Vidas de perigo, vidas sem castigo

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Tarkovski ensinou-nos que o risco é o melhor do beijo

É a humildade que faz o futuro. A ambição é quase sempre um pneu furado. O meu futuro começa agora e eu, como prometi, venho dizer. A partir de agora, passo a escrever no grupo Cofina.

Às sextas-feiras, no Jornal de Negócios, quem ler a última página do Weekend, vai encontrar uma coluna com o título “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo“. Escrevo-a eu. Prometo contar vidas, situações e episódios insólitos ou de alto risco, para não falar, porque é só disso que vou falar, de fraudes, aventuras e embustes. Actualíssimas coisas do passado que se misturam com anacrónicas coisas do presente. Uma vez por semana, sempre à 6ª feira.

Mas há mais. À 3ª, 4ª e 5ª feira, na última página do CM (sim, o Correio da Manhã), vou servir uma “Bica Curta“. Três micro-crónicas sobre um drama, um sorriso, uma fúria, um esgar de tristeza do quotidiano.

E agora, pedia a todas as pessoas que saíssem para eu poder ficar só consigo. Já saíram? Vou contar-lhe um segredo. Há muito tempo que não partia com tanto optimismo e vontade para uma nova aventura. No Negócios, oferecem-me o espaço perfeito da crónica. No CM, o desafio das micro-crónicas tem a mesma exigência que se pede, na guerra, a atiradores de elite. Coitado de mim.

Tenho total liberdade de escrita e posso escrever com a ortografia em que aprendi a língua portuguesa. Estarei eu à altura do desafio? É a humildade que faz o futuro e eis o quero dizer: todas as condições me foram dadas, está nas minhas mãos, e só nas minhas mãos, escrever ou não o “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo” e a “Bica Curta” com  emoção, lúdica inteligência e um módico de paixão. Não sei, porque não sei mesmo, se serei capaz.

cmnegócios

 

O futuro é o passado a expandir-se

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a eternidade de Borges

Julgamos saber que não podemos banhar-nos duas vezes nas mesmas águas do rio que passa, da mesma forma que fingimos ignorar que só há um caminho que é e não pode não ser, pois o que não é e é forçoso que não exista é um caminho impensável. Ao imparável rio que flui e à esplêndida e imóvel eternidade une-os a mesma substância física, o mesmo mistério metafísico: a natureza do tempo.
O tempo corre, o tempo foge. Há essa ideia de que o tempo se dirige para a frente e nos leva para o futuro. Temo — e o plotinano primeiro capítulo da Historia de la Eternidad, de Jorge Luis Borges, instiga a suspeita – que seja outro o movimento do tempo, que seja mais nostálgica e heterodoxa a natureza desse fluxo.
Agora que todos nos interrogamos sobre o futuro da Europa, sobre o futuro das democracias e sobre o futuro do planeta, passo ligeiro, e em branco, pelas razões cívicas que a todos nos atormentam e imagino que não há mesmo futuro. Desgraçadamente, acolho a ideia com insensato optimismo.
O beijo que te dou, o generoso decote com que te insinuas, a fúria que te faz explodir em soluços, são actos que têm um só sentido: consolidar o passado. Não há futuro. O presente, se é que o presente chega a ter densidade ontológica, serve apenas para actualizar ferreamente o tempo que foi e que, por ter sido, não pode não ser. O sonhado e mitológico amanhã que canta é, ainda e outra vez, uma forma subtil de o passado se expandir, como se expande a tinta que tinge de vermelho, numa prosaica máquina de lavar, a branca camisola de lã.
O futuro? Que lástima! Encosto-me à móvel e milenar ombreira do tempo que corre e foge. Só vejo, e consola-me, a firme e progressiva expansão do passado, belíssimo labirinto que desemboca na eternidade.

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o tempo de Salvador Dali

Deixem-me ler-vos a sina

Temos um futuro inteiro à nossa frente. É da sua natureza ser desconhecido. Porém, queremos saber. Queremos adivinhá-lo, antecipá-lo, controlá-lo. É um momento patético e inocente, mas a verdade é que ninguém resiste a tentar adivinhar o futuro e sobretudo um futuro menos punitivo.

La tour

No tarot, nos búzios, no mais simples horóscopo. Somos como o cavaleiro que Georges de La Tour pintou nesta cena diurna e realista, nos antípodas da mínima luz das velas com que, noutros quadros, iluminou as mais negras noites.

Também nós, como o jovem nobre desta pintura de La Tour, nos entregamos, confiantes, à “diseuse de la bonne aventure”. Tudo, no quadro, parece tão claro. E nada poderia ser mais obscuro. Basta passar do geral ao particular.

Há olhos que vigiam.

La diseuse

Há mãos engenhosas que trabalham.

les mains

Há mãos que desenham a subtil arte de furtar

Les_Mains

Falso ou verdadeiro, discussão que entretém os especialistas, poderá um quadro de 1632 continuar a ser a parábola feroz de um futuro que, de tão vigiado, a nós mesmo roubamos?