a trágica proibição.

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Nas leituras adolescentes, um dos começos que mais me impressionou foi o da “Reivindicação do Conde Julião”, romance assinado por Juan Goytisolo. Em minúsculas – o estilo é o homem – Goytisolo punha na boca do seu narrador, que do alto de uma colina em Tânger se dirigia à Espanha de Franco, esta amargura anti-patriótica: “terra ingrata, espúria e mesquinha entre todas, jamais voltarei a ti”. À direita e à esquerda, poucos lhe pouparam a traição delirante que a invectiva supunha. A mim, esta maldição forçou-me a devorar cada página. De uma vez por todas, passei a corar sempre que lia a palavra patriotismo.

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Conheci-a há oito anos. Era minha aluna”. Esta é, para mim, a melhor abertura de um romance de Philip Roth. “O Animal Moribundo”, um belo romance, não será o melhor do escritor. Mas o arranque anuncia uma glorificação do sexo que, à medida que viramos as páginas, nos leva a crer que a “verdade do orgasmo” talvez seja a única verdade capaz de suspender a morte. Ou precipitá-la?el-rei-junotO meu romance português preferido, “El-Rei Junot”, que Raúl Brandão escreveu em 1912, tem um arranque que rima com o tema pungente da invasão francesa: “A história é dor, a verdadeira história é a dos gritos”. Mais do que um romance histórico, “Junot” é o trabalho de um artista que pinta a tragédia humana com uma combinação improvável de farsa, grotesco, comicidade e metafísica.

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Não sei se acabe com Jane Austen ou com James Joyce. No mais ilegível dos seus romances, “Finnegans Wake”, a primeira frase do irlandês contem todos os mistérios do mundo: “riverrun, past Eve and Adam’s, from swerve of shore to bend of bay…”, o que em português tentativamente dá “riocorrente, depois de Eva e Adão, do desvio da praia à dobra da baía…”. E poucas vezes a escrita terá fluído como este rio, ancestral e a abrir-se sobre o mar, de sibilante para redonda e doce aliteração (“from swerve of shore to bend of bay”).

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Mas para acabar, e agora é que é, escolho a epítome do amor romântico que é “Orgulho e Preconceito”, de Jane Austen. “É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro na posse de uma boa fortuna deve estar à procura de uma esposa.” Porque é que nada neste nosso mundo é já tão seguro e certo como os padrões desse velho mundo em que tudo era reconhecimento e segurança?

Venda de garagem

Não querem aparecer nesta venda de garagem?  Ora leiam o que a minha Guerra e Paz propõe.

Um convite é um convite é um convite… e isto é um convite: venha conhecer uma editora por dentro e veja com os seus olhos as aventuras, as malfeitorias, o êxtase da sublime vida editorial. Na 6ª feira, dia 30 de Novembro, das 14 às 19 horas, e no sábado, dia 1 de Dezembro,  das 11 às 19, pode entrar pela Guerra e Paz dentro e falar com o editor, o designer gráfico, assistente editoriais, os directores comercial e financeiro e, mesmo ou sobretudo, com alguns dos autores que estejam de passagem, e podem muito bem ser alguns.

Nunca viu uma editora por dentro? A Guerra e Paz oferece-lhe essa experiência extrema. Mas há mais, pode juntar ao agradável o muito útil: temos uma venda de garagem. Surpreendente e inconcebível.

Provavelmente não sabe, mas a Guerra e Paz teve, antes de 2006, uma mãe. Chamava-se Três Sinais e pretendia ser a mais pequena editora do mundo. Fez livros de luxo de Jorge de Sena, Agustina, uma Bíblia em caixa de acrílico. Tudo esgotadíssimo? E se aparecer um exemplar raro?

E se das Flores do Mal, livro de capa de madeira, houver um exemplar com defeito, ainda mais raro do que os já de si raros? E se, de livros que já saíram do mercado houver exemplares resgatados e únicos?

Às raridades, vamos juntar promoções escandalosas para os livros no nosso actual catálogo. Estão cá todos, que nenhum quia falhar uma venda de garagem.

Uma experiência única. Pode ver, falar e tocar (mesmo apalpar). É na Guerra e Paz editores, Rua do Conde de Redondo, nº 8, 5º Esquerdo, esquina com a Rua Gonçalves Crespo, em Lisboa. Basta tocar à campainha. Até 6ª feira.

 

os livros negros da página negra

A razão pela qual não há duas sem três é só por ser certo e seguro que não há uma sem duas. Uma foi ontem – ter nascido, nas Página Negra, a secção das “negras escolhas musicais”, a segunda guardei-a para hoje: nasce a 5 de Outubro a secção dos “Livros Negros da Página Negra”.

lombada

O que esta edição de 1974, da Emecé Editores, de Buenos Aires, que é minha desde 1980, tem sofrido nestas atabalhoadas mãos! A sobrecapa já foi à vida, a guarda da capa já se rasgou e a tela do interior da lombada está ali por um fio, a precisar de restauro urgente. Uma coisa posso jurar, este livro não sofreu nunca longos períodos de imobilidade ou de abandono em silenciosa e labiríntica biblioteca pública.

Borges

Confesso que tenho um caso com Borges. Tudo começou na longínqua Luanda, nos remotíssimos primeiros anos dos anos 70, ainda vigorava o século XX. Li dele os poemas que outro poeta, Ruy Belo, lhe verteu para a tão próxima língua portuguesa. Foi amor à primeira vista ou leitura. É livro para, um destes dias, ser visita destes livros negros.

Carta Aberta a Marcelo

Por amor aos livros, no que se deseja que não seja apenas um gesto quixotesco para conseguir que os nossos filhos e netos continuem a alimentar no livro a sua imaginação, a sua afectivdade e o seu conhecimento, um editor, que por acaso também é o dono desta Página Negra, escreveu esta Cara Aberta ao Presidente Marcelo.

loucos

 

Carta Aberta
ao Presidente da República Portuguesa

Presidente Marcelo,

Dê-nos mais bebés. O país inteiro, Senhor Presidente, pede-lhe mais bebés, e a Guerra e Paz, Editores, por razões egoístas, mas benignas, junta-se ao coro. Dê-nos mais bebés, Presidente Marcelo! Conhecendo e admirando o seu espírito voluntarioso, não lhe pedimos que seja o Presidente a fazê-los, pondo em alvoroço milhares de lares portugueses. Mas conhecendo todos, e todos admirando a sua veia inovadora e o seu azougado dinamismo, pedimos-lhe que inicie uma campanha que lance os portugueses e as portuguesas nos braços uns dos outros para que uma nuvem de mil cegonhas cubra os céus de Portugal.

Atrevemo-nos a sugerir que, a partir de agora, o Presidente Marcelo, num acto de discriminação positiva, só faça selfies com casais que apresentem sinais exteriores de estado interessante. Estamos certos de que, num salto de fé, um milhão de portugueses se apressaria a mergulhar na cálida enseada em que é preciso mergulhar-se para que nasçam bebés, com o mesmo entusiasmo e lírica graça com que já o vimos a si mergulhar nas fecundas águas de tantos rios e praias de Portugal.

Eis, senhor Presidente, o lema para a próxima fase do seu mandato: «Já se fazem, outra vez, bebés em Portugal.»

Permita-nos, Senhor Presidente, que confessemos as nossas razões particulares para o termos vindo desinquietar nestes propósitos. Vaidade de pais babosos, achamos que temos a mais bonita colecção do mundo de livros infanto-juvenis. Chama-se «Os Livros Estão Loucos» e foi feita à sua imagem e semelhança: são livros cujo exterior, pintado à mão, causa logo o mesmo oh! de espanto e alegria que o belo bronzeado do seu rosto provoca aos portugueses; por dentro, são livros tão imprevisíveis como o Senhor Presidente, nem sempre vão escritos por linhas direitas e podem até obrigar os jovens leitores a andar com a cabeça à roda se os quiserem ler, como o Senhor Presidente faz tão bem a jornalistas ou a políticos.

Mas que livros são esses, exige-nos agora saber? São clássicos, como clássicos são os melhores modelos que inspiram a sua acção política. «Os Livros Estão Loucos» são adaptações de Shakespeare ou de Cervantes, por exemplo, o Robinson Crusoé, o Romeu e Julieta, o Oliver Twist ou o último, o Dom Quixote. Tal como o Senhor Presidente tem adaptado a Portugal as lições dos grandes estadistas do passado, colorindo-as à sua maneira, nós adaptámos estes clássicos de forma a que os jovens leitores, dos oito aos 14 anos, tenham aqui a mesma sensação de frescura e aventura que o Presidente Marcelo teve, pequenino e bem antes de ser Presidente, quando se atirou pela primeira vez às bravas ondas do Guincho.

A Guerra e Paz, Editores, em pouco mais de um ano, fez nove filhos, estes livros que estão cheios de aventura, de irreverência, de cores e até de algumas provocações. E veja, estimado Presidente, com os seus próprios olhos, se não são bonitos! Há uma geração que está já a lê-los. Mas não queremos que, amanhã, estes livros fiquem tristes, na solitária estante, sem os leitores que merecem ter. Presidente Marcelo, dê-nos hoje os bebés que hão-de ler estes «Livros Loucos» amanhã.

Presidente, aconselhe o nosso Primeiro, mande recado ao Parlamento: que os portugueses se amem para que o país se encha de alegria e possamos voltar a ver as ruas cheias de risos e filas e filas de felizes catraios a cantarem «Que linda falua, / que lá vem, lá vem, / é uma falua, / que vem de Belém.»

Dê mais bebés a Portugal, Presidente. Nós já temos os livros que os hão-de encantar. «Os Livros Estão Loucos» do presente sonham com os jovens leitores do futuro, e o futuro está na sua mão.