Da rumba a Fialho de Almeida

Os trabalhos e os dias de um editor
Manuel S. Fonseca

Foi antes das férias de 2015. É do que se lembra esta minha memória, cuja intangibilidade nem a terra que a todos nos espera há de comer. A insolvência de um distribuidor, que provocou a perda de um ano inteiro de facturação, tinha partido os dois joelhos à Guerra e Paz. Íamos inventando a sobrevivência, dia a dia. Decidi, então, criar os Clássico Guerra e Paz.

Para começar, o romance português por excelência, Os Maias. Da preparação da edição e fixação de texto encarreguei Helder Guégués, então habitual revisor e colaborador da editora. Pedi a capa ao Ilídio Vasco, que nasceu para o design gráfico no berço da editora. A memória do Ilídio já não se lembra, mas a minha jura, sangue de Cristo, como se dizia nos musseques da minha infância, que tudo se passou assim: ele trouxe-me a primeira proposta, lettering elegante e imagem clássica a fazer pendant com o século XIX e o realismo de Eça. E logo eu, como a moça do poema de Viriato Cruz, lhe disse que não. Levantei-me da secretária e fui buscar a primeira edição de As Meninas, de Agustina e Paula Rego, e mostrei-lhe as guardas, um painel repetitivo da mesma imagem. E disse-lhe a palavra chave: Warhol. O da Marilyn, pois claro. Eu queria uma capa com um só motivo, mínimo, infinitamente repetido, cortado pelo título de cada livro. O Ilídio, meia volta volver, saiu. Voltou ainda nessa manhã ou talvez tenha sido já à tarde – ah, memória vadia que nem relógio tens! Trazia na mão outra capa – e como a moça do poema, levada na rumba por Benjamim, logo ali lhe disse que sim.

Era a capa que Os Maias da Guerra e Paz têm e continuarão a ter nas edições que venhamos a fazer. O Ilídio acabara de inventar a matriz que dá identidade a esta colecção, a mais bem-sucedida das colecções desta vossa editora, a que mais nos prestigia, a que mais íntimas festinhas nos merece.

Este, História de Dois Patifes, de Fialho de Almeida, é o nosso 42.º clássico. Preenche uma lacuna: quase não há disponíveis livros de Fialho de Almeida, autor entalado entre o século XIX e XX. Como vai comprovar neste conto que lhe oferecemos, O Anão, Fialho tem uma escrita que namora com o “fantástico”, que põe um pé leve no horror e outro na comédia (ou no sarcasmo), com um léxico desembaraçado, rico em regionalismos. Já leu Edgar Allan Poe e gostou? De que está à espera, então, para ter em casa este História de Dois Patifes?

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