O vil metal

chagall

Bica Curta tal qual a bebi no CM, 4ª feira, dia 17 de Abril

Se queremos dar beijos, o melhor é dar beijos à realidade. Aprenda-se com os artistas : bebem a bica, cantam a revolução e desprezam o dinheiro. Mas Chagall, grande pintor do século XX, quando veio a revolução russa deu-se mal e fugiu. Em França, já De Gaulle no poder, o ministro Malraux convidou-o a pintar o tecto da Ópera de Paris. Quanto custaria, perguntou. Chagall fez-se humilde e foi todo ora essa, é uma honra servir a França, não é nada. Malraux virou-se para a mulher do pintor, que fosse ela a dar o preço. Nas suas costas, pelo espelho, vê Chagall a fazer sinais com as mãos: vinte mil. Sem dinheiro nunca houve palhaços.

A alegria do futebol

Eu sou pela verdade desportiva, está claro, mas não sou por uma idiotia da objectividade que não seja capaz de contemplar a lenda e o encanto da lenda. Volto a este velho artigo que resume as minhas razões para, por vezes, admirar até o erro. O problema é, dir-me-ão, a indústria. É.

É um tipo baixo, redondinho. Está de costas para o campo adversário, quando recebe a bola. Veste camisola azul e calção preto e ainda está no seu meio campo, a dois metros da linha divisória e do grande círculo. Recebe a bola com o pé direito e roda para ficar com ela no pé esquerdo. Nesse subtil movimento de 180 graus já deixou dois adversários para trás, dois anjinhos de camisa e calção brancos, dois anjinhos ingleses. Galga vinte, mais de trinta metros e há outro homem que lhe vem fazer a cobertura, mas que um ligeiro desvio do pé esquerdo do homem de azul à bola tira logo do caminho. E já está à entrada da área inimiga. Os defesas ingleses estão em linha impecavelmente, como sempre os defesas ingleses estão, e um dos centrais vai ao homem. Mete o pé esquerdo, mas o seu pobre pé esquerdo – pé esquerdo de back – não se compara à subtileza e arte do pé esquerdo do homem de azul e negro que controla a bola. Com o mais macio dos toques, num milésimo de segundo, já o veloz fugitivo lhe dá um metro de avanço. O imparável homem baixo, redondo, de coxas cheias, está agora dentro da grande área. O defesa esquerdo, o outro central e o guarda-redes adversários fecham-se num garfo que o tenta crivar com três dentes. E ele, o homem tão gordinho como um jovem merceeiro, tão gordinho como um empregado de restaurante que se vê que gosta de comer sofregamente e bem, só com o pé esquerdo, sempre com o pé esquerdo, adorna a bola para a direita, evitando o guarda-redes, suporta a entrada do lateral esquerdo já atrasado e não deixa que o central sonhe sequer ser parte interessada. E a bola despede-se do pé esquerdo do homenzinho de azul e negro para ir beijar na boca as redes dessa baliza de um estádio mexicano. O homem gordinho tomba entre o eufórico e o esgotado nessa relva posta e regada para nela se sonharem os mais olímpicos dos sonhos.

Esta é a relva. E o slalom divino e o pé esquerdo de que tenho estado a falar são de Maradona. Juraria, aliás, que, depois dele ter recebido a bola, só o seu pé esquerdo conduziu, tocou, fintou, desviou e rematou o que eu julgo ser o mais belo golo de sempre da história do futebol. Descrevi-o e na minha descrição ele fintou, iludiu, ultrapassou, venceu gloriosamente seis adversários e é mentira, que eu bem sei que foram sete. Só que não há forma de as palavras puderem descrever a jogada e caber ainda o sétimo inglês tirado da fotografia – aquilo sim, foi um Brexit e god save the queen.

E agora vejam, Maradona já se levantou, corre e exulta ao longo da linha final. Vai direito à bandeirola vermelha espetada na marca de canto, à espera que cheguem  os companheiros para festejarem e levarem a inocente e pura alegria ao povo que está nas bancadas. Há-de haver ali advogados e engenheiros, talvez operários e empregados de escritório, um doce casal burguês de Buenos Aires e dois amigos das Pampas, malta que dança tango. Há ricos e pobres e Maradona, a alegria gordinha e aos saltos de Maradona, une-os a todos.

E eu, ecuménico que sou, diria mais, a alegria, o prazer descarado quase obsceno de Maradona, une o estádio inteiro, os argentinos vencedores e os ingleses vencidos. Une-os o prazer do futebol.

Foi assim que eu aprendi a ver futebol. E não consigo gostar, zanga-me muito a maldade que tenho visto, ao longo de mais de uma década, fazer ao futebol. O rancor, o ressentimento, a sórdida teoria da conspiração, os cânticos de ódio, peço imensíssima desculpa, mas não vejo nisso um átomo de amor ao futebol.

Não me venham falar do escrutínio milimétrico da arbitragem. Grande parte do maravilhoso encanto do futebol vem também dos erros. Nesse mesmo jogo, Maradona marcou um golo com a mão – com a mão de Deus, ironizou ele, nesse tempo em que o futebol era superior e por isso se autorizava e deliciava com a ironia. Sem esse golo a mitologia do futebol seria mais pobre – abençoado árbitro que se enganou e deu ao mundo, durante semanas e semanas, a possibilidade de sorrirmos. O que esse golo e essa mão serviram de cerveja e conversa em pubs ingleses

A dimensão humana do futebol é o erro. O de arbitragem incluído. Mas é uma ilusão e um revisionismo histórico pensar que foi a arbitragem que fez o domínio do Sporting e dos cinco violinos na década de 40 e meia de 50, que foi a arbitragem que fez o domínio do meu SLB e de Eusébio, Coluna e Simões durante o final dos anos 50 e os anos 60 e 70, ou que foi a arbitragem que fez a glória do FCP de Gomes, Madjer e Futre nos nos anos 80 e 90. Não foi. Essa glória vem direita dos pés desses jogadores que muito amaram o futebol vestissem-se de verde, vermelho ou azul.

E eu quero que se lixem as bancadas de honra muito compostinhas, com presidentes enfatuados e de rabinhos apertados a ver se não lhes entra um feijão no olho do cu. Eu sou do tempo em que, para comemorar os maravilhosos golos de Tardelli e Altobelli com que a Itália esmagou a Alemanha, um Presidente da República de Itália, il signor Sandro Pertini, dançou e pulou na bancada de honra, ao pé do rei de Espanha, e sem que o primeiro-ministro alemão, Helmut Schmidt, se abespinhasse. Schmidt, Pertini, mesmo o rei de Espanha também tinham olho do cu e riam-se disso.

O que torna o futebol respeitável é a alegria, a pura alegria do jogo. O que nos derrota não é perdermos um jogo, nem perder um campeonato. O que nos derrota e o que derrota o futebol é a respeitabilidade hipócrita de presidentezecos e comentadorzecos, é o cântico de ódio, o very-light que mata, as cadeiras arrancadas e incendiadas, as estratégias dos presidentes de clubes que escolhem a confrontação de secretaria ou de região ou seja lá o que for como seu único princípio.

Peço muita desculpa, mas o jogo é o pé esquerdo de Maradona, um voo de Damas, o golo de calcanhar de Madjer, o iluminado segundo golo de Eusébio nos 5-1 ao Real de Madrid, o golo fantasma de Geoff Hurst que fez da Inglaterra campeã do mundo em 1966. O erro é, se quiserem, a Vénus da mitologia do futebol. Eu quero.

Um fogo do inferno

notre dame

Bica Curta servida no CM, 3ª feira, dia 16

Tomo a bica a escaldar. Arde em Paris uma parte do meu mundo. Os portugueses que viveram o salazarismo sabiam que, para lá do policiado quintal lusitano, havia outro mundo, a França. Ou melhor, Paris. Mais do que a Torre Eiffel, Paris era os cinemas de St. Germain e, no meio do Sena, a Catedral de Notre Dame. Fugíamos do Portugal salazarista, para delirarmos com salas de cinema e uma igreja. Num lado a volúpia de cenas profanas, eróticas a 24 imagens por segundo, do outro, o recolhimento das imagens em pedra, uma nave gótica e vitrais a fazer-nos em vida subir ao céu. Dói muito ver a nossa memória arder num fogo do inferno.

Vi-lhes a alma

big little lies

Não podemos ser todos Sócrates, pensou David E. Kelley, o produtor de “Big Little Lies”, pequena mini-série ovo, com clara televisiva e gema cinematográfica protegidas por robusta casquinha social. Não vi melhor este ano.

Sócrates, o da Apologia, recusava falar do que falavam os grandes homens do seu tempo. Pedia-lhes que cuidassem da alma. Imagino-o na ágora, a desviar conversas, a encafifar interlocutores com perguntas risíveis, quando eles queriam falar sobre os grandes temas. Com licença de Eça, naquele tempo havia já Acácios e Pachecos.

Ah, os grandes temas! Os grandes temas são a selva amazónica da nossa ágora, o seu ponto de exclamação. Os grandes homens e mulheres deste tempo peroram sobre os grandes temas. Respeitemos-lhes a grandeza e sejamos de uma homérica injustiça: a ágora, jornais, revistas, rádios e televisão estão sobrepovoados de Acácios e Pachecos. Os próprios grandes temas já são acacianos e pachequianos. O nosso tempo não é socrático, o que algum Sócrates contemporâneo poderá nostalgicamente atestar. Sócrates era o não-especialista: prezava a sua ignorância. Com ironia, digamos. Fazia perguntas a Acácios e Pachecos, mas não os admirava. Hoje, Acácios e Pachecos vingam-se: da boca de nenhum se ouvirá um socrático “como nada sei, estou certo de não saber”.

David E. Kelley sabe que ninguém, neste tempo, pode ser um Sócrates. Fez “Big Little Lies” e enche de pequenas mentiras, em vez de grandes verdades, os sete episódios dessa mini-série casquinha de ovo. Acácios e Pachecos desunhar-se-iam a falar de bullying escolar, de violência doméstica, de controlo parental. Com quatro mulherzinhas troianas, Kelley arranca a vida da selva amazónica, que são os grandes temas, e mostra-a numa mistura de riso suave e doçura intensa. É a grande esmola que a mão direita de “Big Little Lies” nos dá para esconder as grandes tragédias que a mão esquerda camufla.

Bem sei que vi tudo, copo de Quinta São Sebastião Colheita 2014 na mão, mas vi e ouvi a alma de Reese Witherspoon, Nicole Kidman, Laura Dern, Shailene Woodley e dos homens delas. E, com ecos de édipos, eléctras e traquínias (com perdão dos gregos), entraram-me em casa o amor e a violação, os filhos e a escola, o sexo e o híper-sexo, as inomináveis boas intenções. O cenário é um cheiro a mar.

 

O chumbo e o livro

Hoje, dia mundial do livro 

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A mão. A primeira vez que tive consciência da minha mão foi quando levei um tiro que a atravessou de lado a lado. Em Luanda. Tinha 15 anos e tinha uma espingarda de chumbos, o que, mutatis mutandis, fazia de mim um herói de Mark Twain. Eu era Tom Sawyer e quem me deu o tiro foi Huckleberry Finn. Fazíamos, se bem me lembro, um jogo perigosamente adolescente: tínhamos de abrir e fechar dois dedos com uma sinuosa rapidez de cobra, em frente à espingarda de ar comprimido de quem ia disparar a seguir. E já não me lembro, mas sei que tínhamos todos a Diana 27. Lembro-me de coisas que já não sei e sei coisas de que já não me lembro, mas sei e lembro-me que passei a palma da mão esquerda em frente do cano da arma inimiga e, tiro célere e limpo, o chumbo entrou, rompeu e passou pela palma da minha mão, entre os nervos e os ossos que levam a dois dedos, o médio e o anelar. O chumbo raivoso perdeu força no impacto e ficou preso, incapaz já de sair, na pele das costas da mão. No posto médico, com um golpe de bisturi, a pele abriu-se, sangrou um pouco mais e o chumbo caiu, derrotado e som metálico, no mesmo balde onde – ai dos vencidos – tombavam agulhas, seringas e dentes cariados.

E não é dessa mão que quero falar, mas só da consciência dela. Antes da passagem deste diligente projéctil, se de alguma coisa tive consciência, foi do que, dizível ou indizível, nessa mão segurei, história e elenco a que vos poupo, por a mim me querer poupar. Mas a entrapada mão esquerda acelerou, como um aguilhão, a consciência da única e útil mão direita. Se já lia muito, muito mais li durante essas semanas de braço ao peito. E tive, então, pela primeira vez, a consciência da dimensão centáurica da mão e do livro. Tinha na mão um romance de Steinbeck, outro de Caldwell, a história do Dia D, o Fio da Navalha, um Saint-Exupéry, o meu primeiro Papini, e a mão e o livro tinham, como a impenetrável harmonia do uno sempre tem, o mais completo desdém pelo múltiplo. Só tinha um problema, faltava-me sempre um dedo, o entrapado dedo, para folhear.

Donde vem essa simbiose da mão e do livro? Quando começou? Platão escreveu livros, o primeiro a Apologia de Sócrates, que é também o primeiro livro filosófico a ter-nos chegado inteiro, não fragmentado, da antiga Grécia. Mas a mão que segurava a Apologia de Sócrates não segurava um livro. Sabem todos, melhor do que eu, que segurava um rolo. Quem, em nome de Deus, nos ensinou então a folhear, a ler combinando estas improváveis coisas: a mão que segura o livro, o dedo que vira a página e os olhos que a varrem?

O livro, esse luxo sibarítico, que tantas vezes roça a maravilhosa obscenidade, ao contrário do tiro intempestivo e imediatista que em Luanda me furou a mão esquerda, nasceu devagar, pagina a página, e começou a nascer no primeiro século da nossa era. Pergaminho ou papiro dobrado e cortado em cadernos, páginas de madeira até, foram a primeira revolução. Não foi a mão que procurou o livro, foi o livro que ousou nascer para se fazer à mão. E andou séculos a namorá-la – que romance! Catorze séculos depois, Guttenberg conferiu leveza e deu início à tímida massificação que, até há poucos dias, nos permitia dizer que mal sabemos onde a mão acaba e o livro começa.

Já quase não há na minha mão esquerda, na palma e nas costas dela, vestígios da entrada e saída desse chumbo Mark Twain da minha adolescência. O recalcitrante anelar da mão canhota começa a recusar o alongamento e deixa-se ficar entrevado e curvo, submisso à aliança das bodas de prata, que em breve serão de ouro. Temo que essa minha resignada artrose seja só o humilde, porventura imperceptível, símbolo da harmonia de Brigadoon (ou de How Green Was My Valley) que mão e livro andaram séculos a entretecer. Inconsciente e cada vez mais jovem, a mão, toda articulada em volta do polegar, deixou, como o meu dedo anelar da mão esquerda, de se estender. Há um livro caído – ai dos vencidos – nesse balde onde antes tombaram agulhas, seringas, um dente cariado, o audacioso chumbo de uma Diana 27.

Karina

Talento e sexo

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Bica Curta servida no CM, 5ª feira, dia 12 de Abril

Num dos seu textos polémicos, e são-no quase todos, o escritor Jorge de Sena defendia a prostituição. Com uma ideia perturbante: há quem tenha no uso do corpo para o sexo o seu único talento. É irrecusável que o use.

A Alemanha, leio, é hoje o maior bordel legal da Europa. Quase meio milhão de prostitutas, 700 casas de meninas só em Berlim, negócio de 14,5 mil milhões de euros a pôr de pé o PIB. Os bordéis são legais desde 2002, conferindo estatuto laboral às trabalhadoras do sexo. Mas o sexo não é uma bica curta. Cresce à volta o tráfico humano, o crime e a violência. Perigos e ameaças espreitam a cama onde se afoga o prazer.

Português precisa-se!

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O atarantado Reino Unido precisa, nesta Primavera de 2019, exactamente do que, na Primavera de 1817, precisou a atarantada aldeia de Almondsbury, ali perto de Bristol e do seu canal. Precisa de um português.

A 3 de Abril de 1817, o sapateiro da aldeia dobrou a esquina vespertina e chocou com uma jovem desconhecida, perdida, semi-vestida – ou, derramando um pingo de moral nesta prosa, semi-despida. Quer ajudá-la, mas não entende uma palavra que saia daquela boca, bem linda, por sinal. Chama a mulher, e só duplica a cacofonia. Uma hora depois, está a aldeia inglesa à volta da jovem de 20 anos, como estaria a aldeia de Fátima, se a levitante Nossa Senhora, em vez de pousar no campestre galho de uma azinheira, tivesse, peripatética, caminhado pelo largo central. Ora, Nossa Senhora falava línguas, a jovem de rotos trajos de Almondsbury é que línguas era o diabo.

Embora não fosse dona daquilo tudo, havia uma família rica, os Worrall. Ele era magistrado, a mulher era americana, a governanta, uma descendente de Safo, a que a invejosa aldeia chamava a criada grega. Chamaram esses poliglotas e uma onda babélica varreu as ruas de Almondsbury. Os Worrall levaram a igual sopa que já leva Theresa May. Zero, bola. E a mesma hermética incompreensão que hoje assola o Parlamento britânico instalou-se naquela aldeia pré-Brexit.

A senhora Worrall apalpa então as mãos da jovem. Eram nódulos, palmas e polpas macias como, hoje, as de Kate e Meghan. Mãos de ninfa. Durante dez dias a aldeia percebeu dessa ninfa o que o nosso sistema de ensino leva os estudantes a compreender de hermenêutica textual. Com uma excepção. Mostraram-lhe imagens e eis que ela grita “ananás”, apontando para uma reprodução do dito cujo. Era, pois, uma jovem exógena e exótica.

E chega o português. Intempestivo, como as línguas de fogo do Espírito Santo a descer sobre os apóstolos, em Almondsbury entra Manuel Ennes, marinheiro e experimentado aventureiro nas alegrias e doçuras de Ocidente e Oriente. Falou com a moça. Entenderam-se geringoncialmente como Deus e os anjos: fra­ses cur­tas, risos rápi­dos, total con­cor­dân­cia ges­tual.

Manuel desfez o mis­té­rio. Como as delicadas mãos atestavam, ela era a princesa Cara­boo, da ilha de Javasu, algu­res no Índico. Tinham-na rap­tado os pér­fi­dos pira­tas da pér­fida Albion. Após tor­men­tosa via­gem, à vista de terra, furtou-se à vigi­lân­cia dos pernas-de-pau, lançou-se ao mar, e nadou até à praia.

Diluída a ignorância inglesa, Manuel partiu. A aldeia viveu meses de glória com a princesa, a primeira vegan de Almondsbury, alimentada a frutas, legumes e chá, e autorizada a banhar-se nua no lago. A fama espalhou-se pelo condado, mesmo pela nação, chegando aos ouvidos de uma estalajadeira, que logo reconheceu a moça que hospedara seis meses e tinha o hábito de falar às filhas numa linguagem inventada. Caraboo era uma inglesinha, Mary Willcocks, nascida em Devonshire, pobre a roçar o indigente, de deslumbrada imaginação.

Almondsbury sucumbiu à vergonha. Os Worrall pagaram a Caraboo a viagem para a América, pondo um oceano a separá-los. Corre a lenda que uma tempestade levou o barco a Santa Helena e que Napoleão ficou encantado com ela. Em Filadélfia, montou um espectáculo como Caraboo, mas de modesto sucesso, como modesta foi, no regresso, a aparição como princesa exótica, em Londres, a um xelim por espectador. Casou e viveu, honestamente, a importar e vender sanguessugas a enfermarias e hospitais, honesto destino que espera, pós Brexit, a pátria de tão imaginativa filha.

Publicado em Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo, no Jornal de Negócios

Porque hoje é sábado. De ressurreição

vinicius-de-moraes

Não  nos deixemos entalar. Nem encavalar. O mundo está, sempre esteve, perigoso. O mundo é, sempre foi, injusto. A bela democracia grega tinha escravos dentro de casa. Não se deixem impressionar com a contabilidade do passado e com a promessa de amanhãs que cantam. Ninguém tem de ter o Universo às costas. A felicidade é para hoje, é mesmo para agora.

Os piores Pides são os Pides da felicidade. Andam por aí a caçar risos. Andam por aí a a medir prazeres. Trazem debaixo do sovaco causas circunspectas e fracturantes, angústias que fazem da humanidade passada um rolo de carne de maldade e crime. É mentira.

Não se deixem amarrar com o que a boca deles diz, mas os olhos deles nunca viram. Não é preciso adiar nada para ajudarmos o mundo a ficar melhor. Beijem. cantem, bebam, amem. O mundo agradece. E depois trabalhem. Façam o melhor que conseguem fazer. Criem. Riqueza também. Não explorem os miseráveis fazendo deles bandeira. O que ajuda os pobres, desfavorecidos, desiguais, não é o angustiado enlevo das boquinhas em forma de cu. É a riqueza que pode ser repartida.

Porque hoje é sábado, como dizia Vinicius. E é de ressurreição.