Dá cá mais cinco

Esta Bica Curta bebi-a no CM, na 3ª feira, dia 5 de Março, para apaziguar as delícias gourmet do jogo com o grande FCP  – sublinho: a grandeza dos nossos adversários só aumenta a grandeza das nossas vitórias. Espero que hoje, ao começo da noite, na Catedral, João Félix volte a oficiar. Qual espero: tenho a certeza!

félix

Dá cá mais cinco

O miúdo a que a nação benquista chama João Félix, tem um metro e 80, que acompanha com a elegância de 64 quilos. O estudo anatómico do futebolista João Félix é uma exigência científica. Tem uma anatomia interjeccional. Corre, salta, finta, esquindiva, obrigando a multidão a soltar uaus! e ohs! e uis! Marca golos de cabeça, pé esquerdo ou pé direito, como quem toma a bica. No Dragão, foi de pé direito: toma e embrulha, apesar de estar o grande Casillas na baliza.

Pode alguém que ame o futebol não apertar a mão a um miúdo com tão bons pés, cabeça, cintura, pernas, enfim, um corpo que reinventa a esplêndida alegria de jogar à bola?

aperto de mão

O pequeno pincel

Sexuelle

Eu não estava lá. Eu não estava lá na noite em que fui concebido.

Sobre esta falha, sobre essa imagem que nunca vimos e que nunca veremos, sobre a falta dessa imagem que a miríade de imagens que nos cerca e sufoca não consegue fazer esquecer, Pascal Quignard fez um livro.

Chamou-lhe “La Nuit Sexuelle” e é um livro de muitas imagens. Ia dizer que neste álbum deslumbrante prevalecem as imagens doutras noites, iguais porventura à noite fundadora a que, por impossibilidade lógica, dificilmente poderíamos ter assistido. E acrescento que nas espessas noites que as imagens de Quignard reproduzem, julgamos escutar, tementes e trementes, repulsiva e fascinadamente, o eco da imagem que jamais se revelará aos nossos olhos… “Maintenant je désire m’engloutir dans cette nuit qui d’entrée de jeu comuniqua sa couleur à ces pages.” Comunicará cor, certo, mas essa “noite sensorial”, presente embora, não é, ao longo de “La Nuit Sexuelle”, nem avassaladora, nem sequer dominante.

Livro apetecível (os olhos gostam, as mãos acariciam), nele se cruzam, tão bem reproduzidos, quadros de Caravaggio e Rubens, de Leonardo e Ticiano, de Goya e Picasso, de Regnier e Van Den Hoecke. A par de um texto minimal, deliciosa e insensatamente francês (if you know what I mean), vão correndo desenhos anónimos do sec. XV ou do séc XVII, anónimos chineses e anónimos egípcios, e desfilam também Pietás e Massacres de Inocentes, e, upsss!, há mãos que empunham falos, há ninfas empaladas e sacrifícios satúrnicos.

Quando chegamos ao fim dos 27 capítulos de “La Nuit Sexuelle”, depois do nosso olhar ter viajado por mais de duzentas reproduções de pinturas em que habitam a nudez, o crime, o voyeurismo e a carnalidade, sabemos que toda essa visualidade não nos revelou ainda a “cena invisível”, Mas sabemos (ou começamos a acreditar) que essa “cena” está na origem da pintura, tanto mais quanto, em latim, pénis (penicillus) quer até dizer “pequeno pincel”.

La Nuit Sexuelle” é o livro de uma alegria negra, como negras são, literal e graficamente, as suas páginas de couché tão suave como a pele em que, numa noite que nunca vimos, dedos se perderam, outros dedos se encontraram.

Primeiro de outros (poucos) beaux livres que gosto que sejam meus, este foi editado, com brio e farto investimento, pela Flammarion. Tem 19,5 cm de comprimento por 28 de largura. A encadernação, com sobrecapa, abriga 279 páginas gloriosas, às vezes tórridas. Custava, há 12 anos, 85€. Já só custa 27. Mas valia e vale o raio do dinheiro.

As boas leituras

miller

“Acho que deve­mos ler o tipo de livros que nos abram feri­das, que nos esfa­queiem.” Este con­ceito tão vis­ce­ral da lei­tura defendia-o Franz Kafka. Antes ou depois, com pro­pó­si­tos cer­ta­mente tera­pêu­ti­cos, Henry Mil­ler ofereceu-se como exem­plo: “As minhas boas lei­tu­ras bem se pode dizer que tive­ram lugar na casa de banho.”

Ainda me lem­bro de ouvir o, tan­tas vezes admi­rá­vel, João César Mon­teiro, dizer sono­ra­mente: “Eu quero que o público se foda!” Mais pene­trante embora, não era mais ori­gi­nal do que a ori­gi­na­li­dade de Gabriel Gar­cia Marx (per­dão, Mar­quez) ao jurar que, no fim de con­tas, todos os livros são escri­tos só para os amigos.

Con­tra­po­nho a esta teo­ria dos happy few a teo­ria das unhappy few: Agus­tina Bessa-Luís disse-me um dia, ali para os lados da Bue­nos Aires, que mui­tos escri­to­res machos se vira­vam para ela e a lou­va­vam, rema­tando com acinte: “A minha mulher é que gosta muito e lê os seus livros todos!” O tempo que eles não tinham para a ler, não o tinha dou­tra maneira o sublime e exe­crá­vel aus­tríaco Karl Kraus, cujo motto de lei­tura tal­vez fosse uma apro­xi­ma­ção à teo­ria da rela­ti­vi­dade: “Como é que vou des­co­brir o tempo para não ler tan­tos livros?”

Mais non­cha­lant parece ser V. S. Nai­pul: “Sou o género de escri­tor que as pes­soas pen­sam que as outras pes­soas andam a ler.” Mas se a sin­ce­ri­dade, a genuína sin­ce­ri­dade, ainda é uma vir­tude, con­fesso que Oscar Wilde é o meu favo­rito: “Nunca viajo sem o meu diá­rio. Uma pes­soa tem de ter alguma coisa sen­sa­ci­o­nal para ler no comboio.”

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A solidão

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Ando há seis décadas e um lustro a viver e ainda não tinha percebido. Só agora vi a autêntica religião que pode ser a solidão. Percebi isso hoje quando, da cansada vida e voz de Dolo­res Duran, se come­çou a der­ra­mar a bio­gra­fia da solidão.

Ouçam. As vas­sou­ri­nhas var­rem os pra­tos e tam­bo­res da bate­ria, mas não var­rem as lágri­mas e a retó­rica mag­ní­fica do sofri­mento. Não acre­dito que nós, homens, cheguemos verdadeiramente a com­pre­en­der o que Dolo­res canta. Nos nossos des­me­di­dos deva­neios épicos de homens, a forma como Dolo­res canta as pala­vras que ela mesma escre­veu, é uma his­te­ria irreal, um ensan­guen­tado folhe­tim.

Contaram-me que é pre­ciso que uma mulher cante e outra mulher ouça. Dolo­res Duran namo­rou os homens. Não dor­miu com todos, mas dor­miu com mui­tos. Dor­miu até, por­que amou, um gar­çon de caba­ret. Mas quando que­ria que lhe ouvis­sem as novas can­ções, cantava-as às ami­gas. Foi ao tele­fone que can­tou “ai a soli­dão vai aca­bar comigo” a outra cantora amiga, Maysa.

Maysa con­tou que ouviu, ao telefone, sublinho, e já não con­se­guiu vol­tar a falar. Cho­rou o dobro, o tri­plo do que os ver­sos de Dolo­res pare­ciam pedir, sufo­cada, estra­nha, ciente da infe­ri­o­ri­dade e da supe­ri­o­ri­dade de quem tem o segredo do romantismo.

Tom Jobim, Vini­cius, homens e artis­tas, os que “sabem o que fazem e o que dizem” che­ga­riam, mui­tas lágri­mas depois, à car­reira de mulher de Dolo­res. Que solidão! E talvez este ponto de exclamação seja só a minha forma masculina de estranhar e incompreender o que seja uma mulher ou quem foi Dolores.

Ava Gardner

Para o ano que vem, a 25 de Janeiro, diremos que passam 30 anos da morte de Ava Gardner. Actriz. Talvez deusa.

ava-gardners-costumes-Mogambo

Quando Ava Gard­ner che­gou a Hollywood, em 1940, Louis B. Mayer podia mais na MGM do que Deus-todo-poderoso no reino dos céus. Aliás, a Cri­a­ção, a Natu­reza, era imper­feita e a MGM não ti­nha outro remé­dio senão corrigir-lhe em estú­dio os defei­tos. Ava Gar­dner foi um des­ses defei­tos.

Agar­ra­ram nela, levaram-na para o Stage 15, o maior set do mundo, e fizeram-lhe o pri­meiro teste. Lee Gar­mes, um dos mai­o­res direc­to­res de foto­gra­fia de Hollywood — que o digam Stern­berg, Hawks, Mamou­lian, King Vidor ou Nick Ray —, fotogra­fou-a e, como Mayer não tinha tempo a per­der, sintetizou-lhe assim os resul­ta­dos: “Não sabe repre­sen­tar, não sabe falar. Mas é espan­tosa.”

Gar­mes era bruxo. Durante dez anos, até à “Pan­dora” de Albert Lewin, cada filme dela era rece­bido com reti­cên­cias, mui­tas reti­cên­cias e, a seguir como remate, a cons­ta­ta­ção de Gar­mes “… but she’s ter­ri­fic”.

No meio desse teste Ava dizia o nome: “Ahvuh Gahd­nah”. Nin­guém per­ce­beu. “Depois muda-se”, decla­rou Louis B. Mayer. Depois muda-se, era para todos os efei­tos o lema de qual­quer estú­dio. Mudava-se tudo. Cha­ma­vam o guarda-roupa, a carac­te­ri­za­ção e entregava-se-lhes a can­di­data. Ava Gard­ner não foi excep­ção. Fizeram-lhe tudo isso, mais uma ida ao den­tista, abriram-lhe conta, desenharam-lhe um currí­culo, deram-lhe aulas de dic­ção e de represen­tação. E Mayer preparava-se para lhe mudar o nome quando repa­rou que Ava Gard­ner era bom, per­feito até. Só que o estú­dio não podia cor­rer o risco de dar o braço a tor­cer — uma vez que fosse — no seu con­fronto com a «nature­za». E se Ava con­ser­vou a sua graça foi por­que Mayer criou a fic­ção de que o nome de bap­tismo da rapa­riga era Lucy Ann John­son, nome impos­sí­vel que o estú­dio cor­ri­gira para a sono­ri­dade har­mó­nica de Ava Gardner.

Femme fatale
Depois de tudo cor­ri­gido, den­ti­ção, cabe­los, pro­nún­cia, o estú­dio deu-lhe uma car­reira. Ou roubou-lha. Fê-la fra­cas­sar de filme em fil­me, mantendo-a em banho-maria durante dez anos. Foi pre­me­di­tado? Ou foi a prova clamo­rosa dos vícios do sis­tema?

Godard, no seu estilo afo­rís­tico, disse um dia: “O cinema não se inter­roga sobre a beleza de uma mulher; o que faz é pôr em dúvida o seu cora­ção, regis­tar a sua per­fí­dia.” A MGM e Louis B. Mayer, ofusca­dos pelo mag­ne­tismo de Ava, pro­ce­de­ram in­versamente. Fize­ram fil­mes para a ima­gem dela, que­rendo que ela fosse refém de uma única ima­gem: sex god­dess, como é óbvio. A pouco e pouco foi-se con­sa­grando o mito frí­volo de femme fatale, con­subs­tan­ci­ado em casamen­tos e aven­tu­ras que envol­ve­ram Mic­key Roo­ney, o músico Artie Shaw, Frank Sina­tra e, quando Ava se pôs a incar­nar a mulher segundo Hemingway, alguns «mata­do­res» es­panhóis.

O pre­con­ceito pre­va­le­ceu refor­çado por fil­mes medío­cres. Firmou-se a ideia, ali­men­tada com insis­tên­cia pela pró­pria, de que não sabia repre­sen­tar. Assegurava-se, por isso, que os fil­mes não per­tur­bas­sem as caracte­rísticas do pro­duto já iden­ti­fi­cado: uma be­leza felina, uma mulher ina­ces­sí­vel, um «mito que se recusa aos homens». Era para a ver assim que o público pagava, foi assim que a MGM a con­ser­vou.

Ava sobre­vi­veu, mas esteve longe de sair incó­lume. Bebia tudo o que lhe apa­re­cia pela frente, gin, vodka, tequila, rum, scotch, bour­bon, cer­veja e cham­pagne. Para não ferir sus­cep­ti­bi­li­da­des, a tudo o que enchia um copo pôs o nome macio de sham­poo. Robert Mitchum, quando con­tra­ce­na­vam em “My For­bid­den Past,” compadeceu-se e pro­cu­rou lavá-la do vício. Mas Ava nunca se con­se­guiu habi­tuar à mari­ju­ana e Mit­chum não teve outro remé­dio senão con­ti­nuar a fumar sozinho.

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Figura de reden­ção
“Se eu sou­besse repre­sen­tar tudo teria sido dife­rente… Mas tive o azar de ter esta cara foto­gé­nica.” Foi o que Ava disse a Henry King durante as fil­ma­gens de “Snows of Kili­man­jaro”.

Dei­xara já de ter razão. Em 1950, Albert Lewin filmara-a pela pri­meira vez a cores, em “Pan­dora and the Flying Dut­ch­man”. À imagem do estú­dio, arma­di­lhada por Mayer, Lewin, que tinha fama de esteta e modos de «grande senhor», opôs pela pri­meira vez a contra-imagem, fazendo-a sur­gir como uma figura de reden­ção. E, em 1953, com “Mogambo” de John Ford, ao lado de Clark Gable, Ava Gard­ner pro­vou, mais do que em qual­quer outro filme, que pode­ria ter sido tanto mais actriz quanto tivesse sido muito menos star. “Ford foi mara­vi­lhoso a diri­gir-me, a falar comigo, a fa­zer-me com­pre­en­der. Acho que é assim que ele traba­lha”, admirava-se, anos depois, Ava. E quem tenha visto “Mogambo” (e quem não viu pouco viu) re­corda-se da ines­pe­rada «pre­sença mas­cu­lina» de Ava, con­tra­ri­ando a ima­gem do «eterno femi­nino» de quase todos os fil­mes ante­ri­o­res. Richard Lippe, um crítico ame­ri­cano, notou e bem que “Mogambo” parece um filme de Howard Hawks e Ava Gard­ner uma heroína hawk­si­ana. Uma rapa­riga viril, des­pa­cha­dís­sima nos diá­lo­gos, com o estofo de quem viveu muito e guarda do pas­sado algu­mas cica­tri­zes. Quando o filme foi exi­bido, houve quem a achasse tão dotada para a comé­dia como Carole Lom­bard e Hollywood nomeou-a para o Oscar de melhor actriz, que per­de­ria para a Audrey Hep­burn de “Roman Holi­day”.

A Car­reira Numa Réplica
Esta­be­le­cida a contra-imagem e auto-exilada em Espa­nha para fugir aos padrões que Hollywood lhe impu­sera (ou que ela mesma em Hollywood se impu­sera), Ava podia agora fazer o seu pró­prio papel e dei­xar de represen­tar o papel que o estú­dio, a «sua» MGM, lhe atri­buíra. Man­ki­ewi­ecz foi buscá-la para ser a “Con­dessa Des­calça”. Tam­bém não tinha muito por onde esco­lher. Ou ela ou Rita Hayworth. Mais nin­guém, senão uma des­tas duas actri­zes, pode­ria fun­dir-se na per­so­na­gem de Man­ki­ewicz (o cine­asta favo­rito dos snobs, como lhe cha­mou gen­til­mente Truf­faut). Quando, no filme, Ava olhava para Humph­rey Bogart, que tinha o papel de rea­li­za­dor, e lhe dizia: “Acho que sou bonita, mas não quero ser esse género de star. Se eu fosse capaz de repre­sen­tar só um boca­di­nho, você ajudar-me-ia a ser uma boa actriz a sério?” ela estava só a con­ver­ter toda a sua car­reira a uma réplica.

Desse drama deu conta Cukor, depois de a diri­gir em “Bhowani Junc­tion”: “Era extre­mamente inte­li­gente. Exerce uma grande fas­cí­nio, mas está assom­brada pelo deses­pero. É uma mulher domi­nada pela fatalida­de. Não está de boas rela­ções con­sigo mesma e, entre outras coi­sas, considera-se uma má actriz. No meu filme ela tinha algu­mas ma­ravilhosas cenas eró­ti­cas… Lavava os den­tes com whisky, de uma maneira muito ordiná­ria e muito exci­tante. Mas foi tudo cor­tado pelos cen­so­res.”

Por causa de Ava Gard­ner a crí­tica fran­cesa pro­du­ziu tone­la­das de prosa maiús­cula e meta­fí­sica. Desde o Mito, ao Eterno Femi­nino, pas­sando pelo Mis­té­rio, Enigma e Esfinge, sem esque­cer o Fan­to­má­tico e o Fugi­dio. Edgar Morin, Ber­trand Taver­nier, Jac­ques Siclier e Ado Kyrou, entre outros, dis­se­ram da sua assom­bra­ção. Por mim, pre­firo a desas­som­brada decla­ra­ção de Cukor. Nela se per­cebe melhor como é que Hollywood tan­tas vezes se auto­blo­queou, por infle­xi­bi­li­dade de estra­té­gia, e como é que, por detrás de cada ima­gem de gla­mour pode haver a contra-imagem rebelde que, com a cum­pli­ci­dade de Cukor, Ford e Man­ki­ewicz, Ava Gard­ner fez, afi­nal, pre­va­le­cer como sua der­ra­deira imagem.

MOgambo

A corda ao pescoço

 

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A multidão exulta com a morte dos outros. Em Paris, na Place de Grêve, até ao século XVIII, a multidão festiva ululava por mais condenados. É daí, dessa multidão ociosa, desempregada e de mãos nos bolsos, que vem, em ínvia etimologia, a palavra greve. O último poeta que essa multidão gulosa e gourmet viu arder foi Claude Le Petit, condenado à fogueira, por ter escrito um voluptuosamente obsceno “Bordel das Musas”. No sul, no infame e fascinante sul da América, a multidão de brancos vinha ver os enforcados negros, esses estranhos frutos pendurados das árvores, que a suave brisa balançava, e que Billie Holliday cantou, convertendo a dor em apelo sublime.

o-bordel-das-musas

Nunca tive cordas à volta do pescoço. Um dia, na adolescência luandense, ensaiava com o meu amigo Nelinho a defesa para um gancho da esquerda, mas ele veio-me com um uppercut que me apanhou a pecaminosa maçã de Adão. Cuspi Eva e cuspi fininho durante dois minutos que me souberam a angústia e a eternidade. Era isso que eu gostaria de contar, compreensivo e solidário, a John Babbacombe Lee, se tenho estado com ele a 23 de Fevereiro de 1885, quando a lei e ordem inglesas o iam enforcar.

John Lee olhar-me-ia com a mesma indiferença com que vexou o juiz que o condenou à morte na forca. Lee era um quebra-gelos de indiferença e isso deixou perplexo o juiz. John Lee, por uma vez, não foi parco em palavras: “Se estou calmo, é porque acredito em Deus e sei que estou inocente.” Olhai as aves dos céus, olhai os lírios do campo! Não cuida o Senhor deles, sem que precisem de semear e ceifar? Eis o que pensava o pré-enforcado John Lee, eis o que eu devia ter a coragem de pensar. Adiante.

 John Lee já caminha ao lado do carrasco, o honesto cidadão James Berry. Chegam ao cadafalso e Berry pergunta ao condenado se tem uma última declaração. “Despache-se, abra lá o buraco”, corta cerce John Lee. Berry, meio enxofrado, puxa a alavanca. A plataforma devia abrir-se para que Lee caísse por ali abaixo até a corda prender e o brutal esticão lhe quebrar a cervical, provocando a fatal ruptura da espinal medula, e mandando assim o condenado para as profundas do inferno. Pois sim, não se sabe se foram as aves do céu ou os lírios do campo, mas a plataforma emperrou e John Lee não saiu do sítio: podemos até ouvir o burburinho de decepção da odiosa assistência.

Lee regressou à cela. Berry e os prestáveis ajudantes reviram todo o mecanismo, olearam, sopraram o grão que atravancava a engrenagem. Tudo perfeito. Era mesmo o melhor patíbulo que o Reino Unido da Grã-Bretanha já teve antes do Brexit. Foram buscar de novo John Lee.

Ele veio, com a mesma olímpica indiferença. Já não lhe pediram declarações, apertando-lhe logo a robusta corda à volta do pescoço. Um silêncio de John Cage (desculpem a referência culturalista) avassalou o pátio da prisão de Exeter, mesmo todo o condado de Devon. James Berry, carrasco conceituado, puxou a alavanca. E aqui eu tenho de pedir a Ginger Baker, o melhor baterista de sempre, que faça um rufo. Movo-me eu? Assim se imoveu a plataforma do fabuloso patíbulo. Os estrados de madeira ficaram trancados como se fossem de granito.

Acelero: Lee voltou terceira vez. Berry voltou a puxar a alavanca, mas a mão de um irónico Deus – ah, se Deus estava num daqueles dias! – de novo impediu que se espatifasse a espinal medula de Lee.  A lei inglesa é clara: após três tentativas falhadas proíbe-se a execução do condenado. Lee, acusado de matar à facada a sua velha patroa, foi condenado às delícias da prisão perpétua.

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John Lee

Publicado na minha coluna Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo, no Jornal de Negócios

Um mundo perfeito

La-Chinoise

Acompanhei e bebi bicas angolanas com quem queria um mundo perfeito. Traziam o poder na ponta de uma espingarda, no bolso um pequeno livro vermelho. Numa coisa não mudei: o que eu sonho ainda hoje com um mundo perfeito! E também não mudei noutra coisa: não sabia então e ainda menos sei hoje, como se faz um mundo perfeito.

Mudei, e mudei muito, numa coisa: tenho medo, muito medo, dos que afirmam saber como se faz um mundo perfeito. Têm sempre uma teoria refulgente, não cabem lá é as pessoas e a vida das pessoas. Prometem deitar fora a água do velho banho. Com tanta devoção teórica, que deitam fora o bebé com a água do banho.

Bica Curta, publicada no CM, na semana passada

A fome é uma arma

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Mais insustentável do que a leveza do ser é o peso da fome. Na Venezuela, o insustentável peso da fome é ditado pela decisão dos homens. Há fome porque um homem quer que haja fome. É insustentável a fome ser arma política.

Maduro herda numa velha tradição revolucionária. A arma cega da fome tem uma genealogia tão distinta como infame: usou-a Lenine, massacrando milhões de soviéticos, só aceitando reduzida ajuda internacional, e foi usada pelo velho Mao na China. Arma cega, a fome? Não. Maduro tem meios. Usa-os como cenouras a distribuir só aos que, caninos, o sigam. A barbárie é móvel, tanto vem da direita como da esquerda.

Bica Curta, publicada no CM, há duas semanas