Futuro, funerais e sonhos

picasso
Pablo Picasso, do período azul

Estas foram as Bicas Curtas que servi no CM, corriam os dias 24, 25 e 26 de Março. Mau grado a velocidade a que anda hoje o mundo, não retiro nem uma vírgula ao que disse.

O futuro emergente

Há duas coisas abomináveis. Ou melhor, abominável é explorar este cataclismo para açambarcar e inflacionar bens essenciais. Mas, se não é abominável é, pelo menos, populista, arrancar desta catástrofe ilações ideológicas prematuras, divisionistas e culpabilizantes, seja para atacar a direita ou a esquerda.

Uma inquietação: quem será capaz de dar à humanidade que somos um farol depois da crise. A China e a sua ditadura? Uma outra América, que não a deste Trump paroquial, desconexo e abdicacionista? Conseguirá a Europa ser a referência solidária, cultural e económica que um novo tempo de desenvolvimento, ciência e bem-estar precisa?

Chorar os nossos mortos

Há, na dor dessa belíssima Itália, na implacável ceifa de morte a que o vírus a submeteu, um aspecto que a todos nos choca e desanima: os mortos vão a enterrar sozinhos, sem ritual religioso ou civil. É um enterro secreto, escondido. Ninguém assiste, ninguém se despede, cônjuges, filhos, netos, amigos ou vizinhos. Não é só a cremação solitária, é o facto de ninguém fazer o luto, de ninguém poder chorar os seus mortos.

Não poderemos, em Portugal, evitar os nossos mortos, mas temos de lutar e ajudar para que, nesta peste, não cheguemos ao ponto em que nem a um funeral possamos assistir. Ficar em casa é uma forma de luta, uma boa ajuda.

Tive um sonho

Quantos sonhos destruirá o covid 19? Que alegrias adolescentes não roubou já aos nossos miúdos? Com que angústias inesperadas não assombrou já os nossos velhos? Esse é o efeito do presente. E o do futuro? Por quantos anos pesará o choque sobre as empresas e os negócios? Quanto se reduzirá o salário com que se paga o pão de cada dia?

Sonho com uma resposta mundial para a saída desta crise. Uma economia aberta, desenvolvimentista, global, sem a clausura paroquial que faria de cada país uma aldeia salazarenta. E sonho com um sistema de saúde mundial, com um investimento brutal na ciência e nos meios de ataque às próximas pandemias.

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