Quando um homem ama uma mulher

O que me dava jeito é que antes de lerem a prosa que se segue, tivessem visto o filme “A Perfect World”, realizado por Clint Eastwood. Os dois personagens da minha crónica são Butch (Kevin Costner), um bandido suave, e Buzz, um miúdo adorável, que não há-de ter nunca mais de sete anos.

A Perfect World

“Tu ama-la?” Vão no carro, Butch ao volante, Buzz enfiado no fato de Casper, o fantasminha feliz. Butch ainda tenta uma digressão distractiva: “Quem?” Mas a curiosidade de Buzz é obstinada e infantil: “A senhora que nos cozinhou os hamburgers…” E como é que se explica a uma criança quando é que um homem ama uma mulher.

Butch e Buzz saíram a correr de uma espelunca de estrada, como a correr saem de todos os lugares em que entram depois de um pequeno golpe de destino os ter juntado.

Butch, presidiário em fuga, talvez fosse um tipo capaz de fazer o bem a toda a gente se soubesse como fazê-lo. Não se priva: faz o mal sempre que é preciso.

Buzz tem oito anos e nunca comeu algodão doce. A mãe, seca e solitária testemunha de Jeová, não consente e também não o deixa andar na montanha russa. Buzz dormia quando Butch e o criminoso que com ele fugiu da prisão lhe entraram em casa. Corre mal a invasão, como correrá tudo mal neste filme que de tudo correr tão mal tira a sua perfeição. Os dois bandidos levam-no, menino e de cuecas, como refém.

Buzz descobre em Butch o pai que nunca teve. O criminoso vê no miúdo o filho que nunca há-de ter. Por ele, mata o pedaço de má rês que é o seu companheiro de fuga. Veste-o e dá-lhe de comer. Ia dizer, se lhe dessem tempo, faria do miúdo um homem… E corrijo: mesmo no tempo que lhe dão, Butch faz dele um homem. Põe-no a comer doces, a conduzir um carro e a meter travões a fundo, a ter confiança no pequeníssimo pirilau que, garante-lhe Butch, está muito bem para a idade que tem. O filme, incorrectíssimo, é “A Perfect World” e filmou-o Clint Eastwood depois de o ter muito bem escrito John Lee Hancock.

Quando já quase tudo ensinou ao miúdo e lhe matou a fome de tanta fuga, Butch, que no filme é um portentoso Kevin Costner, descobre que tem mais fome do que a fome que no miúdo e nele já apagou. E Eileen, a senhora que cozinha hamburguers, não deixa de ser a senhora que Buzz pensa que ela é, por ter apetites que nem a mais abençoada cozinha sacia.

Mandaram o miúdo apedrejar, lá fora, o que lhe apetecesse apedrejar. E aqui voltamos à obstinada curiosidade infantil do primeiro parágrafo: Buzz espreita e vê Butch beijar a senhora que mata a fome. Quando Clint Eastwood nos deixa ver o que os inocentes olhos de Buzz vêem, já Kevin Costner beija a fundo o que mais ao fundo a senhora tem, até que, vendo que são vistos, páram estarrecidos.

“Beijaste-a porquê?” Porque sabe bem, porque um tipo se sente bem, é o que Butch tenta explicar ao miúdo. “Mas beijaste-lhe o rabo, hã”, insiste, científico, o garoto, “Tu amas a senhora?” E, de repente, o adulto Butch percebe que está salvo: “Claro que a amo. Beijei-lhe o rabo, não beijei?!” Num mundo perfeito só devia ser adulto quem nunca perdesse uns inocentes olhos de criança.

Bica Curta

 

bica curta

 

Mudei de vida em 2019, como já o cineasta Paulo Rocha nos avisava com o título de um belo filme seu protagonizado por Maria Barroso. Aceitei o desafio que o Octávio Ribeiro me lançou para escrever no Negócios e no Correio da Manhã.
Em boa verdade foi este último o grande desafio. Para o Negócios escrevo uma crónica com o tamanho a que estou habituado. O bico de obra era escrever à 3ª, 4ª e 5ª para o CM o que bem se pode chamar uma micro-crónica. Nunca mais de 640 caracteres, ou seja, duas a três frases. Como se conta uma história, como se desenvolve uma ideia e se chega a uma conclusão em três mirradas frases?
Eis a minha apresentação e a primeira semana. A cada 6ª. feira deixarei aqui a semana anterior 

 

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Bica Curta
5ª feira, 3/1/2019

Ui, quem é este?
Bom dia. Sou novo aqui. Se não se importam, virei a este café, à 3ª, 4ª e 5ª. Como me estão a tirar as medidas, confirmo: sem chapéu, tenho um metro e sessenta e quatro, e muita boa vontade.

Apresento-me. Casado, uma filha. Sou editor. De livros. Fiz televisão e filmes. Tenho uma certa idade, mas mal se nota. Apanhei o fim do império na longínqua Angola. Fui católico, mas não papa-hóstias. Aos 20 anos, era maoista, versão tropical; agora, entre direita e esquerda, tem dias. Gosto do Marcelo e não sou contra os políticos. A minha devoção? A Eusébio, imparável deus da minha infância. Como quero a bica? Curta, sim! Mas escaldada.

beijo

Bica Curta
3ª feira, 8/1/2019

Então e os beijos?
Hoje, a altura média do homem português é de um metro e setenta e três, o das mulheres menos 10 cm. Num século, o homem português cresceu quase 14 cm. Isso significa que eu, com o meu metro e sessenta e quatro, sou um anacronismo histórico. Ou seja, sou um tipo do século XIX que veio aqui tomar uma bica curta.

Mas o que mais me preocupa é a mulher portuguesa. Crescendo embora 12,5 cm num século, nesta escala de progressão, estará cada vez mais distante do homem, numa óbvia descriminação de género, que me indigna. Para não falar de posições mais arriscadas, e os beijos? Como nos beijaremos daqui a um século? Cada beijo uma hérnia?

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Bica Curta
4ª feira, 9/1/2019

Parece que são parvos
Os suíços devem ser parvos. A mim é que não me apanham a beber bicas curtas na Suíça. Há dias, ou há meses, sei lá bem, foram a votos e rejeitaram que as quatro semanas de férias pagas que já recebem passassem a seis. E rejeitaram também que se estabelecesse uma regra para limitar o salário dos patrões a doze vezes o salário mais baixo da empresa. Pior, três quartos dos suíços votaram contra a criação de um salário mínimo universal. Raio de país de queijos e relógios de cuco.

Dizem eles que isso aumentaria os custos do trabalho e diminuiria a potente capacidade de exportação do país. Eh pá, há gente que não gosta de viver bem.

putin

Bica Curta
5ª feira, 10/1/2019

Um sabor a Putin
Não sei se Putin vale uma bica curta. Mas antes de falar de Putin, falo da minha mãe, que já está no céu, e de lá me perdoa ainda mais do que na terra me perdoava. Aos cinco anos, a minha mãe deu-me o primeiro café. De cevada. Associo o sabor à bomba atómica que me assombrou a infância. Vivíamos no medo e excitação da guerra nuclear. Era um jogo de faz de conta, inócuo como esse café de meninos.

Mas agora Putin tem misseis nucleares hipersónicos. Indetectáveis. Indetectáveis e ininterceptáveis. Disse-o, a avisar Trump, bebia eu uma bica curta. Voltou-me à boca o atómico sabor a medo da infância. Ah, caneco, já não tem é a mesma inocência.

Publicado no CM, Correio da Manhã