A praia deserta

ursula

Não, desta vez não se atrevam a espetar o dedo no peito da minha subjectividade. É estarrecedor de objectivo: tive um fim de adolescência de praia deserta. Privilégios coloniais. Das terras do fim do mundo, António Lobo Antunes escrevia cartas de amor e guerra para que eu andasse de caiaque entre os mangais, a meio caminho entre Luanda Sul e a foz do dolente Kwanza.

Antoine Doinel, o herói recalcitrante de “400 Coups”, filme de Truffaut, foge da casa de correcção e molha as calças numa correria louca pela praia de Villers-sur-Mer, na fímbria normanda da França. Antoine só não morre gelado por lhe ferver no peito o amor a Balzac.  Pouco amor é lá agora amor! Fervia-me também no peito o desalmado amor a um poema, a um filme. Enquanto me diziam que em Portugal havia filas de gente nas arribas à espera de Sebastião, eu esperava, nesse Verão colonial, que começou em 69 e acabou em 70, que Ursula Andress emergisse venusiana, com aquele empolgante bikini 007, mais castanho navajo white do que amarelo caqui.

Deixe-me, leitor, abraçá-lo e escorregar por si abaixo em chorada confissão: pobre a vida humana que não tem um filme ou romance de peito a aquecê-la! Mas mais pobre ainda é o livro lido por quem não tem uma vida a ferver-lhe nas veias.

Foi nessas praias, a que nunca chegou Ursula Andress, que livros e filmes se me entranharam na alma decotada, mas a escaldar, que então tinha. Misturavam-se com as noites de fogueiras cantadas a somos filhos da madrugada pelo bando católico progressista a que pertencia, a fresca sede de amor a fazer com que no estreito banco onde jamais caberia um, se encaixasse o desejo equilibrista de dois. Obrigado, bom Deus, pelo catolicismo tropical e por tão circenses pecados.

Fim de confissão. Recomponho-me. O que lhe queria dizer, estimado leitor, é que a emoção é o sangue da arte. Saboreie a beleza – a beleza da praia de Thomas Mann revista por Visconti; a beleza da praia em que o louco Pierrot e Anna Karina se desenterram da areia; a beleza da praia que os helicópteros de Coppola enchem de Valquírias e napalm. E tenha medo – a insubstituível experiência estética anda ameaçada. A esquerda e a direita sempre quiseram pô-la de serventia. A teoria académica, de tão correctiva, quer, sôfrega, domesticá-la.  Mil vezes a praia deserta.

Navegar é preciso

Já não tenho 20 anos, nem em cada perna. Mas vem-me, de vez em quando, sei lá a que perna, o vigor ou a saudade dos 20 anos. E volto a ver tudo rubro, umas cores do caneco, cheiros de pólvora, rasgões de aurora, líquidas noites de fogo.

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Com a devida vénia, foto do maior fotógrafo que o Lobito já teve, o pai Quitos. E um abraço ao filho, meu amigo desses tempos distantes

Navegar é preciso

Nem toda a convulsão extravagante que nos agita o corpo é sexo. Eu, por exemplo, se navegar é fugir, queria fugir. Tinha 20 anos e estivera, pela primeira vez, alguns meses em Portugal. Antes, a minha vida resumira-se à colonial Angola é nossa. Angola e Luanda tinham sido minha mãe, meu pai. Mas por muita muxima ué que me incendiasse a alma, agora, aos 20 anos, mais do que para a desejada independência de Angola, o 25 de Abril empurrava-me para a fuga.

Caía o cacimbo de 1974 e eu queria era ser independente sozinho, independente de tudo, da família, da antiga pátria, da nova pátria, pátria que pariu, eu queria era a aventura de um barco, navegar é preciso, um lugar do mundo fora do meu mundo. Não sei o que se chama a este ardor – parece que estás parvo, era a efusiva reacção dos amigos inimigos. Só queria, clandestino, fugir dali.

Foi no Lobito, o maior porto da costa ocidental de África. Havia barcos americanos e barcos jugoslavos, navios de carga, cargueiros de Lord Jim. E havia tascas sórdidas com suavíssimas putas rouxinol e as árduas putas urubu. Os meus 20 anos rondavam desagradecidos. Era o 25 de Abril e eu, em vez da utopia, queria a atopia, uma ilha dos mares do sul, um quarto lírico numas águas furtadas em Montmartre.

Não sei o que foi. O que primeiro me mudou de regime talvez tenham sido os sonhos servidos à sobremesa na pensão da Dona Rosa, encostada à entrada norte do cais. Tivesse Marcel Proust metido à boca um destes sonhos húmidos – molhados, se o rigor ainda tiver valor literário – e a Recherche teria catorze e não sete volumes. A cada dentada – três por sonho – eu lembrava-me da casa paterna de Luanda, dos amigos e amores da Vila Alice. Prendeu-se-me uma perna e cada vez fugia menos.

Ou talvez tenha sido a paixão da educação. Pediram-me para dar aulas de literatura no liceu. Havia uma vaga – tantas vagas houve naquela altura e é tão bom ir de vaga em vaga. As aulas, alunas quase da minha idade e, cantigas de amigo, cantigas de amor, versos de monangambé, prendeu-se-me a outra perna e deixei de querer fugir.

Lembro-me, e não é das piores coisas de que me lembro: dentro do meu corpo a convulsão extravagante sublimou-se em Revolução. Fiz comícios, estive à beira de levar a maior carga de porrada da minha vida no glamour pequeno-burguês do Chá Para Dois, promovi a insurreição estudantil, voltei ao Chá para Dois para rastejar escapando ao fogo cruzado, tiros e granadas, entre o éme e o galo negro, fiz noites de vigia no mar alto num barco de investigação oceanográfica.

Trinta por uma linha, tantas ou tão poucas fiz, que um transitório ministro angolano, farto de que uns putos brancos lhe gritassem o que nunca o ouvido do toucinho escutará da língua de Maomé, me chamou para me dizer rigorosamente isto: “Vocês só vieram cá fazer merda. O povo já está a ficar fodido convosco. Pago-te as malas e expulso-te para o Puto.”

Logo quando que eu já não queria fugir. E o povo? Estava ou não estava o que disse o ministro?

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20 anos ou o ponto de fuga

Sonho e tempo, tempo e sonho

Las Viejas
Goya, Las Viejas – uma interpretação do tempo?

Talvez a vida não seja mais do que sonho, talvez a nossa pequena vida esteja cercada, apenas e só, por um redondo sono.

Prefiro pensar que, mais do que a matéria com que se constroem os sonhos, é o tempo a substância de que todos somos feitos. Um tempo irreversível e inexorável.

Podemos sonhar, pode o sono obscuro invadir-nos, o que não podemos é negar o tempo. Negá-lo é negarmo-nos.

Por vezes é lícito trocar Shakespeare por Borges.

We are such stuff
As dreams are made on; and our little life
Is rounded with a sleep.
(Nós somos essas coisas
de que são feitos os sonhos; e a nossa pequena vida
está rodeado de sono.)

Shakespeare, The Tempest

El tiempo es la sustancia de que estoy hecho.
El tiempo es un río que me arrebata, pero yo soy el río;
es un tigre que me destroza, pero yo soy el tigre,
es un fuego que me consume, pero yo soy el fuego

(O tempo é a substância de que sou feito.
O tempo é um rio que me arrebata, porém sou eu o rio;
é um tigre que me destroça, porém sou eu o tigre;
é um fogo que me consome, porém sou eu o fogo.)

Borges, Otras Inquisiciones