Primavera

Matsuo Bashô

Ninguém cultiva em Portugal o haiku com o rigor e a justa medida que lhe empresta o poeta José Guardado Moreira. O haiku é, além das suas características formais, um depurado caminho para a Natureza. A chegada da Primavera justifica-o. Agradeço ao José autorizar-me a publicação.

Orvalho:
a brisa canta
a raiz dança.

( Equinócio de Primavera
20 de Março, às 21h. 58m.)

José Guardado Moreira

Quando um homem ama uma mulher

O que me dava jeito é que antes de lerem a prosa que se segue, tivessem visto o filme “A Perfect World”, realizado por Clint Eastwood. Os dois personagens da minha crónica são Butch (Kevin Costner), um bandido suave, e Buzz, um miúdo adorável, que não há-de ter nunca mais de sete anos.

A Perfect World

“Tu ama-la?” Vão no carro, Butch ao volante, Buzz enfiado no fato de Casper, o fantasminha feliz. Butch ainda tenta uma digressão distractiva: “Quem?” Mas a curiosidade de Buzz é obstinada e infantil: “A senhora que nos cozinhou os hamburgers…” E como é que se explica a uma criança quando é que um homem ama uma mulher.

Butch e Buzz saíram a correr de uma espelunca de estrada, como a correr saem de todos os lugares em que entram depois de um pequeno golpe de destino os ter juntado.

Butch, presidiário em fuga, talvez fosse um tipo capaz de fazer o bem a toda a gente se soubesse como fazê-lo. Não se priva: faz o mal sempre que é preciso.

Buzz tem oito anos e nunca comeu algodão doce. A mãe, seca e solitária testemunha de Jeová, não consente e também não o deixa andar na montanha russa. Buzz dormia quando Butch e o criminoso que com ele fugiu da prisão lhe entraram em casa. Corre mal a invasão, como correrá tudo mal neste filme que de tudo correr tão mal tira a sua perfeição. Os dois bandidos levam-no, menino e de cuecas, como refém.

Buzz descobre em Butch o pai que nunca teve. O criminoso vê no miúdo o filho que nunca há-de ter. Por ele, mata o pedaço de má rês que é o seu companheiro de fuga. Veste-o e dá-lhe de comer. Ia dizer, se lhe dessem tempo, faria do miúdo um homem… E corrijo: mesmo no tempo que lhe dão, Butch faz dele um homem. Põe-no a comer doces, a conduzir um carro e a meter travões a fundo, a ter confiança no pequeníssimo pirilau que, garante-lhe Butch, está muito bem para a idade que tem. O filme, incorrectíssimo, é “A Perfect World” e filmou-o Clint Eastwood depois de o ter muito bem escrito John Lee Hancock.

Quando já quase tudo ensinou ao miúdo e lhe matou a fome de tanta fuga, Butch, que no filme é um portentoso Kevin Costner, descobre que tem mais fome do que a fome que no miúdo e nele já apagou. E Eileen, a senhora que cozinha hamburguers, não deixa de ser a senhora que Buzz pensa que ela é, por ter apetites que nem a mais abençoada cozinha sacia.

Mandaram o miúdo apedrejar, lá fora, o que lhe apetecesse apedrejar. E aqui voltamos à obstinada curiosidade infantil do primeiro parágrafo: Buzz espreita e vê Butch beijar a senhora que mata a fome. Quando Clint Eastwood nos deixa ver o que os inocentes olhos de Buzz vêem, já Kevin Costner beija a fundo o que mais ao fundo a senhora tem, até que, vendo que são vistos, páram estarrecidos.

“Beijaste-a porquê?” Porque sabe bem, porque um tipo se sente bem, é o que Butch tenta explicar ao miúdo. “Mas beijaste-lhe o rabo, hã”, insiste, científico, o garoto, “Tu amas a senhora?” E, de repente, o adulto Butch percebe que está salvo: “Claro que a amo. Beijei-lhe o rabo, não beijei?!” Num mundo perfeito só devia ser adulto quem nunca perdesse uns inocentes olhos de criança.

A linha tribal

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Acabei de ler um resumo do manifesto, se assim lhe podemos chamar, do supremacista branco Brenton Tarrant, terrorista que matou 50 muçulmanos na mesquita de Christchurch, na Nova Zelândia. Uma amálgama ideológica de que destaco o feroz traço tribal (sangue e solo), o mesmo que se encontra em tantos discursos identitários, sejam eles neofascistas, sejam revestidos a mais sofisticadas tintas ideológicas.

O supremacista branco Brenton Tarrant não esconde o ódio à democracia liberal, a Emmanuel Macron, um «capitalista igualitarista e anti-nacionalista», e a Angela Merkel, cuja morte advoga, chamando-lhe «a mãe de todos os anti-brancos».

Já ninguém pode devolver a vida às vítimas. A pequena homenagem que lhes podemos fazer é a de evitar a linha tribal, os maniqueísmo de classe, de raça, de género em que, tão facilmente, hoje derrapamos. É aí que começa o triunfo da democracia e da tolerância, cuja regra número um é «não bater, não matar».

Levantas-te, nua, de cabelos desalinhados

Etreinte

Esta aguarela de Pablo Picasso andou meio perdida em escusos quartos londrinos. Vai para dez anos, foi reencontrada e acabou leiloada por 101 mil euros.

Intitulada “Étreinte”, a pintura figura e celebra a entrega de dois amantes, o próprio pintor e Louise Lenoir, a quem Picasso chamava Odette. Foram amantes nos primeiros anos do século XX, período de que data a aguarela. Diz-se que terá sido a sua primeira amante francesa e que, nesse tempo, o pintor andava ainda à procura de “um estilo”.

Olha-se para este abraço e percebe-se nele uma beleza serena, sem ameaça. Uma noite enorme e dois seres que não se incomodam com o que os espera, lá longe. Daqui a pouco ela vai levantar-se, nua, cabelos desalinhados a cair pelos ombros, e ele há-de ficar a olhar, desinteressado, para a frágil beleza dela, um miraculoso cigarro a rolar-lhe nos dedos.

PIcasso

Picasso encontrou um estilo (ou estilos), mas nunca deixou de voltar com outros “Étreintes” ao seu primeiro “Étreinte”.

Pabli

Navegar é preciso

Já não tenho 20 anos, nem em cada perna. Mas vem-me, de vez em quando, sei lá a que perna, o vigor ou a saudade dos 20 anos. E volto a ver tudo rubro, umas cores do caneco, cheiros de pólvora, rasgões de aurora, líquidas noites de fogo.

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Com a devida vénia, foto do maior fotógrafo que o Lobito já teve, o pai Quitos. E um abraço ao filho, meu amigo desses tempos distantes

Navegar é preciso

Nem toda a convulsão extravagante que nos agita o corpo é sexo. Eu, por exemplo, se navegar é fugir, queria fugir. Tinha 20 anos e estivera, pela primeira vez, alguns meses em Portugal. Antes, a minha vida resumira-se à colonial Angola é nossa. Angola e Luanda tinham sido minha mãe, meu pai. Mas por muita muxima ué que me incendiasse a alma, agora, aos 20 anos, mais do que para a desejada independência de Angola, o 25 de Abril empurrava-me para a fuga.

Caía o cacimbo de 1974 e eu queria era ser independente sozinho, independente de tudo, da família, da antiga pátria, da nova pátria, pátria que pariu, eu queria era a aventura de um barco, navegar é preciso, um lugar do mundo fora do meu mundo. Não sei o que se chama a este ardor – parece que estás parvo, era a efusiva reacção dos amigos inimigos. Só queria, clandestino, fugir dali.

Foi no Lobito, o maior porto da costa ocidental de África. Havia barcos americanos e barcos jugoslavos, navios de carga, cargueiros de Lord Jim. E havia tascas sórdidas com suavíssimas putas rouxinol e as árduas putas urubu. Os meus 20 anos rondavam desagradecidos. Era o 25 de Abril e eu, em vez da utopia, queria a atopia, uma ilha dos mares do sul, um quarto lírico numas águas furtadas em Montmartre.

Não sei o que foi. O que primeiro me mudou de regime talvez tenham sido os sonhos servidos à sobremesa na pensão da Dona Rosa, encostada à entrada norte do cais. Tivesse Marcel Proust metido à boca um destes sonhos húmidos – molhados, se o rigor ainda tiver valor literário – e a Recherche teria catorze e não sete volumes. A cada dentada – três por sonho – eu lembrava-me da casa paterna de Luanda, dos amigos e amores da Vila Alice. Prendeu-se-me uma perna e cada vez fugia menos.

Ou talvez tenha sido a paixão da educação. Pediram-me para dar aulas de literatura no liceu. Havia uma vaga – tantas vagas houve naquela altura e é tão bom ir de vaga em vaga. As aulas, alunas quase da minha idade e, cantigas de amigo, cantigas de amor, versos de monangambé, prendeu-se-me a outra perna e deixei de querer fugir.

Lembro-me, e não é das piores coisas de que me lembro: dentro do meu corpo a convulsão extravagante sublimou-se em Revolução. Fiz comícios, estive à beira de levar a maior carga de porrada da minha vida no glamour pequeno-burguês do Chá Para Dois, promovi a insurreição estudantil, voltei ao Chá para Dois para rastejar escapando ao fogo cruzado, tiros e granadas, entre o éme e o galo negro, fiz noites de vigia no mar alto num barco de investigação oceanográfica.

Trinta por uma linha, tantas ou tão poucas fiz, que um transitório ministro angolano, farto de que uns putos brancos lhe gritassem o que nunca o ouvido do toucinho escutará da língua de Maomé, me chamou para me dizer rigorosamente isto: “Vocês só vieram cá fazer merda. O povo já está a ficar fodido convosco. Pago-te as malas e expulso-te para o Puto.”

Logo quando que eu já não queria fugir. E o povo? Estava ou não estava o que disse o ministro?

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20 anos ou o ponto de fuga

Eu era para ser Papa

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Não sei se comece pela orgia, se pela minha professora primária. Sabia lá eu o que era uma orgia e já o áugure romano que era a Dona Emília, minha iluminada professora na Missão de São Paulo, em Luanda, antevia que eu seria Papa. Nem padre, nem bispo, sequer cardeal, eu entraria, como Chalana aos 17 anos, no onze inicial, directamente para Papa.

Assistiam razões a Dona Emília. A escola era dos bondosos padres capuchinhos italianos, praticamente um passaporte para o Vaticano, e era impossível eu não dar nas vistas, por ser o singelo branco numa escola de alunos africaníssimos, tímida gota de leite a pingar o esplêndido e aromático café angolano, que era a massa estudantil.

Ora, foi com devoção capuchinha que entrei, não no Vaticano, mas na mansão de Hugh Hefner, patriarca da Playboy. Nunca estive tão encostado à orgia. Banda de jazz, coelhinhos a correr no zoo de Hefner entre as altas pernas dos flamingos cor-de-rosa, e eis que me levam para a sauna cavada na rocha, as sereias de Ulisses a gotejar do tecto como lábeis e álgidas estalactites.

E não é dessa orgia que quero falar. Falo da orgia de 1501. Alexandre VI, cumprindo os votos de Dona Emília, chegou a Papa quase sem jogar nos juniores: entrada directa no onze sénior. Já tinha até uma catrefa de filhos, amantes que davam para fazer um colar. Vinha de Valência, um Bórgia, família de que foi o big-bang, fazendo dos filhos cardeais, militares e nobres. Tinha também um amor invertebrado pela filha Lucrécia. Ou, usando termo mais leniente, derretia-se com ela.

Casou-a com um condottiero, senhor de Pésaro, nobre borra-botas de que não direi o nome. Foi o desastre e Alexandre VI anulou o casamento invocando que a natureza de Lucrécia tinha horror a um certo recôndito vazio que o marido não preenchia. Era um exagero, mas sabe-se que e como são infalíveis os exageros papais. O condottiero jurou que só não preenchia mais o vazio para não atropelar por trás o próprio Alexandre VI e César Bórgia, irmão de Lucrécia, exagero malévolo, que a História provou ser falso.

Estava Lucrécia, portanto, de novo virgem, e Alexandre VI casou-a segunda vez. Só que, um ano depois, por ciúmes e interesse político do irmão de Lucrécia, esse marido, quando deu conta, já estava morto. Fica então noiva do futuro duque de Ferrara. Para celebrar, o Papa e papá deu uma festa no Vaticano. Jantou-se como Hugh Hefner nunca jantará. À sobremesa entram 50 bailarinas só trajadas a plumas e lantejoulas. Uma centena de nobres e prelados ovacionou-as com um clamor de No Name Boys. Dançaram. As coreografias fariam corar Madonna ou Beyoncé. A cleresia atirava-lhes castanhas quentes para que elas, de quatro, as apanhassem no chão.

Uma exaltação erótica avassalou Alexandre VI. Deu-lhe um Maio de 68 avant la lettre e, num é proibido proibir, ofereceu um prémio a quem mostrasse o maior e melhor desempenho nesse acto com a que a natureza enche o vazio e esvazia o horror. Ah, sotainas! ah, buréis! ah, púrpuras cardinalícias! um humaníssimo desatino fundiu fome, sede e pote, como em crónica registou Johann Burchard, prelado de Estrasburgo. Alexandre, o filho César, Lucrécia deleitam-se com esse nu e pagão afã, que mete a um canto, para não dizer que encosta à parede, a agitação afrodisíaca da sala da bolsa de Wall Street.

Dias depois, de olhos lavados e puros, Lucrécia casou com o seu duque, a quem deu oito filhos. Foram olímpica e eticamente infiéis um ao outro, num ambiente apesar de tudo recatado, se comparado com o Vaticano de Alexandre VI.

Publicado na coluna “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo”, no Jornal de Negócios

Deus vende

Bica Curta publicada no CM na 5ª feira, dia 7 de Março

einstein

Deus vende

Einstein, o físico da teoria da relatividade, escreveu uma carta a um filósofo judeu, criticando um livro que lera. O livro, “Escolhe a Vida: O Apelo da Bíblia à Revolta”, propunha que o judaísmo fosse a base de uma nova moral altruísta.

Na carta, Einstein rejeita esse papel do judaísmo e das religiões, que considera superstições primitivas. Diz: “a palavra Deus é apenas a expressão e o produto da fraqueza humana”. A chamada “carta de Deus” foi vendida em leilão da Sotheby’s por três milhões de dólares. Afinal, Deus vende e a superstição vale o seu peso em ouro. Ah, a fortuna que eu ganhava se Deus tomasse comigo a bica curta.

A multidão ululante

Bica Curta publicada no CM, na 4ª feira, dia 6 de Março

gilets jaunes

A multidão ululante

Não bater, não matar. Esse princípio unânime foi a base, justíssima, da devastadora crítica feita ao juiz Neto Moura, e é a base da democracia. Não batemos, não matamos. Por isso espanta que haja quem, dando-se aristocráticos ares de superioridade moral e arrogando-se de esquerda, venha clamar que a violência é revolucionária, sem lhes cair a cara no copo da vergonha. O populismo é, neles, o lado escondido da lua e a sua última arma é soltar a multidão em fúria.

A multidão unânime não toma a bica curta. Essa multidão é manipulável e pensa com as tripas. A multidão ululante é um péssimo decisor político: leva de refém a liberdade.