Uma bandeira

josé afonso

É que tenho mesmo muita pena. Mas porque é que esta canção de José Afonso não foi a bandeira da minha geração? Porque raio é que fomos atrás do Dylan e dos ventos que ele soprava. Porque é que a voz clara deste José não foi a nossa imbatível referência estética? Referência universal estética e não referência parcial e política.

Também lá estive e lembro-me das “praias do mar” em “manhãs claras”. Acendemos fogueiras e fomos, noite fora, até romper o primeiro raio da madrugada. Isso devia ter sido um programa de vida, muito mais do que um ocasional estandarte político. Bem antes de haver Abril, que esses anos, de 70 a 73, tinham só 11 meses e moiras encantadas. Esta canção, o José desta canção é mais do que um programa político. É a proclamação de um programa de vida, fusão cósmica com a natureza e com o sonho.

 

O ar que comeremos

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Bica Curta servida no CM , 4.ª feira, dia 14 de Agosto

A boca que qualquer pai mandava ao filho recalcitrante “Ah, não estudas? E quando fores grande alimentas-te do ar, não é?” perdeu o sentido. A Solar Foods, usando tecnologia da NASA, transformou o simples ar que respiramos em comida: um pó chamado solein. Não sabe a bica curta, sabe a farinha de trigo e tem células proteicas de laboratório. O solein é CO2, água e electricidade renovável, é amicíssimo do ambiente, dispensa a agricultura. Pode produzir-se às toneladas e alimentar milhões de seres humanos. A criação é de engenheiros finlandeses e chega às lojas em 2021.

Aviso a filhos recalcitrantes: estes engenheiros estudaram!

Gatos, os últimos leitores

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Eis o último leitor.

Quando já nada mais restar, livros desfeitos, livrarias transformadas em húmidas e desvalidas catacumbas, tipografias como um lunar ferro-velho, talvez seja este, num gesto de simpatia pela velha humanidade, o último leitor.

Dia a dia, como o cansado elefante a caminho do remoto cemitério, o livro, abandonado, parte desta vida descontente.

Assaltar bancos

B&C

Bica Curta servida no CM , 3.ª feira, dia 13 de Agosto

Há 52 anos, estreou-se “Bonnie e Clyde”, filme com os ainda razoavelmente vivos Faye Dunnaway e Warren Beatty. O filme conta as aventuras de um par amoroso, belo e cruel, que assaltou bancos, nos anos 30, com uma violência, que não há cá bica curta. A lenda fez deles tão heróis e rebeldes como Che Guevara. Ela escrevia poemas suicidários e deixou filmes e fotos que fariam agora furor no Instagram.

Mataram sem piedade, mas tinham um modo de assaltar bancos, que o povo amava e temia: arriscavam o canastro de pistola na mão. O assaltante de hoje é sórdido e de gabinete: morde e branqueia pela calada. É um deslavado burocrata.

Do Not Go Gentle Into That Good Night

dylan
Dylan e Caitlin, sua mulher

A certas horas da noite a morte seduz e assusta-nos. Mas há convites a que não se pode ceder sem uma boa luta. Mesmo que o sonoro convite seja dito em “g” de gentle, consoante que o meu Aurélio diz ser fricativa palatoalveolar quando precede a vogal “e”, como é o caso neste poema de Dylan Thomas.

Gosto do ritmo, das rimas e do trovão de érres que se repete em  “Rage, rage against the dying of the light”.

Entre a doçura e a fúria, Thomas terá escrito este poema, inundado de vogais abertas, quando o pai adoeceu gravemente. Só o publicou depois dele ter morrido.

Vale a pena ouvi-lo na pessoalíssima voz (tão teatral) do poeta galês.

 

 

Homem na Lua

Neil-Armstrong

 

Eu devia ter publicado este post no dia em que se comemoraram os 50 anos da ida do homem à Lua. Mas a história tem um final meio amargo e não quis estragar o enlevo a ninguém. Vai agora, que os festejos já passaram.

Quando Neil Armstrong pisou pela primeira vez a lua, além da famosa frase “one small step for a man, one giant leap for mankind”, o astronauta acrescentou, quase em surdina, como se falasse só para o vizinho do lado: “Good luck, Mr. Gorsky!

E estava mesmo a falar com o vizinho. Quando era miúdo, Neil ouvira Mr. Gorsky implorar à senhora Gorsky um estranho favor que a senhora rejeitou, sem apelo, com um “sexo oral? queres? só quando o miúdo aqui do lado for à lua”.

Seria glorioso, se a história tivesse acabado aqui. Mas era boa de mais para ser verdadeira. Vivi anos na crença sólida de que a história era verdadeira e que Armstrong a contara num encontro com jornalistas em Tampa Bay. Mas descobre, depois, que tudo fora magnificamente forjado, com pormenores de conferência de imprensa, datas, nomes de vizinhos e afins, por “net con-artists”, ou seja, e em razoável português, por “manipuladores da rede”. Odiei saber a verdade. Já não volto, nunca mais, a olhar para a lua com a mesma sonhadora ternura.