Levantas-te, nua, de cabelos desalinhados

Etreinte

Esta aguarela de Pablo Picasso andou meio perdida em escusos quartos londrinos. Vai para dez anos, foi reencontrada e acabou leiloada por 101 mil euros.

Intitulada “Étreinte”, a pintura figura e celebra a entrega de dois amantes, o próprio pintor e Louise Lenoir, a quem Picasso chamava Odette. Foram amantes nos primeiros anos do século XX, período de que data a aguarela. Diz-se que terá sido a sua primeira amante francesa e que, nesse tempo, o pintor andava ainda à procura de “um estilo”.

Olha-se para este abraço e percebe-se nele uma beleza serena, sem ameaça. Uma noite enorme e dois seres que não se incomodam com o que os espera, lá longe. Daqui a pouco ela vai levantar-se, nua, cabelos desalinhados a cair pelos ombros, e ele há-de ficar a olhar, desinteressado, para a frágil beleza dela, um miraculoso cigarro a rolar-lhe nos dedos.

PIcasso

Picasso encontrou um estilo (ou estilos), mas nunca deixou de voltar com outros “Étreintes” ao seu primeiro “Étreinte”.

Pabli

Navegar é preciso

Já não tenho 20 anos, nem em cada perna. Mas vem-me, de vez em quando, sei lá a que perna, o vigor ou a saudade dos 20 anos. E volto a ver tudo rubro, umas cores do caneco, cheiros de pólvora, rasgões de aurora, líquidas noites de fogo.

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Com a devida vénia, foto do maior fotógrafo que o Lobito já teve, o pai Quitos. E um abraço ao filho, meu amigo desses tempos distantes

Navegar é preciso

Nem toda a convulsão extravagante que nos agita o corpo é sexo. Eu, por exemplo, se navegar é fugir, queria fugir. Tinha 20 anos e estivera, pela primeira vez, alguns meses em Portugal. Antes, a minha vida resumira-se à colonial Angola é nossa. Angola e Luanda tinham sido minha mãe, meu pai. Mas por muita muxima ué que me incendiasse a alma, agora, aos 20 anos, mais do que para a desejada independência de Angola, o 25 de Abril empurrava-me para a fuga.

Caía o cacimbo de 1974 e eu queria era ser independente sozinho, independente de tudo, da família, da antiga pátria, da nova pátria, pátria que pariu, eu queria era a aventura de um barco, navegar é preciso, um lugar do mundo fora do meu mundo. Não sei o que se chama a este ardor – parece que estás parvo, era a efusiva reacção dos amigos inimigos. Só queria, clandestino, fugir dali.

Foi no Lobito, o maior porto da costa ocidental de África. Havia barcos americanos e barcos jugoslavos, navios de carga, cargueiros de Lord Jim. E havia tascas sórdidas com suavíssimas putas rouxinol e as árduas putas urubu. Os meus 20 anos rondavam desagradecidos. Era o 25 de Abril e eu, em vez da utopia, queria a atopia, uma ilha dos mares do sul, um quarto lírico numas águas furtadas em Montmartre.

Não sei o que foi. O que primeiro me mudou de regime talvez tenham sido os sonhos servidos à sobremesa na pensão da Dona Rosa, encostada à entrada norte do cais. Tivesse Marcel Proust metido à boca um destes sonhos húmidos – molhados, se o rigor ainda tiver valor literário – e a Recherche teria catorze e não sete volumes. A cada dentada – três por sonho – eu lembrava-me da casa paterna de Luanda, dos amigos e amores da Vila Alice. Prendeu-se-me uma perna e cada vez fugia menos.

Ou talvez tenha sido a paixão da educação. Pediram-me para dar aulas de literatura no liceu. Havia uma vaga – tantas vagas houve naquela altura e é tão bom ir de vaga em vaga. As aulas, alunas quase da minha idade e, cantigas de amigo, cantigas de amor, versos de monangambé, prendeu-se-me a outra perna e deixei de querer fugir.

Lembro-me, e não é das piores coisas de que me lembro: dentro do meu corpo a convulsão extravagante sublimou-se em Revolução. Fiz comícios, estive à beira de levar a maior carga de porrada da minha vida no glamour pequeno-burguês do Chá Para Dois, promovi a insurreição estudantil, voltei ao Chá para Dois para rastejar escapando ao fogo cruzado, tiros e granadas, entre o éme e o galo negro, fiz noites de vigia no mar alto num barco de investigação oceanográfica.

Trinta por uma linha, tantas ou tão poucas fiz, que um transitório ministro angolano, farto de que uns putos brancos lhe gritassem o que nunca o ouvido do toucinho escutará da língua de Maomé, me chamou para me dizer rigorosamente isto: “Vocês só vieram cá fazer merda. O povo já está a ficar fodido convosco. Pago-te as malas e expulso-te para o Puto.”

Logo quando que eu já não queria fugir. E o povo? Estava ou não estava o que disse o ministro?

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20 anos ou o ponto de fuga

Eu era para ser Papa

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Não sei se comece pela orgia, se pela minha professora primária. Sabia lá eu o que era uma orgia e já o áugure romano que era a Dona Emília, minha iluminada professora na Missão de São Paulo, em Luanda, antevia que eu seria Papa. Nem padre, nem bispo, sequer cardeal, eu entraria, como Chalana aos 17 anos, no onze inicial, directamente para Papa.

Assistiam razões a Dona Emília. A escola era dos bondosos padres capuchinhos italianos, praticamente um passaporte para o Vaticano, e era impossível eu não dar nas vistas, por ser o singelo branco numa escola de alunos africaníssimos, tímida gota de leite a pingar o esplêndido e aromático café angolano, que era a massa estudantil.

Ora, foi com devoção capuchinha que entrei, não no Vaticano, mas na mansão de Hugh Hefner, patriarca da Playboy. Nunca estive tão encostado à orgia. Banda de jazz, coelhinhos a correr no zoo de Hefner entre as altas pernas dos flamingos cor-de-rosa, e eis que me levam para a sauna cavada na rocha, as sereias de Ulisses a gotejar do tecto como lábeis e álgidas estalactites.

E não é dessa orgia que quero falar. Falo da orgia de 1501. Alexandre VI, cumprindo os votos de Dona Emília, chegou a Papa quase sem jogar nos juniores: entrada directa no onze sénior. Já tinha até uma catrefa de filhos, amantes que davam para fazer um colar. Vinha de Valência, um Bórgia, família de que foi o big-bang, fazendo dos filhos cardeais, militares e nobres. Tinha também um amor invertebrado pela filha Lucrécia. Ou, usando termo mais leniente, derretia-se com ela.

Casou-a com um condottiero, senhor de Pésaro, nobre borra-botas de que não direi o nome. Foi o desastre e Alexandre VI anulou o casamento invocando que a natureza de Lucrécia tinha horror a um certo recôndito vazio que o marido não preenchia. Era um exagero, mas sabe-se que e como são infalíveis os exageros papais. O condottiero jurou que só não preenchia mais o vazio para não atropelar por trás o próprio Alexandre VI e César Bórgia, irmão de Lucrécia, exagero malévolo, que a História provou ser falso.

Estava Lucrécia, portanto, de novo virgem, e Alexandre VI casou-a segunda vez. Só que, um ano depois, por ciúmes e interesse político do irmão de Lucrécia, esse marido, quando deu conta, já estava morto. Fica então noiva do futuro duque de Ferrara. Para celebrar, o Papa e papá deu uma festa no Vaticano. Jantou-se como Hugh Hefner nunca jantará. À sobremesa entram 50 bailarinas só trajadas a plumas e lantejoulas. Uma centena de nobres e prelados ovacionou-as com um clamor de No Name Boys. Dançaram. As coreografias fariam corar Madonna ou Beyoncé. A cleresia atirava-lhes castanhas quentes para que elas, de quatro, as apanhassem no chão.

Uma exaltação erótica avassalou Alexandre VI. Deu-lhe um Maio de 68 avant la lettre e, num é proibido proibir, ofereceu um prémio a quem mostrasse o maior e melhor desempenho nesse acto com a que a natureza enche o vazio e esvazia o horror. Ah, sotainas! ah, buréis! ah, púrpuras cardinalícias! um humaníssimo desatino fundiu fome, sede e pote, como em crónica registou Johann Burchard, prelado de Estrasburgo. Alexandre, o filho César, Lucrécia deleitam-se com esse nu e pagão afã, que mete a um canto, para não dizer que encosta à parede, a agitação afrodisíaca da sala da bolsa de Wall Street.

Dias depois, de olhos lavados e puros, Lucrécia casou com o seu duque, a quem deu oito filhos. Foram olímpica e eticamente infiéis um ao outro, num ambiente apesar de tudo recatado, se comparado com o Vaticano de Alexandre VI.

Publicado na coluna “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo”, no Jornal de Negócios

Deus vende

Bica Curta publicada no CM na 5ª feira, dia 7 de Março

einstein

Deus vende

Einstein, o físico da teoria da relatividade, escreveu uma carta a um filósofo judeu, criticando um livro que lera. O livro, “Escolhe a Vida: O Apelo da Bíblia à Revolta”, propunha que o judaísmo fosse a base de uma nova moral altruísta.

Na carta, Einstein rejeita esse papel do judaísmo e das religiões, que considera superstições primitivas. Diz: “a palavra Deus é apenas a expressão e o produto da fraqueza humana”. A chamada “carta de Deus” foi vendida em leilão da Sotheby’s por três milhões de dólares. Afinal, Deus vende e a superstição vale o seu peso em ouro. Ah, a fortuna que eu ganhava se Deus tomasse comigo a bica curta.

A multidão ululante

Bica Curta publicada no CM, na 4ª feira, dia 6 de Março

gilets jaunes

A multidão ululante

Não bater, não matar. Esse princípio unânime foi a base, justíssima, da devastadora crítica feita ao juiz Neto Moura, e é a base da democracia. Não batemos, não matamos. Por isso espanta que haja quem, dando-se aristocráticos ares de superioridade moral e arrogando-se de esquerda, venha clamar que a violência é revolucionária, sem lhes cair a cara no copo da vergonha. O populismo é, neles, o lado escondido da lua e a sua última arma é soltar a multidão em fúria.

A multidão unânime não toma a bica curta. Essa multidão é manipulável e pensa com as tripas. A multidão ululante é um péssimo decisor político: leva de refém a liberdade.

Dá cá mais cinco

Esta Bica Curta bebi-a no CM, na 3ª feira, dia 5 de Março, para apaziguar as delícias gourmet do jogo com o grande FCP  – sublinho: a grandeza dos nossos adversários só aumenta a grandeza das nossas vitórias. Espero que hoje, ao começo da noite, na Catedral, João Félix volte a oficiar. Qual espero: tenho a certeza!

félix

Dá cá mais cinco

O miúdo a que a nação benquista chama João Félix, tem um metro e 80, que acompanha com a elegância de 64 quilos. O estudo anatómico do futebolista João Félix é uma exigência científica. Tem uma anatomia interjeccional. Corre, salta, finta, esquindiva, obrigando a multidão a soltar uaus! e ohs! e uis! Marca golos de cabeça, pé esquerdo ou pé direito, como quem toma a bica. No Dragão, foi de pé direito: toma e embrulha, apesar de estar o grande Casillas na baliza.

Pode alguém que ame o futebol não apertar a mão a um miúdo com tão bons pés, cabeça, cintura, pernas, enfim, um corpo que reinventa a esplêndida alegria de jogar à bola?

aperto de mão

O pequeno pincel

Sexuelle

Eu não estava lá. Eu não estava lá na noite em que fui concebido.

Sobre esta falha, sobre essa imagem que nunca vimos e que nunca veremos, sobre a falta dessa imagem que a miríade de imagens que nos cerca e sufoca não consegue fazer esquecer, Pascal Quignard fez um livro.

Chamou-lhe “La Nuit Sexuelle” e é um livro de muitas imagens. Ia dizer que neste álbum deslumbrante prevalecem as imagens doutras noites, iguais porventura à noite fundadora a que, por impossibilidade lógica, dificilmente poderíamos ter assistido. E acrescento que nas espessas noites que as imagens de Quignard reproduzem, julgamos escutar, tementes e trementes, repulsiva e fascinadamente, o eco da imagem que jamais se revelará aos nossos olhos… “Maintenant je désire m’engloutir dans cette nuit qui d’entrée de jeu comuniqua sa couleur à ces pages.” Comunicará cor, certo, mas essa “noite sensorial”, presente embora, não é, ao longo de “La Nuit Sexuelle”, nem avassaladora, nem sequer dominante.

Livro apetecível (os olhos gostam, as mãos acariciam), nele se cruzam, tão bem reproduzidos, quadros de Caravaggio e Rubens, de Leonardo e Ticiano, de Goya e Picasso, de Regnier e Van Den Hoecke. A par de um texto minimal, deliciosa e insensatamente francês (if you know what I mean), vão correndo desenhos anónimos do sec. XV ou do séc XVII, anónimos chineses e anónimos egípcios, e desfilam também Pietás e Massacres de Inocentes, e, upsss!, há mãos que empunham falos, há ninfas empaladas e sacrifícios satúrnicos.

Quando chegamos ao fim dos 27 capítulos de “La Nuit Sexuelle”, depois do nosso olhar ter viajado por mais de duzentas reproduções de pinturas em que habitam a nudez, o crime, o voyeurismo e a carnalidade, sabemos que toda essa visualidade não nos revelou ainda a “cena invisível”, Mas sabemos (ou começamos a acreditar) que essa “cena” está na origem da pintura, tanto mais quanto, em latim, pénis (penicillus) quer até dizer “pequeno pincel”.

La Nuit Sexuelle” é o livro de uma alegria negra, como negras são, literal e graficamente, as suas páginas de couché tão suave como a pele em que, numa noite que nunca vimos, dedos se perderam, outros dedos se encontraram.

Primeiro de outros (poucos) beaux livres que gosto que sejam meus, este foi editado, com brio e farto investimento, pela Flammarion. Tem 19,5 cm de comprimento por 28 de largura. A encadernação, com sobrecapa, abriga 279 páginas gloriosas, às vezes tórridas. Custava, há 12 anos, 85€. Já só custa 27. Mas valia e vale o raio do dinheiro.

As boas leituras

miller

“Acho que deve­mos ler o tipo de livros que nos abram feri­das, que nos esfa­queiem.” Este con­ceito tão vis­ce­ral da lei­tura defendia-o Franz Kafka. Antes ou depois, com pro­pó­si­tos cer­ta­mente tera­pêu­ti­cos, Henry Mil­ler ofereceu-se como exem­plo: “As minhas boas lei­tu­ras bem se pode dizer que tive­ram lugar na casa de banho.”

Ainda me lem­bro de ouvir o, tan­tas vezes admi­rá­vel, João César Mon­teiro, dizer sono­ra­mente: “Eu quero que o público se foda!” Mais pene­trante embora, não era mais ori­gi­nal do que a ori­gi­na­li­dade de Gabriel Gar­cia Marx (per­dão, Mar­quez) ao jurar que, no fim de con­tas, todos os livros são escri­tos só para os amigos.

Con­tra­po­nho a esta teo­ria dos happy few a teo­ria das unhappy few: Agus­tina Bessa-Luís disse-me um dia, ali para os lados da Bue­nos Aires, que mui­tos escri­to­res machos se vira­vam para ela e a lou­va­vam, rema­tando com acinte: “A minha mulher é que gosta muito e lê os seus livros todos!” O tempo que eles não tinham para a ler, não o tinha dou­tra maneira o sublime e exe­crá­vel aus­tríaco Karl Kraus, cujo motto de lei­tura tal­vez fosse uma apro­xi­ma­ção à teo­ria da rela­ti­vi­dade: “Como é que vou des­co­brir o tempo para não ler tan­tos livros?”

Mais non­cha­lant parece ser V. S. Nai­pul: “Sou o género de escri­tor que as pes­soas pen­sam que as outras pes­soas andam a ler.” Mas se a sin­ce­ri­dade, a genuína sin­ce­ri­dade, ainda é uma vir­tude, con­fesso que Oscar Wilde é o meu favo­rito: “Nunca viajo sem o meu diá­rio. Uma pes­soa tem de ter alguma coisa sen­sa­ci­o­nal para ler no comboio.”

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