Chorem, toquem tambores

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Um cemitério de John Ford

Nas últimas décadas, desenvolvemos uma cultura que visa naturalizar a morte. Sim, procurámos a sanitização da morte para que ela deixasse de nos chocar. Nos funerais de «pessoas civilizadas» já ninguém chora. Esse extraordinário espectáculo de mulheres que se rojavam pelo chão aos gritos quando lhes morriam os maridos ou de homens que esmurravam o próprio peito ao perder a mulher tão amada é considerado deslocado e socialmente constrangedor. As pessoas dão os pêsames, com ar ligeiramente mais grave, e a seguir juntam-se aos amigos procurando todos recordar episódios divertidos ou meio nostálgicos, mas sobretudo reprimem lágrimas, as convulsões. Longe vão os ruidosos tempos de carpideiras e choros colectivos.

Só que, de vez em quando, a nossa natureza recalcada regressa e exibe-se triunfante. O caldo de violência de que a humanidade brotou é-nos intrínseco. A vontade de poder nietzschiana não nos diz outra coisa e a morte sai à rua num dia assim. Ou num dia assado.

Da Ilíada ao Hamlet, Homero e Shakespeare, com as suas narrativas de violência e morte, se de alguma coisa foram cantores foi desse triunfo da natureza, conflito e crueldade. E o cinema seguiu os passos desse Homero, desse Shakespeare. No mais árido e estéril dos westerns, de John Ford a Anthony Mann, das personagens de Clint Eastwood e Morgan Freeman do Unforgiven, à personagem de Leonardo Di Caprio em The Revenant, o ritual da violência ou o ritual da morte, o campo de batalha ou o cemitério, o morto exposto, o caixão aberto, a conversa do marido com a campa da mulher morta, são o espectáculo do triunfo da natureza ou o da humana aceitação dela.

Deixem-me abrir um sorriso e dizer: é difícil fugir aos clássicos. Mesmo no crime trivial, no pequeno ou mais exuberante assaltante, há ainda um eco homérico; há um pouco de Ulisses no Al Pacino de Dog Day Afternoon. E quem no seu mais íntimo sonho não pensa, como um contemporâneo Agamémnon, que é possível roubar e dormir com a bela Briseida, escrava ou prémio de Aquiles?

Vão-nos morrendo pais e irmãos, os amigos, um esquecido amor de infância. Deixemos que nos rasgue o peito um grito, um choro de baba e ranho, a angústia de quem, fetal, regressa ao caos e trevas de antes de haver mundo.

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o caixão de Freeman /Eastwood

O que lemos e quando lemos

Old Books

Batalhas sangrentas, estadistas megalómanos, os mais utópicos dos profetas, alguns laboriosos cientistas, bombistas coléricos, talvez mesmo predicantes economistas, antropólogos ou criminosos em série influenciaram, em algum momento, o curso do mundo em que viveram, moldando assim o que cada um de nós é hoje e, por tabela, o mundo em que vivemos. Tenho a certeza de que o meu interesse perverso por Billy the Kid – que aos 21 anos registava a tétrica contabilidade de um morto por cada ano de vida – o meu fascínio cheio de segundas intenções por Madame Curie, uma camisa que, em teenager, usei com colarinho à Dr. Jivago, terão influenciado o que sou hoje e que, confesso, oscila entre a vontade de ser um assassino com ética, o desejo de me fechar no primeiro laboratório com a mais radioactiva das físicas e o nobre idealismo individualista do médico de Pasternak.

Por maioria de razão, os livros que lemos acabam por pintar, a cores mais alegres ou mais sombrias, a personalidade que temos. Os livros que lemos e quando os lemos, tal qual como os que não lemos quando os devíamos ter lido.

Escrevo isto enquanto folheio, de Andrew Taylor, um livro de despretensiosa divulgação, Books That Changed the World. Folheio-o com uma mão, enquanto com a outra ergo, triunfal e autoritário, Porquê Ler os Clássicos de Italo Calvino. Descobri, assim, apavorado, que a minha vida podia ter sido diferente.

Com alguma comiseração biográfica, Goethe escreveu Os Sofrimentos do Jovem Werther em 1774. Escassos anos depois, dois apenas, Adam Smith redigiu, com porfiado método, a A Riqueza das Nações. O que é que me terá levado, em data incerta, entre 68 e 70, a ler o suicidário Werther, desconhecendo olimpicamente o ensaio de Smith? O romance de Goethe, que li em tradução brasileira e livro de bolso, por mais que eu queira, não me sai da cabeça e, por mais que eu não queira, virá sempre atrapalhar-me no amor. Não me arrasta para o suicídio exasperado e romântico, é certo, mas faz-me imaginar que leio os cantos de Ossian à mulher amada, com a consequente e arrebatada erupção amorosa, “beijos vorazes” e proibidos (ou porque proibidos?), afogados gritos e fuga para reservados aposentos.

Se eu tivesse então lido A Riqueza das Nações a que outros arrebatamentos teria sido transportado? Estaria eu muito mais interessado na “mão invisível do mercado” do que nos “lábios trémulos e balbuciantes” de Charlotte?

Li Moby Dick de Melville em vez de ter lido Das Kapital: Kritik der politischen Ökonomie de Karl Marx, apesar de ambos serem delirantes ficções escritas na segunda metade do século XIX.

Seis anos separam o Ulisses de O Amante de Lady Chatterly, um e outro escritos na modernista década de 20, no século passado. Atraído pelas lições de classe e sexo de D. H. Lawrence, desrespeitei a cronologia e deixei para adiadas calendas a hermética subversão das convenções narrativas proposta por James Joyce.

Se, rapazinho, frescas faces e cheio de vida, tenho lido primeiro Das Kapital em vez do pescador de baleias, se tenho lido primeiro Ulisses em vez das saudáveis descrições sexuais de Lawrence, será que estaria hoje, num caso em revolta contra a globalização e o G-20 e, no outro, enterrado num departamento de estudos semióticos?

Feliz por ter lido o que li, e quando li, tranquiliza-me o que, de Calvino, tenho todo o gosto em citar-vos: “Um clássico é um livro que vem antes de outros clássicos, mas quem leu primeiro os outros e depois lê esse, reconhece logo o seu lugar na genealogia.

A primeira frase

Em louvor da primeira frase dos romances, escrevi este texto há dez anos. De lá para cá, pé em 2016, pé em 2017, já publiquei três dos livros que então citava. Nos meus clássicos Guerra e Paz. Dois com traduções novinhas em folha: O Amante de Lady Chatterley e Orgulho e Preconceito. O outro, El Rei Junot, em bom português, costas voltadas ao desgraçado Acordo Ortográfico de 90. 

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Todas as famílias felizes são iguais. Cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Se eu fosse autor destas duas frases, a minha crónica terminaria aqui. Mas não, não sou. A feliz conjugação saiu armada e imortal da imaginação de um russo, anárquico e prodigioso. É assim que começa “Anna Karenina”, um dos romances maiores (são todos) de Leão Tolstoi. Parafraseando o que em tempos disseram os nossos Correios, numa campanha ganhadora aliás, começar bem é meio caminho andado.

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Há, na história da literatura, alguns começos extraordinários. D. H. Lawrence abria o seu controverso “O Amante de Lady Chatterley” com uma frase severa: “A nossa época é essencialmente trágica, por isso nos recusamos a levá-la a sério”. O livro encabeçado por esta frase, relatando no miolo a fusão tórrida de um guarda florestal com uma aristocrata, foi levado tão a sério que, publicado pela primeira vez, em 1928, na católica Florença, só em 1960 teve impressão autorizada no liberal Reino Unido. Claro que o facto da dita fusão ser, na prosa de Lawrence, reduzida a uma palavra inglesa com quatro letras explica em parte a trágica proibição.

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Nas leituras adolescentes, um dos começos que mais me impressionou foi o da “Reivindicação do Conde Julião”, romance assinado por Juan Goytisolo. Em minúsculas – o estilo é o homem – Goytisolo punha na boca do seu narrador, que do alto de uma colina em Tânger se dirigia à Espanha de Franco, esta amargura anti-patriótica: “terra ingrata, espúria e mesquinha entre todas, jamais voltarei a ti”. À direita e à esquerda, poucos lhe pouparam a traição delirante que a invectiva supunha. A mim, esta maldição forçou-me a devorar cada página. De uma vez por todas, passei a corar sempre que lia a palavra patriotismo.

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Conheci-a há oito anos. Era minha aluna”. Esta é, para mim, a melhor abertura de um romance de Philip Roth. “O Animal Moribundo”, um belo romance, não será o melhor do escritor. Mas o arranque anuncia uma glorificação do sexo que, à medida que viramos as páginas, nos leva a crer que a “verdade do orgasmo” talvez seja a única verdade capaz de suspender a morte. Ou precipitá-la?el-rei-junotO meu romance português preferido, “El-Rei Junot”, que Raúl Brandão escreveu em 1912, tem um arranque que rima com o tema pungente da invasão francesa: “A história é dor, a verdadeira história é a dos gritos”. Mais do que um romance histórico, “Junot” é o trabalho de um artista que pinta a tragédia humana com uma combinação improvável de farsa, grotesco, comicidade e metafísica.

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Não sei se acabe com Jane Austen ou com James Joyce. No mais ilegível dos seus romances, “Finnegans Wake”, a primeira frase do irlandês contem todos os mistérios do mundo: “riverrun, past Eve and Adam’s, from swerve of shore to bend of bay…”, o que em português tentativamente dá “riocorrente, depois de Eva e Adão, do desvio da praia à dobra da baía…”. E poucas vezes a escrita terá fluído como este rio, ancestral e a abrir-se sobre o mar, de sibilante para redonda e doce aliteração (“from swerve of shore to bend of bay”).

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Mas para acabar, e agora é que é, escolho a epítome do amor romântico que é “Orgulho e Preconceito”, de Jane Austen. “É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro na posse de uma boa fortuna deve estar à procura de uma esposa.” Porque é que nada neste nosso mundo é já tão seguro e certo como os padrões desse velho mundo em que tudo era reconhecimento e segurança?