Confissões

O Pedro Correia, senhor e mestre no blog colectivo Delito de Opinião, é acima de tudo jornalista. E como jornalista anima agora um projecto curiosíssimo e inovador, um jornal mensal que se publica, em papel!, no dia 15 de cada mês. Chama-se, numa lógica imbatível,Dia 15. E foi a um irrecusável convite do Pedro Correia que respondi a um confessionário, na edição que saiu no passado dia 15 de Março.

A uma mão cheia de perguntas, uma mão cheia de respostas.

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Confessionário
Manuel S. Fonseca

Devagar se vai ao longe?
As melhores coisas da vida fazem-se devagar: lê-se devagar, come-se com gosto devagar e devagar se vai e se vem.

O que devemos deixar para amanhã?
A eternidade.

O que gostava de ser quando era pequenino?
Papa. Era o que a Dona Emília, minha professora primária, me dizia que eu seria. E eu acreditava.

Costuma cantar no duche?
O Singin’in the Rain. Espalho-me é no sapateado.

Qual é o seu insulto preferido?
Um verso seniano: “andava você a saltar de colhão para colhão do seu pai a ver escapava a ser filho da puta!”

Se tivesse poder absoluto começava por proibir o quê?
O meu poder absoluto.

As aparências iludem?
Sobretudo em noites pardas.

Dá jeito ter um bom inimigo sempre por perto?
Reduzido à minha insignificância, nem um bom inimigo tenho.

O verbo desamigar sugere-lhe o quê?
Lençóis frios.

Marcelo rima com…?
Com civilização. E nem é preciso ditongar o Marcelo.

Que conselho daria a António Costa?
Conselhos são privilégios de arúspices. Eu não sou de bons augúrios.

Vota com mais facilidade num doce ou num salgado?
Sou mais sal da terra do que luz do mundo.

Entre caracóis e caviar, o seu coração gastronómico balança?
Que se lixem os caracóis. Já papei muita sopinha dos pobres, venha de lá a sopinha dos ricos.

Está do lado da cigarra ou da formiga?
 Hélas, eu sou o próprio formigueiro.

Quem é que não levaria uma ilha deserta?
O Donald. Ainda me murava aquilo tudo.

Se não fosse português, que nacionalidade escolhia?
Cidadão do mundo, claro.

Prefere viajar por terra, mar ou ar?
Tudo o que ajude a transumância.

Que cidade mais gostaria de conhecer?
Angels Camp no condado de Calaveras, por causa do Mark Twain.

Quem é que o faz sempre rir?
Tenho gostos dinossáuricos: Buster Keaton e Chaplin.

O que o irrita profundamente?
O humor radiofónico contemporâneo: destila ideologia.

Qual foi o último livro que deixou a meio?
Não se foge de um livro: nenhum livro é um tigre de papel.

Qual é a sua posição favorita?
De pé, ó vítimas da fome.

Canhoto ou destro?
Imprestável mão esquerda, mas nada de ilações políticas.

Deixou de ter paciência para quê?
Para a cultura da queixa. Haja Deus.

De que é que nunca se arrepende?
De amar. E nem é preciso que seja perdidamente.

O que é que nem às paredes confessa?
Sempre pensei que torturado e entre quatro paredes confessaria tudo.

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