A humanidade demasiado humana de Charlie Chaplin

A 15 de Abril de 1989 escrevi este texto sobre Chaplin, na revista do jornal Semanário, sob a asas de Victor Cunha Rego e João Mendes, a convite do meu falecido amigo Matos Cristovão, num jornal onde também escrevia o Fernando Sobral, para só falar de gente por quem tenho muito carinho. Já passaram mais de 30 anos, já reciclei um ou outro parágrafo para novos artigos, agora reciclo o artigo inteirinho, sem tirar nem pôr. Passaram 30 anos, tinha eu 36, e não mudei assim tanto: é o que penso do genial Chaplin.

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The Gold Rush

Devia ser mau como as cobras. Aos cinco anos, quando o pai morreu, Chaplin seguia no cortejo fúnebre mimando o sofrimento e as expressões de dor da sua mãe. Sidney, o irmão mais velho, não resistiu e desatou à gargalhada. Pode olhar-se com alguma benevolência para o episódio, mas pode também encarar-se como sintomática a atitude de Chaplin.

 É boa altura, em pleno centenário de Chaplin, para vir com esta conversa. Amanhã é dia de fogo-de-artificio e os festejos, hoje, já vão em bom ritmo. Haverá missa cantada e não faltarão responsos para incensar um dos maiores génios do século (que era, de facto), e a louvar a torrencial humanidade de Charlot (que eu não duvido que a seu modo ele tivesse, entenda-se).

Com aquela visão, perde-se, todavia, o essencial. E num centenário comemorado com inteira justiça, também não caem os parentes na lama a ninguém se se disser a verdade, nada mais do que a verdade. Ora, grande parte da verdade é que Charles Chaplin foi muitas vezes mau como as cobras e, como escreveu Thomas Burke num testemunho que o convívio íntimo torna precioso, durante duas horas podia ser a pessoa mais amável com quem já alguma vez se conversara para, sem a mínima razão aparente, se transformar na mais petulante e áspera das pessoas».

Pode objectar-se que «personalidades mercuriais», igualmente capazes deste tipo de variações, existem às centenas e particularmente nos meios artísticos. De acordo! Mas neste ponto ainda a procissão vai no adro. Falta, por exemplo, referir que Chaplin nunca escondeu serem a fama e o dinheiro os fins últimos da sua criação. E falta referir a sua peculiar e brutal relação com as mulheres. Lá chegaremos.

Não se pode passar em branco o sacrossanto argumento «de ordem social» que muitos ilustres comentadores ou biógrafos de Chaplin serão tentados a invocar. É sabido que Chaplin passou uma infância miserável e que, depois da morte do pai, levou vida de cão, internado num orfanato e com a mãe num asilo de alienados. Não é menos verdade que a primeira vez que atiraram com ele para cima de um palco, foi para substituir a mãe, minada pela doença, causando a surpresa do público e provocando uma autêntica chuva de moedas no palco. Chaplin interrompeu o número para apanhar o dinheiro e pediu desculpa ao público dizendo que recomeçaria logo que tivesse deixado as moedas no regaço materno. Ganhou mais risos e mais moedas.

Não sei se acham graça. Eu acho macabro. E creio que Chaplin deve ter achado a mesma exactíssima coisa. A melhor prova do seu ressentimento pode encontrar-se nos seus filmes. Sobretudo nas situações que abordou nos primeiros anos da sua carreira: o trabalho, a vida social e o amor são desenhados de uma forma inumana, brutal e desapiedada. Nos primeiros e nos últimos dos seus filmes, porque de Charlot no Cinema ou Charlot Pianista ou Charlot Boémio a Monsieur Verdoux ou a Um Rei em Nova Iorque a monstruosidade é uma constante, sendo evidente o comprazimento de Chaplin em extrair da mais acabada tragédia ou do mais destemperado ridículo o riso e a comédia.

Trágico foi o mote que ele glosou em A Quimera do Ouro. O filme baseou-se num facto verídico: um grupo de pesquisadores de ouro perde-se durante o mais rigoroso Inverno. Os sobreviventes, acossados pelo frio e pela fome, comem os cadáveres dos que vão perecendo. Foi este o material abominável de partida para A Quimera do Ouro, porventura uma das maiores comédias de todos os tempos.

Mas houve ainda detonadores mais ignóbeis: o primeiro filho de Chaplin nasceu mal­formado e morreu três dias depois. Dez dias mais tarde, Chaplin começou a fazer testes a miúdos para um filme que se haveria de chamar The Kid. O que pode querer dizer (e eu acho que quer) que a crueldade de Chaplin começava nele mesmo, sem qualquer indulgência.

As histórias dos seus casamentos são igualmente reveladoras. Depois de ter acabado o affair com Edna Purviance – um concubinato estável e feliz de três anos – Chaplin encontrou uma rapariguinha de 16 anos numa festa de Samuel Goldwyn. Na altura, Chaplin era o mais belo solteirão de Hollywood, «com os dentes mais brancos que já alguma vez se tinham visto, os mais azuis dos olhos e as mais negras das pestanas», como rezavam as crónicas da época. Mildred Harris, como se chamava a menina, compunha na perfeição o ideal feminino dele. Quando deram por isso ela estava grávida (ou, como veio depois a saber-se, clamava estar). Chaplin não podia arriscar o escândalo e não teve outro remédio se não casar. A chegada dela ao registo ele teve um comentário sibilino: «Sinto um bocadinho de pena dela.» Não era caso para menos. Foi a catástrofe. Primeiro, verificou-se que a gravidez era falso alarme; segundo, Chaplin considerava que o casamento lhe debilitava a inspiração e lhe arruinava a carreira; terceiro, houve o episódio da morte do primeiro filho. Dois anos depois, Mildred divorciava-se acusando-o de crueldade mental. Tinha boas razões para isso, como o próprio Chaplin reconheceu.

Outra faceta – a negação quase absoluta do sentimentalismo em geral atribuído a Charlot – surge com o «coup de foudre» Pola Negri. Foi o encontro entre a Rainha da Tragédia (vinda das mãos de Lubitsch, com quem fizera Madame Dubarry) e o Rei da Comédia. Da celebrada palidez dela dizia-se só ser comparável «à textura cremosa das pétalas de uma camélia». Eram vistos mais agarrados do que a lapa à rocha e, legitimamente, Hollywood preparou-se para o casamento. Que não houve. Ele veio dizer que era demasiado pobre para se casar e que o «meu mundo é o trabalho do dia-a-dia, que me mantém ocupado e me afasta dos clímaxes do sentimento.» Pola Negri tornou ainda mais prosaica a versão dele: «Sou demasiado pobre para casar com Chaplin. Ele precisa de uma mulher rica.»

Ainda o episódio Negri não arrefecera quando começou o tormentoso romance com Lita Grey. Era o «anjo da tentação» de The Kid. Tinha doze anos. Três anos depois voltou a aparecer a Chaplin e, com quinze anos e uns meses, já era uma mulher crescidinha. Fez os testes para leading lady de A Quimera do Ouro, acabou em leading lady de Chaplin. As filmagens começaram e, de repente, outra vez, ela informa-o de que passara ao estado interessante. Segundo as leis da Califórnia, sendo ela menor – e se era – Chaplin arriscava-se a ser acusado de violação, punida com 30 anos de prisão. Antes o casamento que tal sorte. Corria então o escândalo Ince que, por via indirecta, tocava Chaplin. O multimilionário R.W. Hearst abatera o produtor e realizador Thomas Ince, que surpreendera à média luz com Marion Davis, sua mulher. Constava que ela se encontrava com Chaplin e, à média luz, Herst deve ter tomado Ince por Chaplin, tanto mais que tinham estatura semelhante. Chaplin foi ao funeral de Ince e, três dias depois, casou com Lita Grey. Foi o funeral de Lita. Primeiro, perdeu o papel em Gold Rush; segundo, sofreu os vexames de várias infidelidades de Chaplin, envolvendo Marion Davis, Georgia Hale (a nova protagonista de Gold Rush) e até Merna Kennedy, uma amiga sua que seria a protagonista de The Circus. Abandonada num casarão de Beverly Hills, Lita vingou-se pedindo o divórcio num documento histórico, em que acusava Chaplin de tudo, mesmo de práticas sexuais cuja heterodoxia  a lei  californiana  estritamente  interditava.

Vai longo o requisitório contra Charles Chaplin. Poderia acrescentar mais mil pontos a este conto, mas não vejo a utilidade. Além dos aspectos técnicos, da sua espantosa mímica, do seu entendimento do actor como bailarino e da sua concepção perfeccionista do cinema, a genialidade da personagem que criou, Charlot, está na desumanidade de Chaplin. Nunca teve limites. As tragédias próprias ou alheias são o capital cómico dos seus filmes; o seu narcisismo fez com que centrasse em si mesmo os seus filmes; o seu ressentimento contra o mundo impôs às suas sátiras um além de todas as convenções, que nem mesmo Buster Keaton terá cultivado. E só por isso toda a humanidade se revê nos seus filmes. Porque é assim que somos: cruéis, sacanas, perversos, preguiçosos, aldrabões, mesquinhos, avaros, infiéis. Assim somos e assim fazemos. E se alguma coisa esperamos é, ainda e sempre, o anjo da tentação. Alguém disse sentimento? Mas poderá haver mais sentimento do que este?

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Modern Times

Jerry

E foi assim, há dois anos, quando soube que Jerry Lewis tinha morrido. Se fosse hoje, repetiria, palavra a palavra. Repito.

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Vou ser-te franco, Jerry, pensei que já tinhas morrido. Com a alarvidade do teu “O Morto Era Outro”, de 1969, vais responder-me que o meu problema é ainda ninguém se ter dado ao cuidado de me avisar de que bem morto estou eu. E estou. Onde é que está o candengue que eu era quando tu pela primeira vez me falaste – me atropelaste, melhor seria dizer –, tinha eu 11, 12 anos, no cinema da 7ª esquadra, em Luanda, já 8 ou 9 inteiros anos passados sobre o puro e rebelde assalto do 4 de Fevereiro.

Tu perguntas-me, com a tua americaníssima ignorância, que raio foi ou é o 4 de Fevereiro? E eu pergunto-te que raio de ideia te passou pela cabeça para me apareceres assim, a tentares esquizofrenizar-me, numas cenas Professor Julius Kelp, corpo todo retorcido, a pingares um recalcado desejo pela Stella Stevens, e noutras cenas, em fatos rutilantes, voz de rythm and blues, um Buddy Love sedutor, mentor, sexy e cantor?

Sim, encontrámo-nos nas Noi­tes Lou­cas do Dr. Jer­ryl, a que chamaste The Nutty Professor. E tu, Jerry, era dois em um: de dia, o míope, cor­cunda e alu­ado prof. Julius Kelp e, à noite, depois de meteres à boca uma con­ve­ni­ente mis­tela aluci­no­gé­nea, eras o ego­ma­níaco e sedu­tor Buddy Love. Há quem diga que eras, num dos teus eus, um auto-vexatório Jerry e, no outro eu, a zur­zida cari­ca­tura de Dean Mar­tin, com quem tinhas feito dupla e uma daquelas amizades que nunca acaba.

Com o meu engas­gado estilo de Julius, logo me ape­te­ceu roubar-te a fama e o pro­veito de Buddy Love: esbo­fe­tear humi­lhan­te­mente quem me con­tra­ri­asse e tra­zer sem esforço as fres­cas bocas das lou­ras ado­les­cen­tes à minha boca. Não deves ter gostado nada de mim, mas eu gos­tei de ti, Jerry: per­ten­cias ao tempo em que vivía­mos e, sobre­tudo, pare­cias do tempo em que sonhá­va­mos viver.

Ado­rei, desculpa repetir-me, esqui­zo­fre­ni­ca­mente As Noi­tes Lou­cas do Dr. Jer­ryl. Por ser um sonho de miúdo. O que eu que­ria era o que tu fazias no filme: ter outra e des­co­nhe­cida iden­ti­dade, ser o irre­cu­sá­vel, irre­sis­tí­vel, melhor de todos, entrar na dis­co­teca (ui, e logo o Pur­ple Pit; sim, lá na rua, logo lhe chamámos o pitinho púrpura) e a orques­tra parar, todos os olhos fixa­dos no pro­di­gi­oso fato azul celeste de cola­ri­nhos pre­tos, colete branco, camisa rosa e gra­vata azul-escuro com que, feito Buddy Love, irrompias, dei­xando esga­ze­a­dos os tam­bém azu­lís­si­mos olhos da Stella Ste­vens que, essa manhã, o estra­bismo de Julius sonhara des­pir de todas manei­ras e melhor feitio.

Sei bem que não sabes, mas deixa-me contar-te, agora que já não podes partir-te todo à minha frente, a rir-te ou, pior ainda, a gritar como gritavas no The Ladie’s Man. Quando o João Bènard me convidou para a Cinemateca, o primeiro ciclo que organizei, com o João Lopes, foi em tua homenagem (ou à tua custa, dirás tu).  Não minto. Tens aqui a capa do catálogo que é de Julho de 1981.

A sala da Cinemateca tinha ardido e fomos fazer o ciclo ao Quarteto, ainda eu estava longe de saber o amigo do peito que o Pedro Bandeira Freire acabaria por ser. O catálogo é humildemente deslumbrado, quase uma plaquete estudantil, de 52 páginas, a custarem uns caros 80 escudos, que os teus luxos pagam-se. Mas era, se um catálogo fosse a foz de um rio, um delta de amizade. O que não copiámos e traduzimos dos Cahiers du Cinèma (sim, aquela revista que embrulhou os filmes no papel celofane que põe os teus reticentes compatriotas de olhos em alvo), pedimos aos amigos que escrevessem, a começar pelo Camacho Costa: “Era uma vez um palhaço, tinha um nome e um rosto e um corpo. O resto era só a alegria de se descobrir mergulhado nessa vertigem imensa que é inventar do outro lado a nossa própria loucura.” E convidámos, o João e eu, dois Gabriéis. O João, um psicanalista, o José Gabriel Pereira Bastos. Eu, um filósofo, o José Gabriel Trindade Santos, meu eterno professor. Escrevemos também nós. E lembro-te o que o João Lopes começava por dizer: “Herbert H. Heerbert, o “homem das mulheres” de Jerry Lewis, tem medo do cão que ruge, esse “Baby” (bebé) que tantas preocupações traz à sempre presente e dominadora Mrs. Welenmelon.”

O João Lopes tinha razão: tinhas medo desse cão, Baby, que não podia soltar-se, nem ver-se E nem era preciso que Mrs. Welemelon te tivesse prevenido. O rugido de Baby e a fome insaciável de Baby perseguiram-te a vida toda, os filmes todos. Baby, o cão, está agora à tua espera. Deus só pode ser esse bebé que ruge. E o céu é, de certeza, um cenário quase tão prodigioso como o de The Ladies Man. O que Baby, ou Deus, não sabe é o susto que vai levar quando descobrir que tu és o que és e o que não és. E o que és? Julius Kelp ou Buddy Love?

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