Navegar é preciso

Já não tenho 20 anos, nem em cada perna. Mas vem-me, de vez em quando, sei lá a que perna, o vigor ou a saudade dos 20 anos. E volto a ver tudo rubro, umas cores do caneco, cheiros de pólvora, rasgões de aurora, líquidas noites de fogo.

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Com a devida vénia, foto do maior fotógrafo que o Lobito já teve, o pai Quitos. E um abraço ao filho, meu amigo desses tempos distantes

Navegar é preciso

Nem toda a convulsão extravagante que nos agita o corpo é sexo. Eu, por exemplo, se navegar é fugir, queria fugir. Tinha 20 anos e estivera, pela primeira vez, alguns meses em Portugal. Antes, a minha vida resumira-se à colonial Angola é nossa. Angola e Luanda tinham sido minha mãe, meu pai. Mas por muita muxima ué que me incendiasse a alma, agora, aos 20 anos, mais do que para a desejada independência de Angola, o 25 de Abril empurrava-me para a fuga.

Caía o cacimbo de 1974 e eu queria era ser independente sozinho, independente de tudo, da família, da antiga pátria, da nova pátria, pátria que pariu, eu queria era a aventura de um barco, navegar é preciso, um lugar do mundo fora do meu mundo. Não sei o que se chama a este ardor – parece que estás parvo, era a efusiva reacção dos amigos inimigos. Só queria, clandestino, fugir dali.

Foi no Lobito, o maior porto da costa ocidental de África. Havia barcos americanos e barcos jugoslavos, navios de carga, cargueiros de Lord Jim. E havia tascas sórdidas com suavíssimas putas rouxinol e as árduas putas urubu. Os meus 20 anos rondavam desagradecidos. Era o 25 de Abril e eu, em vez da utopia, queria a atopia, uma ilha dos mares do sul, um quarto lírico numas águas furtadas em Montmartre.

Não sei o que foi. O que primeiro me mudou de regime talvez tenham sido os sonhos servidos à sobremesa na pensão da Dona Rosa, encostada à entrada norte do cais. Tivesse Marcel Proust metido à boca um destes sonhos húmidos – molhados, se o rigor ainda tiver valor literário – e a Recherche teria catorze e não sete volumes. A cada dentada – três por sonho – eu lembrava-me da casa paterna de Luanda, dos amigos e amores da Vila Alice. Prendeu-se-me uma perna e cada vez fugia menos.

Ou talvez tenha sido a paixão da educação. Pediram-me para dar aulas de literatura no liceu. Havia uma vaga – tantas vagas houve naquela altura e é tão bom ir de vaga em vaga. As aulas, alunas quase da minha idade e, cantigas de amigo, cantigas de amor, versos de monangambé, prendeu-se-me a outra perna e deixei de querer fugir.

Lembro-me, e não é das piores coisas de que me lembro: dentro do meu corpo a convulsão extravagante sublimou-se em Revolução. Fiz comícios, estive à beira de levar a maior carga de porrada da minha vida no glamour pequeno-burguês do Chá Para Dois, promovi a insurreição estudantil, voltei ao Chá para Dois para rastejar escapando ao fogo cruzado, tiros e granadas, entre o éme e o galo negro, fiz noites de vigia no mar alto num barco de investigação oceanográfica.

Trinta por uma linha, tantas ou tão poucas fiz, que um transitório ministro angolano, farto de que uns putos brancos lhe gritassem o que nunca o ouvido do toucinho escutará da língua de Maomé, me chamou para me dizer rigorosamente isto: “Vocês só vieram cá fazer merda. O povo já está a ficar fodido convosco. Pago-te as malas e expulso-te para o Puto.”

Logo quando que eu já não queria fugir. E o povo? Estava ou não estava o que disse o ministro?

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20 anos ou o ponto de fuga