os homens, esses deuses

The lone Man
Nabin Mulepati, Homem sozinho

Shakespeare, o do retrato que ontem aqui trouxe e ali em cima plantei, pode ser que seja só um “nome emprestado” a uma obra – a hipótese de que as suas inúmeras peças sejam da autoria de um outro Shakespeare ou, numa hipótese plural, de outros Shakespeares, converte-o, afinal, na sublime personagem de uma inimitável “comédia de enganos”.

Mas há mais. É provável que Homero não tenha existido e que a Ilíada e a Odisseia, obras fundadoras, sejam também obras órfãs. Sócrates, infatigável voz falante dos diálogos de Platão, mesmo que tenha existido, não escreveu uma linha, o que deixa o célebre “conhece-te a ti mesmo” desesperadamente à procura do “seu” sujeito.

Já sei, já sei – vão também lembrar-me que Jesus Cristo não terá sequer existência histórica reconhecida e que Maomé, o áspero e arrebatado profeta, não escreveu, não ditou e não se reconheceria, nem nas 92 suras que dizem ter-lhe sido reveladas em Meca, nem tão pouco nas 22 que os céus só lhe mostraram em Medina.

Não é estranho que tenhamos construído tanta civilização em cima de “figuras ausentes”? Ficção em cima de ficção, fantasmas em cima de fantasmas? Ninguém se atreveria a censurar aos humanos que tenham inventado os esplêndidos deuses. Mas que tenham também inventado os humildes inventores dos deuses, num inverosímil labirinto ficcional, será que nos obriga ao mais feroz cepticismo?

Um dia, o meu amigo Pedro Norton pôs na ordem este meu exacerbado gosto pela deriva sobre a deriva e disse-me com aquela veemência que acaba com qualquer discussão: “Não vejo onde está a dúvida metafísica, Manel. Foram os deuses que inventaram os inventores dos deuses para que estes os pudessem inventar a eles. Cristalino, não é?”

Andei um ou dois anos a ruminar, com um ressentimento anti-girardiano. Respondo-lhe hoje: “Claríssimo Pedro. Ou melhor seria se não tivessem sido os humaníssimos inventores dos deuses a inventar as potestades para que a seguir os deuses, humildemente, os re-inventassem a eles!”

E lá me volta a metafísica inquietação…

o retrato de Shakespeare

Cobbe_portrait_of_Shakespeare

 

É ele. É este. A imagem acima reproduz um dos sete retratos de Shakespeare (1546-1616) que especialistas e museus discutem ter sido pintados durante a sua vida. Para sermos matemáticos, este teria sido pintado 6 anos antes da sua morte. Testa alta, nariz recto, olhos escuros e rasgados, a boca a que o inverno de Stratford-upon-Avon deu um toque de rouge, são estes os traços do autor de Hamlet e da Tempestade.

Os raios X e as imagens de infra-vermelhos dos experts foram conclusivos e não nos deixam mentir. Ou melhor, deixam. Há uma especialista de século XVII que garante ser este um retrato de um poeta cuja morte, por mão criminosa, agitou o seu tempo, com um escândalo tablóide de verter sangue pelas pedras da calçada.

Mas que seja Shakespeare. Gosto da cara dele – mais jovem do que os 64 anos que já teria – acho, enfim, que tem boa pinta. Devemos-lhe um mundo e o teatro desse mundo. Mas quantos, como diz Borges, não tiveram de matar o seu rei para que ele pudesse escrever Hamlet ou Macbeth?

Sonho e tempo, tempo e sonho

Las Viejas
Goya, Las Viejas – uma interpretação do tempo?

Talvez a vida não seja mais do que sonho, talvez a nossa pequena vida esteja cercada, apenas e só, por um redondo sono.

Prefiro pensar que, mais do que a matéria com que se constroem os sonhos, é o tempo a substância de que todos somos feitos. Um tempo irreversível e inexorável.

Podemos sonhar, pode o sono obscuro invadir-nos, o que não podemos é negar o tempo. Negá-lo é negarmo-nos.

Por vezes é lícito trocar Shakespeare por Borges.

We are such stuff
As dreams are made on; and our little life
Is rounded with a sleep.
(Nós somos essas coisas
de que são feitos os sonhos; e a nossa pequena vida
está rodeado de sono.)

Shakespeare, The Tempest

El tiempo es la sustancia de que estoy hecho.
El tiempo es un río que me arrebata, pero yo soy el río;
es un tigre que me destroza, pero yo soy el tigre,
es un fuego que me consume, pero yo soy el fuego

(O tempo é a substância de que sou feito.
O tempo é um rio que me arrebata, porém sou eu o rio;
é um tigre que me destroça, porém sou eu o tigre;
é um fogo que me consome, porém sou eu o fogo.)

Borges, Otras Inquisiciones