Por pudor ou liberdade, Herberto Helder diz na capa que são poemas mudados para português. O livro chama-se, uma imagem felicíssima, “O Bebedor Nocturno”. Nele se reunem poemas mexicanos e canções indonésias, enigmas maias e haikus japoneses. Em todos perpassa a língua portuguesa naquela forma única que ganha quando Herberto a escreve ou diz. É um livro que paira num lugar inlocalizável: está acima da cultura, da literatura, da academia, situando-se na nómada curva da alegria.
Volto a lê-lo, em meias-horas de volúpia silenciosa, tão diferente e tão igual ao riso com que, no primeiro ano da década de 70, entre Luanda e a barra do Kwanza, o lia aos gritos na areia a ferver das praias do km 36 ou, Jesus Cristo sobre as ondas, no kayak a deslizar sozinho pelas águas quase rasas dos mangais.
Por exemplo, tão bonito este enigma asteca:
– Uma coisa que vai pelos vales fora, batendo as palmas das mãos como uma mulher que faz tortilhas? – A borboleta voando.
Ou então este haiku:
Libélula vermelha. Tira-lhe as asas: Um pimentão.
Foi o que, corrigindo a natureza, escreveu Kikaku. Mas logo o sábio Bashô lhe corrigiu a correcção:
Faço-vos um desafio.
Comprem “Os Passos em Volta”, de Herberto Helder. É um livro de contos. Incursão rara do poeta na prosa narrativa. O mais próximo que ele terá estado de um romance.
Já compraram? Óptimo, leiam agora, de “Os Passos em Volta”,
um conto, o mais belo de todos os contos, leiam “Polícia”. Conta-o um português, clandestino, em Bruxelas, na iminência de ser, porventura, expulso.
E agora, que já compraram “Os Passos em Volta” e já leram “Polícia” , podem ler, embora não precisem, a piedosa e devota prosa que se segue.
Eu era então muito novo. Aprendi a soletrar o amor nos onze parágrafos das cinco páginas de um conto chamado “Polícia”. O amor ficou-me para sempre assim, a mulher nua deitada sobre um cobertor, gotas de chuva a deslizar nos vidros da janela.
Em frases curtas, que uma pequena e amável ironia acelera, o conto descreve Bruxelas, o papel ambíguo de um protector petit Monsieur Leclercq, antigo colaboracionista e funcionário do partido comunista, a penúria do protagonista que alguns biscates mal iludem.
É um clandestino que fala. Tem uma voz serena, objectiva. Confia, percebe-se, no movimento que os tempos verbais dão às frases: “Eu desejava trabalho, apenas isso.” Ou então: “… o maior amigo do meu protector, um flamengo que amava a cerveja forte, pertencera à Resistência.” Desejar, amar e pertencer são os dínamos de frases humildes, manuais dir-se-ia. As frases vão por onde os verbos as mandam.
É um português e deambula pela cidade, perto da estação, entre as luzes das ruas e o ruído dos comboios de mercadorias. Talvez porque ter dinheiro no bolso seja tão acidental, o narrador clandestino poupa nos adjectivos. Escassez na vida que repercute na luminosa escassez da prosa. Ainda assim, divertido ou inocente, autoriza-se (uma vez apenas, no primeiro longo parágrafo de 42 linhas) um aceno contido de transcendência: “Às vezes eu fazia com estes elementos estrangeiros um lirismo vagabundo e puro.”
Eu era então muito novo e ao ler “Polícia” apaixonei-me pela ideia difusa de cidade, os vagos trabalhos temporários, beber cerveja, dançar num bar da Chaussée d’Anvers. Mas apaixonei-me sobretudo pela absoluta consciência de si deste clandestino a quem le petit Monsieur Leclercq aconselha a fugir para a França, Alemanha, meter-se num barco que saia de Antuérpia.
Congenitamente idealista, “Polícia” é um conto em que os contornos da cidade, a espessura dos vultos que passam, das abundantes prostitutas, só ganham concreção dentro da linguagem e da solidão do herói clandestino. Quase ouço o narrador responder-me: “Também me sentia absurdamente entusiasmado com a solidão.” Talvez le petit Monsieur Leclercq não saiba, mas se o clandestino partir, a cidade desaparece. E não, não me parece que Monsieur Leclercq o saiba: antigo colaboracionista e funcionário do partido comunista, o monismo idealista é-lhe estranho.
Eu era então muito novo e nunca tinha lido uma tão incondescendente consciência de si. Mais abismado fiquei ao ver, no segundo parágrafo, o herói clandestino criar uma segunda consciência, desencantado comentário de si mesmo. É uma manhã de Dezembro e chove, diz ele, para logo a seguir e pela primeira vez surgir, entre parêntesis, a segunda camada de consciência de si, filosófica, quase sempre interrogativa. Uma segunda consciência que é, porventura, mais o resultado de uma elegante discrição, quase timidez, do que um artificio literário. Leio e pergunto-me se o herói clandestino não terá criado esta segunda vaga da consciência de si como pretexto para introduzir Annemarie. É Dezembro e chove, diz ele, para logo derivar, auto-comentando-se “(eu falaria depois a Annemarie da chuva lenta, patética)”. E deixa-a ali, suspensa, misteriosa, para só voltar a sentar-se ao lado dela, ou ela ao lado dele, 24 linhas depois.
Chove neste conto, “gotas de água a toda a volta”, e surge Annemarie, francesa de Lyon, tão clandestina como o narrador português: “Annemarie sentou-se a meu lado. Vi logo que ela não podia estar mais só.” São duas absolutas consciências de si, irredutíveis, sentadas ao balcão de um bar de Bruxelas, em frente a dois “belos copos de cerveja fria”. Bebem na solidão um do outro.
Eu era então muito novo e pareceu-me perigoso e subversivo este clandestino encontro de consciências num chuvoso fim de tarde estrangeiro. Seria absurdo que a polícia não os perseguisse. A polícia, esse desejável escrutínio da ilegalidade, é a única forma de os dois clandestinos terem a certeza que arriscam a liberdade. A única certeza.
“Polícia” começa numa deliquescente manhã de Dezembro, em Bruxelas. Termina na noite desse dia, a mesma fria névoa lá fora e “um calor inconcebível” nesse quarto onde duas solidões falam “longamente da chuva, do amor e das leis.”
Em dois demorados parágrafos iniciais e nove mais curtos, poéticos, parágrafos finais, “Polícia” é um lapidadíssimo diamante narrativo. O ritmo do fraseado, a precisão lexical, o discreto brilho metonímico, a frugal sugestão imagética estão invencivelmente acima da tantas vezes pastosa narrativa portuguesa. É só literatura, dir-me-ão aqueles que razoavelmente pensam ser a literatura coisa pouca. Que interessa? Eu era então muito novo e “Annemarie puxou-me para dentro e amámo-nos sobre o cobertor até de manhã.”
Neste meu comentário, reporto-me à versão original do conto, publicada pela Portugália Editora, em Março de 1963, a 1ª edição do livro. A que eu tenho e cuja capa está fotografada lá em cima.
O meu anti-herói favorito também canta. Vamos já ouvi-lo. Primeiro, como se fosse preciso, apresento-o, até por tê-lo conhecido em Tróia, aquela península ali mesmo à frente de Setúbal – como o Setúbal, o meu velho kamba, António Gutierres, atestará no primeiro tribunal ou juízo de Deus a que nos convoquem.
Bob Mitchum, um rio tranquilo. Talvez, por isso, podia beber sem limites. Sidney Pollack, que o dirigiu, diz que bebia o dia todo sem que o nível de consciência e de comportamento se alterassem.
nasceu cansado
Menino bem nascido, nasceu cansado. E era esse o segredo das suas personagens: homens robustos, sólidos como armários, mas cansados, cansados demais para esconder que havia muitas outras coisas para além do que as suas palavras lentas e os gestos quase inexistentes deixavam transparecer.
Percebe-se, de Out of the Past a Angel Face, que a emoção de Robert Mitchum é uma emoção ferida. Se lhe dissessem que era inexpressivo não negaria, mas auto-explicava-se com uma teoria mais zen: “Look, I have three expressions, looking left, looking right, looking straight ahead”.
looking straight ahead
Tinha um metro e oitenta de falsa timidez, cabelos escuros e olhos azuis. Não ia ter com as mulheres porque as mulheres vinham ter com ele, mas casou um casamento de 57 anos com a namorada de juventude. Em Farewell my lovely, o personagem dele engata uma incendiária Charlotte Rampling:
– “My place?”, diz ele.
– “What for? You got everything we need with you”, sossega-o ela.
Dois anos antes de morrer, em 1995, Jim Jarmusch dirigiu-o em Dead Man. Deram-se bem. Jarmusch conta 123 histórias dele, mas a favorita é uma blague. De manhã, quando se encontravam no estúdio era sempre assim:
– “How are you this morning Mr. Mitchum?”
– “Worse.”
Quando, em 1692, os soldados de Luis XIV invadiram Stuttgart (Estugarda, não é?), já Johann Pachelbel tinha composto o Canon para 3 violinos e um violoncelo que hoje tanto nos consola e obriga a falar dele. O organista Johann Pachelbel tinha 27 anos, mulher e filho, quando, para o casamento de um Bach em 1680, criou o tema que garantiria a imortalidade ao seu nome. Três anos depois, indiferente à celebridade futura, a peste ceifou-lhe a linda mulher e o querido filho. Casou segunda vez, passado um ano, com a mulher (seria linda como a primeira?) que, de Estugarda, o acompanharia na fuga aos franceses, para regressar à Nuremberga natal.
Pachelbel nascera em Nuremberga. Nasceu com o Barroco já bem maduro. Em 1653. Aprendera, dizem que fascinado, música italiana. Protestante, inspirava-o a música religiosa católica, que conhecera em Viena. Foi professor do irmão mais velho de Johann Sebastian Bach. De alguma maneira, como se costuma dizer quando nos pomos a adivinhar, terá influenciado, nem que tenha sido por essa via familiar, o Bach que nós achamos que é Bach.
O Canon não é o meu classic weepie favorito: ando a ver se decido entre o Für Elise, Adagio de Albinoni, duas ou três coisas de Bach que não digo o nome para não me envergonharem, Uma furtiva lágrima de Donizetti, a Manhãzinha ou a Canção de Solveig do Grieg no Peer Gynt e se calhar nem é nenhuma destas. Mas o Canon e Giga em Ré Maior para três violinos e violoncelo é uma bela massagem que se mete pelas vértebras e chega ao coração. E é uma lição de vida. Desprezando o nosso actual politicamente correcto, o Canon ensina-nos o valor da repetição.
Basta repetir bem, diz-nos suavemente cada um dos violinos. Repetir uma vez como faz o segundo violino, repetir a repetição na inultrapassável demonstração de humildade do terceiro violino. Cada violino se abre como janela para o violino que se segue, ao contrário da teoria das mónadas “que não têm janelas” sustentada G.W. Leibniz filósofo, matemático e contemporâneo alemão de Pachelbel. Pode ser, como sugeria Leibniz, que as substâncias simples e inextensas sejam as verdadeiras substâncias. Pois hoje, o Leibniz vai direitinho para a estante. Os repetidos acordes dos violinos de Pachelbel é que são a verdadeira substância.
Nesta interpretação, instrumentos, materiais e estilo tentam reproduzir as condições da época.
Quem cantou o Sexo Todo Poderoso foi Edna St. Vincent Millay. Cantou-o em verso e em público, na cama e fora da cama. A mãe dela, Cora, despachou um pai impertinente e, sozinha, criou Edna e as irmãs com hinos à natureza humana. Com a franqueza e sinceridade que nenhum ministro das finanças, nem mesmo o nosso heróico Centeno, há-de ter, Cora disse isto um dia: “Sou uma slut e criei as minhas filhas para serem umas sluts.” Ora bem, a semântica do português não faz justiça à gíria americana: slut está entre puta e vadia, termos moralizantes e depreciativos, que não honram o livre gosto do impreconceituoso amor desta mãe e filha, Cora e Edna, no começo do século XX, há cem anos.
Poeta amadíssima, como é raro acontecer a poetas, e logo mulheres, Edna era pequena, linda, duas destacadas colinas ao peito, um cabelo púrpura, e deslizava pelo mel do amor como hoje os louros adolescentes surfam as águas da Nazaré, em vertigem e a bater records. Dou um exemplo: Edmund Wilson, escritor, viril divulgador de Faulkner e Hemingway, de Rimbaud e T.S.Eliot, já tinha 25 anos e só uma ejaculação a ler um livro, o que o assustara e levara a consultar o médico, quando perdeu com ela a virgindade, assim descobrindo o esplendor e luz perpétua do sexo, do qual se tornou mais fanático do que eu pelo meu glorioso SLB.
Edna deu a provar à língua de Wilson o delicado óbolo, logo lhe mostrando da moeda as duas faces. O escritor descobriu que, deitando-se com ele, Edna não deixava de se deitar com quem queria, em particular com o seu melhor amigo, outro poeta, John Peale Bishop, colega de universidade em Princeton, como ele soldado na I Grande Guerra. Terá havido estupefacção, como se chamava à surpresa em 1914, choro e ranger de dentes. Prefiro trazer aos meus leitores um momento de lânguida ternura.
Edna decidiu viajar para a Europa e despediu-se dos dois amados, a quem chamava “os meus meninos do coro do Inferno”. Com aquele mórbido gosto que todo o Casanova tem na ruptura, despediu-se deles no quarto. Deitou-se nos braços dos dois, oferecendo a Bishop o seu corpo da cintura para cima, a Wilson da cintura para baixo, pedindo que lhe prodigalizassem firmes gentilezas e a doce gota da cortesia, cada um devendo provar que tinha ficado com a melhor parte. Eis o que me parece ser um programa para um mundo melhor, pelo qual merecem erguer-se estandartes e sonhar amanhãs que cantam.
Num dos seus mais belos poemas, Edna cantou essa amorosa dissolução: “Que lábios meus lábios beijaram, e onde, e porquê, / Já não sei, nem que braços repousaram / Sob a minha cabeça até amanhecer…” Procurava amantes muito jovens, cuidando que não se encontrassem à sua porta e rifando-os depois com magnanimidade. Chamava-lhes “frescos destroços de naufrágio” quando vinham uivar à sua janela. Muito gostando, para o resto da vida, de Wilson e de Bishop, sempres lhes reprovou que, por ela, não tivessem espatifado a sua amizade masculina.
Casou com um industrial holandês de café que amou e a amava com uma liberalidade que faz espécie a este nosso tempo de assexuada vigilância raivosa. Outro poeta, George Dillon, mais novo 14 anos, foi a sua última aventura. Traduziram juntos As Flores do Mal, de Baudelaire. Não invento, foi Edna que escreveu: beijar a boca de Dillon era tão macio como beijar o mamilo de uma rapariga. Mas Dillon fez o que só Edna podia fazer: rejeitou-a. Antes dos 40, Edna via desvanecer-se o seu prodigioso poder erótico. Nos últimos 20 anos de vida, morfina, álcool e drogas vieram dormir à sua cama.
Publicado na minha coluna “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo”, no Jornal de Negócios
Faltavas tu. Esta Página Negra tem estado à tua espera. Mais cedo ou mais tarde chegarias. Tu mesma, A Morte, a ceifeira, a senhora de branco. Pensa-se que sim, mas não, não és tu que matas. Somos nós que morremos em ti.
Não te invejo a dura sorte, a veste quimérica, a gadanha cruel, o rosto torcido, munchiano, o silêncio imperturbável. Não falas, sopras. Um sopro cansado. És, de certeza, alemã: Der Müde Tod*.
Descansa agora: deves estar esgotada. Trazes um cansaço labiríntico, de milénios.
És menos cruel do que se julga. Vi-te uma noite, no sono, imóvel no meu sono. Come seeling night…**, vem, vem assim, ó noite de olhos vendados. Percebi que não és tu que matas. Morremos sim do medo frio e cinza de te ver. Um medo dos diabos planta-se no meio do sono. Um medo que nunca se teve, nunca se tem, nunca mais se voltará a ter na vida. No meio do sono, um frio antárctico, o coração arrepanhado, o corpo crispado como as ruínas de uma casa. E tu olhas, olhar apócrifo, para as frágeis paredes de carne, as veias entupidas. Olhas como quem pensa, estática, dentro de um véu de desespero, as abruptas dores do sono: the pains of sleep***.
Nunca te vi na morte dos outros. Compreendo que seria um embaraço. Por cortesia, para que ninguém se mortifique, foges da melancolia dos funerais. Vi-te a cavalo, a pé, camuflada numa lenta carroça. E o que vi, vendo-te, é o espectáculo da mais triste solidão. De uma desolada fealdade. Segue-te, como banda sonora, o ímpio urro sem remorsos. Não te invejo a sorte. E menos invejo a agonia de todos irmos morrer em ti.
Chegas agora. Vens juntar-te às delicadezas e indelicadezas que já habitam esta Página Negra. Chegas, anjo nocturno, casamento único de céu e inferno. Contigo, que outra coisa pode ser a Página Negra, que não seja uma anfitriã gentil: vai sentar-te à mesa, contar-te-á sonhos, rêveries que a tua eterna e imutável insónia nunca te permitirá ter. Uneasy lies the head that wears a crown****. É essa, uneasy, intranquilíssima, a tua cabeça, cabeça-coroa-de-espinhos, em que não cabe, nem pousa, a tiara de sono ou sonho. Sobre de ti ou de ti irradia sempre e só a pálida luz bruxuleante, azulada, infeliz.
Descansa agora Müde Tod, minha cansada morte. Esquece os túmulos, os vermes, a terra. Goza um minuto, um minuto que seja, um minuto de cristal, de tempo fora do tempo. Aceita um lindo epitáfio: so shall my walk be close to Death***** ( que eu traduzo livremente por “possam os meus passos roçar a Morte“) e deixa-te levar, não recuses o doce abraço de mármore, vem tu morrer um bocadinho em cada um de nós.
* A Morte Cansada, título do filme de Fritz Lang, da fase alemã. ** Shakespeare, Macbeth III, 2
*** título de poema de Samuel Taylor Coleridge
**** Shakespeare, Henry IV, Part Two, III, 1
***** Variação sobre verso de William Cowper — So shall my walk be close to God – do poema Walking with God.
Bica Curta servida no CM, 5.ª feira, dia 29 de Agosto
A estatística da guerra e da paz dá boas notícias ao mundo: nos últimos 28 anos, em guerras civis, guerras entre estados, guerrilhas e terrorismo, ou seja, em todas as guerras morreram pouco mais de 81 mil seres humanos por ano. Comparado com o século XX é prodigioso o progresso da humanidade: no século XX, a média foi de dois milhões e trezentos mil mortos por ano. Brutal.
A guerra era das principais causas de morte de adultos: a terceira. Hoje é a 28ª e faz 16 vezes menos mortos do que os acidentes de viação. Em 2018, os mosquitos mataram 10 vezes mais pessoas do que a guerra. Digo eu: a globalização empurra-nos para a paz.
Sirvo-vos, com todo o gosto, um requintado prato de maldade e má língua.
A maldade humana, a intriga maldizente, tem a irresistível atracção de um prato de tremoços em esplanada de Verão. A maldade, já se sabe, não tem reserva de admissão. Nem lhe escapam os mais elevados espíritos – artistas, filósofos, escritores. É porventura entre eles que os ódios atingem mesmo os níveis mais abrasivos, roçando a vontade de aniquilar.
O odium plumitivum (permita-se a liberdade) pode ser, quando a coisa esquenta, um espectáculo de requintada maldade. T.B. Macaulay, o 1º Barão de Macaulay, foi sobretudo historiador e insosso, mas também poeta de antiguidades romanas. A sua obra não resistiu ao tempo, mas a irritação que Sócrates (sim, o grego) lhe provocava, afiou-lhe o talento e garantiu-lhe a posteridade: “Quanto mais o leio, menos me admiro que o tenham envenenado.”
Macaulay era político e secretário da guerra. Dir-se-á que a sua natural mediocridade o perfilava contra a filosofia. Mas entre o russo Nabokov e o polaco Conrad, dois re-inventores da língua inglesa, só mesmo o photofinish conseguirá estabelecer uma hierarquia de genialidade. Irmãos no génio, nenhuma afinidade electiva. O posterior Nabokov leu Conrad. O meu tão amado “Lord Jim”, um dos romances de todos os séculos, deu-lhe a volta ao estômago: “Não lhe aturo o estilo de loja de souvenires, os barquinhos prontos a engarrafar e os colares de conchas de clichés românticos.”
Virginia Woolf nasceu no ano em que nasceu também James Joyce. Por ironia do destino, acabariam por partilhar igualmente o ano da morte. Em vida, Woolf foi uma polifónica rival do irlandês, não se deixando submergir e ainda menos comover pela unanimidade que a caleidoscópica work in progress de Joyce gerava na intelectualidade emergente e vanguardista. Avaliou-o assim: “Um enjoado sem licenciatura a coçar furiosamente as borbulhas juvenis.”
Por vezes, o génio abate-se sobre o talento sofrível como uma bala de canhão sobre um mosquito. George Moore quis ser pintor e chegou a estudar com Manet, mas acabou poeta e romancista. Podem os académicos dizer que Joyce bebeu nele alguma inspiração. A inquestionável impertinência de Oscar Wilde resolveu o problema de forma assassina: “George Moore escreveu excelente poesia até que descobriu a gramática.”
Mesmo o conservador T.S. Eliot, entre os modernistas o que mais rapidamente percebeu que a tradição não se deita fora com a água do banho, viu capim, pura terra devastada, numa obra e num romancista maior inglês, como ele nascido americano. “Henry James tinha uma sensibilidade tão fina que nem a mínima ideia poderia jamais penetrá-la.”
Mary McCarthy e Lillian Hellman não são, provavelmente, escritoras que resistam aos próximo meio-século. Têm isso em comum e o terem sido activistas políticas e companheiras de estrada do comunismo americano. Ms. Helmann terá seduzido e, quem sabe, dormido com um então amante de Ms. McCarthy. Por causa dessa concorrência amorosa desleal, Ms. McCarthy disse um dia na televisão pública americana: “Toda e qualquer palavra que Lillian Hellman tenha escrito é mentira – e isto inclui as palavras ‘e’ e ‘o.’”
Fecho com Karl Kraus, para fechar em beleza. Lembro só um comentário dele, de requintado mérito literário, sobre o “último dos românticos”: “Heinrich Heine soltou de tal maneira os colchetes da língua alemã que hoje qualquer caixeiro-viajante lhe pode apalpar as mamas.”
p.s. — E lembrei-me do que essa flor inocente chamada Truman Capote disse quando leu o “On the Road” do Jack Kerouac: “Isto não é escrever, isto é dactilografar.”