Um Manoel de vida, um Oliveira de morte

Já sabem que tenho uma missão: recuperar para esta Página Negra os meus textos antigos, os que ficaram perdidos em jornais e em blogs já extintos. Quando, a 2 de Abril de 2015, logo no dia seguinte ao dia das mentiras, parecendo ainda que era mentira, morreu Manoel de Oliveira, o Expresso pediu-me um artigo e, a quente, escrevi assim:

oliveira

Se estivesse vivo, o que escreveria hoje João Bénard da Costa sobre a morte de Manoel de Oliveira? Escreveria sobre a morte, sobre o desejo de morte, que Oliveira cultivou na sua obra? “Não se nasce com outra certeza que a morte”, diz Vanessa, personagem de “O Princípio da Incerteza”

Ou escreveria um texto pasmoso e barroco sobre o coração da mulher amada que José Augusto tem na mão, na “Francisca”, um dos filmes que o João tanto amava e que eu não hesitaria em dizer que, com “O Passado e o Presente”, era o melhor filme de Oliveira?

Se eu pudesse pedir ao João Bénard, pedir-lhe-ia que escrevesse sobre o mais perturbante dos temas que atravessa, depois dos anos 60, a obra do decano de todos os cineastas. Pedia-lhe que escrevesse sobre os amores frustrados nos filmes de Oliveira, sobre essa singular e ínvia relação que os homens têm com as mulheres. Et pour cause, as mulheres com os homens. Relação insuportável, extremada, como a que, em “O Passado e o Presente”, a protagonista tem com os seus maridos: só os ama depois de terem morrido, de tal forma que cada novo marido é sempre assombrado pela memória e pelo cadáver do anterior.

Não sei, nem seria capaz, de escrever sobre nada disso. Sei apenas que neste fim de semana escrevi sobre um episódio que vivi com Manoel de Oliveira e que mandei esse texto para o “Expresso” para ser publicado na “Revista” que sai amanhã. Quando hoje soube da morte do Manoel arrepiei-me. Digo nesse texto que o Manoel é imortal e mal o digo vejo-me desmentido.

Ou talvez não, porque havia um lado fáustico em Manoel de Oliveira. Há um Oliveira que concebe e cria os filmes e havia um Oliveira que vivia o dia a dia com uma energia quase juvenil. Há uma abissal diferença entre a vida e a obra de Manoel de Oliveira. Haverá?

Donde vêm as personagens femininas dos filmes de Oliveira? Amava-as? Amou as actrizes que as incarnaram? Dir-se-ia que não amou nenhuma como Sternberg amou Marlene, como Bergman amou as suas Andersson, a sua Ullmann, ou Rossellini a sua Ingrid. Mas teria Oliveira, como eles, vontade de beijar e tocar as suas actrizes? Beijou-as? Não há história do cinema português: há uma vaga narrativa e muitas lendas. E que bem que fica a lenda a Oliveira, se a lenda aceitar que, nas filmagens, havia um Oliveira vivo e carnal.

Ainda agora, um jovem assistente me contou que, numa repérage, Oliveira caminhava de costas, a olhar pelo viewfinder e ia tão distraído ou concentrado que bateu com as costas contra uma parede. Virou-se, viu a parede, voltou a olhar para os assistentes e disse: “Esta parede, abaixo!”

Nos seus filmes com uma tão hierática relação com o teatro, nesses filmes em que, mais recentemente, Oliveira parecia entregar-se a temas e cenas em que caminhava para a sua própria morte, havia no plateau um Oliveira vivo, enérgico, capaz de se debruçar para fora de uma janela, pondo toda a equipa com um “ai, jesus” na boca, um Oliveira que repetia vigorosamente a cena que um actor fizesse mole.

É esse o meu Oliveira, o que vi na mais divertida noite com cineastas geniais, a contar anedotas alentejanas para responder às barzellette sobre carabieniere que Antonioni contou em Lisboa, na Embaixada de Itália. O mesmo Oliveira que me obrigou a andar, em Cannes, Croisette acima, Croisette abaixo, numa discussão filosófica interminável e civilizadamente gritada, quando eu, cheio de mil objecções, escrevi sobre o seu “Non ou a Vã Glória de Mandar”.

Esse é o Manoel que cheguei a pensar imortal. Fica a obra, mais de 30 longas-metragens, inquietas, elaboradas, de corpos que ele canibalizou de uma maneira singular, uma obra que da Teresinha de “Aniki-Bobó” às mulheres que nos filmes dele foram Leonor Silveira e Leonor Baldaque, revela ou denuncia um mal, uma doença portuguesa: o homem português olha para a mulher e esse olhar é um olhar impotente.

o mundo já é de fusão, mestiço, mulato

O Velho é meu kamba. Apresentei-o aqui e ele presenteou-nos com prosa a preceito. Hoje, nestas voltas de rescaldo natalício, encontrei esta prosa, que escrevi e li na apresentação do livro dele, Amor(es) em Lualis. Aqui fica, nesta Página Negra, para memória futura.

AMORESEMLUA

O Fernando Machado Antunes, figura sereníssima e lúcida, que, nos tempos imemoriais de Luanda, eu e todos conhecíamos pelo carinhoso nome de Velho, teve um momento fracativo e, nesse momento fracativo, convidou-me para apresentar este seu livro de poemas, “Amores em Lualis”.

Eu bem disse ao Fernando que a minha reputação não é famosa e a minha experiência a apresentar livros de poemas é nula. Mas, agora que os dados estão lançados e a maka está instalada, vamos ter de superar a difícil situação e, no fim, peço que perdoem ao Velho, porque a culpa do que correr mal é só minha. Vamos então, virar a página e entrar nos finalmente deste livro.

A verdade é que, aberto o livro e passada a dedicatória, o leitor de “Amores em Lualis” encontra uma introdução. É só uma página, mas nessa singela página de introdução, o leitor encontra, e eu encontrei também, matéria declarativa em que logo ficamos a saber ao que o autor vem e ao que o leitor vai.

Fernando Machado Antunes declara, assertivo, que a sua vocação é narrativa – ele quer e vai contar-nos estórias. Percebemos que nessas estórias está uma vida inteira – a vida dele, a vida de poeta Fernando Machado Antunes, do poeta que é só o alter ego do meu amigo de Luanda e Lisboa, a quem todos chamamos Velho.

“Amores em Lualis” é, portanto, um livro de poemas, um livro de 60 poemas em que se espelha e se conta uma biografia. Como não vos quero induzir em erro, ao contrário do que possa ter-vos até agora sugerido, tenho de voz dizer que essa biografia não é romanesca. Ou seja, não conta, de cabo a rabo, os episódios que aconteceram. Neste livro, está uma biografia simbólica: superamos os incidentes que a espuma dos dias levou e ficamos só, nos versos do Fernando, com a essência.

Explico-me. Há lugares, mas o que neste seu livro o Fernando conserva e nos dá é o perfume dos lugares. Há acções de infância, adolescência e dessa idade adulta que já quase só é idade de memória, mas mais do que as acções o que o poeta retém é o estado de espírito, é a alma dessas acções.

Vamos então à biografia simbólica que “Amores em Lualis” nos conta. E, no princípio, vamos quase descobrir o poeta de bibe. Fernando Machado Antunes foi menino e é esse menino que primeiro nos aparece. Em seis linhas de prosa poética, Fernando faz o preâmbulo da sua meninice. Logo ali, nessas seis linhas, o poeta nos diz e mostra qual é a sua língua portuguesa. A língua portuguesa do Fernando Machado Antunes é, para minha profunda alegria, uma língua portuguesa inventiva, branca e negra, uma língua que vai do alcatrão ao musseque, uma língua que tem consciência da secular tradição de onde vem, mas que se abre, abraça e beija a novidade dos trópicos, a inventada palavra angolana.

O poeta Fernando Machado Antunes que me desculpe, mas eu sabia que aqui, na linguagem, o Velho, o meu amigo Velho ia impor a sua marca. Ao ler, como leio, nessa belíssima página 9 esta expressão: “Quando barulhávamos na ingenuidade do início do caminho”, o meu cérebro voltou a ser o atleta que era em Luanda e deu um enorme salto, à Nelson Évora.

Eh pá, Velho, essa palavra “barulhávamos” não existe, meu! Ou existe? Essa inventada palavra, palavra de candengues que brincam com a linguagem, se não existia, merece existir. É visual como um ideograma chinês, é sonora como tudo o que é infantil tem de ser sonoro.

“Barulhávamos” sim. Basta dizer “barulhávamos” e sabemos que estamos no recreio de uma escola com miúdos aos gritos, a correr e a jogar à bola – a bulhar, a fazer barulho, a baralhar o mundo. Às vezes é preciso uma palavra completamente nova para dizer com exactidão uma realidade que as velhas palavras já não conseguem descrever e nomear.

São muitas as palavras novas do poeta de “Amores em Lualis”. Há descompromissos, há quitandeiras goiabando-se no pregão. Goiabando é um gerúndio que traz um frutado perfume à nossa língua. E a língua portuguesa só pode agradecer essa ecologia, esse doce sabor africano.

Por muito mal que isto esteja a correr, devo dizer em minha defesa, que já consegui dizer duas coisas muito sinceras: em primeiro lugar que este livro é uma biografia simbólica, uma espécie de canção em que só se ouve a música instrumental, uma cavatina em que o cantor se reserva ao silêncio. E acabei agora de dizer que este livro inventa palavras, oferece novas palavras sonoras, perfumadas e frutadas à velha língua do nosso velho Camões.

Mas vamos em frente que o miúdo Fernando à página 17 já é um adolescente. Como nos aconteceu a todos, também o poeta adolescente descobre o desejo e o desejo do desejo. São 6 poemas em que o “eu” domina. O “eu”, diz ele, desliza por entre as trepadeiras do vento e veste-se de ternura. Em 6 poemas, o “eu” do poeta descobre as meninas, descobre-as de coração na garganta e confessa que tem vontade de lhes cerzir o corpo de veludo.  Quem não teve?!

São poemas de segredos adolescentes e de murmúrios adolescentes. Aviso já os leitores que tenham a minha provecta idade que esses poemas nos causam uma avassaladora saudade. Quiçá mesmo uma dolorosa saudade. A consciência de que não voltaremos a ter esse genuíno, ingénuo, inocente e vital encantamento, bate forte dentro de nós. A mim bateu! Bate cá em cima e lá em baixo e dói bué, meu.

Mas por falar em consciência, peço-vos que abram o livro na página 22 e leiam o poema que começa com este verso: “Jurámos passear o mundo…” Poema de adolescência também, é o primeiro poema em que o Fernando nos dá um sinal da sua consciência do mundo e eu acho muito curioso que ele o faça, já não usando o “eu” protagonista dos outros poemas adolescentes, mas sim dando a palavra a um “nós” que talvez seja o “nós” de um par amoroso, mas também pode ser o “nós” de um grupo, de um grupo de amigos que partilham o mesmo ideal, o mesmo sonho. E leio:

Jurámos desalgemar a inocência
libertar o verso e o silêncio
beijar o pôr-do-sol
nas nuvens.
Penugens
de asas por voar.

         Se as asas do poeta aqui ainda são de penugem, a verdade é que já estão firmes à página 25, quando ele nos apresenta ao tempo de entrada na idade adulta, período a que ele chama “Pelos tempos e contratempos dos amores e das paixões”. Os poemas desse ciclo são poemas de fruição, os mais físicos de todo o livro, carnais, ao ponto de o poeta evocar anoiteceres que gemiam melodia. E leio-vos, para não estarem a pensar que vos minto:

Fizemos anoitecer
gemendo melodia
de acontecer.
E acontecia
o que um e outro
queria…

         “Amor casado a dois” é o conjunto de poemas que se segue. Conta-nos a que, hoje em dia, é a meu ver a mais subversiva das experiências, a do amor casado, legítimo, o amor da rotina e repetição infindável dos dias. Fernando Machado Antunes canta o casamento como uma viagem e um bom porto. Mas é com ternura e lucidez, com um estoicismo romano, que ele identifica também os perigos, o risco de uma sonolenta banalidade:

Sei, meu amor, que me inquietam os dias
ficando palavras por dizer
e que das tranquilas sonolências das poesias
não nascem melodias
poéticas
de amor e bemdizer…

Sei meu amor, que me desassossegam as horas
ficando gestos por aparecer
e que de olhos perdidos em lonjuras
não nascem auroras

         É já um poeta em plena maturidade, seguro da sua linguagem, seguro dos seus amores, seguro da sua visão do mundo, que depois vai ao reencontro do seu passado. Primeiro ao encontro dos seus amigos, depois em revisitação a Luanda, Coimbra e Lisboa, esses lugares chave da sua biografia. O poeta entra, como ele mesmo confessa, “nos mambos da amizade”. Amizade a pessoas que vêm com mãos de dar, reconhecimento das ruas de Luanda, “lugar da minha vida”, “terra de cheiros, tons e sons e chão”, Luanda mil vezes cantada, mil vezes traída e Lisboa, cidade “toda menina, toda moça”.

         O poeta Fernando Machado Antunes tudo isto canta, poética e sinceramente. Mas, de repente, o Velho, o meu amigo Velho dos tempos imemoriais de Luanda, volta a tomar conta deste seu primeiro livro de poemas. E faz irromper a utopia. O mundo que viveu é tão rico que não o quer perder. Reinventa, por isso, esse mundo de memórias, esse mundo em que sonhar a invenção de um mundo novo fazia sentido e era permitido. E surge o ciclo de poemas que encerra o livro. Chama-se “Em Lualis”. Em cinco poemas e uma coda, o poeta, que já para a infância e adolescência inventara palavras novas, inventa agora uma cidade virtual, uma cidade utópica, cidade mestiça, fusão lindamente mulata de Luanda e Lisboa. 

Leio-vos uma estrofe:

Queria imaginar uma avenida
de porto a porto, mestiça de voar
mil desejos e um olhar
vinda dos caminhos de ontem
aos amanhãs da vida…

         Será ingénuo o desejo de Fernando Machado Antunes? Nem é preciso ser muito céptico para se dizer que sim, que a vida não é assim, que isto é conversa de poeta e que essa cidade nunca há-de existir. Se querem que vos diga, não estou tão certo. Existe o que existe nas nossas cabeças e até eu, de vez em quando, já vejo essas ruas mestiças, já na minha pituitária se cruzam cheiros, regressam ao meu palato o sabor nostálgico da paracuca ou do calulu.

Fecho este “Amores em Lualis” com a quase certeza de que este livro e o seu autor estão certos. Não há vencedores, nem vencidos: no mundo que o Velho, poeta de Lualis, quer, cai champagne dos céus.

E o mundo vai dar-lhe razão. O mundo que está à nossa frente ou é um mundo de amores ou não será mundo. O mundo que está à nossa frente ou é de fusão, mestiço, mulato, ou não será mundo. Obrigado, Velho, pela lição.

infeliz é quem não tem argumentos

Argumento

Infeliz é quem não tem argumentos. Não seja infeliz, e não se queixe de Deus ou do Menino Jesus: eles já tinham posto à sua disposição 159 argumentos. Agora, mesmo antes do Natal, só não está na sua mão o Argumento nº 160 se não quiser. Custo, é quase de borla, o que para um Argumento 160 é uma coisa capaz de comover mesmo um cativacional Mário Centeno.

E é tão fácil de encontrar: tropeça-se neste Argumento logo à entrada do Cine Clube de Viseu. Se, como uns nómadas de cabeça perdida, deambularem pelo país, este Argumento entra-vos pelos olhos dentro na Cinemateca Portuguesa, no Cineclube do Porto, nas livrarias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e da Universidade Católica do Porto.

E vejam agora, as premissas (ou, dito de outro modo, as sentenças declarativas deste Argumento, 160, cuja fotografia está lá em cima:

KAMINHOS MAGNÉTYCOS diários de um filme de Edgar Pêra
I DON’T BELONG HERE – DELETE Hélio T sobre o documentário de Paulo Abreu
O HITLER EM NÓS o filme de Hans-Jürgen Syberberg, na retina de Manuel S. Fonseca
JOSÉ LUIS GUERIN uma transcrição da passagem do realizador pelo vistacurta 2018, numa aula de cinema/entrevista guiada por Daniel Ribas
LETTER TO JANE Fausto Cruchinho investiga um still em conjunto com Godard e Gorin
CAMINHOS MAGNÉTYKOS x2 o novo filme de Edgar Pêra, ilustrado por Luís Manuel Gaspar
E AINDA Livros do Trimestre, What’s Up CCV?

A sentença declarativa com que participo neste Argumento começa assim:

“Hitler, um filme da Alemanha, filme realizado por Hans-Jürgen Syberberg, em 1977, é o quê? Sim, é um filme de sete horas, extravagância que não casa com as programações de cinematecas, festivais e cineclubes contemporâneos. Ou será que não casa, sobretudo, com o Homem contemporâneo – e deixem-me vir já armado de maiúscula, para que neste H caibam homens e mulheres e o mais que de géneros se convoque e legitime.

Será Hitler uma evocação fascinada de terríveis fantasmas do passado? Um libelo contra a moral e a estética do mundo contemporâneo? Um relato, simultaneamente em tom hagiográfico e de farsa, à volta da vida do homem de anacrónico bigode que presidiu do terceiro Reich? Ou será uma invocação e uma diatribe contra o cinema e a sua história? Talvez seja, e confirmá-lo-ia Angela Merkel, se o tivesse visto, a devassa do inconsciente colectivo da Alemanha.”

 Se forem a correr comprar a revista prometo que trago, mais semana, menos semana, esse artigo que escrevi a pedido do Cineclube de Viseu, cujo espírito voluntarioso e criativo merece o nosso aplauso e a vénia da nossa carteira.

Que o Natal esteja convosco

Geertgen_tot_Sint_Jans,_The_Nativity_at_Night
Natividade à Noite, Geertgen tot Sint Jans, 1480 (?)

Hoje, fui ao cinema Ideal ver Roma, o filme de Alfonso Cuáron. Descobri-me em muitos momentos do filme – passa-se em 1971 – e isso foi, senão uma roda gigante, pelo menos um carrossel de emoções. Não contava, a um dia da data em que celebramos o nascimento de Jesus, deparar-me no filme com uma cena que é a mais pura anti-natividade que já vi filmada, belíssima e pungente. Como não quero afogar-vos em spoilers, não conto. Direi só que em Roma, não nasce o Menino Jesus, e nada se passa como se terá passado em Belém há 2018 anos.

Por causa desse dia, amanhã vamos cear, conversar, rir e chorar. Recordaremos a infância, os pais já mortos, misturaremos bacalhau, um galo capão, rabanadas, coscorões e sonhos. um módico de espiritualidade e sacos de prendas, livros, mais um cinto de fivela dourada, um colar e um vestido, pequenos gestos de dádiva que quebram as barreiras, as distâncias, os silêncios dos outros dias.

Em tudo isso, que alguns dirão serem rotinas e convenções, eu vejo uma bondade grande, a bondade de nos tratarmos bem a nós próprios e aos outros. Há quem queira uma radical mudança do mundo, um mundo de pura verdade, um mundo de total felicidade, um mundo de uma perfeição de platina. E eu, o cansaço dos 65 anos a sossegar-me músculos e ossos, os pobre olhos míopes a semicerrarem-se, só quero louvar os pequenos gestos, um saboroso grama de felicidade, um olhar comovido, um riso que cintila como a primeira estrela e logo se apaga.

Que essa pequenina felicidade intermitente, que eu tanto amo e em que tanto confio, esteja convosco nesta noite de Natal, é o que desejo a quem gosta e visita a Página Negra, aos meus amigos do facebook e ao que já eram ou que continuarão a ser meus amigos, haja ou não facebook. Feliz Natal.

 

Sobre filmes de Natal

Xmas Carol

O “Expresso”, o jornal onde comecei a escrever em 1981 (com duas saídas e dois regressos), convidou-me para escrever sobre filmes de Natal. Se ainda não compraram o jornal e a revista, experimentem ir ler aqui. O artigo leva por título “A grande alegria do Natal é a sua tristeza” e o meu editor, o Miguel Cadete, meu amigo também, avisou a navegação do que ali vem, antepondo-lhe este lead: «Uma reflexão nada inocente sobre os filmes de Natal onde se conclui que Charles Dickens, antes de morrer, deixou escrito o argumento do primeiro, do último e de todos os filmes de Natal. É um livrinho, umas 150 páginas singelas, chamado “A Christmas Carol”.»

O prazer que me deu escrever esta prosa.

Prova Oral, pois claro

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Já tinha feito alguns exuberantes programas com o Fernando Alvim. Dois lançamentos de livros meus foram objecto de emissões em directo da Prova Oral e tenho deles muito boa memória. Mas nunca tinha ido ao local do crime. Desta vez, para falarmos do Pequeno Livro dos Grandes Insultos, visitei a Caverna de Ali Babá do Alvim (acompanhado pela Catarina Mourão), e o resultado foi o que podem ver e ouvir aqui. Ou, se não quiserem ver, e só usar como música de fundo, também está aqui, no podcast da Antena 3.

Não se aconselha almas mais sensíveis.

 

Sem estes filmes eu nem vida tinha

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Sacado, com a devida vénia, do site do American Cinematographer

Um dia, num blog que infelizmente já acabou, o Jorge Silva, que já foi da Guerra &Paz, convidou-me para eu escolher os filmes da minha vida e responder a um breve inquérito. Levei tudo muito a sério e, por ele me ter pedido uma curtíssima autobiografia, escrevi estas linhas:

Manuel S. Fonseca foi aprendiz e mau na oficina de  João Bénard da Costa, na Cinemateca. Escreveu, como crítico, coisas imperdoáveis no “Expresso” durante alguns anos. Depois passou pela televisão, pela produção de telefilmes e de longas-metragens assumidamente comerciais e, sobretudo, viajou muito. Isso tudo já passou e hoje não faz mal a uma mosca. Tem uma coluna nostálgica no “Expresso” e escreve num blog lúdico e sumptuário chamado “Escrever é Triste”.

É bom de ver que ainda não nascera este lugar obscuro e cavernoso que é a Página Negra. Trago por isso, para aqui, para memória futura, as escolhas que fiz nesse ano de 2013, no 1º de Maio. Regressemos, então ao passado.

Os Filmes da Minha Vida

Os dez mais que, por esta desordem, agora me vêm à cabeça:

Broken Blossoms, D. W. Griffith
City Lights, Chaplin
Pierrot le fou, Jean-Luc Godard
The Searchers, John Ford
M, Fritz Lang
Playtime, Jacques Tati
Ordet, Carl Th. Dreyer
Rear Window, Alfred Hitchcock
Close Encounters, Steven Spielberg
The Godfather, Francis Coppola

Fiz esta lista e comentei, logo a seguir, jogando à defesa:

Os melhores filmes deviam ser como os menus dos restaurantes. Uns estariam sempre na carta e outros deviam mudar como os pratos do dia. Amanhã, por exemplo, já constaria o Singin’ n the Rain, o Der Blaue Engel e depois de amanhã o Some Like it Hot, o To Have and Have Not, o Citizen Kane, o A Matter of Life and Death, o Casque d’or, o Senso ou o The River do Renoir. E na montra do restaurante, em vez de “Hoje há passarinhos” apareceria escrito, a letras garrafais, “Hoje há Brigitte Bardot”.

E agora leia-se o cerrado interrogatório a que o meu amigo Jorge Silva me submeteu:

— O filme da sua vida…
Talvez seja o “How Green Was My Valley”, a mais perfeita cristalização de um mundo de harmonia que, por nunca ter existido, Deus se viu obrigado a criar através de John Ford, seu filho dilecto.

— Realizador favorito
John Ford, por ter ajudado Deus a corrigir algumas imperfeições da Criação. O mundo ficou melhor com a aldeia galesa de “How Green…” e ainda melhor com o povoado irlandês de “The Quiet Man”.

— Actor favorito
Richard Dreyfuss, pelo “American Graffiti”, pelo riso e pelas canções no bote de “Jaws”.

— Actriz favorita
Jean Seberg, pela nuca rapada de “Saint Joan”, pelos shorts de “Bonjour Tristesse” e por ser tão adoravelmente dégueulasse em “A Bout de Souffle”.

— Personagem que gostava de encarnar se fosse possível “entrar” no ecrã…
Pierrot, perdão, Ferdinand no “Pierrot le Fou”.

— Filme que mais o marcou no momento do seu visionamento…
Posso dizer dois? Primeiro, enternecido, quando vi a Natalie Wood a fazer beicinho para o James Dean no “Rebel Without a Cause”. Nesse mesmo Verão, duas ou três semanas depois, foi um incêndio, ao ver a Elizabeth Taylor a fazer, quais olhinhos, o corpo inteiro, ao Burton, no “The Sandpiper”.

— Obra-prima clássica (ou nem tanto) com que embirre particularmente…
Embirro razoavelmente com o William Wyler (Best Years of Our Lives e  High Noon) e irrazoavelmente com o Eisenstein a quem prefiro a Sarita Montiel.

— O filme-choque da sua vida…
Sem ponta de ironia, um filme polaco belissimamente incompleto, “Pasazerka”, de Andrzej Munk

— Filme do qual possa dizer “a vida é muito parecida com isto”…
Um filme terno e cruel, simples, infantil e adulto, chamado “Stand by Me”, de Rob Reiner.

pasazerka
Pasazerka, Andrezej Munk

Não lhe chamem vígaro

MacGregor

Meçam as palavras. Não chamem vígaro ao príncipe dos vigaristas ou trambiqueiro ao audacioso embusteiro. Elmir de Hory, que Orson Welles celebrou em “F for Fake”, enganou meio mundo pintando falsos Picassos, Matisses e Modiglianis. Aceitando o impulso estético que lhe comandava a mão, Elmyr fê-lo com o mesmo enlevo com que Maria aceitou ser mãe virgem, semicerrando os olhos ao sopro do Espírito Santo.

Devemos apreciar embuste a embuste: e a apreciação moral não pode ser o único critério de avaliação. Se o sonho comanda a vida, então a arquitectura do embuste, o seu horizonte, a sua minuciosa e labiríntica tessitura têm de nos merecer a vénia estética que o sonho, essa fraude nocturna, nos merece a todos e fez ganhar a vida a Freud e à corte de psicanalistas seus seguidores.

De Gregor MacGregor as enciclopédias dirão que era um aldrabão. Era escocês, o que, como um tipo ser português, desculpa muita coisa. Lutou contra Napoleão e gostou. Juntou-se a Bolívar e foi general dele no exército que tornou a Venezuela independente do vil colonialismo espanhol. Lutou tanto e tão bem que casou com uma prima do Libertador.

Eis um homem que, insatisfeito com o seu mundo, o queria mudar. O que é, aliás, da ordem do trivial. A MacGregor não lhe bastava o mundo existente. Ao mundo, que o Senhor Deus todo-poderoso burilou nos sete dias da Criação, faltava um país, Poyais. Criou-o MacGregor, situando-o à volta do Rio Negro, em plena América Central. Inventou esse país, deu-lhe a monarquia como regime, e a si mesmo fez-se príncipe. Em Londres circularam milhares de guias, com as cidades fantasiosas, as montanhas, as ubérrimas riquezas de Poyais. Emitiu, então, douradíssimos certificados do tesouro desse país imaginário, a que logo o lúbrico materialismo britânico afinfou o dente.

Feliz com a sua criação, MacGregor, ao sexto dia, fechou a cúpula do palácio, que era esta astuciosa fraude, vendendo o direito à emigração: dois barcos largaram com colonos britânicos para o eldorado que seria Poyais caso existisse. Encontraram selva, febre e desolação. Inalcançando a beleza da coisa, a justiça perseguiu-o, mas MacGregor refugiou-se na Venezuela, que o recebeu como herói. Eis a trágico-cómica matéria de que se fazem os sonhos, a que Shakespeare se atiraria como um menino à marmelada.

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um dollar de Poyais: não vale 30 dinheiros