Xi Jinping e os beijos de Natal

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Eis uma reflexão que a visita de Xi Jinping tornou mais actual e premente. Suspeito que 2018 venha a confirmar que estou a converter-me num perigoso anti-consumista. A coisa acentua-se, ano a ano. Com excepções, mas anti-consumista quand même. A suspeita agiganta-se quando se aproxima esta quadra de boa-vontade. Crescem as saudades de mais Natal e menos prendas. Para ser sincero há anos que me sabe melhor a lareira acesa do que a elástica e ubíqua generosidade do Pai Natal. Nem sequer estou a ser ingrato: as simples conversas, sem trincheiras nem terrenos minados, dos  jantares e almoços de amigos, da Guerra e Paz, o mergulho familiar, têm-me dado alegrias e consolo. Quero mais este ano.

E chegado aqui, rectifico. O anti-consumismo é uma má desculpa. O que acontece é que prevejo em cada presente uma ameaça cruel e primária. Nos que recebo e nos que ofereço. Temo não gostar e tenho medo de que não gostem. E é neste ponto que a ajuda da imensa civilização que está por trás de Xi Jinping nos mostra que há lições na alteridade.

Vejamos. Em cada presente, em cada embrulho, no colar que escolhi a pensar no aveludado decote, no alarido da gravata que me dão, há uma escolha e há um gosto que pedem aprovação. Quando se desatam os laços, se rasga o papel natalício, os livros, uma camisa, um cinto, mesmo uma garrafa de vinho ou um pijama irrompem com desconsideração na euforia da meia-noite. E nesse momento, nessa 25ª hora, aflige-me pensar que os recebam mãos desiludidas e que no rosto amado surja um esgar de inconfidente rejeição. Muito pior, temo que sejam minhas essas mãos, esse esgar.

A China tem regras de cortesia que evitam esse nosso dilema e constrangimento. Inclino-me a pensar que os chineses, nesta matéria, demonstram uma enorme superioridade civilizacional: só abrem os presentes depois de se retirar quem os ofereceu. Reconheço-lhes a civilizadíssima razão. Não fora os beijos sem fim que perdem… O ritual dos beijos pós-prendas lavam-nos a face e redimem a angústia do penalty que é abrirmos ou abrirem cada presente.

O livro é uma prenda de Natal perigosamente infectada de passado

Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.
Dito de outro modo, a Guerra e Paz não é Luis XIV e muito menos o Estado sou eu. Mas confesso que entre mim e a Guerra e Paz há um conflito de interesses, afectos e até mesmo de uma certa permeabilidade genética. É só por essa razão, que são três, que eu copio o email que “eles” (ou ela) mandou à Imprensa e aos amigos. 

Sugestões de Natal II

O livro é uma prenda de Natal perigosamente infectada de passado
Guerra e Paz editores

A Guerra e Paz editores não se atreveria a sugerir que no Natal se oferecessem esses anacrónicos objectos chamados livros. É uma tecnologia antiga e as pessoas que entram em contacto com ela arriscam-se a sofrer emoções fortes. As autoridades têm feito todos os esforços para erradicar pessoas atingidas por esses artefactos do passado, mas infelizmente ainda é possível verem-se vítimas agarradas a esses pedaços de folhas revestidos por uma capa rindo-se perdidamente, chorando copiosamente, enternecendo-se sem a desculpa de nenhum advérbio de modo.

Mas, por se saber que há ainda uma comunidade significativa de sinistrados, e sucedendo-nos ter recebido cerca de cem e-mails (não estamos a contar sms, nem tuíteres) a pedir conselhos na escolha de livros da Guerra e Paz para oferecer no Natal, somos forçados a meter-nos na máquina do tempo. Só não sabemos se estamos a viajar em direcção ao passado ou ao futuro.

Sublinho: os e-mails pediam-nos livros da Guerra e Paz editores. Foi o que nos pediram e nós, pelos amigos da Guerra e Paz e pelos nossos leitores, estamos disposto a arrostar com tempestades na terra, no céu e no mar.

E vamos lá ser sérios, escolher bem é escolher para alguém. As nossas sugestões foram, por isso, pensadas pessoa a pessoa, tomando em conta as idiossincrasias, que é como quem diz, o gosto e o feitiozinho de cada um.

O Luxo
A pessoa a quem quer oferecer um livro não só gosta de grandes nomes da literatura, Fernando Pessoa, Agustina, Jorge de Sena, como gosta de livros bonitos, que sejam uma festa visual, com materiais incríveis (até madeira, veja lá)? Ofereça-lhe um destes três livros: Tabacaria, Fernando Pessoa; As Meninas, de Agustina, com pintura de Paula Rego; O Físico Prodigioso, bela novela erótica de Jorge de Sena, com pintura de Mariana Viana.

Nacional, ou seja, o que é nosso
Mas se a pessoa a quem quer dar um livro privilegia o que é nosso, os nossos hábitos, costumes, as nossas tradições, nós temos uma colecção, É Nacional e É Muito Bom, da qual escolhemos estes títulos perfeitos: Almanaque Português Almanaque de Natal, Contos Tradicionais PortuguesesLendas de Amor Portuguesas. E acrescentamos-lhe, para transmontanos e nativos da beira transmontana, como é o caso do nosso editor, o Dicionário de Palavras Soltas do Povo Transmontano.

Riso, afecto e nostalgia
Mas é Natal e a pessoa de quem gosta quer é rir-se, festejar, encher o mundo de carinhos e abraços? Há três livros que são uma auto-estrada para:
a) uma noite de gargalhadas imparáveis e estamos a pensar no Pequeno Livro dos Grandes Insultos;
b) uma noite de expansões ternurentas e ai-tão-querido está já garantida com o nosso Pequeno Livro dos Cães Mais Famosos;
c) uma noite de saudades das férias grandes e das tardes livres cheias de aventura da juventude, é o que terá se ficar a ler e a folhear em família o Livro Perigoso para Rapazes.

Socialmente sério
Pois bem, mas há quem, mesmo no Natal – e, por vezes, sobretudo no Natal – esteja preocupado com o mundo em que vivemos e com o firme propósito de não cometermos no presente e no futuro os clamorosos erros do passado. Tem dois livros, o Manifesto Comunista e o Mein Kampf, livros acompanhados de textos de contextualização e muitas imagens para acertar as suas contas com a História. Não é só uma oferta séria. É uma oferta seriíssima.

Ah, os insubstituíveis clássicos
A pessoa a quem quer dar um livro, talvez dois, prefere os clássicos, os grandes autores? Estes dois títulos, inscritos no mais alto céu da literatura – Moby-Dick, de Herman Melville, e O Vermelho e o Negro, de Stendhal – são obras soberbas e infalíveis. Principezinho é, por seu lado, um clássico suave, capaz de cativar a imaginação do leitor mais distraído. E há ainda, se quiser pôr uma nota de transgressão na sua prenda, a possibilidade de oferecer uma antologia que acabou de sair, Não a ti, odeio ou menos prezo, que reúne o que Fernando Pessoa escreveu sobre Cristo, o que inclui o Menino Jesus.

E não há romance?
Não, a pessoa que quer surpreender não gosta de nada disto. Gosta é de coisas actuais, romances dos nossos dias. Bom, começamos por lhe aconselhar o que é mais do que um romance, uma viagem convulsa à relação com a mãe, espelho de todas as relações de filhos e mães, propondo-lhe que ofereça um livro que tornará inesquecível o Natal de 2018: ofereça Mãe, promete-me que lês, de Luis Osório.
É também da busca de uma mãe que trata Essa Dama Bate Bué, de Yara Monteiro, que aconselhamos a todos os que tenham conhecido, vivido em África.
Se a pessoa espera que o Pai Natal lhe traga outra literatura, mais disruptiva, como agora se diz, Adeus., de Luis Rainha, com as suas 23 narrativas de separação, pode ser a prenda ideal.
E deixem-nos sugerir – bastaria o título – o belo romance Quando Perdes Tudo Não Tens Pressa de Ir a Lado Nenhum, estreia literária de Dulce Garcia. Sem pressas, para ganhar tudo.

Um toque poético
Ah, a pessoa a quem quer dar um livro não é especial, é especialíssima, gosta do que é primordial e profundo, saboreia em cada palavra a criação do mundo? Ofereça, num pequeno livro de 56 páginas, a poesia de Eugénia de Vasconcellos, o seu Sete Degraus sempre a Descer. Um pequenino livro, um enorme presente.

Este Natal dê um livro. E leia. Não é pela sua saúde, é pela sua mente, inteligência e emoções.