Estado de Coma

bernadette
Bernadette e o marido que ama

Bica Curta servida no CM, 5ª feira, dia 23 de Maio

Está há 37 anos em coma. Há 37 anos que a mulher lhe leva almoço, jantar, mesmo a bica curta à boca. Jean-Pierre Adams, nascido no Senegal, foi central da selecção francesa e jogou no PSG. Um dia num quase baile de aldeia, uma francesinha, loiríssima e de olhos azuis, apaixonou-se por ele. Ele por ela. Casaram e têm dois filhos. Há 37 anos, um erro de anestesia, numa cirurgia ao joelho, mergulhou Adams no silêncio do coma. Bernadette, a loira, não abandonou o seu amor africano. Lava-o, fala-lhe ao ouvido, dá-lhe de comer. Num tempo de raiva de género, raiva de raças e de nações, até de eutanásia, há gestos que comovem e inspiram.

Estes livros são uma prenda da Guerra e Paz

Pavilhão D-48. É a Guerra e Paz Editores. No alto da Feira, do lado esquerdo de quem sobe vindo do Marquês.

E porque quem ama os livros, compra livros, a Guerra e Paz dá, depois, livros a quem os compra: amor com amor se paga.

Aqui ficam as regras do jogo, que não a última coisa que se quer é que algum leitor vá ao engano.

1. Oferecemos um livro a cada um dos nossos visitantes que compre livros da Guerra e Paz, no pavilhão D-48, num valor igual ou superior a 15€.

2. A cada dia, um desses seis clássicos será o nosso livro de oferta. Atenção: não há escolha, o livro oferecido é o clássico que esteja em exposição.

Veja bem a fotografia aqui abaixo, são estes os nossos clássicos de oferta, o amor com que a Guerra e Paz paga o amor dos seus leitores

Ainda há uma outra oferta, mas é tão bonita que merece um notícia à parte. Já falamos outra vez.

O anti-Trump

Lage

Bica Curta servida no CM, 4ª feira, dia 22 de Maio

Trump ameaçou apagar o Irão do mapa. Como um Houdini sangrento, quer sorver o fogo da vida de 81 milhões de iranianos, como quem bebe a anti-bica. Trump arrancou bons resultados económicos para o seu povo. Mas a América que amo, a par da riqueza, gostava de estar do lado do bem, e envergonhava-se se não estivesse. Há quem lhe chame fascista, e pronto, já não é nada connosco. Ora o problema de Trump é emocional e cultural. Sempre que usamos a arma da exclusão, somos como ele. O que Bruno Lage disse na festa do SLB, ao dignificar os adversários, é anti-Trump. Pena haver tantos Trumps na política, desporto, até na alta cultura.

Guerra e Paz, pavilhão D-48: estão a dar livros

Vou fingir que não tenho nada, mesmo nada que ver com esta editora. Posso, assim, dizer-vos, com a maior lata do mundo, ah, que engraçado, vi este post na blogosfera e não resisti a copiá-lo. Pavilhão D-48: encontramo-nos lá?

Somos nós. Pavilhão D-48

Eis o que lhe queremos pedir: venha subir e descer as alamedas do Parque Eduardo VII todos os dias, de hoje a 16 de Junho. Não páre nunca, há sol, a brisa que este quase Verão já pede, há árvores, folhas, flores, e agora os maduros frutos que são os livros. Há mais de um  milhão de livros à sua espera nas centenas de pavilhões dos editores portugueses. São livros, frutos maduros que vai querer ter na sua mão, livros que os editores fizeram depois de os autores, escritores, romancistas, ensaístas, ilustradores os terem escrito, pensado, desenhado.

Esta é a festa do livro, a nossa grande festa lisboeta do livro. Nós, na Guerra e Paz editores, juntamo-nos à festa. Somos só uma pequena editora independente. Temos total independência financeira e ideológica. Vivemos apenas da nossa relação com os leitores. Dos leitores que, por amarem tanto como nós os livros, os compram. É esse o nosso lema: quem ama livros, compra livros.

Nesta Feira, reservámos-lhe uma surpresa e abrimos uma excepção: estamos a dar livros. Vamos dar clássicos. Aos leitores que compram livros, amor com amor se paga, damos outro livro. A quem compra livros num valor igual ou superior a 15€, damos um clássico. A quem compra livros num valor igual ou superior a 50€ damos um livro de luxo, uma das nossas preciosidades.

Que livros demos? Quem hoje foi à Feira já sabe, mas amanhã diremos tudo.

Às 12:30 de 4ª feira, dia 29 de Maio, a Feira a abrir
e já tínhamos os primeiros leitores. Foram os primeiros a ganhar um livro.

Ademanes eróticos

Um dia, a propósito desta edição do livro “O Físico Prodigioso” de Jorge de Sena, disse o que agora, que o livro vai ser o ex-libris da Guerra e Paz, nesta Feira do Livro, volto a dizer. Com mais veemência e gosto, ainda.

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Nós, ocidentais, temos desenvolvido um gosto extraordinário pela auto-expiação e não nos dá jeito nenhum, para esse fim incriminatório, ver o que há de pan-erótico no cristianismo, a começar no processo que esse extraordinário Deus trinitário arranjou para seduzir – com voz de anjo – a Virgem Maria. Com o seu exército de anjos, arcanjos, serafins, santos e santas em êxtase místico, o cristianismo, e em particular o catolicismo, quase transbordam de ademanes eróticos, o que a profusão de talha dourada, mantos de seda e cheirinho de incenso só reforçam e excitam. Poderia lá existir este texto de Jorge de Sena, este O Físico Prodigioso se não tivesse bebido nesse rio de água benta em que se banha o sagrado e o profano, o invisível Espírito Santo e o tão táctil demónio?

Costa vs Trump

keyboard and 3d chart on finance report

Bica Curta servida no CM, 3ª feira, dia 21 de Maio

Os resultados económicos de António Costa são quase tão bons como os de Donald Trump. É pelo menos o que leio ao beber a bica curta. No primeiro trimestre de 2019, Costa pôs-nos a crescer 1%, o que é um enorme salto comparado com o crescimento anão dos últimos 12 anos; Trump pôs os EUA nos 3,2%. Costa fechou o trimestre com o desemprego nos 10,1% – melhor só em 2011; Trump reduziu o desemprego a 3,6%. Costa criou 145 mil empregos, Trump criou 4,5 milhões desde que foi eleito. Ambos podem gritar, Costa do Cristo-Rei, Trump da Estátua da Liberdade, que melhoraram o poder de compra dos cidadãos. Será a economia cega à ideologia?

Já cheira a Feira do Livro

Eu vou, atrás da Guerra e Paz editores, à Feira do Livro. Vamos lá estar, já a partir de dia 29. Como sempre? Melhor, pensamos e queremos nós. Para já, deixo aqui, um cheirinho do que vai ser a frente e as laterais do nosso pavilhão

Em cima, uma das perspectivas e, em baixo, uma das laterais:

E agora vejam bem a outra lateral:

A Feira do Livro é a confluência perfeita e amorosa do autor, do livro e do leitor. É este o lugar. E é este o lugar em que ou se cumpre a palavra de ordem que se grita aqui em baixo, ou a leitura e a literatura morrem:

Jerry

E foi assim, há dois anos, quando soube que Jerry Lewis tinha morrido. Se fosse hoje, repetiria, palavra a palavra. Repito.

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Vou ser-te franco, Jerry, pensei que já tinhas morrido. Com a alarvidade do teu “O Morto Era Outro”, de 1969, vais responder-me que o meu problema é ainda ninguém se ter dado ao cuidado de me avisar de que bem morto estou eu. E estou. Onde é que está o candengue que eu era quando tu pela primeira vez me falaste – me atropelaste, melhor seria dizer –, tinha eu 11, 12 anos, no cinema da 7ª esquadra, em Luanda, já 8 ou 9 inteiros anos passados sobre o puro e rebelde assalto do 4 de Fevereiro.

Tu perguntas-me, com a tua americaníssima ignorância, que raio foi ou é o 4 de Fevereiro? E eu pergunto-te que raio de ideia te passou pela cabeça para me apareceres assim, a tentares esquizofrenizar-me, numas cenas Professor Julius Kelp, corpo todo retorcido, a pingares um recalcado desejo pela Stella Stevens, e noutras cenas, em fatos rutilantes, voz de rythm and blues, um Buddy Love sedutor, mentor, sexy e cantor?

Sim, encontrámo-nos nas Noi­tes Lou­cas do Dr. Jer­ryl, a que chamaste The Nutty Professor. E tu, Jerry, era dois em um: de dia, o míope, cor­cunda e alu­ado prof. Julius Kelp e, à noite, depois de meteres à boca uma con­ve­ni­ente mis­tela aluci­no­gé­nea, eras o ego­ma­níaco e sedu­tor Buddy Love. Há quem diga que eras, num dos teus eus, um auto-vexatório Jerry e, no outro eu, a zur­zida cari­ca­tura de Dean Mar­tin, com quem tinhas feito dupla e uma daquelas amizades que nunca acaba.

Com o meu engas­gado estilo de Julius, logo me ape­te­ceu roubar-te a fama e o pro­veito de Buddy Love: esbo­fe­tear humi­lhan­te­mente quem me con­tra­ri­asse e tra­zer sem esforço as fres­cas bocas das lou­ras ado­les­cen­tes à minha boca. Não deves ter gostado nada de mim, mas eu gos­tei de ti, Jerry: per­ten­cias ao tempo em que vivía­mos e, sobre­tudo, pare­cias do tempo em que sonhá­va­mos viver.

Ado­rei, desculpa repetir-me, esqui­zo­fre­ni­ca­mente As Noi­tes Lou­cas do Dr. Jer­ryl. Por ser um sonho de miúdo. O que eu que­ria era o que tu fazias no filme: ter outra e des­co­nhe­cida iden­ti­dade, ser o irre­cu­sá­vel, irre­sis­tí­vel, melhor de todos, entrar na dis­co­teca (ui, e logo o Pur­ple Pit; sim, lá na rua, logo lhe chamámos o pitinho púrpura) e a orques­tra parar, todos os olhos fixa­dos no pro­di­gi­oso fato azul celeste de cola­ri­nhos pre­tos, colete branco, camisa rosa e gra­vata azul-escuro com que, feito Buddy Love, irrompias, dei­xando esga­ze­a­dos os tam­bém azu­lís­si­mos olhos da Stella Ste­vens que, essa manhã, o estra­bismo de Julius sonhara des­pir de todas manei­ras e melhor feitio.

Sei bem que não sabes, mas deixa-me contar-te, agora que já não podes partir-te todo à minha frente, a rir-te ou, pior ainda, a gritar como gritavas no The Ladie’s Man. Quando o João Bènard me convidou para a Cinemateca, o primeiro ciclo que organizei, com o João Lopes, foi em tua homenagem (ou à tua custa, dirás tu).  Não minto. Tens aqui a capa do catálogo que é de Julho de 1981.

A sala da Cinemateca tinha ardido e fomos fazer o ciclo ao Quarteto, ainda eu estava longe de saber o amigo do peito que o Pedro Bandeira Freire acabaria por ser. O catálogo é humildemente deslumbrado, quase uma plaquete estudantil, de 52 páginas, a custarem uns caros 80 escudos, que os teus luxos pagam-se. Mas era, se um catálogo fosse a foz de um rio, um delta de amizade. O que não copiámos e traduzimos dos Cahiers du Cinèma (sim, aquela revista que embrulhou os filmes no papel celofane que põe os teus reticentes compatriotas de olhos em alvo), pedimos aos amigos que escrevessem, a começar pelo Camacho Costa: “Era uma vez um palhaço, tinha um nome e um rosto e um corpo. O resto era só a alegria de se descobrir mergulhado nessa vertigem imensa que é inventar do outro lado a nossa própria loucura.” E convidámos, o João e eu, dois Gabriéis. O João, um psicanalista, o José Gabriel Pereira Bastos. Eu, um filósofo, o José Gabriel Trindade Santos, meu eterno professor. Escrevemos também nós. E lembro-te o que o João Lopes começava por dizer: “Herbert H. Heerbert, o “homem das mulheres” de Jerry Lewis, tem medo do cão que ruge, esse “Baby” (bebé) que tantas preocupações traz à sempre presente e dominadora Mrs. Welenmelon.”

O João Lopes tinha razão: tinhas medo desse cão, Baby, que não podia soltar-se, nem ver-se E nem era preciso que Mrs. Welemelon te tivesse prevenido. O rugido de Baby e a fome insaciável de Baby perseguiram-te a vida toda, os filmes todos. Baby, o cão, está agora à tua espera. Deus só pode ser esse bebé que ruge. E o céu é, de certeza, um cenário quase tão prodigioso como o de The Ladies Man. O que Baby, ou Deus, não sabe é o susto que vai levar quando descobrir que tu és o que és e o que não és. E o que és? Julius Kelp ou Buddy Love?

The-Nutty-Professor