Fé, esperança e consolo

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O que gosto do meu passado! Ainda que eu saísse nu à rua, não sairia nu à rua. O meu passado cobre-me, como cobria Faith Hope Consolo, a mais bem-sucedida agente imobiliária americana. Ia dizer de Nova Iorque, mas será mesmo preciso dizê-lo?

Quando estava viva, Consolo podia vestir e vestia casacos de peles, pendurar pérolas e diamantes em todo o sacrossanto lugar onde uma mulher pendura pérolas ou diamantes, incendiar uma sala com o brilho estelar de anéis, pulseiras e cabelos louros. Esse radiante fulgor assentava e era o resultado do seu passado.

Confesso, ando a remendar o meu passado. Enquanto não encontro o bocadinho de pano cru dos meus primeiros cinco anos numa aldeia encostada a Pinhel, visto-me com a camisinha de terylene que usava no musseque Sambizanga, minha primeira e mítica morada de Luanda. Que bonito, rico e pobre é o meu remendado passado ordinário. Mas quero é falar de Faith Hope Consolo – que nome, santo Deus! – e volto a essa mulher álacre e exuberante para dizer que ela não remendou, ela cerziu o seu passado.

Para que conste, devemos a Consolo o esplendor e luz perpétua da Quinta Avenida. Sim, foi ela, e com ela o seu passado, que desenhou essa rua de Nova Iorque, instilando-lhe um encandeante glamour capaz de provocar um síndrome vertiginoso aos meninos do Bloco de Esquerda. Negociou e instalou a Cartier, Yves Saint Laurent, Versace, Vuitton, a Zara. Mesmo Trump, quando o nome de Trump se podia dizer sem fazer salivar à la Pavlov meia-direita, toda a esquerda e eu próprio.

Àqueles clientes, Consolo dava um cartão e o seu cartão era o seu passado. A mãe? Uma psiquiatra de crianças. O pai? Frank Consolo, executivo imobiliário, de quem ela herdou os genes do negócio, apesar de ele ter falecido quando Faith Hope tinha só nove anos de idade. Nascimento no selectíssimo enclave da Quinta da Marinha, perdão de Shaker Heights, no Ohio, adolescência na privilegiada Connecticut, com frequência da Miss Porter’s School para meninas, que tomara o nosso Saint Julian’s, São João de Brito ou o nosso liceuzito francês.

Sem esse passado, Consolo não se levantaria da sua mesa no mais bling-bling dos restaurantes de Tribeca para ir à mesa de uma luminária da Wall Street tirar-lhe batatas fritas do prato e comê-las com gosto. Aos protestos do lesado, Consolo e o seu passado responderam: “Está a protestar porquê? Você nem sequer estava a comê-las!”

Quando se tem um passado não se deve morrer. O chato de quando se morre é que não temos mais ninguém que nos defenda o passado que tanto trabalho deu a criar. Eis o que aconteceu há um ano, ano da morte de Consolo: descobriram-se as fotografias de família, das cavernas saíram amigas de infância e soube-se que Faith Hope não nascera onde dizia ter nascido, nem frequentara a selecta escola de Miss Porter. Adoçara-lhe a adolescência a alegre e viva pobreza de Brooklyn, uma mãe cabeleireira, um pai que se chamava John e não Frank e com quem Faith teve o intermitente convívio que as entradas e saídas das prisões, incluindo Alcatraz, lhe permitiram.

Qual dos passados é o passado de Consolo? O passado que viajou com ela de limusina ou o seu passado de defunta? Viva, a correr de reunião para reunião, nas convenções e nos copiosos almoços, Faith Hope não sentiria já deveras como seu o fingido passado que tão completa e perfeitamente fingiu? E nós, que passado de Consolo mais sentimos? Quem não quer, como ela, vestir-se em vida com o mais glorioso passado, escondendo falhanços e amargura para o passado defunto?

Publicado na minha coluna no Jornal de Negócios