Regresso ao liceu

fonseca
Eu entre Todo-Mundo e Ninguém

Dos livro que nos obrigaram a ler no liceu, quais os cinco de que mais gostei, quais os cinco que detestei.

Já nem sei se, no “meu tempo”, “fui obrigado” a ler 10 livros. Tínhamos antologias. Bem boas algumas. E liam os meus colegas muito coisa a que não estavam obrigados ou sobretudo, e com rebrilhante entusiasmo, aquelas coisas que eram “obrigados” a não ler. Aprendi com eles. O que se segue é, entre “robusta” e arábica”, a mistura certa daquele tempo, do que por obrigação se lia e do que por obrigação de não ler tanto se queria ler.

O meu primeiro amor escolar foi uma dupla,  “Todo-Mundo” e “Ninguém”, do “Auto da Lusitânia” de Gil Vicente. Cito:

Ninguém: Como hás nome, cavaleiro?
Todo-Mundo: Eu hei nome “Todo-Mundo” e meu tempo todo enteiro sempre é buscar dinheiro, e sempre nisto me fundo.
Ninguém: E eu hei nome “Ninguém”, e busco a conciência.

O diálogo, como bem se lembram, era acompanhado por dois diabinhos, Dinato e Berzebu, que se encarregavam de tudo bem anotar para mais tarde relatarem a Lucifer.

Dinato: Que escreverei companheiro?
Berzebu: Que “Ninguém” busca conciência e “Todo-Mundo” dinheiro.

Gil Vicente era um moralista? Era. E então? Era um moralista sofisticado que, como diz Jorge de Sena, construiu as suas peças pelos mais modernos padrões do Renascimento. Li e gostei do contraste tão nítido, de serem claros e simples opostos sem degradé pelo meio, como gostei do sublinhado irónico que aos personagens vivos tão bem davam os diabos mortos.

Li e na altura pareceram-me feitos da mesma massa, o que só prova que já era mau crítico literário, o popularíssimo “A Rosa do Adro” (que o cinema adaptou duas vezes) e “As Pupilas do Senhor Reitor” (que já deu 3 filmes). São as minhas maiores concessões a um ruralismo lusitano a que, vivendo urbano e nos trópicos, tive de fazer tremendo esforço para aderir. Não sabia o que fazer com tantos invernos, tantos adros de aldeia, lareiras, lenços e arrecadas ou vestidos folhados, mas, desses dois romances, o tom folhetinesco foi irresistível, como irresistível seria depois e por outras razões o escândalo perfumado a incenso de “O Crime do Padre Amaro” lido fora do currículo, embora no aconchego da linda (e excelente) biblioteca do Liceu Salvador Correia – o êxtase dos meus 14 anos.

O quinto mais gostado, hoje primeiro, foi também um dos mais detestados. “Os Lusíadas” foram, enquanto ringue de divisão de orações e outras formas de pugilato gramatical, o tormento dos 13 e 14 anos (não me lembro já se o líamos no 4º ou no 5º ano de liceu). Mas as primeiras estrofes de armas e barões tinham ritmo, música e uma riqueza imagética a que era preciso ser-se muito bronco para se ficar insensível. Oito cantos adiante, quando “fugindo as Ninfas vão por entre os ramos”, escancarados os deleites das Ilhas, as “alvas carnes súbito mostradas” no canto IX excluído do currículo, o nosso pequeno e adolescente coração entregava-se seguro e imprudente ao deleite da leitura.

Outra falta moral grave de que me penitencio foi a de ter tido a minha melhor nota escolar num trabalho (que falso que fui!) sobre o “Frei Luis de Sousa” que, como as “Lendas e Narrativas”, Garret e Herculano, aceitei mas de tão secos os achar não amei. Por um daqueles acasos que só o são de não o serem, tinha começado, dos 15 para os 16, a ler “A Náusea”, “O Fio da Navalha” e alguns parvos dos romancistas russos. O contraste foi terrível e liquidou qualquer veleidade de leitura de primeiro grau dos dois epígonos do romantismo (tardio?) português.

À margem de toda a datação, acrescente-se que detestei Verney e outros estrangeirados, como detestei a “Castro”. Gostei sim de poemas, os de Sá de Miranda, a excelência camoniana, os de Bocage, Cesário, Nobre e Pessanha. Gostei dos poemas, o resto era Portugal e “eu” começava a querer ser independente.