Assaltar bancos

B&C

Bica Curta servida no CM , 3.ª feira, dia 13 de Agosto

Há 52 anos, estreou-se “Bonnie e Clyde”, filme com os ainda razoavelmente vivos Faye Dunnaway e Warren Beatty. O filme conta as aventuras de um par amoroso, belo e cruel, que assaltou bancos, nos anos 30, com uma violência, que não há cá bica curta. A lenda fez deles tão heróis e rebeldes como Che Guevara. Ela escrevia poemas suicidários e deixou filmes e fotos que fariam agora furor no Instagram.

Mataram sem piedade, mas tinham um modo de assaltar bancos, que o povo amava e temia: arriscavam o canastro de pistola na mão. O assaltante de hoje é sórdido e de gabinete: morde e branqueia pela calada. É um deslavado burocrata.

Palmar 20 milhões ao banco

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Foi antes de se inventar o assalto ao banco. Era disso que, nos anos 60 e 70, se queixava a polícia francesa: Jacques Mesrine assaltava bancos antes de se inventar o assalto ao banco. Corrijo e digo à verdade, o que ainda não se inventara fora o asséptico assalto ao banco. Nem nos sonhos dos mais pervertidos havia um húmido Lehman Brothers, um BPN de perna aberta, um nuínho BES.

Jacques Mesrine era um facínora, o que anda ali troca-troca com o herói e a lenda. Teve berço mais fofinho do que o meu, pais donos de fábrica de rendinhas de luxo, que hoje aflorariam com gosto a virilha dos anjos, mesmo os da Victoria’s Secret, tivessem os anjos virilha. Os pais queriam-no nos Altos Estudos Comerciais de Paris, mas Mesrine preferiu fazer a sua discência nos altos estudos do único bairro sublingual de Paris, o Pigalle.

Quantos bancos assaltou Mesrine? De quantos tiros e mortes se fez a cauda em fogo do cometa que ele foi na galáxia do crime em França? E já voltei a mentir, sem precisar. Afinal, uma crónica não é nenhuma audição de comissão parlamentar e aqui pode-se, sem perigo, louvar e dar graxa à verdade: Mesrine mundializou o crime, levando-o da hexagonal França à Suíça, ao Québec, aos Estados Unidos, à Venezuela, de férias a Palma de Maiorca.

Eça cantou a singularidade de uma rapariga loura. Eis a singularidade deste assaltante de bancos: a recidiva. Mesmo os portugueses que não lêem estas crónicas conhecem o termo das bulas dos eufóricos anti-depressivos que lhes animam os dias. A recidiva de Mesrine é especial: não se limitava ao facto dele repetir assalto sobre assalto. Mesrine voltava ao mesmo banco e assaltava-o, de novo, no dia seguinte. Talvez tivesse, como eu do peixinho, a obsessão do dinheiro fresco. Uma variante: também assaltava dois bancos de seguida, numa óbvia economia de escala, prova de que Pigalle ensina tão bem gestão, como os Altos Estudos Paris.

Mas eis o mais singular sinal particular deste bandido, que nunca foi rapariga loura, mas foi homem de mil caras, vinte perucas, bigodes, óculos de intelectual ou de boçal, tudo disfarces que ele usou para iludir o faro da polícia, deixando-a a latir. A segunda singularidade de Mesrine era a fuga. Fugiu de prisões descuidadas e de prisões de alta-segurança. Fugiu mesmo em pleno julgamento, apontando uma pistola ao juiz, fazendo-o refém.

A par do gosto que tinha por singulares raparigas louras com um passado, dignificando sem preconceito a experiência do alterne, Jacques viveu com gáudio e arte a relação com os media. Fê-los felizes, mantendo relação orgástica, em particular com o excelso e gauchista “Libération”, e servindo-se deles para atacar as hediondas condições das prisões ou anunciar uma filosofia que faria escola: “Eu não assalto velhinhos na rua. Se palmo 20 milhões a um banco, qual é o drama?”

O comissário Broussard foi o seu fiel perseguidor e um dia cercou-o em casa. Mesrine ficou sem escapatória. Parlamentaram. Quando abriu a porta à polícia Jacques estava de charuto na boca, uma taça de champagne na mão, que ofereceu ao comissário: “Broussard, prendes-me, mas com estilo!”

Voltaria a fugir. A polícia monta-lhe então uma emboscada, porta de Clignancourt, em Paris, enfiando-lhe um camião à frente do carro e fuzilando-o com 18 tiros, antes de, diz-se, fazer qualquer aviso. A mulher que ia com ele sete balas no corpo, uma num olho, sobreviveu. Quem não escapou foi o caniche que ela levava ao colo. Estava morto e pronto a enterrar o mais amado inimigo número um da França no século XX.

Publicado na minha coluna Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo, no Jornal de Negócios