Três livros para um mundo em brasa

Por um mero acaso, sou também o editor da Guerra e Paz. Nessa qualidade, escrevi aos leitores dessa editora. Mas destes três livros quero que os leitores da Página Negra sejam leitores também.

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Um editor escreve aos leitores

Venham comigo até à minha infância. Vamos brincar ao lobo mau.
Cantemos a lengalenga:

Brincando na serra enquanto o lobo não vem,
qu’é qu’ o lobo ’tá fazer?

Responde o menino que faz de lobo:

O lobo ’tá ler um livro!

Oh, que antigo deve ser este lobo, que ainda lê livros. Nem é, de certeza, um lobo mau, por mais que, na sua natureza, esteja a vontade de comer a Capuchinho Vermelho. A bem dizer, já nem há lobos maus nem capuchinhos vermelhos, e ler livros começa a ser tão anacrónico como brincar ao giroflé flé flá.

Nesta rentrée de Setembro de 2019, último ano dos anos 10 do século xxi, o século em que morrerei, não gostava que morresse o livro. Devo ao livro, lobo mau que devorei com olhos tão curiosos como os da Capuchinho Vermelho, exaltações e euforias apaixonadíssimas, estremecimentos de alma com que nem São João da Cruz ou Santa Teresa d’Ávila sonharam.

Mas, enquanto o lobo não vem, deixem-me dizer o que foi mesmo o livro na minha fraca vida. O livro foi o fruto do conhecimento que, sem culpa de Eva, eu mordi com vontade. Eu vivia num mundo de descuidada inocência e, por ter comido esse fruto do conhecimento (é mentira que seja uma maçã), fui expulso do Paraíso.

Abençoada expulsão. Quem quer viver no Paraíso sem lobos maus, sem capuchinhos vermelhos, sem Evas que mordam a mesma fruta, um Paraíso onde nem ao giroflé flé flá se possa brincar?

O livro é a saudade e a consciência do Paraíso no maravilhoso mundo-lobo-mau de pecado e vida. Nesta rentrée de 2019, são esses os livros que gostaria de vos trazer. E escolho três exemplos, os melhores exemplos de fruto do conhecimento que vos quero dar a provar antes do Natal.

Um chama-se Quem É Fascista. O autor é um historiador italiano, Emilio Gentile. O fascismo é um lobo mau do século xx. No século xxi, outros lobos maus vieram brincar nas nossas globalizadas serras. O que Emilio Gentile explica é que não se devem confundir estes lobos maus, chamem-se Orbán, Trump, Bolsonaro ou Salvini, com o lobo mau fascista. Se queremos que não comam a Capuchinho Vermelho, temos de saber que lobo mau é o lobo mau fascista evitando repetir o erro dos partidos comunistas dos anos 20 que chamavam até fascistas a antifascistas que não fossem do partido. E que bem, com que inteligência, este livro tudo nos explica e guia.

Outro livro desta rentrée tem por título Alterações Climáticas – O Que Sabemos, o Que Não Sabemos. Escreveu-o a cientista americana Judith A. Curry, que há 40 anos estuda os lobos maus e bons que são os ciclones, os furacões, os vulcões e o tremendo gelo dos pólos. Judith A. Curry não vem aos gritos. É mesmo contra a gritaria de “vem aí o lobo, vem aí o lobo”, que Judith A. Curry está. Judith serve-se da ciência e diz-nos que só conhecendo – e conhecer é também reconhecer as incertezas – saberemos as razões pelas quais aqueceram as nossas desoladas serras, que já tão poucos lobos têm. Contra os alarmismos catastrofistas, a cientista Curry, uma Eva que só se quer alimentar do fruto do conhecimento, mostra-nos, neste livro, que não sabemos quanto e como o planeta aquecerá, e que afirmar o comportamento humano como razão dominante do aquecimento é uma simplificação imposta por políticos, que está por provar cientificamente. O consenso forçado é um lobo mau que nos quer impor uma única maneira de andarmos nas serras deste nosso mundo em brasa.

Um, dois, três, macaquinho português, que bonito que é o meu terceiro livro. Chama-se Assim Nasceu Uma Língua, levando como subtítulo Sobre as Origens do Português. Escreveu-o um linguista admirável, Fernando Venâncio, percorrendo, como um lobo feliz e livre, as mais longínquas serras do Norte, onde, lobo galego, a língua portuguesa nasceu. Livro encantador e livre, nele se defende a maravilhosa diversidade da língua, dispensando a imposição de uma reaccionária unidade, num claro chumbo a esse famigerado lobo mau que é o Acordo Ortográfico de 1990, “devaneio inútil e dispendioso” de uma unificação de que o mundo real – que é haver Brasis, Angolas e Portugais, e neles povos – se ri, irrevogável e irreversível.

Eis o milagre dos livros, esses lobos em vias de extinção. Recusam-nos as certezas pantanosas. Inquietam-nos, põem-nos à caça, atentos e exigentes. Parece um mundo antigo e, não obstante, como estes três livros-lobos tão bem mostram, é só de futuro que estamos a falar.

Manuel S. Fonseca
editor da Guerra e Paz

Servidões, Herberto Helder

Texto escrito no dia 15 de Junho de 2013, poucos dias depois da saída deste penúltimo livro de Herberto Helder. A quente. Sem rede.

Servidões

 

Sem­pre houve morte na poe­sia dele, nunca tanta como em “Ser­vi­dões”. Em 10 pági­nas de inclas­si­fi­cá­vel prosa, a que se somam outras 98 com 73 poe­mas, escreve-se um homem e a sua morte.

As dez pági­nas de prosa, esses pas­sos em volta antes da con­vulsa cor­rida dos poe­mas, são insis­tente e desa­fi­a­do­ra­mente auto­bi­o­grá­fi­cas. E, não obs­tante, estão aquém e além da bio­gra­fia. “Ser­vi­dões”, o livro que Her­berto Hel­der publi­cou em Maio de 2013, dois anos antes da sua morte, começa na infân­cia, num relato de perda de ino­cên­cia que nos pre­para para a via-sacra de esta­ções em que o poeta encara, com natu­ra­li­dade, que a morte esteja agora, sobe­rana e apa­ren­te­mente sem pressa, a observá-lo. Morte fera e benigna, farta de saber que a presa não lhe fugirá. Que me lem­bre, só um resig­nado e estóico poema de Lar­kin, “Aubade”, nos tinha dado, da morte, esse tão sereno, certo e seguro olhar. Em Her­berto, como o car­teiro de Lar­kin, um arma­zém espera pelo corpo que há-de che­gar num saco um pouco maior do que o seu tamanho.

Ser­vi­dões” é uma auto­bi­o­gra­fia, se uma auto­bi­o­gra­fia não for des­file de acon­te­ci­men­tos. Auto­bi­o­gra­fia, se uma auto­bi­o­gra­fia puder ser a visu­a­li­za­ção e ver­ba­li­za­ção simul­tâ­nea do mundo e dos pro­ces­sos que um corpo usa para perceber, receber e rea­gir a esse mundo.

Na maior parte da arte con­tem­po­râ­nea o mundo é vazio. Se não o mundo, a repre­sen­ta­ção dele. O mundo da poe­sia – e da prosa – de Her­berto Hel­der é um mundo ple­tó­rico, cheio de ani­mais, medos e ale­grias pri­mi­ti­vas, as gran­des coro­las dos giras­sóis, basal­tos, mêns­truo e espumas.

Povo­a­dís­simo de coi­sas, ani­mais e pes­soas, “Ser­vi­dões”, como a “Poe­sia Toda” de mais de 50 anos que a pre­cede, é o livro de uma escrita à pro­cura da radi­cal ver­dade do humano e, como há muito tempo se dizia, da sua con­di­ção. No poema de aber­tura (ou se pre­fe­ri­rem na prosa de aber­tura) o poeta estende um porco sel­va­gem na mesa da cozi­nha, ani­mal que o poema logo reta­lha a cute­los e faca­lhões. Fecha­mos os olhos – na poe­sia de Her­berto Hel­der fecha­mos mui­tas vezes os olhos – e res­pi­ra­mos, abas das nari­nas bem aber­tas: há um odor a bar­bá­rie, um sau­doso odor a san­gue e bar­bá­rie em que nos reco­nhe­ce­mos e, por voca­ção ani­mal, nos revol­ve­mos. É um cheiro que vem da infân­cia, dessa nossa obs­cura, per­dida e funda infân­cia. Cheiro da cru­el­dade orgâ­nica de um miúdo que, sem nojo, mexe no que da vida é vis­ce­ral. Um cheiro de um entu­si­asmo des­con­tro­lado, o mesmo de uma “cri­ança de cabeça zoo­ló­gica” que des­co­bre a calei­dos­có­pica e ale­a­tó­ria magia.

É ape­nas um livro, pala­vras, a intrin­cada ari­dez da gra­má­tica, que usa explo­si­va­mente a orto­gra­fia que, agora, mangas-de-alpaca jul­gam pertencer-lhes. Só que, como desde “O Amor em Visita”, e como na melhor poe­sia que já se escre­veu, de Vil­lon a Rim­baud, de Rilke a René Char, de Yeats a Dylan Tho­mas, em “Ser­vi­dões”, a riqueza ver­bal, as sur­pre­sas semân­ti­cas, uma certa pro­di­ga­li­dade meta­fó­rica e meto­ní­mica, meta­bo­li­zam as emo­ções, rein­ven­tam e redi­men­si­o­nam o real. A pala­vra carne é mais do que a pala­vra carne e os ver­sos enchem-se de incon­ti­dos cinco litros de san­gue, dez metros de san­gue, de mães lou­cas que nunca dei­xa­ram de habi­tar a obra de Her­berto, de um orva­lho que pre­nun­cia a última manhã. A abe­ce­dá­ria poe­sia assalta o real, confundindo-se e não se con­fun­dindo com ele,.

Enquanto espera a noite, a amarga noite, que há-de vir e há-de des­fa­zer, a memó­ria con­ti­nua a fazer o seu tra­ba­lho e estende-se na cama a sau­dade da pequena puta dei­tada. E as pala­vras de Her­berto, que em pó, poeira, poa­lha ali­te­ram a morte, abrem-se à fêmea oferecendo-lhe outra, dife­rente, bila­bial ali­te­ra­ção: branca, brusca, brava, encar­nada. Só Sena e Drum­mond aflo­ra­ram assim, em abe­ce­dá­ria lín­gua por­tu­guesa, a carne tré­mula, essa carne em que “eu sei quanto depressa morro”.

Nos ver­sos ou na prosa de Her­berto Hel­der cami­nha­mos entre ritos mági­cos e bár­ba­ros. Como se toda a his­tó­ria do humano fosse um poema, “Ser­vi­dões” é o cálice de uma tra­di­ção. Um cálice de sacri­fí­cio san­grento e de êxtase, de uma longa insó­nia de tabu e incesto. Saí­mos de um tor­por antro­po­ló­gico. Os poe­mas de “Ser­vi­dões” con­tam his­tó­rias. Remo­tas e actu­ais. His­tó­rias ances­trais em que as árvo­res devo­ram cadá­ve­res ou a his­tó­ria de um poeta con­tem­po­râ­neo, órfão de Rim­baud, a quem ape­nas sobra a mise­ri­cór­dia de um tiro na cabeça. Há, houve sem­pre, uma África a insinuar-se na poe­sia de Her­berto. Neste seu livro, escuta-se a lenda afro-carnívora, a soli­dão majes­tá­tica do imbon­deiro na inter­mi­ná­vel estepe. Pressente-se o elo­gio de uma certa per­sis­tên­cia vege­tal e, com a escas­sez de um haiku, as folhas de uma welwits­chia escon­dem “no deserto entre as for­na­lhas” uma japo­nesa gota de orvalho.

Ser­vi­dões” é tam­bém um livro à pro­cura da radi­cal ver­dade do poema e do poeta. Poema e poeta sabem que dis­cor­rer sobre o mundo, sobre a sua ordem, é menos do que nomear. Esse conhe­ci­mento con­fere vozes dís­pa­res e ambas se escre­vem neste livro: uma leveza his­trió­nica, uma angús­tia monás­tica. Tal­vez a alma não exista, mas esse obs­curo fré­mito que nos chega a fazer pen­sar que a alma existe, está, menos do que nome­ado, na peque­nina frac­tura ou ferida que separa o gesto cómico do mes­tre Zen que tan­tas vezes é o poema, e a reli­gada e lúcida tor­rente ver­bal, “cor­dão de san­gue à volta do pes­coço”, que sufoca poema, poeta e leitor.

A escrita de Her­berto foi sem­pre devo­ra­dora de tudo, da carne, cama e mundo. Em “Ser­vi­dões” apodera-se dela, por vezes, uma sere­ni­dade romana. Escrevem-se mais deva­gar os poe­mas. Mas as anti­gas explo­sões, a ver­ti­gem ver­bal de “A Máquina Lírica” ou “Antro­po­fa­gias” regres­sam ainda, nuas, cruas, sexu­ais, lumi­no­sas, nos 32 ver­sos que, irmãos huma­nos que depois de mim vive­reis, invo­cam Vil­lon, ou quando, na página 97 e seguin­tes, tomado por uma dor faulk­ne­ri­ana, no mais orgás­tico e xamâ­nico momento deste livro, o poema se entrega a um con­solo de antes o inferno do que nada, para se cer­rar no mais belo post scrip­tum que já se ofe­re­ceu à lín­gua por­tu­guesa: “meu amor, o inferno é o teu corpo foda a foda alcan­çado.

Este é o poeta, o que deva­gar tomou o poema em suas mãos e, dando gra­ças, o repar­tiu dizendo: tomai, e lede todos, fazei isto em memó­ria de mim.

Adel Taarabt

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Se, depois do que vou dizer, acharem bem, podem ficar com os meus olhos. Não é grande dádiva: já vão durar pouco. Vou dizer-vos como vejo e julgo um jogo de futebol.

Começa um jogo de futebol e os meus olhos transformam-se em dois berlindes lúdicos. Rodam-me nos olhos e só param quando encontram o brinca na areia. No primeiro jogo profissional que vi na vida, em Luanda, Eusébio, Coluna, Simões, Águas e José Augusto bateram a Selecção de Luanda, no Estádio dos Coqueiros, pelos mesmo 5 a 3 com que, meses antes, tinham esmagado o totalitário Real de Madrid. Eu tinha 8 anos e o que menos me interessou foram os golos. As fintas, ua-la-lá, aquele gritado uatabo, que abria as pernas aos defesas e os deixava buelos, eram a minha festa e continuaram a ser até aos 15 anos, a idade em que deixei de me sentar na bancada de madeira do peladíssimo campo de São Paulo, onde ia ver os juvenis e juniores das equipas de Luanda.

Resumo. A primeira vez que vi Adel Taarabt jogar, estava eu de férias, na praia algarvia, e começava, há uns 4 ou 5 anos, sei lá bem, uma nova temporada do SLB. O marroquino esteve meia-dúzia de minutos no campo. O pé dele amaciou a bola com aquele “eu amo-te” que só certos pés, perversos e sexualíssimos, conseguem sussurrar ao esférico. Depois, ao marroquino, apagou-o uma tempestade de areia, tão elegíaca como a que em Bitter Victory, de Nicholas Ray, serve de mortalha a Richard Burton, herói mordido por um escorpião, que um camarada traidor, Curd Jürgens, lhe viu subir pela perna das calças, não o avisando.

A sorte de Adel Taarabt foi que Bruno Lage, seu recente treinador, tem a nobreza de Johnny Guitar, outra personagem de Nick Ray, e está nos antípodas de Jürgens. Lage avisou Taarabt do perigo e Taarabt matou o escorpião.

Deixo-me de sermões e analogias, que se há uma coisa que não sou é profeta, e volto aos meus olhos. Eu quero ver em campo, sempre e só, o pé que toca no esférico e brinca na areia. Se a esse pé se juntar a graça poética ou épica de uma redenção, como a de Taarabt pela mão de Bruno Lage, o meu coração junta-se aos berlindes dos meus olhos e é a orgia perfeita.

Hoje, como na jornada anterior da Liga, Taarabt foi o melhor em campo. Os pés dele, na confiança do drible, no impulso do passe longo e profundo, rimam com o primeiro, o segundo e as centenas de jogos que os meus jovens olhos viram, sem me lembrar de quem os ganhou e por quanto, mas sem jamais me esquecer do pé dúctil que passava bolas descobrindo o buraco de agulha entre as pernas do adversário, ou do pé inteligente que descobria os mais curtos 30 metros até ao pé de quem aparecesse nas costas dos defesas. O marroquino Adel Taarabt tem esses dois pés. Pode omiti-los se quiser, mas quando o amor do jogo o inunda e arrasta, os pés de Taarabt transformam-no num poeta andaluz de hoje, mestre na deambulação, no improviso e na rima. Que bonito.

Saramago, crónica de irremediável tristeza

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Há uns bons anos, no dia 31 de Julho de 2009, era por acaso uma 6.ª feira, José Saramago escreveu uma crónica bela e pungente. Na altura, a blogosfera no seu nadir,  estranhei que tivesse tido tão pouco eco.

A crónica evocava a grandeza de Álvaro Cunhal, a sua falta. Nostálgica evocação? Sebastiânica saudade? Talvez, mas não só. Era mais. Era, a meu ver, uma elegia do comunismo. Numa crónica perpassada por irremediável tristeza, Saramago despedia-se publicamente da sua ideologia de sempre.

O cronista lamentava que Cunhal não tivesse escrito as memórias que nos permitiriam compreender, diz ele, ”os fundamentos da raquítica árvore a cuja sombra se recolhem hoje os portugueses a ingerir os palavrosos farnéis com que julgam alimentar o espírito.” A “raquítica árvore” cujos fundamentos as memórias de Cunhal poderiam elucidar é, sabemos todos, o velho e cristalino partido de que Cunhal foi o ideólogo obsessivo, o rosto austero e a mão mais ou menos férrea.

Na crónica de Saramago, a saudade de Cunhal e a crítica ao Partido poderiam ser as duas faces de uma moeda de circunstância – crítica de pormenor que não abalasse a monumental arquitectura. Faça-se-lhe justiça, a meditação de Saramago é mais exigente e convulsa. O escritor lamenta que Cunhal não tenha deixado testamento e memórias que fossem, afinal, “uma reflexão sobre a grandeza e decadência dos impérios, incluindo aqueles que construímos dentro de nós próprios, essas armações de ideias que nos mantêm o corpo levantado e que todos os dias nos pedem contas, mesmo quando nos negamos a prestá-las.” Há uma agónica amargura neste balanço da “armação de ideias”. Não escrevendo as memórias, Cunhal negou-se “a prestar contas”. Cabe, por isso, a Saramago a missão de evocar a grandeza da Ideia comunista e lavrar em acta a sua decadência.

Já antes, em vida de Cunhal, Saramago terá discordado dele algumas vezes, interpretando a História de forma diferente. Pouco importa, dizia Saramago na crónica: “A esta distância, porém, já tudo parece esfumar-se, até as razões com que, sem resultados que se vissem, nos pretendíamos convencer um ao outro. O mundo seguiu o seu caminho e deixou-nos para trás.” Nem as razões de Cunhal, nem as razões de Saramago prevaleceram. O comunismo falhou e a História seguiu (ou já seguira, sem que os dois o tenham pressentido) um caminho diferente. Encontrando-se ou não com a História, Saramago reconhece a inutilidade da caminhada e o fim do comunismo.

Desde meados dos anos 40 (antes, em casos mais lúcidos) que muitos homens e mulheres, anónimos ou de intenso brilho intelectual, abandonaram o comunismo. Não há heroísmo, hoje, no abandono dessa carruagem decrépita. Não há sequer, no século XXI, a desculpa da ilusão ou da utopia. Demasiado tarde. O que não torna menos feroz e brutal o acto pessoal de despedida da ideologia, essa ruptura individual de quem “carbonizou” uma vida inteira na devoção de um sol de cinzas frias.

Primeiro poema do primeiro livro

Borges_calle

Foi este o primeiro poema do primeiro livro que Jorge Luis Borges publicou. Em 1922, a abrir Fervor de Buenos Aires, após advertência sublinhando ser trivial e fortuita a circunstância de que nós fossemos o leitor do livro e ele o seu redactor, Borges deambulava assim pelas ruas de Buenos Aires:

LAS CALLES

Las calles de Buenos Aires
ya son mi entraña.
No las ávidas calles,
incómodas de turba y ajetreo,
sino las calles desganadas del barrio,
casi invisibles de habituales,
enternecidas de penumbra y de ocaso
y aquellas más afuera
ajenas de árboles piadosos
donde austeras casitas apenas se aventuran,
abrumadas por inmortales distancias,
a perderse en la honda visión
de cielo y llanura.
Son para el solitario una promesa
porque millares de almas singulares las pueblan,
únicas ante Dios y en el tiempo
y sin duda preciosas.
Hacia el Oeste, el Norte y el Sur
se han desplegado –y son también la patria– las calles;
ojalá en los versos que trazo
estén esas banderas.

Pode um poeta, com obra grandiosa, desmesurada, como é a de Borges, adivinhar-se todo no seu primeiro poema? Amanhã pensarei talvez outra coisa, hoje penso que sim. A imortalidade, o tempo, o céu e a planura que o poema dramatiza ou evoca são violinos de Borges, futuramente recorrentes. O mais pequeno pormenor no qual, como na mónada leibniziana, se inscreve ou reproduz todo o universo, essas pequena ruas “enternecidas de penumbra e ocaso”, voltaremos a encontrá-las nos contos fantásticos, nos de aventura, noutros poemas de maturidade. O feliz casamento entre o concreto, as ruas “desganadas del barrio”, e a metafísica – a “funda visão”, as “imortais distâncias”- que as assombra, voltará mil vezes e em mil formas no deslumbramento barroco das Ficciones ou na fantasmagoria do Aleph. Nas ruas apáticas de um bairro dos arrabaldes pressente-se já a refutação do tempo, tema tão caro nos contos e inquisições: estas ruas solitárias e desoladas são únicas perante Deus e o tempo. No primeiro poema do primeiro livro, Buenos Aires e Borges fundem-se num destino e num cenário labiríntico que milhares de almas singulares virão povoar. Inúmeras e solitárias palavras que a seguir tenha escrito não fizeram mais do que reescrever estes primeiros versos.

 p.s. – Tradução directa e pobre:

As Ruas
As ruas de Buenos  Aires
são já as minhas entranhas
Não as ruas ávidas,
incómodas de turba e azáfama,
mas sim as ruas indolentes do bairro,
quase invisíveis de habituais,
enternecidas de penumbra e ocaso
e aquelas mais longe
vazias de árvores piedosas
em que austeras casitas mal se aventuram,
assombradas por imortais distâncias,
a perder-se na funda visão

de céu e planura.
São para o solitário uma promessa
porque milhares de almas as povoam,
únicas ante Deus e o tempo
e sem dúvida preciosas.
Para o Oeste, o Norte e o Sul
se estendem – e são também a pátria – as ruas;
oxalá nos versos que traço
estejam essas bandeiras.

Uma mulher

dorothy
Dorothy Thompson em Viena

Nadavam nuas no Danúbio. E antes de falar de Hitler ou de Simone de Beauvoir, digo já os nomes dessas americanas que nadavam nuas ali perto de Budapeste. São mulheres mortas, mas estavam vivas nos anos 20 do século passado. Passaram cem anos e custa imaginar, à nossa vigilância policialmente correcta, a líquida liberdade de uma poeta, Edna St. Vincent Millay, e de uma jornalista, Dorothy Thompson, nesses anos em que nos querem fazer crer que a mulher ainda não existia.

E agora pergunto: por que estremece o bigode de Hitler?  De desejo ou de raiva? Perverso, incestuoso, seria de desejo se ainda estivesse viva Geli Raubal, a sua juvenil sobrinha, de suficiente beleza apolínea para segurar um facho no “Triunfo da Vontade” da genial, porém nazi, Leni Rieffenstahl. Mas a sobrinha suicidou-se ou ter-se-ia suicidado se a jornalista americana Dorothy Thompson não olhasse com ululante desconfiança para o tiro no peito que a matou. Como é que alguém se suicida com um tiro no peito? O mínimo bigode de Hitler estremece com uma raiva SS à pergunta americana de 1931, ano em que Hitler começou a estar na moda.

Antes, a nudez do Danúbio inspirara a Dorothy o primeiro casamento com um poeta húngaro. A sexualíssima cintilação da amiga Edna terá ajudado: Edna tinha dois amantes na Embaixada americana e conseguia, em prodigiosa camuflagem diplomática, que nenhum soubesse do outro, perguntando a Dorothy: “Achas que sou ninfomaníaca?”

Dorothy foi a Viena em reportagem e deixou o marido com Edna. Quando voltou, a poeta mostrou-lhe um anel de verde esmeralda e sussurrou à amiga jornalista: “Foi o teu marido que mo deu, mas ele gosta mesmo de ti.”

Dorothy não rifou a nua amiga, mas rifou o marido e deram-lhe, então, a chefia da delegação do New York Post, em Berlim. Era uma mulher, coisa que Simone de Beauvoir ainda não inventara, e puseram-lhe na mão a mais trepidante das delegações da Europa, como já fora ela a cobrir a celebração dos dez anos da revolução bolchevique. Terá estremecido o bigode do tio Estaline?

 Estava agora casada com Sinclair Lewis, cosmopolita como o marido húngaro, e melhor escritor, se o Nobel quer dizer alguma coisa. Lewis ganhou-o, ainda mal Saramago abria os olhos. Mas é da liberdade de Dorothy que quero falar e não de glórias masculinas. Talvez Dorothy apreciasse na meia-sobrinha de Hitler o gosto dela se banhar também nua com uma amiga, não sei se no Wannsee, e deixarem-se ficar angélicas ao sol, na peregrina busca de um bronzeado sem mancha.

Tudo isto se sabia na infrene Berlim. Dorothy convivia com Thomas Mann e Brecht. Nos braços ou colo de Christa Winsloe, outra escritora, entregou-se a delícias sáficas, permanecendo casada com Lewis: reivindicava o direito a amar. Terá voltado a estremecer o bigode de Hitler?

Em 1931, Hitler concedeu-lhe uma entrevista. Digamos com uma franqueza portuguesa de tasca, Hitler saiu da entrevista a andar à pinguim. Dorothy compôs-lhe um retrato de “pequeno homem”, de anão político, corpo sem formas, cartilagem onde devia estar um esqueleto, um tipo que em vez de cara tem uma caricatura. E, falando de carácter, acrescentou: inconsequente e volúvel, doentio e inseguro.

Dorothy sentou-se na entrevista e escreveu um livro: “Eu vi Hitler”. Hitler é que já não a podia voltar a ver. Ou talvez fosse só o nervoso bigode de Hitler. Deu-lhe ordem de expulsão da Alemanha. Dorothy Thompson, nua sereia do Danúbio, amiga de Edna, amante de Christa, mulher de Lewis, foi a primeira jornalista a ser expulsa pelo odioso nazi. Uma mulher.

Publicado na minha coluna, Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo, no Jornal de Negócios

Pois Com Tanta Graça

Descobri Gaspar Fernandes e este Pois Com Tanta Graça há nove anos. Ouço-o tantas vezes. Por isso, trago hoje, de novo este velho post. Quando pela primeira vez ouvi este villancico, derreti-me todo. Não de calor. Só da doçura e delicadeza que também podem ouvir, se não ouviram já, neste vídeo. Ouçam e, depois, se estiverem para isso leiam – é irrelevante – a informação que abaixo se planta.

Gaspar Fernandes terá nascido em Évora na segunda metade do século XVI. Há registos da sua passagem como cantor pela catedral de Évora. No último ano do século, a 16 de Julho, foi contratado como organista para a catedral de Santiago da Guatemala que deixaria sete anos depois para ser o mestre capela da catedral de Puebla de los Angeles, onde permaneceu até à sua morte, em 1629.

Se já houvesse “world music” (houve sempre, pensando bem), este português que tão bem se casou com o Novo Mundo teria sido um dos seus expoentes. Foi uma espécie de Giacometti dos coros litúrgicos polifónicos, tendo recolhido os manuscritos de corais de muitos compositores renascentistas espanhóis. Gaspar Fernandes foi ele próprio compositor de música litúrgica. Em Puebla, na Nueva España que o México já foi, o compositor exercitou a sua veia vernácula de que o villancico acima é um exemplo. Nas suas composições usou o espanhol, o português, um pseudo-africano e os dialectos ameríndios. Pois Com Tanta Graça é uma deliciosa supresa. Acredito que Gaspar Fernandes a tenha composto para ser ouvida em salão de sombra ou em pátio fresco, mas continua a ser charming, mesmo ouvida no calor europeu de fim de Verão.

Os olhos dos seus filhos

Bica Curta servida no CM, 5.ª feira, dia 5 de Agosto

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De que cor são os olhos dos nossos filhos? Sabemos lá! De olhos postos em pequenos ecrãs, eles já nunca olham para nós. Os ecrãs dão uma prodigiosa liberdade, informação e desenvolvimento à vida de milhões de humanos. Mas estão a assediar os nossos filhos: são sete horas por dia de cabeça enfronhada em ecrãs. Os telemóveis rebentam-lhes com o sono e o cérebro, roubam-lhes o domínio da fala, a concentração, arrastam-nos para a depressão.

As neurociências avisam: os miúdos vão ser agressivos, obesos, até suicidas. Bom exemplo é a receita de Bill Gates, um dos criadores do monstro: telemóveis só depois dos 14 anos e às refeições desligados.