Deus vende

Bica Curta publicada no CM na 5ª feira, dia 7 de Março

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Deus vende

Einstein, o físico da teoria da relatividade, escreveu uma carta a um filósofo judeu, criticando um livro que lera. O livro, “Escolhe a Vida: O Apelo da Bíblia à Revolta”, propunha que o judaísmo fosse a base de uma nova moral altruísta.

Na carta, Einstein rejeita esse papel do judaísmo e das religiões, que considera superstições primitivas. Diz: “a palavra Deus é apenas a expressão e o produto da fraqueza humana”. A chamada “carta de Deus” foi vendida em leilão da Sotheby’s por três milhões de dólares. Afinal, Deus vende e a superstição vale o seu peso em ouro. Ah, a fortuna que eu ganhava se Deus tomasse comigo a bica curta.

Deus não pode matar-se

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Ao criar Deus, à sua imagem, mas à sua dissemelhança, o homem conferiu-lhe um conjunto de atributos essenciais e únicos, tão extravagantes como aterrorizadores. Elejo, entre outros, a omnipotência, a omnisciência e a omnibenevolência. Para que seja consistente a narrativa romanesca e filosófica com que os humanos Lhe cantam a biografia, os atributos divinos têm de revestir necessidade lógica e resistir ao desafio infame do paradoxo. Feito o exercício, é notório que exagerámos largamente pelo menos um dos atributos de Deus, o da sua omnipotência.

Por exemplo, Deus não pode matar-se. Cada um de nós pode, se assim o entender e for oportuno, suicidar-se. Deus não: a arbitrariedade do gesto negaria a Sua eternidade. Ao que acrescem razões morais: Deus não se pode matar porque o pecado Lhe é interdito. Fomos aliás tão mesquinhos ao criá-Lo que, não Lhe conferindo essa suicidária, ou até eutanásica, autonomia, chegámos ao ponto de O diminuir autorizando-nos a prerrogativa de O matarmos nós – um alemão, Friedrich Nietzsche, foi o seu mais patético e minucioso executor, no final do século XIX.

Mas há mais. Há outro impoder a beliscar a omnipotência divina. Deus não pode fazer que quem viva não tenha vivido. Estaline ou Mao-Tsé-Tung, a coberto da espúria liberdade do relativismo, deleitaram-se com a manipulação do passado, apagando vidas e reescrevendo a história. É um poder reservado aos humanos: apagar alguém da fotografia, que é como quem diz, da História. Deus está, nesse aspecto, de mãos atadas: negar existência a quem existiu seria mentir, matéria em que Deus, por lógica, metafísica e ética, é incompetente. A omnipotência divina aplicar-se-á ao presente e ao futuro (com a excepção da possibilidade de se matar), mas não se aplica ao passado.

Deus é uma possibilidade que criámos numa noite de insónia. Oferecemos-Lhe a eternidade para que Ele a viva, minuto a minuto, como um infinito pesadelo.

(Divagação melancólica e livre sobre excertos da “História Natural”, de Plínio, filtrados por “Porquê Ler os Clássicos?” de Italo Calvino, e sobre os artigos “Divine Atributes” e “Paradoxs of Omnipotence” do “The Cambridge Dictionary of Philosophy”)

A porta do paraíso

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Se aos 20 anos, no escuro do cinema, quisesse deslizar a mão acima do joelho, por baixo da tua saia, não te levaria a ver, de Terrence Malick, “Tree of Life”.

É um filme complicado e simples. Filma a infância de três miúdos, pai e mãe, no Texas dos anos 50. Filma-lhes o medo e a alegria, vida e morte. Nos filmes habituámo-nos a que a vida faça sentido. Neste, o sentido das personagens não cabe nem se resolve na vida deles. Mas é um filme belo e simples como a mão sobre a redonda doçura de um joelho.

“Tree of Life” tem sede e fome de sentido: sede cósmica; fome metafísica. Não lhe basta filmar uma família. Filma – como o Kubrick de “2001”, dirão e mentem – a origem delirante de céu e terra, a luz bruxuleante, quase nada, onde começámos (que é o nada? o que é começar?) até à obscena explosão de vida a que chamamos natureza. É um turbilhão exaltante, mas já não é tão simples: tiro a mão, retrais o joelho.

Repito: a matéria de “Tree of Life” é o sentido. A de “Apocalypse Now”, lembram-se, era o rio; a de “Eyes Wide Shut” a impotência. Malick filma o infilmável: o sentido da vida, da dor, da felicidade. Aceitemos a ilusão de que o centro do filme é Jack, o irmão mais velho. Jack diz palavras terríveis à ausência de sentido. Trata-a por Tu maiúsculo e, quando procura a graça, sufocado de fé como Job na Bíblia, diz-lhe “Quem somos nós para Ti?” Mas o que deveria perguntar é “Sem Ti, o que é que nós somos para nós?” O silêncio desse invisível Tu, Deus talvez, é pavoroso e o vazio deste “pedaço” de filme é de uma espantada complicação.

“Tree of Life” não conta uma história. Malick começa a filmar as suas personagens onde “East of Eden” ou “Rebel Without a Cause” as deixaram nos anos 50. Elia Kazan e Nicholas Ray já tinham contado as histórias de amor e ódio ao pai, desejo da mãe, mortais ciúmes de um irmão. Malick filma sobre as ruínas e fragmentos desses “clássicos”: exibe o cruel tiro dum irmão no dedo doutro irmão, mostra o nariz do rapaz que cheira e acaricia e lingerie da vizinha. Filma o perplexo Sean Penn como se o presente dele fosse uma mão e o passado lhe escorresse pelos dedos entreabertos. Presente que o passado infecta de sentido.

“Tree of Life” precisa da cara amargurada do pretensioso Sean Penn para nela desaguarem as cenas familiares dos anos 50, troços de home movie em que até a felicidade é filmada com a aura da infelicidade. Mas glória de “Tree of Life” é a cara de Brad Pitt, pasmosa criação de pai abraâmico, e é a cara de Hunter McCraken, o miúdo que, no belíssimo desenho da infância de Jack, desenha a nostalgia da inocência e a patética vontade do paraíso. Ou não fosse a porta do cinema a porta do paraíso a que se acolhe uma mão, a lisa pele de um joelho.

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