Basta repetir bem

Pachelbel

Quando, em 1692, os soldados de Luis XIV invadiram Stuttgart (Estugarda, não é?), já Johann Pachelbel tinha composto o Canon para 3 violinos e um violoncelo que hoje tanto nos consola e obriga a falar dele. O organista Johann Pachelbel tinha 27 anos, mulher e filho, quando, para o casamento de um Bach em 1680, criou o tema que garantiria a imortalidade ao seu nome. Três anos depois, indiferente à celebridade futura, a peste ceifou-lhe a linda mulher e o querido filho. Casou segunda vez, passado um ano, com a mulher (seria linda como a primeira?) que, de Estugarda, o acompanharia na fuga aos franceses, para regressar à Nuremberga natal.

Pachelbel nascera em Nuremberga. Nasceu com o Barroco já bem maduro. Em 1653. Aprendera, dizem que fascinado, música italiana. Protestante, inspirava-o a música religiosa católica, que conhecera em Viena. Foi professor do irmão mais velho de Johann Sebastian Bach. De alguma maneira, como se costuma dizer quando nos pomos a adivinhar, terá influenciado, nem que tenha sido por essa via familiar, o Bach que nós achamos que é Bach.

O Canon não é o meu classic weepie favorito: ando a ver se decido entre o Für Elise, Adagio de Albinoni, duas ou três coisas de Bach que não digo o nome para não me envergonharem, Uma furtiva lágrima de Donizetti, a Manhãzinha ou a Canção de Solveig do Grieg no Peer Gynt e se calhar nem é nenhuma destas. Mas o Canon e Giga em Ré Maior para três violinos e violoncelo é uma bela massagem que se mete pelas vértebras e chega ao coração. E é uma lição de vida. Desprezando o nosso actual politicamente correcto, o Canon ensina-nos o valor da repetição.

Basta repetir bem, diz-nos suavemente cada um dos violinos. Repetir uma vez como faz o segundo violino, repetir a repetição na inultrapassável demonstração de humildade do terceiro violino. Cada violino se abre como janela para o violino que se segue, ao contrário da teoria das mónadas “que não têm janelas” sustentada G.W. Leibniz filósofo, matemático e contemporâneo alemão de Pachelbel. Pode ser, como sugeria Leibniz, que as substâncias simples e inextensas sejam as verdadeiras substâncias. Pois hoje, o Leibniz vai direitinho para a estante. Os repetidos acordes dos violinos de Pachelbel é que são a verdadeira substância.

Nesta interpretação, instrumentos, materiais e estilo tentam reproduzir as condições da época.

As duas metades de um corpo

Millay_

Quem cantou o Sexo Todo Poderoso foi Edna St. Vincent Millay. Cantou-o em verso e em público, na cama e fora da cama. A mãe dela, Cora, despachou um pai impertinente e, sozinha, criou Edna e as irmãs com hinos à natureza humana. Com a franqueza e sinceridade que nenhum ministro das finanças, nem mesmo o nosso heróico Centeno, há-de ter, Cora disse isto um dia: “Sou uma slut e criei as minhas filhas para serem umas sluts.” Ora bem, a semântica do português não faz justiça à gíria americana: slut está entre puta e vadia, termos moralizantes e depreciativos, que não honram o livre gosto do impreconceituoso amor desta mãe e filha, Cora e Edna, no começo do século XX, há cem anos.

Poeta amadíssima, como é raro acontecer a poetas, e logo mulheres, Edna era pequena, linda, duas destacadas colinas ao peito, um cabelo púrpura, e deslizava pelo mel do amor como hoje os louros adolescentes surfam as águas da Nazaré, em vertigem e a bater records. Dou um exemplo: Edmund Wilson, escritor, viril divulgador de Faulkner e Hemingway, de Rimbaud e T.S.Eliot, já tinha 25 anos e só uma ejaculação a ler um livro, o que o assustara e levara a consultar o médico, quando perdeu com ela a virgindade, assim descobrindo o esplendor e luz perpétua do sexo, do qual se tornou mais fanático do que eu pelo meu glorioso SLB.

 Edna deu a provar à língua de Wilson o delicado óbolo, logo lhe mostrando da moeda as duas faces. O escritor descobriu que, deitando-se com ele, Edna não deixava de se deitar com quem queria, em particular com o seu melhor amigo, outro poeta, John Peale Bishop, colega de universidade em Princeton, como ele soldado na I Grande Guerra. Terá havido estupefacção, como se chamava à surpresa em 1914, choro e ranger de dentes. Prefiro trazer aos meus leitores um momento de lânguida ternura.

Edna decidiu viajar para a Europa e despediu-se dos dois amados, a quem chamava “os meus meninos do coro do Inferno”. Com aquele mórbido gosto que todo o Casanova tem na ruptura, despediu-se deles no quarto. Deitou-se nos braços dos dois, oferecendo a Bishop o seu corpo da cintura para cima, a Wilson da cintura para baixo, pedindo que lhe prodigalizassem firmes gentilezas e a doce gota da cortesia, cada um devendo provar que tinha ficado com a melhor parte. Eis o que me parece ser um programa para um mundo melhor, pelo qual merecem erguer-se estandartes e sonhar amanhãs que cantam.

 Num dos seus mais belos poemas, Edna cantou essa amorosa dissolução: “Que lábios meus lábios beijaram, e onde, e porquê, / Já não sei, nem que braços repousaram / Sob a minha cabeça até amanhecer…” Procurava amantes muito jovens, cuidando que não se encontrassem à sua porta e rifando-os depois com magnanimidade. Chamava-lhes “frescos destroços de naufrágio” quando vinham uivar à sua janela. Muito gostando, para o resto da vida, de Wilson e de Bishop, sempres lhes reprovou que, por ela, não tivessem espatifado a sua amizade masculina.

Casou com um industrial holandês de café que amou e a amava com uma liberalidade que faz espécie a este nosso tempo de assexuada vigilância raivosa. Outro poeta, George Dillon, mais novo 14 anos, foi a sua última aventura. Traduziram juntos As Flores do Mal, de Baudelaire. Não invento, foi Edna que escreveu: beijar a boca de Dillon era tão macio como beijar o mamilo de uma rapariga. Mas Dillon fez o que só Edna podia fazer: rejeitou-a. Antes dos 40, Edna via desvanecer-se o seu prodigioso poder erótico. Nos últimos 20 anos de vida, morfina, álcool e drogas vieram dormir à sua cama.

E-Millay

Publicado na minha coluna “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo”, no Jornal de Negócios

A Morte

der Müde Tod
A Morte Cansada

Faltavas tu. Esta Página Negra tem estado à tua espera. Mais cedo ou mais tarde chegarias. Tu mesma, A Morte, a ceifeira, a senhora de branco. Pensa-se que sim, mas não, não és tu que matas. Somos nós que morremos em ti.

Não te invejo a dura sorte, a veste quimérica, a gadanha cruel, o rosto torcido, munchiano, o silêncio imperturbável. Não falas, sopras. Um sopro cansado. És, de certeza, alemã: Der Müde Tod*.

Descansa agora: deves estar esgotada. Trazes um cansaço labiríntico, de milénios.

És menos cruel do que se julga. Vi-te uma noite, no sono, imóvel no meu sono. Come seeling night…**, vem, vem assim, ó noite de olhos vendados. Percebi que não és tu que matas. Morremos sim do medo frio e cinza de te ver. Um medo dos diabos planta-se no meio do sono. Um medo que nunca se teve, nunca se tem, nunca mais se voltará a ter na vida. No meio do sono, um frio antárctico, o coração arrepanhado, o corpo crispado como as ruínas de uma casa. E tu olhas, olhar apócrifo, para as frágeis paredes de carne, as veias entupidas. Olhas como quem pensa, estática, dentro de um véu de desespero, as abruptas dores do sono: the pains of sleep***.

Nunca te vi na morte dos outros. Compreendo que seria um embaraço. Por cortesia, para que ninguém se mortifique, foges da melancolia dos funerais. Vi-te a cavalo, a pé, camuflada numa lenta carroça. E o que vi, vendo-te, é o espectáculo da mais triste solidão. De uma desolada fealdade. Segue-te, como banda sonora, o ímpio urro sem remorsos. Não te invejo a sorte. E menos invejo a agonia de todos irmos morrer em ti.

Chegas agora. Vens juntar-te às delicadezas e indelicadezas que já habitam esta Página Negra. Chegas, anjo nocturno, casamento único de céu e inferno. Contigo, que outra coisa pode ser a Página Negra, que não seja uma anfitriã gentil: vai sentar-te à mesa, contar-te-á sonhos, rêveries que a tua eterna e imutável insónia nunca te permitirá ter. Uneasy lies the head that wears a crown****. É essa, uneasy, intranquilíssima, a tua cabeça, cabeça-coroa-de-espinhos, em que não cabe, nem pousa, a tiara de sono ou sonho. Sobre de ti ou de ti irradia sempre e só a pálida luz bruxuleante, azulada, infeliz.

Descansa agora Müde Tod, minha cansada morte. Esquece os túmulos, os vermes, a terra. Goza um minuto, um minuto que seja, um minuto de cristal, de tempo fora do tempo. Aceita um lindo epitáfio: so shall my walk be close to Death***** ( que eu traduzo livremente por “possam os meus passos roçar a Morte“) e deixa-te levar, não recuses o doce abraço de mármore, vem tu morrer um bocadinho em cada um de nós.

 

* A Morte Cansada, título do filme de Fritz Lang, da fase alemã.
** Shakespeare, Macbeth III, 2
*** título de poema de Samuel Taylor Coleridge
**** Shakespeare, Henry IV, Part Two, III, 1
***** Variação sobre verso de William Cowper — So shall my walk be close to God – do poema Walking with God.

A guerra e a paz

Jan_Matejko,_Bitwa_pod_Grunwaldem
Batalha de Grunwald, de Jan Matejko 

Bica Curta servida no CM, 5.ª feira, dia 29 de Agosto

A estatística da guerra e da paz dá boas notícias ao mundo: nos últimos 28 anos, em guerras civis, guerras entre estados, guerrilhas e terrorismo, ou seja, em todas as guerras morreram pouco mais de 81 mil seres humanos por ano. Comparado com o século XX é prodigioso o progresso da humanidade: no século XX, a média foi de dois milhões e trezentos mil mortos por ano. Brutal.

A guerra era das principais causas de morte de adultos: a terceira. Hoje é a 28ª e faz 16 vezes menos mortos do que os acidentes de viação. Em 2018, os mosquitos mataram 10 vezes mais pessoas do que a guerra. Digo eu: a globalização empurra-nos para a paz.

O ódio plumitivo

vladimir_nabokov

Sirvo-vos, com todo o gosto, um requintado prato de maldade e má língua.

A mal­dade humana, a intriga mal­di­zente, tem a irre­sis­tí­vel atrac­ção de um prato de tre­mo­ços em espla­nada de Verão. A mal­dade, já se sabe, não tem reserva de admis­são. Nem lhe esca­pam os mais ele­va­dos espí­ri­tos – artis­tas, filó­so­fos, escri­to­res. É por­ven­tura entre eles que os ódios atin­gem mesmo os níveis mais abra­si­vos, roçando a von­tade de aniquilar.

odium plu­mi­ti­vum (permita-se a liber­dade) pode ser, quando a coisa esquenta, um espec­tá­culo de requin­tada mal­dade. T.B. Macau­lay, o 1º Barão de Macau­lay, foi sobre­tudo his­to­ri­a­dor e insosso, mas tam­bém poeta de anti­gui­da­des roma­nas. A sua obra não resis­tiu ao tempo, mas a irri­ta­ção que Sócra­tes (sim, o grego) lhe pro­vo­cava, afiou-lhe o talento e garantiu-lhe a pos­te­ri­dade: “Quanto mais o leio, menos me admiro que o tenham envenenado.”

Macau­lay era polí­tico e secre­tá­rio da guerra. Dir-se-á que a sua natu­ral medi­o­cri­dade o per­fi­lava con­tra a filo­so­fia. Mas entre o russo Nabo­kov e o polaco Con­rad, dois re-inventores da lín­gua inglesa, só mesmo o pho­to­fi­nish con­se­guirá esta­be­le­cer uma hie­rar­quia de geni­a­li­dade. Irmãos no génio, nenhuma afi­ni­dade elec­tiva. O pos­te­rior Nabo­kov leu Con­rad. O meu tão amado “Lord Jim”, um dos roman­ces de todos os sécu­los, deu-lhe a volta ao estô­mago: “Não lhe aturo o estilo de loja de sou­ve­ni­res, os bar­qui­nhos pron­tos a engar­ra­far e os cola­res de con­chas de cli­chés românticos.”

Vir­gi­nia Woolf nas­ceu no ano em que nas­ceu tam­bém James Joyce. Por iro­nia do des­tino, aca­ba­riam por par­ti­lhar igual­mente o ano da morte. Em vida, Woolf foi uma poli­fó­nica rival do irlan­dês, não se dei­xando sub­mer­gir e ainda menos como­ver pela una­ni­mi­dade que a calei­dos­có­pica work in pro­gress de Joyce gerava na inte­lec­tu­a­li­dade emer­gente e van­guar­dista. Avaliou-o assim: “Um enjo­ado sem licen­ci­a­tura a coçar furi­o­sa­mente as borbulhas juvenis.”

Por vezes, o génio abate-se sobre o talento sofrí­vel como uma bala de canhão sobre um mos­quito. George Moore quis ser pin­tor e che­gou a estu­dar com Manet, mas aca­bou poeta e roman­cista. Podem os aca­dé­mi­cos dizer que Joyce bebeu nele alguma ins­pi­ra­ção. A inques­ti­o­ná­vel imper­ti­nên­cia de Oscar Wilde resol­veu o pro­blema de forma assas­sina: “George Moore escre­veu exce­lente poe­sia até que des­co­briu a gramática.”

Mesmo o con­ser­va­dor T.S. Eliot, entre os moder­nis­tas o que mais rapi­da­mente per­ce­beu que a tra­di­ção não se deita fora com a água do banho, viu capim, pura terra devas­tada, numa obra e num roman­cista maior inglês, como ele nas­cido ame­ri­cano. “Henry James tinha uma sen­si­bi­li­dade tão fina que nem a mínima ideia pode­ria jamais penetrá-la.”

Mary McCarthy e Lil­lian Hell­man não são, pro­va­vel­mente, escri­to­ras que resis­tam aos pró­ximo meio-século. Têm isso em comum e o terem sido acti­vis­tas polí­ti­cas e com­pa­nhei­ras de estrada do comu­nismo ame­ri­cano.  Ms. Hel­mann terá sedu­zido e, quem sabe, dor­mido com um então amante de Ms. McCarthy. Por causa dessa con­cor­rên­cia amo­rosa des­leal, Ms. McCarthy disse um dia na tele­vi­são pública ame­ri­cana: “Toda e qual­quer pala­vra que Lil­lian Hell­man tenha escrito é men­tira – e isto inclui as pala­vras ‘e’ e ‘o.’”

Fecho com Karl Kraus, para fechar em beleza. Lem­bro só um comen­tá­rio dele, de requin­tado mérito lite­rá­rio, sobre o “último dos român­ti­cos”: “Hein­rich Heine sol­tou de tal maneira os col­che­tes da lín­gua alemã que hoje qual­quer caixeiro-viajante lhe pode apal­par as mamas.”

p.s. — E lembrei-me do que essa flor ino­cente chamada Tru­man Capote disse quando leu o “On the Road” do Jack Kerouac: “Isto não é escre­ver, isto é dactilografar.”

O peixinho vermelho

peixinho
o meu peixinho leitor

Bica Curta servida no CM, 4.ª, dia 28 de Agosto

Ia falar do peixinho vermelho, mas falo antes de livros. Na América, 50% dos livros são comprados online na Amazon. Os leitores desertaram da livraria. Há menos leitores e não há leitores jovens. E agora sim, falo do peixinho vermelho. Os neurobiólogos fixaram o tempo de atenção das gerações formadas pela net: é de nove segundos, mais um do que o tempo de atenção do peixinho vermelho. O livro, em papel ou digital, perdeu a batalha dessa economia da atenção.

Sem leitores, livrarias exangues, os editores caem e a indústria do livro morre. A indústria cala-se, envergonhada, mas em Portugal já é pelos livros que os sinos dobram.

Bolsonaro boca de fogo

Bica Curta servida no CM, 3.ª feira, dia 27 de Agosto

nasa

A boca de Bolsonaro alimentou os piores instintos especulativos na Amazónia. Mas a caça a Bolsonaro não pode ser meia bola, mentiras em força e festejar com bica curta. Além da trapalhada das fotos, há números falsos ou manipulados. Eu confio na NASA e a NASA diz que, afinal, os fogos estão em linha com a média dos últimos 15 anos. A Global Fire Emissions Database, parceira da NASA, atesta que os fogos de 2003 a 2006 foram bem mais altos. A boa notícia: a desmatação de 2017 foi três vezes menor do que a de 2004.

É nossa responsabilidade salvar o planeta. Temos é de saber do que vamos salvá-lo e como. Ajuda começar pela verdade.

O cinema e a Tcheka

premiado em Cannes
De Ermler, Velikyi Perelom, Grande Prémio de Realização, em Cannes, 1946

À cidade podemos chamar-lhe o que quisermos, São Petersburgo, Petrogrado ou Leninegrado. Mas à pistola que, com arrojo e estrondo, Fridrikh Ermler atirou para cima da secretária nunca quereremos chamar-lhe senão uma Browning.

Antes de se chamar Ermler, já Vladimir Markovich Breslav agarrara nos seus 17 anos e viera da tundra russa para Moscovo. Queria ser uma estrela. Queria ser actor nesse cinema que, em 1915 dava, mudo, os primeiros passos. Teria pouco mais ou pouco menos do que a 4.ª classe e esbarrou nas portas snobes das artes. Não teve escolha que não fosse a de mudar de nome para Fridrikh Ermler e, patrioticamente, ir trabalhar de espião nos territórios russos que as tropas alemãs ocupavam na I Grande Guerra em curso. Descobriu uma vocação, e espião ou polícia continuaria, integrando a Tcheka, a assassina polícia política que a Revolução de Outubro, mal nasceu, logo criou.

Ermler era um tchekista convicto. Acreditava firmemente estar do lado do bem. Com a mesma firmeza, acreditava que o seu destino era o cinema. Em 1923, em Leninegrado, voltou a bater às portas das Artes, já a Revolução ia a caminho da consolidação, depois de Lenine e Trotski afogarem num mar de sangue a rebelião dos marinheiros de Cronstadt. No Instituto de Artes Cinematográficas olharam para as habilitações de Ermler e nem lhe quiseram dar a ficha de inscrição. Meteu então a mão ao bolso, sacou a persuasiva Browning e bateu com ela em cima da secretária, dizendo alto e bom som: “Aqui está a minha ficha de inscrição!” Não me admira que a direcção do Instituto o tenha aceitado: eu faria o mesmo, com vénia à teatralidade do gesto. E diga-se, Ermler pode ter-se enganado ao pensar que estando do lado da Tcheka estava do lado do bem. Mas não se enganou na sua vocação cinematográfica. Há dois anos, convidado pela Cinemateca, o especialista russo Peter Bagrov veio explicar a Lisboa que Ermler é um dos expoentes do cinema soviético, ao lado de Eisenstein ou Vertov. Cineastas clássicos como Chaplin ou Pabst prestaram-lhe homenagem suficiente para pensarmos que a sua obra não se reduz à suspeita hagiografia do regime, que os quatro prémios Estaline pareceriam indiciar.

Deixo um aviso revolucionário: a veemente Browning de Ermler, que ele não deixaria de usar em algumas filmagens como argumento de direcção artística com actores mais renitentes ou insubordinados, está longe de ser um episódio isolado na história do cinema russo do período épico da revolução de Outubro.

Vejamos, a Tcheka teve uma considerável influência nas artes soviéticas, da literatura ao cinema. Félix Dzerjinski, que foi, a pedido de Lenine, a alma mater da polícia política, era um espírito requintado, polaco-lituânio de origens aristocráticas, católico antes de ser comunista, místico antes de ser revolucionário, fluente em polaco, iídiche, russo e latim. Implacável no comando do Terror Vermelho, ao ponto de afirmar de si mesmo “Derramei tanto sangue humano, que já não mereço viver”, Dzerjinski quis revestir o terror policial com uma estética que o redimisse. Em vez de esconder a repressão e o gulag, Dzerjinski quis mostrá-los controlando rigorosamente a forma como seriam vistos. Se e quando Estaline veio chamar aos artistas revolucionários “engenheiros da alma humana”, foi porque a tanto o inspirou a praxis (oh, as saudades que tinha desta velha palavra!) da Tcheka e, em particular, de Dzerjinski, que foi, ao sair da Tcheka, o presidente da Sociedade dos Amigos do Cinema Soviético, organismo que deveria destruir o fosso entre os filmes, os cineastas eo público russo.

 Há um tardio exemplo literário, multimédia avant la lettre, de 1933. É um livro de vários escritores sobre a construção do Canal Belomor, que ligou o Mar Branco ao Báltico. O livro inclui a prosa de Maximo Gorki e as fotografias de Aleksander Rodchenko, para mencionar só os mais notáveis artistas. A construção desse canal usou o trabalho forçado dos prisioneiros do gulag e a representação pública, em documentário, desenhos, fotografias, foi co-editada, na parte literária, por Gorki e pelo comandante da polícia política no campo de concentração, Semen Firin.

O campo e o trabalho forçado são literária e artisticamente redefinidos como uma epopeia reeducativa, em que os inimigos de classe e os criminosos reencontram uma função social e se redimem do mal. O genial fotógrafo Rodchenko, sinceramente esmagado pelo gigantismo do empreendimento, afirmou: “Fiquei em estado de choque com a sensibilidade e sabedoria que são usadas para reeducar o povo.” O livro foi, claro, um enorme êxito popular e um enorme êxito da Tcheka.

Arrebatador, porém, foi o êxito do primeiro filme sonoro soviético, de 1931, um projecto nado e criado intestinamente na e pela polícia secreta. Putyovka v zhizn, a que em português chamaremos “O Caminho da Vida”, foi o acabado exemplo de utilização do cinema, “a mais importante de todas as artes”, como arma ideológica. A acção tem lugar numa colónia de trabalho juvenil e os actores, na sua maioria, são os jovens presos autênticos, em regime de reeducação pelo trabalho.

Começamos por ver os miúdos integrados em gangs, na cidade, até serem presos pela Tcheka e, luminosamente, os agentes da Tcheka conceberem um campo de reeducação, para o quem usam uma igreja e mosteiro já desactivados. Realizado por Nikolai Ekk, que estudou com Meyerhold e foi assistente de Eisenstein, para referir dois expoentes da vanguarda do teatro e cinema russos, o filme combina duas colheres de melodrama e uma navalha manipulativa de narrativa conservadora, com algumas cenas de delirante e inovadora mise-en-scène, que confirmam as origens artísticas de Ekk.

Projectado no Festival de Veneza de 1932, o filme teve um prémio do público, e deram a Ekk o prémio da realização mais convincente. A polícia política, que Dzerjinski fundara, via, assim, reconhecida artisticamente a sua estratégia de apresentação pública do gulag. E o público russo, ao contrário do que fazia com o experimentalismo formal de Eisenstein ou Dziga Vertov, encheu as salas, transformando “O Caminho da Vida” no maior êxito que o cinema soviético conheceu até essa altura. O filme termina com uma declamada santificação de Félix Dzerjinski,uma voz a chamar-lhe “o melhor amigo das crianças”, um busto dele em fundo.

Dzerjinski
Felix Dzerjinski, pai da Tcheka