Nunca trabalharam

Lenine

Tem dias. Dias em que me apetece correr os estereótipos a pontapé. Outros dias em que beijaria o primeiro estereótipo que me saísse debaixo da pedra a que tivesse dado um pontapé. Dou um exemplo, esse lugar-comum, essa frase batida, «les beaux esprits se rencontrent», que tem uma variante portuguesa plebeia, a saber, «os extremos tocam-se». Topo com esse estereótipo e estava capaz de lhe morder a orelha com um apetite de Mike Tyson ou de o pôr KO ao primeiro gancho de esquerda, fosse eu Muhammad Ali.

Mas foi uma raiva que logo engoli quando me pus a pensar que Adolf Hitler e Vladimir Ilitch Ulianov, mais conhecido por Lenine, nunca trabalharam. Hitler viveu de pensões que lhe permitiram viver em Viena de Áustria a roçar o cu pelas paredes e Lenine às custas da mãe que o financiava, permitindo-lhe a sua carreira de revolucionário profissional. Nunca trabalharam. Une-os o elo, o festivo laço do estereótipo.

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Hitler, Mein Kampf

 

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O Mein Kampf é um livro de ódio. Agora, com a florescência dos populismos percebêmo-lo melhor ainda, o Mein Kampf é um livro a ler e debater. Proibi-lo, como se fez durante décadas, é criar-lhe uma aura que o livro não merece, e que uma análise atenta logo desvanece.

Publiquei o livro na Guerra e Paz editores, vai fazer três anos. E entendi contextualizá-lo, fazendo-o preceder de um texto a que dei o título auto-explicativo de Ascensão, Poder  e Crime do nazismo, juntando a esse texto abundante material fotográfico da violência e genocídio desses anos 30 e 40. O livro constitui um dos grandes êxitos editoriais da Guerra e Paz. Deixo aqui um breve excerto desse meu texto.

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Hitler alimentava a sua ideologia racial com alguns pós pilhados ao darwinismo, com generosas doses de eugenismo, racismo científico, que era então o ar do tempo, e um caldeirão esotérico e místico. Na sua prática, o nazismo foi uma ideologia de um ateísmo nimbado a um patético paganismo. Decididamente, uma ideologia anti-cristã, que o triunfo da vontade e a exigência de se se incarnar um vagamente darwinista papel do mais forte não contemplavam a baixeza do amor ao próximo.

O Nacional-Socialismo é, nalguns dos seus traços ideológicos, uma caricatura do marxismo que, talvez por filosófico complexo de inferioridade, odeia e combate. Alemão, como o marxismo, o nazismo sabe que é filosoficamente mais burro, que escreve pior a língua alemã, que nem afastadíssimo primo é do melhor que a filosofia alemã legou ao mundo. O nazismo é também, como o marxismo, anti-capitalista. Recorde-se que o partido nazi, NSDA, se chamava Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Ao marxismo, o nazismo copiou a base operária. Ataca, como o seu rival vermelho, a ideia de propriedade, mostrando a sua irrelevância face ao papel patriarcal que o Estado passa a assumir na sociedade homogeneizada que o colectivismo nazi vai utopicamente engendrar. Numa transformação alquímica, Adolf Hitler converte a luta de classes de Marx numa luta de raças. A destruição do judeu é o propósito final dessa luta – pelo caminho liquidar-se-iam os comunistas, extinguir-se-ia a democracia e os partidos, punha-se um freio estatal à economia de mercado.

Pode dizer-se que o motor do nazismo foi o ódio: ao judeu, ao comunismo, à democracia parlamentar e ao liberalismo económico. Foi, foi sim. Mas, tanto como o ódio, o motor do nazismo foi Adolf Hitler.

  1. O judeu

Para Adolf Hitler, o judeu acolhe e é a fonte de todos os males do Mundo e do Tempo. Historicamente, para Hitler, o Tratado de Versalhes, que humilhava e agrilhoava o Povo Alemão, fora o resultado de uma conspiração do judaísmo internacional, dos banqueiros judeus, fossem eles ingleses ou franceses.

O judeu era, portanto, responsável pelo capitalismo e pela secreta conspiração da alta finança. Era o judeu que espalhava a ideologia materialista que induzia à ganância um povo cuja virtude era a temperança.

Mas era também o judeu que espalhava a ideologia comunista, a ideologia criadora da dupla ameaça bolchevista, ameaça interna e subjacente da República de Weimar, ameaça externa com o crescimento do comunismo soviético.

O judeu era agiota, banqueiro, comunista. Mas era também, no ideário nazi, um ser física e moralmente sujo, um bacilo, um piolho. Incapaz de se ligar à nação, o judeu era a faca sempre apontada às costas do patriota alemão. Se era rico, explorava o povo. Se era intelectual, era o agitador subversivo que trouxera ao povo alemão a desgraça que era a República de Weimar, a intragável democracia parlamentar. A pureza ariana tinha de ser protegida do judeu – o judeu era o violador de que a donzela ariana tinha de ser escondida. O odiado Eterno Judeu era responsável pela sífilis e pelo comunismo, pela imprensa e pelo capitalismo

O judeu não podia ser cidadão. Privado de todos os direitos, o judeu devia, numa visão benigna, ser expulso da pátria alemã. Numa solução ideal, deveria ser erradicado da face da Terra.

A patologia de Hitler tinha proporções homéricas: um dia soube que a mulher de um seu general fizera, na juventude, fotografias pornográficas. O autor das fotos fora um fotógrafo judeu. Ora, Hitler tinha sido padrinho do casamento e beijara a mão a essa mulher. Quando soube, horrorizado com a lembrança dos beijos dados na pele de uma mulher que estivera nua com um fotógrafo judeu, Hitler tomou, nesse dia, sete banhos sucessivos. Ter-se-á esfregado com pedra-pomes?

Vida e destino, Vassili Grossman

Não li, como ninguém leu, todos os romances do século XX. Dos que li, e dos que, não os tendo lido, tive conhecimento, este é porventura o maior romance do século. Caótico, convulso, irrespirável, restitui-nos a abjecção, pejada de heroísmo, idealismo, tortura e massacre, dos dois cancros do século, o nazismo e o comunismo. Vida e Destino não é um romance como os outros. Rasga-nos por dentro.

Grossman

Vida e Destino: os filhos da puta sabiam
Manuel S. Fonseca

O século XX teve dois tumo­res cere­brais: o nazismo e o comu­nismo. Malig­nos os dois. Ambos pra­ti­ca­ram geno­cí­dios em que pere­ce­ram milhões de seres huma­nos. No holo­causto nazi, os judeus foram as prin­ci­pais víti­mas: 6 milhões assas­si­na­dos nas ruas, com­boios, cam­pos e cre­ma­tó­rios; no holo­causto esta­li­nista, os judeus vol­ta­ram a ser um dos alvos, fazendo parte dos 10, 15 (ou terão sido 20?) milhões de víti­mas com que a bar­bá­rie do Par­tido Comu­nista, a pur­gas, depor­ta­ções e gulags, ata­pe­tou o soci­a­lismo soviético.

Tudo isto, sendo, com a passagem dos anos, da banal da ordem dos fac­tos, cons­ti­tui um ino­mi­ná­vel hor­ror. Pela arbi­tra­ri­e­dade e ausên­cia de razão, a não ser que o puro mal seja razão, este é o maior hor­ror da his­tó­ria conhe­cida da huma­ni­dade. Fal­tava ao século XX um livro que, em espe­lho, devol­vesse ao nazismo e ao comu­nismo o rosto comum, rosto de las vie­jas goyes­cas. As 855 pági­nas de “Vida e Des­tino” são as pági­nas desse livro.

Vas­sili Gros­s­man, o seu autor, toma como cen­tro um epi­só­dio, a bata­lha de Esta­li­ne­grado. A cidade é uma Tróia des­feita: ruí­nas, fome, cadá­ve­res pin­tam o caos de vinte Guer­ni­cas. Ale­mães e sovié­ti­cos com­ba­tem e matam-se, heróica e patri­o­ti­ca­mente, por cada metro de rua, parede a parede, casa a casa. Aqui­les e Hei­tor rein­car­na­ram no heroísmo de milha­res de sol­da­dos sovié­ti­cos, na valen­tia dos seus capi­tães e generais.

Mas “Vida e Des­tino” é uma falsa epo­peia. Quando Vas­sili Gros­s­man nos leva para longe de frente de com­bate, correm-se as cor­ti­nas das ide­o­lo­gias tota­li­tá­rias e entra­mos nos cam­pos de con­cen­tra­ção. Nos fas­cis­tas pri­meiro, nos comu­nis­tas depois. Os olhos de Gros­s­man tinham visto antes o que os dedos dele escre­ve­ram depois neste livro. Ele viu e fez os pri­mei­ros rela­tos sobre os cre­ma­tó­rios nazis para os jor­nais sovié­ti­cos. No jul­ga­mento de Nurem­berga, esses rela­tos foram apre­sen­ta­dos como docu­men­tos de prova. Neste livro, num dos capí­tu­los, o lei­tor acom­pa­nha a ins­pec­ção de altos qua­dros do Reich a um campo que vai ser inau­gu­rado. Toda a gente fez o seu tra­ba­lho e os for­nos estão pron­tos a quei­mar carne, a quei­mar ner­vos e ossos. Os altos qua­dros, gene­rais e minis­tros de Hitler, cumprimentam-se pela efi­cá­cia, pela qua­li­dade inex­ce­dí­vel dos equi­pa­men­tos, e come­mo­ram erguendo taças de cham­pagne – têm orgu­lho na sua fábrica de morte.

Não são as úni­cas pági­nas de “Vida e Des­tino” que se lêem com um sobres­salto vis­ce­ral. Se a inu­ma­ni­dade amo­ral dos SS nos faz estre­me­cer, tam­bém é con­vulsa a lei­tura dos capí­tu­los em que segui­mos Sófia e David.  O acaso e os ale­mães juntaram-nos num com­boio que vai da Rús­sia para um dos cam­pos. David é um miúdo de cinco anos e está só. Sófia é uma jovem médica e tro­peça nele, no escuro da car­ru­a­gem cheia de pri­si­o­nei­ros. Adopta-o. Protege-o ao longo da via­gem agó­nica. No campo, os ale­mães espe­ram estes judeus rus­sos com a fes­tiva música, o ladrar dos cães, a gri­tada e velo­cís­sima orga­ni­za­ção que ater­ro­riza e con­funde. Grita-se banho; vão levá-los para o banho. Médi­cos e outros espe­ci­a­lis­tas podem pas­sar para outra fila. Sófia per­cebe logo a dife­rença entre as duas filas. Tem esco­lha e esco­lhe não aban­do­nar este David de estrela ao peito e cinco anos soli­tá­rios e ino­cen­tes. Acompanha-o, serena, para essa luc­tí­fera sala de banho. Aperta-o con­tra o seu ven­tre e no momento fatí­dico, quando as luzes se apa­gam e um acre odor se espa­lha, sabe que é mãe. Ser mãe tanto é dar à luz, como dar um filho à eterna escuridão.

Nas 855 pági­nas deste livro há outras mães. A mais pun­gente é a mãe da Vík­tor Strum, o mais pro­ta­go­nista dos vinte ou trinta pro­ta­go­nis­tas de “Vida e Des­tino”. Ela ficou numa cidade ucra­ni­ana que os ale­mães ocu­pa­ram. Os con­quis­ta­do­res logo lhe lem­bram o que já esque­cera, que é judia. Despejam-na num gueto e sabe que a vão enter­rar na vala comum que os pró­prios judeus ras­gam na terra fria. A mãe de Vík­tor con­se­gue ainda escre­ver ao filho uma carta de des­pe­dida. São pági­nas cheias de vida e morte, onze pági­nas que car­re­gam a bon­dade e a mal­dade da con­di­ção humana. Onze pági­nas de trai­ção e mes­qui­nhez, de absurdo e abjec­ção, de ines­pe­ra­dos e reve­la­do­res ges­tos reden­to­res. Uma mãe escreve a um filho sabendo que é a última vez que lhe fala e é tão difí­cil, tão atroz, escre­ver a última linha, a que se sabe que é a última linha, por­que todas as car­tas têm de acabar.

Entre­tanto, em Esta­li­ne­grado combate-se. Já nem é o heroísmo que move as tro­pas rus­sas. Uma des­me­dida dis­po­ni­bi­li­dade para o sacri­fí­cio, a abdi­ca­ção de tudo o que é humano, leva o Exér­cito Ver­me­lho ao triunfo. E tal como Napo­leão Bona­parte foi per­so­na­gem da “Guerra e Paz”, de Tols­toi, tam­bém Adolf Hitler é con­vo­cado por Gros­s­man para a sua “Vida e Des­tino”. Quase ouvi­mos os pas­sos macios e outo­nais do monstro alemão na flo­resta de Gör­litz. Hitler cami­nha num reco­lhi­mento monás­tico, um pé na Poló­nia, outro na Lituâ­nia. Ele era, ontem, o poder ulu­lante, a águia de asas mai­o­res do que o mundo. Hoje, de Esta­li­ne­grado, anunciaram-lhe a der­rota do seu 6º Exér­cito. Para gran­deza da Nova Ale­ma­nha, Hitler ateara a guerra ao mundo, cre­mara milhões de humanos nos seus for­nos. Agora, os tan­ques sovié­ti­cos abrem-lhe no cora­ção um inferno de gelo e dúvida. Esta gelada der­rota acaba de lhe meter uma lâmina de medo no ventre.

Hitler sabe que, atrás das árvo­res, há mil sol­da­dos invi­sí­veis a protegê-lo, mas cami­nha sozi­nho e a flo­resta húmida acorda nele um sonho afli­tivo. Sente que se trans­for­mou no Pequeno Pole­gar. Esque­cido dos mil sol­da­dos vigi­lan­tes, adi­vi­nha olhos e den­tes de lobo mau, entre as altas árvo­res, pron­tos a estraçalharem-no. Um ter­ror infan­til apodera-se deste senhor do mundo. Em duas pági­nas, Gros­s­man faz a mais arre­pi­ante des­cri­ção de Hitler que já li. O medo que lhe con­gela os ossos é o medo de quem sabe o que fez. O filho da puta sabia. Não há nenhuma bana­li­dade. Hanna Arendt estava enganada.

Vida e Des­tino” é um vasto mural que pinta a pátria de Esta­line como um labi­rinto de ter­ror. Não há sos­sego para o homo sovi­e­ti­cus. Um herói de guerra, mesmo vito­ri­oso, pode ser acu­sado no seu regresso a casa. Não há cá Pené­lo­pes à espera. Uma ligeira hesi­ta­ção antes do assalto vito­ri­oso para evi­tar per­das des­ne­ces­sá­rias aos seus sol­da­dos, uma frase per­dida que disse na cama à agora ex-mulher, bas­tam para que um dedo acu­sa­dor, um rumor anó­nimo, uma acu­sa­ção sem rosto, aba­tam o herói. Feita a denún­cia, ini­ci­ado o pro­cesso de pri­são e tor­tura já nada o pode deter. O herói preso é como o leproso: quem o tocar contamina-se. Todo o heroísmo é sus­peito, sus­peita é toda a fide­li­dade E não há defesa. É o que o Comis­sá­rio Kri­mov vai apren­der na carne e no espí­rito: não há defesa con­tra a acu­sa­ção em nome de um Par­tido ruti­lante que exsuda a mais maiús­cula Ver­dade. Não há limi­tes para a tor­tura, ines­ca­pá­vel, impa­rá­vel, enquanto ao acu­sado sobrar uma rés­tia de iden­ti­dade. Não é o corpo esfran­ga­lhado e em san­gue, os rins reben­ta­dos, cagares-te todo, que os inter­ro­ga­do­res que­rem. Estás preso, já fize­ram de ti uma suja e doida rata­zana no esgoto e isso é só o começo. Os inter­ro­ga­do­res querem-te a ti. Que­rem esse teu eu, que­rem que ele se entre­gue, que con­fes­ses ter feito o que nem pela cabeça te pas­sava que podia ser feito. Foda-se, alguma culpa hás de ter, lá no fundo, mas não te esfor­ces a pro­cu­rar, aceita as acu­sa­ções que te ofe­re­cem. (Assina, cara­lho!) Con­fessa, assina e denun­cia alguém ou mais dois ou três. Uma sovela incan­des­cida perfura-te o crâ­nio: estás sozi­nho e não sabes quem te denun­ciou. Per­deste a con­fi­ança na tua mulher, na tua mãe, nos teus filhos. És nin­guém e só nin­guém sobreviverás.

No campo de con­cen­tra­ção sovié­tico, encon­tra­mos Abart­chuk, o fiel comu­nista que o Par­tido con­de­nou: ele sabe que nada fez con­tra o Par­tido, que o acu­sam injus­ta­mente. Toda­via, Abdart­chuk resigna-se. O Par­tido tem de cas­ti­gar e Abdart­chuk aceita, mais humilde do que Job, fazer parte da suposta peque­nina mar­gem de erro que o viti­mou. Mesmo ali, no campo de con­cen­tra­ção, cas­ti­gado e sem culpa, tem uma neces­si­dade infan­til, reli­gi­osa, de apro­va­ção. No teu íntimo pen­sas que estás ino­cente?Mas que sus­pei­tís­simo íntimo é esse que se arroga cer­te­zas con­tra a von­tade do Par­tido? Não se é preso por nada. As pur­gas de 1937, o torpe ter­ror das depor­ta­ções, milhões de cam­po­ne­ses, tra­ba­lha­do­res, pro­fes­so­res, padres, músi­cos, comu­nis­tas assas­si­na­dos, não foram um erro. Os milhões de mor­tos, a denún­cia per­ma­nente, os pais denun­ci­a­dos pelos filhos, o ter­ror de se dizer uma pala­vra equi­voca, são a con­sequên­cia lógica, a ins­ta­bi­li­dade intrín­seca ao mundo novo de que o Par­tido é o único sol. As teo­rias polí­ti­cas heli­o­cên­tri­cas são fodidas.

Já disse que Vík­tor Strum é o mais pro­ta­go­nista dos pro­ta­go­nis­tas de “Vida e Des­tino”. A Aca­de­mia de Ciên­cias reconhece-lhe o génio mate­má­tico e uma des­co­berta na sua área da física nuclear converte-o quase numa vedeta. Fez uma descoberta científica decisiva. Mas será que a ciên­cia, essa pre­tensa guar­diã da razão, pode pre­va­le­cer con­tra os prin­cí­pios leni­nis­tas? Nunca! E muito menos se o cien­tista é um judeu. Os nazis tinham recor­dado à mãe de Vik­tor, numa cida­de­zeca da Ucrâ­nia, que ela era judia. O Par­tido lem­brará a Vik­tor o mesmo opró­brio. Acusam-no de des­vio ide­o­ló­gico, por­que podiam acusá-lo do que qui­ses­sem. Tiram-lhe tudo, a come­çar pelo labo­ra­tó­rio na Aca­de­mia. O por­teiro da casa onde vive já nem sequer o cum­pri­menta. Vík­tor começa a dolo­rosa pere­gri­na­ção pelos escon­sos túneis que con­du­zem ao Vale das Som­bras. E é neste ponto do romance que, tal como Hitler, tam­bém Esta­line apa­rece.  A des­co­berta cien­tí­fica de Vík­tor é dema­si­ado impor­tante para o Poder. Esta­line pre­cisa dele e telefona-lhe: “Como é que está a cor­rer o seu tra­ba­lho?” Fala dois minu­tos com ele. No dia seguinte, o labo­ra­tó­rio reabre-se, o por­teiro cumprimenta-o. Como se as acu­sa­ções, o ter­ror das sema­nas ante­ri­o­res tives­sem sido apa­ga­das, nunca tives­sem exis­tido. Esta­line ia deixá-lo ser con­de­nado, pro­va­vel­mente ser morto num campo gelado, só por­que era um judeu, sem outra culpa, sem nenhuma culpa, por­que podia acusá-lo do que qui­sesse. Bas­tou um tele­fo­nema de Esta­line, tão arbi­trá­rio a salvá-lo, como arbi­trá­ria seria a con­de­na­ção. Tal como Hitler, tam­bém este filho da puta sabia.

Na parte 2, capí­tulo 15 de “Vida e Des­tino”,  Gros­s­man põe-nos a ouvir a con­versa entre um filo­só­fico coman­dante de um campo de con­cen­tra­ção nazi e um velho bol­che­vi­que pri­si­o­neiro, cama­rada de Lenine, um dos heróis da Revo­lu­ção de 1917. O nazi ama o revo­lu­ci­o­ná­rio comu­nista e quer ser amado por ele. Diz-lhe: “Quando nos olha­mos na cara um ao outro, olha­mos não só para uma cara odi­osa, mas tam­bém para o espe­lho.” E é só o ale­mão que fala: “Seja hege­li­ano, meu mes­tre… Acha que hoje olham para nós com ter­ror e para vocês com amor e espe­rança? Acre­dite que não: quem olha com ter­ror para nós, olha para vós com o mesmo ter­ror.

Vida e Des­tino” é o livro que reco­lhe as duas gran­des tem­pes­ta­des do século XX. Um livro con­vulso, caó­tico, às vezes irres­pi­rá­vel. Nele se escreve a impi­e­dosa con­fron­ta­ção do nazismo e do comu­nismo, a impi­e­dosa fusão dos dois no mesmo pro­cesso de ter­ror arbi­trá­rio, imo­ral, abjecto. E, no entanto, as pes­soas movem-se. Ape­sar do ter­ror, do dan­tesco espec­tá­culo de tor­tura e morte, os seres huma­nos con­ti­nuam a viver. “Vida e Des­tino” ter­mina no silên­cio de uma flo­resta fria. Fica­mos a saber – é Vas­sili Gros­s­man a dizê-lo – que há mais funda tris­teza nesse silên­cio do que no silên­cio de qual­quer Outono.

                                                               ***

Vas­sili Gros­s­man escre­veu “Vida e Des­tino” no final dos anos 50. Em 1960, quis publicá-lo na revista “Znamya”, mas o KGB apre­en­deu o manus­crito. Em 1962, fez nova ten­ta­tiva junto das auto­ri­da­des, mas foi-lhe dito que a publi­ca­ção do romance pro­vo­ca­ria mais danos ao regime do que os que já cau­sara “o Dou­tor Jivago”, de Pas­ter­nak. “Nem daqui a 200 anos, o seu romance será publi­cado”, disse-lhe o grande ideó­logo do Polit­buro, Mikhail Sus­lov. Gros­s­man mor­reu dois anos depois. Julgou-se que a obra teria sido des­truída pelo KGB, mas um amigo de Gros­s­man e o cien­tista Andrei Sakha­rov con­se­gui­ram, em 1974, fazer che­gar uma cópia a França, onde pri­meiro foi edi­tada. Na Rús­sia, foi publi­cada, depois da Glas­s­nost de Gor­ba­chev, em 1988. A edi­ção por­tu­guesa, da Dom Qui­xote, é de 2011.