A culpa não é dos outros

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Hoje, o jornal i publica uma longa entrevista comigo. Está aqui, disponível na rede. O pretexto foi a publicação do meu Pequeno Livro dos Grandes Insultos. A um dado momento, o entrevistador trouxe o meu passado angolano à baila. E eu confessei-me:

Gostava de ter ficado em Angola?
Na altura podia ter tido a nacionalidade angolana, mas aconteceu que eu era um jovem maoista e entrei muito rapidamente em choque com o MPLA, que apoiava, ao qual pertenci mesmo, no Lobito, nos anos de confronto com a UNITA. Mas quando chegou a independência já as minhas relações com o MPLA eram de grande distância, para não dizer de fortíssima oposição. Opúnhamo-nos a todos os outros, mas também ao MPLA.

Porquê?
Tem a ver com opções políticas e, para mim, a percepção, que se tornou evidente, do autoritarismo e da emergência de uma ditadura. Daí o abandono do maoismo muito rapidamente, também. A percepção de que éramos profundamente autoritários e capazes de gerar monstros, tive-a cedo na vida. Aquilo que aconteceu no Camboja não aconteceu por acaso, os jovens idealistas convertem-se rapidamente em gente perigosa se não houver antídotos. E do que me apercebi aos 20 anos foi que o que vinha era tão mau ou pior do que o que tinha vivido antes e recusara, a ditadura salazarista. Nunca mais voltei a pertencer a um partido político nem a fazer vida política porque a minha descrença tornou-se muito forte e, sobretudo, a descrença em mim próprio por ter apoiado e pensado que aquilo que defendia era uma solução.

Quero sublinhar o trabalho do jornalista António Rodrigues, a quem agradeço o rigor da pesquisa e a fidelidade à conversa.

Pela frente ou por trás?

Quando a Epicur estava viva, eu ia, Primavera, Verão, Outono, Inverno, comer os bolos que lá me davam. Era pelo menos assim que se chamava a página da minha crónica: “Disseram-me que davam bolos.” Está foi polémica.

sharon stone

“Disseram-me que davam bolos”, chama-se esta coluna. Prometi bolos e já me distraio com o decote de Madonna. Passou à minha frente, nos MTV Movies Awards, em Los Angeles, quando me convidavam para miminhos desses.

Sei muito bem o que é um decote. Reconheço o altís­simo sobres­salto que um esmagado e espevitado par de cativas pom­bas, chamemos-lhes assim, pro­vo­ca no escasso corpo de um homem. E é verdade que este é o decote de Madonna, mas umas costas nuas! Nada se com­para ao ves­tido de finas alças nos ombros, estuá­rio aberto que se vem fechar sobre as cinco fun­di­das vér­te­bras do sacro – incom­pa­rá­vel é a geo­gra­fia de umas cos­tas nuas.

Prometi bolos e, afinal, espreito um decote. Não obstante, se há prazer que merece ser celebrado, é o das costas nuas. À frente, há uma planície venu­si­ana, certo? Mas atrás! Espa­ços aber­tos, duas rasas margens de um vale com um rio de vértebras ao meio. Ebúrneas e delicadas, castanhas e bronzeadas, de acetinado ébano, cantemos, de uma mulher, e logo desta mulher, as costas nuas.

Obcecado com a promessa de bolos, ainda não disse de quem são as costas. As costas, cósmicas, praia de Deus, são as de Sharon Stone. A dois metros de mim, umas alças, feitas do tecido “o rei vai nu”, seguram-lhe o vestido, que só começa onde lhe acabam as doces vértebras. Uma visão a tentar fazer-nos esquecer que estamos no ano de “Basic Instinct”, filme em que os nossos olhos se focaram na sombra da sua recôndita e faiscante arqueologia.

Qual­quer turista ataca as vistas frontais, para ver o garantido périplo que vai das gémeas tor­res Eif­fel, que Jean-Paul Gaultier desenhou a Madonna, à gruta de Las­caux, que Courbet pintou, à sua escandalosa maneira, chamando-lhe a origem do mundo. Mas as cos­tas nuas! As cos­tas nuas pedem a didác­tica tensão de um Oví­dio, a per­sis­tên­cia do lento apren­diz de uma “Ars Amatoria”.

Viajemos, vértebra a vértebra, as costas de Sharon Stone. Mais breves do que um soneto, cinco versos cer­vi­cais levam-nos da cabeça à linha de ombros. Cinco ver­sos, cinco anéis de ouro e prata a pedir o escor­re­ga­dio beijo dos lábios, os dedos em cacho, como no “Cântico dos Cânticos” se vin­dimava em En-Gaddi.

Dois dedos abaixo, para cantar a vaga­bunda beleza torá­cica e lom­bar das costas nuas, ninguém consegue calar o rei Salomão. Ele nunca viu Sharon Stone e já implora: deixa-me ser o pas­tor que apas­centa os teus reba­nhos. A estas este­pes atravessa-as o mais móvel dos túneis – nas firmes cos­tas, subliminar, subterrânea, há uma lírica trança gela­ti­nosa e óssea. Trança – não, não é um bolo! – que rever­bera a cada toque da polpa de uns dedos, sopro de uns lábios, enca­ra­co­la­dos cabe­los que nela se rocem.

E, no entanto – Sharon Stone não é Galileu! – nem tudo se move. Estão imóveis e fun­di­das as cinco vér­te­bras do sacro, imóveis e fun­di­das as quatro vér­te­bras do cóc­cix. Imóveis e fundidas como sólidas amarras que segurassem o suspenso e oscilante jar­dim babilónico logo abaixo. Sem essas vér­te­bras resi­li­en­tes, nunca o poeta pode­ria ter dito: “Eu entro no meu jar­dim, eu como o mel, o favo.”

Cauda equina de tão ner­vo­sas raí­zes – ai jardim, já o ves­tido te esconde, para que melhor te adi­vi­nhe­mos. E por mais que o manto tape, dese­nham-se nele redondas montanhas, promessa de neves no Kilimanjaro.

O amado, que des­ceu em bei­jos cer­vi­cais, que cor­reu torá­cico, que vadiou no bál­samo lom­bar, que estremeceu no imó­vel rigor sacro­coc­cí­geo, suplica agora à amada: “Pela frente ou por trás?” E ela, voz de Inverno, rosa de Sharon, perdão, de Saron: “Ó meu amor, pela frente ou por trás, para mim tanto faz.”

A multidão que canta

Crónica escrita há uns anos. Talvez dois. Eram anos Mitroglou. Embora, em boa verdade, os anos que sempre contam sejam os anos de Eusébio da Silva Ferreira.

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O pé esquerdo de Eusébio é a mão direita com que escrevo esta crónica. Escrevo à mão, aparo da caneta a raspar o papel, como o pé de Eusébio a aflorar, veloz manso e forte, a relva. Escrevo ao vivo como o pé de Eusébio chutava no paraíso que é, ao vivo, um jogo de futebol. É desse estádio cheio, da multidão que ulula, da multidão que venera, da multidão que canta, que eu hoje quero falar. Falar o quê?! Falar coisa nenhuma, deixem-me é incensar o prazer da multidão que canta.

Não há prazer comparável. Dizem-me que há multidões azuis e verdes. Mas a minha multidão é religiosa: vai à Catedral e, entre Céu e Terra, fica ali cantando como quem reza, vestida de vermelho.

Já ouço o político e o académico que rosnam o seu temor à multidão. A multidão é má. A multidão atropela-se. Imaginem a multidão no Louvre: as mil bocas da sua respiração embaciam os quadros, os mais gigantones tapam a vista da Mona Lisa aos mais baixinhos. A multidão de museu é uma multidão que faz de cada um o anão de si mesmo.

No estádio… quero dizer, na Catedral, a multidão é gloriosa. Canta toda para o mesmo lado, é toda da mesma altura, o que faz com que cada um veja com os olhos de todos. Quando Eusébio marcava um golo, ou agora Jonas ou Mitroglou, a multidão é rasgada pelo mesmo frémito estético. Não é igual à beleza superficial das montras da Avenida da Liberdade, é mais como a beleza feiticeira e sanguínea de Macbeth, como o sentimento épico dos primeiros versos de Os Lusíadas. E, de resignada e incorrespondida paixão, a multidão estremece quando os caprichos dos deuses fazem a bola embater com estrondo no poste da baliza adversária.

A desfraldada multidão vermelha da Catedral é carinhosa. A primeira vez que levei a minha filha a ver o SLB, tinha ela 6 anos. Baptismo na Catedral. Acontecesse o que acontecesse no relvado, a minha filha não parava de gritar. Expliquei-lhe: “Filha, só gritas quando a bola estiver nos pés dos nossos rapazes vermelhos, e só depois de passarem aquela linha de meio-campo, ao aproximarem-se da linha da área adversária.”

Era muita linha e a minha filha ficou confusa. A bola já estava nos pés de João Vieira Pinto, menino de ouro da minha filha, e ela perguntou: “Pai, posso começar a gritar?” A multidão virou para mim um olhar crítico e regalou a minha filha com um sorriso protector. Eram velhos benfiquistas com anos de estádio, com doutoramento de multidão, e disseram num clamor: “Amigo, não seja ditador, deixe gritar a miúda! Grita, princesa, grita sem medo.” Foi a mais bela censura da minha vida: o coração chorava-me de alegria a cada vermelho grito da minha filha.

À beira do mar em Porto Amboim

porto amboim

Todo o português é um Mark Twain, todo o português é um Rudyard Kipling. E antes que a ideia escorra a desbotar-se no parágrafo seguinte, juro ao leitor que, pelo português que já tanto sou, também mereço ser um bocadinho Twain e um bocadinho Kipling.

Falta dizer quem são ou foram estes Twain e Kipling. Twain era patrão de costa. Praticamente nascido num cesto a vogar sobre o Mississipi, o rio entrou-lhe pelos ouvidos e pelos ossos. O rumor das águas, as vozes dos escravos, a água a molhá-lo até ao fémur, colaram-lhe de amor a boca ao rio e não descansou enquanto não foi marinheiro o suficiente para ir ao leme de um barco a vapor a rasgar o fim do século XIX. Por acidente, foi também escritor.

Kipling foi, não o sendo, o último soldado do império britânico. «Um, dois, um, dois, esquerda… esquerda, direita volver», aprendeu a ser cadete e cantou o regimento que nunca teve em poemas como Gunga Din ou Mandalay. Nenhum soldado, capitão ou general os cantou ou cantará tão bem.

 Ao leme não há Adamastor que apavore a incerta mão portuguesa, e estaria aqui, estaria a falar de impérios, se não tivesse prometido que vinha só falar do incêndio dos olhos que é o prazer de viajar.

E vejam, nem agora estamos a salvo do americano Twain e do colonialíssimo britânico Kipling. Eles viajaram à volta do mundo. Viajaram além e aquém dos séculos em que viveram, mostrando-nos que no tempo é que se viaja bem. Imito-os.

No dia 11 de Novembro de 1975, por aventurosas razões políticas que interessam tanto como um fiscal de linha num jogo de futebol, eu estava no Sumbe cercado pela UNITA e sul-africanos de que era inimigo. Tinha de fugir para Luanda que, por sua vez, estava cercada pela FNLA e os seus soldados de fortuna. Ali, naquela praia do século XX, só havia barcos a vapor de Mark Twain. “Go West”, gritava-me do século XIX a voz do escravo de Huckleberry Finn. Ainda hoje, essa viagem num barco de cabotagem é a mais epicurista das minhas memórias. Viagem de Angola ao Brasil, Atlântico dentro, eu ao leme a gritar ao Mostrengo: «Aqui ao leme sou mais do que eu / Sou um povo que quer o mar que é teu.» Viajei, glorioso, num barco que nunca saiu do cais.

No dia seguinte, já Angola independente, troquei Twain por Kipling. Vim dormir a Porto Amboim e na manhã de 13 de Novembro, antes de recuar para Luanda, vi o farol lá em cima do morro, na praia, as pedras do velho forte, e uma rapariga africana num silêncio sem desculpas a olhar o mar. Era, vinda de Kipling e de Mandalay, a minha rapariga birmanesa. Ter-me-á visto? E se me viu, terá ela pensado, no futuro que veio a ter, se algum futuro teve, que um dia evocaria a fugaz imagem de um perdido rapaz português, excrescência do império e de Kipling, à beira do mar em Porto Amboim?

By the old Moulmein Pagoda, lookin’ lazy at the sea,
There’s a Burma girl a-settin’, and I know she thinks o’ me

Uns ovinhos de perdiz

venda informal

Tinha os olhos postos na minha pilinha. Olhava-a com uma inquietação de oito anos de idade. Ali estávamos, ela de olhar mais cego, a interrogarmo-nos um ao outro: estaria a façanha, na sua complexa articulação e intrincado encadeamento, ao nosso alcance?

Quando vi o filme Stand by Me gritei de inveja: também queria, como aquele bando de miúdos, ter descoberto um cadáver numa mata, para o lado do aeroporto de Luanda, onde íamos caçar pássaros. O cadáver dos meus oito anos foi uma calçadeira. Deixemos, para já, a calçadeira ao pé do que era então o meu único par de sapatos.

Da escola da Missão de São Paulo, eu vinha de frescas sandálias ou de imaculados quedes em dias de ginástica. Bando negro com miúdo branco, atirávamo-nos, com uma convicção de Garrinchas, Matateus e Iaúcas, a trumunos de sarjeta. Ou seja, a sarjeta era a baliza e o objectivo era, quem estivesse na posse da bola – uma lata, caixa, um bom caroço de manga – enfiá-la no buraco. Fazíamos da caminhada ramerranesca uma jornada de glórias e humilhações pessoais e uma afronta à manutenção dos esgotos camarários.

Íamos deixando os colegas moradores no musseque Rangel onde desaguava a Avenida dos Combatentes, e sobrávamos dois. Vila Alice à vista, sentávamo-nos com um vendedor de kitaba, paracuca e quifufutila. Largávamos um angolar e a língua deliciava-se entre o picante e o doce, enquanto oferecíamos os ouvidos ao nosso mestre vendedor. Era um mais velho ainda novo, nada de kota, mas sabia já o que nós não sabíamos e queríamos saber: aquilo.

Fazia render as revelações, do manso farfalho a tirar as cuequinhas, até que um dia contou o que sonhávamos que nos contasse. Era assim: corpos nus, abria-se o que é de sua natureza abrir-se e penetrava o que para isso é cilíndrico e de inflada ponta. Depois, obtido o perfeito encaixe, com uma calçadeira, eis que se enfiavam os redondos complementos do impante membro. Os meus dois ovinhos de perdiz também entrariam, portanto, na festa.

Acreditámos. E a calçadeira assombrou tanto a minha infância, como o espectro que Marx dizia assombrar a Europa no revolucionário século XIX. Só havia uma calçadeira em casa e seria perverso tocar-lhe. Com que cara e dinheiro iria eu, oito anos, comprar uma? E diga cá – já os estava a ouvir –, para que quer o menino a calçadeira?

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Publicado no Expresso

Estão nuas e de costas

Estão nuas e de cos­tas. Uma saiu do banho. Da outra, o corpo inerte nada deixa adivinhar.

Degas
Degas: ao que de molhado reste entre entre joe­lhos e a oculta virilha

Degas, que come­çou a ver mal em 1870, pin­tou esta mulher que sai do banho (ou se banha ainda) em 1895. Como os outros nus –  sem­pre no banho ou a sair dele; quando se seca o corpo em pé ou ligei­ra­mente dobrado para que as mãos levem a toa­lha ao que de molhado reste entre joe­lhos e a oculta viri­lha; ou penteando-se cabe­los – Degas pin­tou este qua­dro quase à beira da cegueira. Não forço muito a nota se dis­ser que já não são mulhe­res o que Degas pinta, mas uma certa memó­ria delas. (E se, um dia, Deus ou os seus anjos me leva­rem os olhos, que me dei­xem memó­ria e consolação.)

Digam o que quei­ram e sai­bam dizer de luz e com­po­si­ção, o que me inte­ressa neste “Le Bain” é a ins­tan­tâ­nea sur­presa. É Degas que nos con­vida, mas sei que não devia ter entrado, devia ter resis­tido à porta aberta da toi­lette. A impro­vá­vel posi­ção da perna, o osso da anca que sobres­sai, a revolta cabe­leira ruiva, a cri­ada que a seca, as per­nas que se abrem impú­di­cas, nada auto­riza pre­sença alheia, tudo é só des­cui­dada inti­mi­dade. Mas será que ela, a mulher no banho, per­ce­beu a inva­são? A tensa con­trac­ção do corpo sig­ni­fica que se quer levan­tar? Ou roda só para que a cri­ada melhor a seque?! Mais opti­mis­tas, pode­mos pen­sar que Degas pin­tou uma mulher que se pre­para para o amor, para se ofe­re­cer. As per­nas que se abrem ante­ci­pa­riam outro tré­mulo corpo que as virá preencher.

Acusaram-no de pin­tar as mulhe­res feias. Res­pon­deu, e só pode­mos con­cor­dar, que não, não as pin­tava feias, pintava-as como “gatos que se lam­bem a si mes­mos”. Gatas de Degas, de que sen­ti­mos o corpo redondo, car­nal mas pon­tu­ado de inten­sos e psi­co­ló­gi­cos ossos, mesmo se ape­nas as esprei­ta­mos pelo buraco da fechadura.

Hopper
Hop­per: sem espe­rança que a visite a vida que o san­gue amplia e endurece.

Trinta anos depois, um ame­ri­cano, apai­xo­nado por Paris e pelos impres­si­o­nis­tas, pin­tou, inven­tei eu, a mesma mulher. Pintou-a com soli­dão mais ame­ri­cana do que fran­cesa. Uma soli­dão que durou três anos, de 1924 a 1927, o tempo que demo­rou a pintá-la.

Em vez da ten­são de Degas, Hop­per sur­pre­ende o seu modelo em incó­modo repouso: a mesma (quase a mesma) estra­nha arti­cu­la­ção das per­nas. Per­nas que já só por hábito se bifur­cam em resig­nada aber­tura, sem espe­rança de que as visite a vida que o san­gue amplia e endu­rece. A cabeça não des­cansa, tom­bou ape­nas. O cabelo apa­gado, já sem o incên­dio que se vê na mulher nua de Degas. E são, inven­tei eu, uma e a mesma mulher. Pas­sou de Degas a Hop­per, o que a admi­ra­ção do ame­ri­cano pelo fran­cês, que já não fui eu a inven­tar, mais confirma.

Do banho pari­si­ense nove­cen­tista para esta nudez recli­nada e ame­ri­cana (Washing­ton?) mudou tudo na vida dela. Bas­ta­ria dar a volta e vê-la, à mesma mulher, de frente: adi­vi­nha­mos olhos fecha­dos e que se negam na dei­tada mulher de Hop­per, ao con­trá­rio dos olhos curi­o­sos ponta de malí­cia do húmido modelo de Degas.

Um modesto e inominável holandês

pintura

 

O quadro é do fim do século XV e está no Museu Regional de Messina. Coisa sicil­iana.

O autor é descon­hecido. Provavel­mente um mestre fla­mengo. Talvez seja o Mestre da Lenda de Santa Lucia, assim chamado por ter pin­tado um episó­dio da vida da santa numa igreja de Bruges. Autor tam­bém de um belís­simo “Maria, Rainha dos Céus”. E foi o que con­segui saber dele, deste modesto e inom­inável holandês.

Esta “Pietà i Sim­boli della Pas­sione” é um assom­bro. Dois em um, é Pietà ou é Cru­ci­fi­cação? O “Mae­stro” num quadro pin­tou dois. De baixo para cima, de cima para baixo. Um, tradi­cional, o de baixo, grat­i­f­i­cando sem sobres­salto as nos­sas expec­ta­ti­vas com uma Pietà que cumpre as regras: pin­tura agónica, austera, piedosa.

Mas se os olhos subirem de repente, em cima pas­samos a outra pas­mosa dimen­são. O Mestre, o lendário mestre, desafia-nos para uma estética de colagem: pairam no ar ros­tos recor­ta­dos, mãos implausíveis, objec­tos de tor­tura. Pode ser que tudo, caveira incluída, faça parte de uma nar­ra­tiva ainda escolás­tica mas, vista hoje, esta pin­tura con­funde (mais do que os delírios de Bosch) tem­pos e códi­gos, ante­ci­pando sur­re­al­is­mos e imagéti­cas pop.

Que tor­men­tos teológi­cos, que incon­fessáveis devas­sidões sim­bóli­cas terão pas­sado pela cabeça e glo­riosa mão do Mestre da Lenda de Santa Lucia?

Que outra coisa posso querer que não seja recu­perar a memória de ilus­tres e às vezes esque­cidís­si­mos mor­tos. Como este Mestre Sem Nome que não fosse ser ele o mestre desta Lenda De Uma Santa e já o teríamos mergulhado no escuro mar do esquecimento. Como este Mestre que nos abre os olhos para os olhos com que, entre piedade e paixão, aqui ele mesmo nos olha.