milagres, dragões e sei lá se Deus: são livros

Só me apetece abraçar e fazer festinhas a quem tem a santa paciência de ler esta newsletter. Hoje, aviso que trago dragões, mas não tenham medo, nem mordem nem expelem fogo. São gentis como as páginas de um livro: eis os meus livros de Maio

Os meus livros de Maio
serão dragões chineses?

O que me havia de dar – a mim, que tenho no coração clubístico uma águia – para fazer o mais gigantesco livro (tão bonito!) sobre dragões que a edição portuguesa já viu?! Os dragões, verdes e amarelos esplendorosos, dão corpo a um pequeno monumento: 27 cm de largura por 33 de altura, capa dura, e esse monumento, em que o tamanho conta, tem por título O Dragão Chinês: Uma Enciclopédia. Uma viagem deliciosa a uma mitologia tão – mas tão – diferente dos nossos Zeus, Dionísio e Afrodite. Para guardar por 100 anos.

De capa dura, notável iconografia de revisitação da pintura, cenografia, fotografia e escultura do arquitecto e cenógrafo José Manuel Castanheira, é uma viagem de vida, a sua Pedra da Paciência. Sente-se nesta pedra e contemple. Uma romaria, inquieta, popular, religiosa, é a que Alfredo Cunha, um dos nossos mestres da fotografia, nos propõe nas fotografias do seu Mar de Fé, edição limitada.

Amadeu Lopes-Sabino reincidiu: eis o segundo romance de que me deixa ser editor. Imaginativo, controverso, o romancista impele-nos a um mergulho num futuro, O Futuro Anterior, em que o Papa transfere o Vaticano para Marte, e a China, começando pelos Açores, se apodera da Europa. Ficção científica? Sei é que é um futuro, Futuro Anterior, em que os humanos se roçam já pela imortalidade, mas a anterior angústia metafísica, o anterior desejo mimético, a parafernália do poder, resistência, ambição continuam a picar como agulha impertinente. 

Se Disser a Verdade, Estarei a Mentir-te, romance de Frederico d’Orey, outro reincidente, é uma desabrida provocação: e se no Islão houvesse imãs pedófilos? E se um casal quisesse adoptar o órfão de terroristas suicidas? A polémica, em 208 páginas infatigáveis, tem prefácio de Carlos Magno.

Não Morre Quem Ama Assim, memórias de Rui Fidalgo, tão encantadoras como ficcionadas (como memórias que se prezam), oferece-nos a excentricidade de Trás-os-Montes. Não admira que Graça Morais tenha vindo, no prefácio, deleitar-se nesta «colcha de memórias», que desperta a nostalgia e a doce lágrima que em geral escondemos.

Quem se surpreendeu, «pela finura e pela fertilidade da sua digressão poética», foi Lídia Jorge ao ler A Música do Amolador, de Miguel Duarte. E Lídia Jorge acrescenta ter encontrado na poesia de Miguel Duarte a «torrente das imagens de recorte modernista, lembrando Dylan Thomas ou o pendor narrativo evocando Álvaro de Campos.»
 
Os nossos Atlas Históricos, colecção farol da editora, têm uma novidade, o Atlas das Guerras: Época Moderna, de três autores, Olivier Aranda, Julien Guinand e Caroline Le Mao, que cobre os séculos XVI, XVII e XVII, incluindo guerras portuguesas. 


E sigo, além do Dragão, na rota de seda da China: História da China Antiga e Imperial, de Damien Chaussende, vem aumentar A Minha Estante, uma colecção que se quer fonte segura de informação. E por isso A Minha Estante lança também As Perversões Sexuais, de Gérard Bonnet, que nos mostra como dois parâmetros – um recalcamento silencioso e a vingança – balizam as perversões, do sadismo à pedofilia e ao incesto.  
 
Eu era capaz de jurar que Frei Lourenço da Ressurreição me diria, se falássemos (e talvez, por entre corredores de séculos distantes, estejamos os dois a falar), que há presença de Deus em fazer e ler livros, que houve presença de Deus quando um jovem livreiro dedicado, de que não vou dizer o nome, me incitou a publicar este Prática da Presença de Deus, não só por ser o livro favorito do actual Papa, mas sobretudo por ser um luminoso canto à vida: seremos hoje capazes de descobrir, num carro que buzina, no atacador desapertado de alguém que passa, o que Frei Lourenço chama a presença de Deus? 

Ter eu levado a bom porto a publicação da trilogia de O Ramo de Ouro, Um Estudo Sobre Magia e Religião, de George James Frazer, será um sinal da presença de Deus? Sei que sem a Fundação Manuel António da Mota e a Mota Gestão e Participações e o meu amigo Luís Parreirão, não haveria mais este título de Os Livros Não se Rendem. São inescrutáveis, afinal, as manifestações da presença de Deus.  

E acabo a falar de ética e coluna vertebral. Kamel Daoud é um magnífico escritor e pensador. Nascido na Argélia, acusado de «apostata» pelo Islão, é hoje alvo de uma «fatwa». Neste pequeno livro, do tamanho de uma bala, Por Vezes é Preciso Trair, Kamel Daoud mostra onde está a maior coragem: abandonar o conforto do rebanho para se defender a liberdade de expressão e defender a verdade, mesmo com o risco de se ser acusado de traição. Querem matá-lo: não deixemos.

Euforia

A Rita Fonseca acolheu, na sua euforia, o Ninho de Víboras, de K. A. Knight, onde se tecem as delícias de desejos sombrios. E junta-lhe o segundo romance de Alexandra Cruz, Rivais Apaixonados,uma colisão de amor e justiça. De vida, portanto. E euforia, claro.

Gradiva em Maio
ler, vício ainda impune

Numa crónica do tempo em que os animais ainda não falavam, Nelson Rodrigues conta como o General De Gaulle, passada a glória da Libertação, era recebido com «poucos aplausos» e «algumas vaias». Receberíamos assim Henry Kissinger? E vaiaria Trump este Diplomacia? Foi um dos livros que o Guilherme Valente, fundador desta casa, me pediu que eu resgatasse. Ei-lo, monumental, a pedir mais reflexão do que palmas ou vaias.

Agora, peço que deixem apalpar a fímbria da genialidade. É genial o ângulo que Umberto Eco escolheu para estas Reflexões sobre a Dor: a dor é uma experiência inseparável da natureza humana, uma paixão do corpo e da alma e não apenas um mal que aflige e que queremos descartar. Livro inédito que me obriga a puxar pelo qualificativo «preciosidade».

O Silêncio dos Livros é dois em um. Não só George Steiner nos empolga, mostrando que a fragilidade é a irresistível força do livro, como nele surge um texto de Michel Crépu a falar do «vício ainda impune» que é ler. Menti: há um belo prefácio de Onésimo Teotónio de Almeida, três em um, portanto.

Vamos lá desmentir a definição de Bernard Shaw que dizia ser um clássico aquele livro que todos gostariam de ter lido e ninguém quer ler. Pois bem, O Choque das Civilizações e a Mudança na Ordem Mundial é o clássico que milhões leram e milhões querem e vão precisar de ler. Samuel P. Huntington, o autor, teve razão antes do tempo e o mundo anda, agora, às voltas com a razão que ele e este livro têm para pôr fim à desordem nunca imaginada por quem se aconchegou ao colchão do fim da história.

Fechamos a tetralogia de Luís Portela, um dos grandes autores da Gradiva. A Ser Espiritual e Da Ciência ao Amor juntam-se agora O Prazer de Ser e Serenamente. São quatro livros em busca da harmonia da mente, do corpo e do mundo. Se eu fosse a si, caro leitor, aceitava o convite para respirar fundo e meditar.

Para descomprimir: há vinganças benignas, como as de Calvin & Hobbes, A Noite da Grande Vingança, criação subtil de Bill Watterson, ou de como um herói, que é o pesadelo de qualquer pai, pode gerar torrentes de filosófico riso.

Na mão de Maio da Gradiva há quatro romances. Jardins Secretos de Lisboa, de Manuela Gonzaga, está nomeado, em França, para o Prix Européen du Roman d’Amour e é o mais íntimo mergulho numa Lisboa propícia à alegria e à dor da experiência amorosa. Uma experiência forte e libertina, de delicadeza e transgressão. E Lisboa está lá toda: nua e sigilosa. Proibida?

Volta A Fórmula de Deus, de José Rodrigues dos Santos, para celebrar 20 anos e cerca de um milhão de exemplares vendidos em todo o mundo. É um romance potente – o mais einsteiniano dos seus romances –, o mais incansável na busca do sentido da vida. Com um prefácio do autor sobre a génese da obra e sobre a alma da sua escrita, a sua «fórmula divina».

Do Nobel da Literatura, Kazuo Ishiguro, regressa Nunca Me Deixes, uma digressão pungente sobre a fragilidade humana. É a edição comemorativa do 20.º aniversário, com nova introdução de Ishiguro.

Na Tua Mão, de Hélder Teixeira Aguiar, venceu o Prémio Agustina Bessa-Luís. É uma estreia ousada e perturbante. Dois jovens irmãos fogem do regime venezuelano. Espera-os a selva. Uma selva que devora e que, como o goyesco sono da razão, gera monstros e labirintos. Presença de Deus, de novo? «Se Deus estivesse assim tão connosco, tinha era mandado bilhetes, de avião, não?» A escrita de H.T. Aguiar é um pequeno milagre.

Milagres, dragões, sei lá se a presença de Deus, guerra&paz, euforia e gradiva, são estes os meus 26 (se contei bem) livros de Maio.

Manuel S. Fonseca, editor

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