A grande alegria do Natal é a sua tristeza

Este é um longo artigo. Publico-o com prazer e pena. O prazer que me deu o convite do meu editor do Expresso, Miguel Cadete, para o escrever. A pena de ser, simbólica e nataliciamente, a minha despedida do Expresso. Despedida que se cumpre, em definitivo, com a publicação da crónica que sai hoje, sábado, dia 29 de Dezembro de 2018. A última. Saio por decisão minha, e para uma aventura que anunciarei no começo de 2019. Quando, para a semana que vem, publicar aqui a última crónica, a que sai este sábado, direi o muito bem que do semanário que acolheu a coluna “O Cinema Dá o que a Vida Tira” e de Francisco Pinto Balsemão tenho e quero dizer.

San Luis
Meet Me in Saint Louis

A grande alegria do Natal é a sua tristeza

O primeiro perfume de Natal foi um perfume de estábulo. Se quisermos ser fiéis ao evangelho segundo Lucas, diremos que foi numa manjedoura que nasceu o Jesus Menino, por estar então Belém como a hotelaria de Lisboa no Verão, com uma ocupação de cem por cento, não havendo lugar para a grávida Maria e para o abnegado José, nem sequer em hospedarias bed and breakfast. Para infelicidade da parturiente não se tinha ainda inventado a modalidade airbnb.

Era de noite e, no divino estábulo a que o casal se abrigou, estariam recolhidos os rebanhos, que a imaginação popular transfigurou em burro e vaquinha, parelha ainda hoje presente em qualquer presépio que se preze. Dir-se-á que é um cenário estranho e humilíssimo para o nascimento de um ungido, de um príncipe messiânico, mas temos de convir que tudo nesta história roça uma hiperbólica estranheza.

A mãe do menino era Virgem e Virgem ficará, por séculos e séculos, tendo concebido por obra e graça de um espírito, naturalmente santo. Um anjo veio em sonhos sossegar a rude e básica relutância de José, pai putativo, eventual carpinteiro a quem tanta fantasia procriadora não deixou de fazer alguma espécie. Para efeitos de figuração, aquele penetrante espírito terá assumido a forma de uma imaculada pomba, de um fulgurante raio de luz ou, para consolo da teoria da suspeita freudiana, de um sopro ou subtil rabanada de vento – fascinantes hipóteses pelas quais só mesmo a minha especulativa mente escolástico-hollywoodiana digna interessar-se.

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Pesadelos de Tim Burton

O triunfo dos bichos

Ia falar dos Reis Magos, mas ponho rédea curta no meu digressivo nomadismo temático e centro-me no estábulo e no meu editor, Miguel Cadete. Pediu-me ele uma reflexão sobre os filmes de Natal. Fui ver a oferta dos cinemas e canais televisivos e a presença de animais ou monstros, de Grinches, Shreks, e Gremlins é ufana, pujante e significativa. Não vale a pena evocar a catwoman natalícia que, no “Batman Returns”, foi a Michelle Pfeiffer de outros tempos – estamos a falar de outra coisa. E nem sequer devemos compará-los a “The Nightmare Before Christmas”, de Tim Burton, todo chocalhado a ossos ou viscosa geleia de fantasmas, goblins, zombies, vampiros e lobisomens. Os filmes a que me refiro são de uma geração diferente: não há Menino Jesus de espécie alguma naqueles filmes tocados por uma distanciação do humano que esfrega ombros, para não dizer beiços, numa quase animalidade. Como diriam os virginais camaradas maoistas dos meus tempos revolucionários de Angola, esta natalícia escolha da bicheza, em última instância, não é inocente.

É assim nos filmes, mas é também assim na vida. Nem que o diga de cócoras, abraçado aos meus próprios joelhos e encostado a uma parede, mas tenho de o dizer desta forma brutal: os cães erradicaram o Menino Jesus do Natal. Há para aí dez anos, tive a alegria, primeira e última, de ler uma edição de domingo do Washington Post. Nesse ano, dizia o Post, os americanos espatifaram, e deixem-me escrever por extenso, cinquenta e quatro mil milhões de dólares. Gastaram-nos em anti-depressivos caninos, bem como em cirurgias ortopédicas e sessões de spa para cachorros (vamos ladrar-lhes, vamos ladrar-lhes, meu caro Centeno).

O cão de estimação arreganhou os dentes e arrebatou, no lar moderno, o lugar do filho. Alguém disse, depois de um pastrami, palitando os dentes e a sair do Katz’s Delicatessen, no Lower East Side: “… o filho, esse ersatz do animal de estimação.” Ainda tinha a dolorosa frase a cicatrizar em mim e eis que mordem ao Menino Jesus: mais de 56% dos cães eram, há dez anos, comprados no Natal. Compra ou prenda sopradas por um espírito santo de orelha, eis que o pet chega a casa e é deitado nas aveludadas palhinhas. À volta desse presépio, ajoelham-se o pai de estimação e a mãe de estimação. Está reconstruída a Sagrada Família e a televisão debita “Alvin e os Esquilos” ou “Angry Birds, o Filme”. Não se ouve, no pesadelo climatizado dos apartamentos, o grito da rua. Em pleno Times Square trocadilha e ecoa o grito de um obsoleto sem abrigo: “A nation under dog.”

Carol
Jim Carey é Scrooge

Quem inventou o filme de Natal?

Felizmente sei que o PAN, com o seu primígeno e requintado perfil filosófico, já percebeu que ironizo, nesta pobre escrita que, em verdade, em verdade vos digo, vai de rojo atrás da metáfora e da incipiente parábola. O que eu quero dizer não foi o que eu disse. Aqui está o que queria dizer: Charles Dickens inventou o filme de Natal! Ponho um ponto de exclamação nisto e já ouço o reparo mordaz: é falso, é falso, Charles Dickens morreu vinte e dois anos antes dos irmãos Lumière terem inventado o cinematógrafo!

Concordo, é verdade, não se desse o caso da verdade se deixar, por vezes, inundar por ondas de dúvida metafísicas. Charles Dickens, antes de morrer, deixou escrito o argumento do primeiro, do último e de todos os filmes de Natal. É um livrinho, umas 150 páginas singelas, chamado “A Christmas Carol”, que carrega o subtítulo “A Ghost Story of Christmas”, e de que é protagonista um riquíssimo Ebenezer Scrooge, que tem no coração um pólo norte e na mente o desprezo pelos pobres e pelo mundo. Digamos que esse livro é como uma mesa de cirurgia. Dickens amputa ao ventre natalício o fígado religioso, criando e dando autonomia ao espírito de Natal, que logo aterra noutro corpinho secular, moralizante, comovente, grávido de generosidade e melhores intenções – é o corpo dos nossos dias. Sai Jesus e entra a boa vontade.

Não foram só as adaptações literais, e contam-se já nove, a últimas das quais, assinada pela Disney, em 2009, com o desconexo Jim Carey, que tanto é o malvado e ganancioso Ebenezer Scrooge, como é cada um dos três fantasmas que o vêm atormentar e resgatar. A ideia e a alegoria de “A Christmas Carol” é uma mancha que alastra por dezenas de outros filmes e serviu até de base à transformação desse implacável Scrooge político, que era o florentino analista e maquiavélico conspirador Marcelo Rebelo de Sousa, no omnibondoso presidente que humanizou Portugal, amado até pelos comunistas e, porventura, pelas manas do Bloco.

Estou quase a conseguir dizer o que quero dizer. Há mais Menino Jesus no poema do vagamente pagão Alberto Caeiro, que vê o Jesus menino descer à Terra num meio-dia de fim de Primavera, do que em todos os filmes de Natal de Hollywood e dos outros estreitos arredores onde também se fazem filmes. Os grandes filmes de Natal são dickensianos e paz na terra aos homens de boa vontade. Começo a repetir-me: Jesus, menino ou moço, nem vê-lo.

Há quem, usando o chamado argumento hitleriano, diga que isso se deve ao facto de os judeus terem dominado Hollywood e, tolerantes de espírito, encantados pelas festas familiares cristãs, pelo saturnino calor com que as fogueiras e lareiras alegram as casas, quererem por simpatia celebrar a quadra e o cheirinho que da quadra estava no ar, trocando o odor do bíblico estábulo inicial pelo aroma de bolos e peru assado do século XX.

E é verdade que o tão judeu e ainda mais genial Irving Berlin escreveu as belas canções de Natal de “Holliday Inn”, dançadas pelas dúcteis pernas judias de Fred Astaire. Berlin, aliás, escreveu também a canção das canções, “White Christmas”, para o filme homónimo que o olho judio do severo Michael Curtiz realizou e o desajeitado judeu Danny Kaye interpretou. E para não falar apenas de clássicos da idade de ouro de Hollywood, “Elf”, talvez o filme natalício mais popular deste século (2003), tem realização de Jon Favreau e foi escrito por Daniel Berenbaum, ambos judeus.

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Jimmy Stewart, o suicida de It’s a Wonderful Life

 Paz na Terra e boa vontade

   Ora, nem tudo o que parece é – exactamente o que Galileu Galilei quis dizer quando se saiu com o célebre Eppur si muove, com que bem lixou para a posteridade o Papa e o Santo Ofício. Essa sanitária celebração da quadra natalícia desligada da Natividade não é um exclusivo de produtores e realizadores judeus, estando presente no mais esmagadoramente natalino dos filmes, “It’s a Wonderful Life”, obra a que o italiano Frank Capra, de catolicíssima e pecadora educação, deu sublime realização.

É certo que logo num dos primeiros planos do filme de Capra há uma conversa celestial entre dois asteróides. O argumento do filme classifica-os como dois anjos da mais elevada estirpe, mas eu sempre acharei, salvo desmentido pessoal e por escrito de Frank Capra, que são, um, o Senhor Deus nosso criador, e o outro, pelo buraco negro que nele se adivinha, o honesto e perplexo José, esposo de Maria. Estão ambos preocupados com as orações que lhes chegam. As orações são uma espécie de código morse que permite aos humanos mandar mensagens clandestinas para o céu, fazendo lobby anti-meritocrático na tentativa de alterar as leis naturais; as orações que os estelares ouvidos de Deus e São José escutam, no começo desse filme de Capra, são todas a rogar pelo inexcedível de virtuoso que é a personagem de Jimmy Stewart. Sequela avant la lettre do caso BPN ou BES – que sei eu! –, Jimmy Stewart está à beira da falência e vê recusado um empréstimo por um banqueiro scroogiano. (E não, malta de esquerda letrada, a expressão banqueiro scroogiano não é nenhuma tautologia!)

Seja como for, alheio a esta minha imprecação estilístico-ideológica, Jimmy Stewart decide suicidar-se e eis que cheguei onde queria chegar: há outros filmes de Frank Capra com o Natal a servir-lhes de paisagem de fundo, caso de “Meet John Doe”, sendo o suicídio, no caso o de Gary Cooper, o laço temático que o ata a “It’s a Wonderful Life”. Esse laço que os ata aos dois é um laço natalício e dickensiano.

Se chamo Dickens ao caso é porque, celebrando a quadra, foi ele que nos ensinou a desembocar, como o comovente “It’s a Wonderful Life” desemboca, na porta do happy-end decorada a azevinho e redentora boa vontade. Cumprida a regra dos três actos de toda a boa ficção, superados os obstáculos que constroem a trama, Dickens e os filmes que ele inspirou, judeus ou cristãos, abrem-se a um angelismo que predispõe ao humaníssimo abraço, a agradáveis expansões libatórias e a um cândido consumismo. Que o humano abraço esteja em vias de extinção, substituído pelo afago e enroscanço do animal de estimação é só uma contingente nota de rodapé.

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O Evangelho segundo Pasolini

Uma natividade de papelão

Estava a escrever tudo isto, ia agora, enfim, falar dos Reis Magos, e avassala-me um anseio de justiça. Do fundo de mim mesmo, há uma voz rebelde que clama: “Diz a verdade Manuel S. Fonseca.” E a verdade nua e crua é que a morte de Jesus é estarrecedoramente mais bela e mais cinematográfica do que o seu nascimento. Não é que o cinema não tenha tentado recriar o presépio, narrar a anunciação, a ida de Maria e José para Belém, o precário parto, a ameaça de Herodes, a luz da singela estrela que guia reis e pastores, os bem-aventurados de espírito. Do “King of the Kings”, de Cecil B. DeMille a “The Greatest Story Ever Told”, de George Stevens, passando pelo tão popular “Ben-Hur”, o cinema tentou e falhou. Papelão e pastelão.

Há mil Paixões, mil mortes de Cristo e – valha-me Deus, que não é de mal-entendidos – Jesus morre sempre tão bem. Já o seu nascimento é adramático porque os principais elementos de tensão, a presença do Pai ou do Espírito Santo, a concepção de Maria, são de infilmável invisibilidade, a menos que seja Godard a traduzi-los para a contemporaneidade, com o escândalo e a blasfémia do seu “Je Vous Salue Marie”, ainda assim um filme mais mariano do crístico.

No “Il Vangelo Secondo Matteo”, Pasolini foi quem esteve mais perto de restituir, com um olhar de medida escassez poética, o que no nascimento de Jesus possa haver de transfiguração e espiritualidade. Há quem diga que o fez por ter o rigoroso olhar marxista dos anos 60 e 70. Diria que também o ajudou o ascetismo das personagens e do cenário, a pedra transmontana dos casebres – a lembrar, às vezes, o “Trás-os-Montes”, de António Reis – como o ajudou a sua imensa fé nos grandes planos, na candura firme dos olhares e no silêncio. E não vás daqui, Pier Paolo Pasolini, a dizer que não louvei, assim, a tua superior e esquecida humildade de poeta.

Fanny and Alexander
Fanny e Alexandre

Qual é a maior alegria do Natal?

Mas vejamos: corrida esta prosa a cães e morte, não deixa de ser Natal e, Deus seja louvado, nem o PAN há-de morrer, nem a gente deixará de almoçar e querer ver um filme a seguir e outro na noite de Consoada.

A um amigo, eu diria, vê o “Fanny e Alexandre”, de Ingmar Bergman. Como quando vamos ver o mar e as águas estão perladas de pequeninas cristas brancas, assim “Fanny e Alexandre” está perlado de pequenas angústias, todas revestidas pelas mais variadas alegrias, as puras, as nostálgicas, as infantis, as risonhas e maliciosas. O jantar de Natal culmina com a mais prodigiosa celebração da flatulência que o cinema já imaginou. Um velho tio, para gáudio dos sobrinhos meninos, tem a arte de soltar um poderoso peido contra uma vela, rasgando, no escuro das escadas onde se esconderam, uma miríade de estrelas que nos resgatam do tédio e conferem ao desprezado traseiro humano a mesma dignidade mágica que qualquer Messias gostaria de conferir à humanidade que queira salvar.

E não me venham dizer que há, em “Fanny e Alexandre”, sexo a mais para uma noite de Natal. A consoada é efusiva e quem tenha uma casa grande, de preferência duplex ou com bons arrumos, sabe bem do que falo. A vontade de abraçar, de beijar, a comunhão mística que nos lança num amplexo universal, se as autorizamos à mente e ao coração, como diabo poderemos proibi-las a tudo o que no nosso térreo corpo o sangue irriga?

Mesmo “Eyes Wide Shut”, essa perversão kubrickiana para que foram arrastados Nicole Kidman e Tom Cruise passa-se, afinal, no Natal. E lembro essa preciosidade de 1966, a preto e branco, que dá pelo nome de “Le Pére Noel a les Yeux Bleues”. Filmou-o um transgressivo, breve e suicidário Jean Eustache. Jean-Pierre Léaud é o protagonista. Quer comprar o sobretudo dos seus sonhos e para arranjar a massa de que qualquer sonho é feito, aceita vestir-se de Pai Natal e fazer fotografias de rua com quem passa. Descobre que as raparigas, que para ele, antes, nem uma pestana abriam, agora se encostam à sua fofice de Pai-Natal e que não se importam que ele deixe as suas mãos natalícias deambular festivamente pela alcantilada geografia do corpo delas.

Já não tenho espaço para continuar a falar de perversões, nem, bem sei, para falar dos Reis Magos. Regresso, por isso, à inocência de quem tem filhos para criar. Se querem deixar-lhes uma ferida incurável, que eles guardem em humaníssima carne viva, legado de um imaginário de ternura, um módico de bondade, um fraterno amor pelo humano nosso vizinho, ponham os vossos filhos ao colo e vejam com eles “The Sound of Music”, “Mary Poppins”, o “E.T.”, o “Elf”, “The Muppet Christmas Carol”, o “Home Alone”, até o “National Lampoon’s Christmas Vacation” ou “The Polar Express”. Se eles já não se sentam ao colo, atirem-se ao “Die Hard”, ao “About a Boy”, ao “Batman Returns”, ao “Harry Potter”.

Mas se me deixam, como as raparigas a Jean-Pierre Léaud, meter a mãozinha, a minha pessoalíssima escolha é “Meet Me in Saint Louis”. Um pai de família é promovido na empresa e anuncia à mulher e filhas que, depois do Natal, partirão para a grande Nova Iorque, deixando a cidadezinha de Saint Louis. Esse é o último Natal que as quatro filhas passam com os amigos, os amores, os vizinhos que as mimam, essa intrincada rede de sentimentos e júbilo da pertença que as liga à cidade, ao bairro, à rua onde nasceram e crescem. E, tendo ficado lá fora, no jardim, os desolados bonecos de neve, quando no calor do quarto, uma das irmãs, Judy Garland, canta à maninha mais nova o “Have Yourself a Merry Little Xmas”, toda a turbulenta e antecipada emoção da despedida, da perda, do tempo que passa, tombam sobre as personagens e sobre nós. Judy Garland canta e diz que next year all our troubles will be miles away… Derrama-se no filme e do filme uma tristeza de seda. Choro eu, choramos todos: é Natal e a maior alegria do Natal é a sua tão belíssima e nocturna tristeza.

Publicado no Expresso

Estrela tracejante no céu de África

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a solidão de Duvall

O cinema era o Avis. Um ano depois já se chamava Karl Marx. Juro que foi lá, à meia-noite, no Natal de 1974, que vi “Tomorrow”, adaptação de um conto de Faulkner. O artista, como ainda se dizia, era Robert Duvall, solitário agricultor que dá guarida a uma mulher tão grávida como abandonada.

Estava em Luanda, cidade em chamas, engajado no caminho das pedras da independência. Aos 21 anos sentia-me tão só quanto só se pode estar. A família fora um out of Africa que lhe dera. Nem pai, nem mãe, estava por minha conta. Sobravam, da herança colonial, uma dúzia de amigos cujas cabeças rolavam à velocidade da guilhotina na Revolução Francesa. Mortos pela guerra? Nem mortos, nem estropiados. Eram apenas nomes inconsoláveis que a ponte aérea para Lisboa abatia ao activo. Para nós, que ficávamos, passavam a indesculpáveis defuntos.

No meio desse fogo amigo e inimigo, nasceu, modesto mas abnegado, o Natal de 74, o meu primeiro e verdadeiro Natal angolano. Acolheu-me uma família africana, tripulada pelo cuidado e pelo amor de um inenarrável patriarca. Entre irmãos, irmãs e meio-irmãos seriam seis, mais primas e primos, pai e mãe, como só nas grandes sagas familiares. Eu, branca cara pálida, era só mais um filho. A geleira, como numa família lindamente mulata se chama a um frigorífico, era de todos: “Aqui não se pede, abre-se e tira-se.”

Vivíamos de esquemas, contrabandeando do Puto vinho, couves e bacalhau. Naquela Consoada tive a melhor das ceias. De vez em quando, as rajadas das AK escreviam pontos de interrogação nessa noite de uma estrela. O assobio de um morteiro não bastava para parar as conversas que se enchiam de promessas, juras e choros, ceia tão delicada e intensa. Os discursos, meu Deus, o gosto que tínhamos nos veementes discursos. Podiam apontar-nos uma pistola à cabeça e continuaríamos a discursar, engajados numa alegria feroz, vaidosa e dramática.

Não sei se no meio dos discursos, se na solidão em que encontrei Robert Duvall no cinema Avis, dei comigo a pensar: quem sabe se em vez do verdadeiro Cristo ser Marx – como diziam os nossos discursos e a ponta de cada espingarda – quem sabe se o verdadeiro Marx não será este Cristo anunciado por uma estrela tracejante no céu vermelho de África?

Pouco me interessava a resposta, tão inquieto fiquei com a pergunta.

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outra sagrada família

Publicado no Expresso

Que o Natal esteja convosco

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Natividade à Noite, Geertgen tot Sint Jans, 1480 (?)

Hoje, fui ao cinema Ideal ver Roma, o filme de Alfonso Cuáron. Descobri-me em muitos momentos do filme – passa-se em 1971 – e isso foi, senão uma roda gigante, pelo menos um carrossel de emoções. Não contava, a um dia da data em que celebramos o nascimento de Jesus, deparar-me no filme com uma cena que é a mais pura anti-natividade que já vi filmada, belíssima e pungente. Como não quero afogar-vos em spoilers, não conto. Direi só que em Roma, não nasce o Menino Jesus, e nada se passa como se terá passado em Belém há 2018 anos.

Por causa desse dia, amanhã vamos cear, conversar, rir e chorar. Recordaremos a infância, os pais já mortos, misturaremos bacalhau, um galo capão, rabanadas, coscorões e sonhos. um módico de espiritualidade e sacos de prendas, livros, mais um cinto de fivela dourada, um colar e um vestido, pequenos gestos de dádiva que quebram as barreiras, as distâncias, os silêncios dos outros dias.

Em tudo isso, que alguns dirão serem rotinas e convenções, eu vejo uma bondade grande, a bondade de nos tratarmos bem a nós próprios e aos outros. Há quem queira uma radical mudança do mundo, um mundo de pura verdade, um mundo de total felicidade, um mundo de uma perfeição de platina. E eu, o cansaço dos 65 anos a sossegar-me músculos e ossos, os pobre olhos míopes a semicerrarem-se, só quero louvar os pequenos gestos, um saboroso grama de felicidade, um olhar comovido, um riso que cintila como a primeira estrela e logo se apaga.

Que essa pequenina felicidade intermitente, que eu tanto amo e em que tanto confio, esteja convosco nesta noite de Natal, é o que desejo a quem gosta e visita a Página Negra, aos meus amigos do facebook e ao que já eram ou que continuarão a ser meus amigos, haja ou não facebook. Feliz Natal.

 

Sobre filmes de Natal

Xmas Carol

O “Expresso”, o jornal onde comecei a escrever em 1981 (com duas saídas e dois regressos), convidou-me para escrever sobre filmes de Natal. Se ainda não compraram o jornal e a revista, experimentem ir ler aqui. O artigo leva por título “A grande alegria do Natal é a sua tristeza” e o meu editor, o Miguel Cadete, meu amigo também, avisou a navegação do que ali vem, antepondo-lhe este lead: «Uma reflexão nada inocente sobre os filmes de Natal onde se conclui que Charles Dickens, antes de morrer, deixou escrito o argumento do primeiro, do último e de todos os filmes de Natal. É um livrinho, umas 150 páginas singelas, chamado “A Christmas Carol”.»

O prazer que me deu escrever esta prosa.

Xi Jinping e os beijos de Natal

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Eis uma reflexão que a visita de Xi Jinping tornou mais actual e premente. Suspeito que 2018 venha a confirmar que estou a converter-me num perigoso anti-consumista. A coisa acentua-se, ano a ano. Com excepções, mas anti-consumista quand même. A suspeita agiganta-se quando se aproxima esta quadra de boa-vontade. Crescem as saudades de mais Natal e menos prendas. Para ser sincero há anos que me sabe melhor a lareira acesa do que a elástica e ubíqua generosidade do Pai Natal. Nem sequer estou a ser ingrato: as simples conversas, sem trincheiras nem terrenos minados, dos  jantares e almoços de amigos, da Guerra e Paz, o mergulho familiar, têm-me dado alegrias e consolo. Quero mais este ano.

E chegado aqui, rectifico. O anti-consumismo é uma má desculpa. O que acontece é que prevejo em cada presente uma ameaça cruel e primária. Nos que recebo e nos que ofereço. Temo não gostar e tenho medo de que não gostem. E é neste ponto que a ajuda da imensa civilização que está por trás de Xi Jinping nos mostra que há lições na alteridade.

Vejamos. Em cada presente, em cada embrulho, no colar que escolhi a pensar no aveludado decote, no alarido da gravata que me dão, há uma escolha e há um gosto que pedem aprovação. Quando se desatam os laços, se rasga o papel natalício, os livros, uma camisa, um cinto, mesmo uma garrafa de vinho ou um pijama irrompem com desconsideração na euforia da meia-noite. E nesse momento, nessa 25ª hora, aflige-me pensar que os recebam mãos desiludidas e que no rosto amado surja um esgar de inconfidente rejeição. Muito pior, temo que sejam minhas essas mãos, esse esgar.

A China tem regras de cortesia que evitam esse nosso dilema e constrangimento. Inclino-me a pensar que os chineses, nesta matéria, demonstram uma enorme superioridade civilizacional: só abrem os presentes depois de se retirar quem os ofereceu. Reconheço-lhes a civilizadíssima razão. Não fora os beijos sem fim que perdem… O ritual dos beijos pós-prendas lavam-nos a face e redimem a angústia do penalty que é abrirmos ou abrirem cada presente.

O livro é uma prenda de Natal perigosamente infectada de passado

Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.
Dito de outro modo, a Guerra e Paz não é Luis XIV e muito menos o Estado sou eu. Mas confesso que entre mim e a Guerra e Paz há um conflito de interesses, afectos e até mesmo de uma certa permeabilidade genética. É só por essa razão, que são três, que eu copio o email que “eles” (ou ela) mandou à Imprensa e aos amigos. 

Sugestões de Natal II

O livro é uma prenda de Natal perigosamente infectada de passado
Guerra e Paz editores

A Guerra e Paz editores não se atreveria a sugerir que no Natal se oferecessem esses anacrónicos objectos chamados livros. É uma tecnologia antiga e as pessoas que entram em contacto com ela arriscam-se a sofrer emoções fortes. As autoridades têm feito todos os esforços para erradicar pessoas atingidas por esses artefactos do passado, mas infelizmente ainda é possível verem-se vítimas agarradas a esses pedaços de folhas revestidos por uma capa rindo-se perdidamente, chorando copiosamente, enternecendo-se sem a desculpa de nenhum advérbio de modo.

Mas, por se saber que há ainda uma comunidade significativa de sinistrados, e sucedendo-nos ter recebido cerca de cem e-mails (não estamos a contar sms, nem tuíteres) a pedir conselhos na escolha de livros da Guerra e Paz para oferecer no Natal, somos forçados a meter-nos na máquina do tempo. Só não sabemos se estamos a viajar em direcção ao passado ou ao futuro.

Sublinho: os e-mails pediam-nos livros da Guerra e Paz editores. Foi o que nos pediram e nós, pelos amigos da Guerra e Paz e pelos nossos leitores, estamos disposto a arrostar com tempestades na terra, no céu e no mar.

E vamos lá ser sérios, escolher bem é escolher para alguém. As nossas sugestões foram, por isso, pensadas pessoa a pessoa, tomando em conta as idiossincrasias, que é como quem diz, o gosto e o feitiozinho de cada um.

O Luxo
A pessoa a quem quer oferecer um livro não só gosta de grandes nomes da literatura, Fernando Pessoa, Agustina, Jorge de Sena, como gosta de livros bonitos, que sejam uma festa visual, com materiais incríveis (até madeira, veja lá)? Ofereça-lhe um destes três livros: Tabacaria, Fernando Pessoa; As Meninas, de Agustina, com pintura de Paula Rego; O Físico Prodigioso, bela novela erótica de Jorge de Sena, com pintura de Mariana Viana.

Nacional, ou seja, o que é nosso
Mas se a pessoa a quem quer dar um livro privilegia o que é nosso, os nossos hábitos, costumes, as nossas tradições, nós temos uma colecção, É Nacional e É Muito Bom, da qual escolhemos estes títulos perfeitos: Almanaque Português Almanaque de Natal, Contos Tradicionais PortuguesesLendas de Amor Portuguesas. E acrescentamos-lhe, para transmontanos e nativos da beira transmontana, como é o caso do nosso editor, o Dicionário de Palavras Soltas do Povo Transmontano.

Riso, afecto e nostalgia
Mas é Natal e a pessoa de quem gosta quer é rir-se, festejar, encher o mundo de carinhos e abraços? Há três livros que são uma auto-estrada para:
a) uma noite de gargalhadas imparáveis e estamos a pensar no Pequeno Livro dos Grandes Insultos;
b) uma noite de expansões ternurentas e ai-tão-querido está já garantida com o nosso Pequeno Livro dos Cães Mais Famosos;
c) uma noite de saudades das férias grandes e das tardes livres cheias de aventura da juventude, é o que terá se ficar a ler e a folhear em família o Livro Perigoso para Rapazes.

Socialmente sério
Pois bem, mas há quem, mesmo no Natal – e, por vezes, sobretudo no Natal – esteja preocupado com o mundo em que vivemos e com o firme propósito de não cometermos no presente e no futuro os clamorosos erros do passado. Tem dois livros, o Manifesto Comunista e o Mein Kampf, livros acompanhados de textos de contextualização e muitas imagens para acertar as suas contas com a História. Não é só uma oferta séria. É uma oferta seriíssima.

Ah, os insubstituíveis clássicos
A pessoa a quem quer dar um livro, talvez dois, prefere os clássicos, os grandes autores? Estes dois títulos, inscritos no mais alto céu da literatura – Moby-Dick, de Herman Melville, e O Vermelho e o Negro, de Stendhal – são obras soberbas e infalíveis. Principezinho é, por seu lado, um clássico suave, capaz de cativar a imaginação do leitor mais distraído. E há ainda, se quiser pôr uma nota de transgressão na sua prenda, a possibilidade de oferecer uma antologia que acabou de sair, Não a ti, odeio ou menos prezo, que reúne o que Fernando Pessoa escreveu sobre Cristo, o que inclui o Menino Jesus.

E não há romance?
Não, a pessoa que quer surpreender não gosta de nada disto. Gosta é de coisas actuais, romances dos nossos dias. Bom, começamos por lhe aconselhar o que é mais do que um romance, uma viagem convulsa à relação com a mãe, espelho de todas as relações de filhos e mães, propondo-lhe que ofereça um livro que tornará inesquecível o Natal de 2018: ofereça Mãe, promete-me que lês, de Luis Osório.
É também da busca de uma mãe que trata Essa Dama Bate Bué, de Yara Monteiro, que aconselhamos a todos os que tenham conhecido, vivido em África.
Se a pessoa espera que o Pai Natal lhe traga outra literatura, mais disruptiva, como agora se diz, Adeus., de Luis Rainha, com as suas 23 narrativas de separação, pode ser a prenda ideal.
E deixem-nos sugerir – bastaria o título – o belo romance Quando Perdes Tudo Não Tens Pressa de Ir a Lado Nenhum, estreia literária de Dulce Garcia. Sem pressas, para ganhar tudo.

Um toque poético
Ah, a pessoa a quem quer dar um livro não é especial, é especialíssima, gosta do que é primordial e profundo, saboreia em cada palavra a criação do mundo? Ofereça, num pequeno livro de 56 páginas, a poesia de Eugénia de Vasconcellos, o seu Sete Degraus sempre a Descer. Um pequenino livro, um enorme presente.

Este Natal dê um livro. E leia. Não é pela sua saúde, é pela sua mente, inteligência e emoções.