O Hitler em nós

 Voltei às minhas velhas notas do tempo da Cinemateca e, às ordens e por despacho do Cineclube de Viseu e da revista Argumento, reescrevi um texto que tinha ficado perdido no tempo. Deu-me gozo. Mudei adjectivos, criei subtítulos, redimi alguns parágrafos, acrescentei outros – até Merkel foi para aqui chamada. Pior ainda, revi boa parte do filme. Fiquei com pena de não ter revisto tudo.

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Somos todos marionetas?

Hitler, um filme da Alemanha, filme realizado por Hans-Jürgen Syberberg, em 1977, é o quê? Sim, é um filme de sete horas, extravagância que não casa com as programações de cinematecas, festivais e cineclubes contemporâneos. Ou será que não casa, sobretudo, com o apressado e instantâneo Homem contemporâneo – e deixem-me vir já armado de maiúscula, para que neste H caibam homens e mulheres e o mais que de géneros se convoque e legitime.

Será Hitler uma evocação fascinada de terríveis fantasmas do passado? Um libelo contra a moral e a estética do mundo contemporâneo? Um relato, simultaneamente em tom hagiográfico e de farsa, à volta da vida do homem de anacrónico bigode que presidiu ao terceiro Reich? Ou será uma invocação e uma diatribe contra o cinema e a sua história? Talvez seja, e confirmá-lo-ia Angela Merkel, se o tivesse visto, a devassa do inconsciente colectivo da Alemanha. São muitas perguntas e eu diria, em três prosaicas linhas, que é o fim de uma trilogia (de que os outros painéis são Ludwig, Requiem para Um Rei Virgem e Karl May) cobrindo a história da nação alemã – e, logo, a da Europa – desde a industrialização no século passado até às sequelas, que chegam aos nossos dias, da queda do terceiro Reich.

Um filme em inflação cósmica
Tudo isto, e um fausto de símbolos e bandeiras, sobreposições, alegorias e fantasmas, é Hitler, filme de Hans-Jürgen Syberberg, ainda que a simples soma das facetas referidas, contraditórias e até paradoxais, seja insuficiente para designar o que, na sua globalidade, o filme efectivamente é. Hitler, um filme da Alemanha é uma suma em forma de oratória, articulando a história, o cinema, o teatro, as ideologias, e sobretudo esse fundo mítico e irracional que parece ser a fonte da nossa ansiedade e dos nossos medos, mas também a mola fulcral da nossa acção. Tudo cabe num filme, se o filme, como o universo, for passível de inflação cósmica.

E eis que Hitler vira as costas ao universo para ser só cinema. Hitler é o filme colagem em que se inscreve a memória ritualizada do cinema no cinema: perante um Hitler na tribuna do seu estádio, a uma velocidade de Jesse Owens, desfilam fantasmas, a naïveté de Méliès, a montagem de Eisenstein, a megalomania de Stroheim, a ascética culpa de Lang, a multidão da Riefenstahl, o servilismo funcional de Veit Harlan, o barroco prestidigitador de Orson Welles, o rigorismo de Stanley Kubrick, o rosto da Garbo, o sonho de Mary Pickford, os artefactos chaplinescos, alguma inocente magia circense, em que Ophüls e Lola Montés estão presente de parte inteira.

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Os cúmplices de Hitler
Lembro-me do que me lembro, diria João Bénard da Costa, e eu lembro-me de ter ido jantar com ele e com Syberberg ao Gambrinus, nesse tempo em que os restaurantes em Portugal não tinham estrelas Michelin e ainda à refeição se falava de Brecht, esse alemão dividido ao meio por um muro. Foi Syberberg que o chamou, a Brecht, à toalha da mesa, e o colou ao seu filme, invocando a distância – a celebrada distanciação brechtiana, aqui carregada em ombros por um negríssimo humor, artifício e marionetas. Deixo Syberberg explicar: «Brecht, por exemplo, em determinado momento das suas obras introduz uma canção: detém a história e um dos personagens avança até ao público e canta, para depois prosseguir a história. Penso que este ponto especial da história em que o personagem sai dela para dizer coisas, expondo pensamentos do autor e recolhendo ideias da audiência, para continuar a seguir, é muito interessante, porque é como uma encruzilhada de ideias.»

Volto atrás, macaquinho de imitação desse corso-ricorso joyceano que Syberberg está sempre a tirar da manga ou do seu houdinesco chapéu mágico: a ideia de filme-colagem tem em Hitler uma ressonância mais profunda, a da colagem (e não se trata, entenda-se, da projecção) entre o espectador e o tema. O que incendeia o filme de Syberberg não é a personagem de um Hitler histórico, assepticamente apresentado. O que é avassalador e nos fere é que nós estamos também no filme e somos nós que retocamos a personagem de Hitler e lhe damos a última demão. A imagem de Hitler que Syberberg quer construir só se revela quando nós a completamos, nela nos reconhecendo, deixando ver – aflitivo espelho, aflitivo reflexo – o Hitler em nós, a escondida herança que ele nos deixou e que infiltra e impregna os nossos sentimentos, a nossa moral, as nossas instituições, a nossa arte, as nossas democracias.

Será legítima, ideológica e politicamente, a colagem de Hitler ao espectador que somos? Será legítima a “acusação épica de cumplicidade”, como lhe chamou Alberto Moravia? Somos ainda herdeiros, ainda mais agora, com este populismo palpitante que, à direita e à esquerda, se levanta em estandartes que se reclamam do povo e da boca do povo? Somos ainda os cúmplices, como nos acusa o céptico Moravia, filiado na nascente cultura da queixa, que o indefectível apreço moraviano pela alienação e pela incomunicabilidade já anunciavam?

Justiça estética
Não consigo, por não saber, responder. Mas se as emoções são uma resposta, ao ver o filme de Syberberg sinto que aquela colagem é esteticamente justa. Liminarmente justa. E talvez radique na “justiça estética” de Hitler, um filme da Alemanha o seu maior escândalo.

Donde vem a “justiça estética” do filme de Syberberg? Em meu entender, a sua principal fonte é Brecht. Na sua distância, na sua ironia (tantas vezes tintada do sarcasmo), na articulação histórica que segue simultaneamente um princípio de causalidade e um princípio dialéctico (refiro-me à pluralidade das “camadas do real” que Syberberg convoca), Hitler, um filme da Alemanha representa a concreção das premissas teóricas de Brecht numa grande obra de arte. O escândalo de Hitler, um filme da Alemanha talvez decorra, afinal, do facto de, tendo sido apontado como “um filme nazi”, ele ser, num improvável encontro paradoxal de beaux esprits, os de Syberberg, Wagner e Brecht, a maior, e quem sabe se não a única, grande obra de arte de raiz brechtiana já criada.

E ao espectador que fui, das várias vezes que vi o filme, não restam dúvidas, inspirado embora numa estética brechtiana, Hitler, um filme da Alemanha, por muito que nele pesem as referências (ou mesmo citações) teatrais, musicais, literárias e, por que não, circenses, tem como sua forma última e soberana o cinema.

Sob o signo do cinema, desde o monólogo inicial no “Black Maria”, o primeiro estúdio de Edison – a que Syberberg, ou alguém por ele, chama no filme “o estúdio negro da nossa imaginação” – desde as sucessivas interpretações de Hitler, (Frankenstein, Charlot), desde o monólogo que retoma o premonitório julgamento da personagem de Peter Lorre no M de Fritz Lang, até ao violento libelo contra Hollywood, contra os “seus Hitlers”, chamem-se Hayes ou McCarthy, Hitler, um filme da Alemanha, assombrado pela música de Wagner, é uma obra sobre a ascensão do cinema neste século, sobre a sua essência cósmica, a primordial lux in tenebris, terminando com o desejo de “projecção no buraco negro do futuro”.

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Syberberg, o realizador.

Nunca trabalharam

Lenine

Tem dias. Dias em que me apetece correr os estereótipos a pontapé. Outros dias em que beijaria o primeiro estereótipo que me saísse debaixo da pedra a que tivesse dado um pontapé. Dou um exemplo, esse lugar-comum, essa frase batida, «les beaux esprits se rencontrent», que tem uma variante portuguesa plebeia, a saber, «os extremos tocam-se». Topo com esse estereótipo e estava capaz de lhe morder a orelha com um apetite de Mike Tyson ou de o pôr KO ao primeiro gancho de esquerda, fosse eu Muhammad Ali.

Mas foi uma raiva que logo engoli quando me pus a pensar que Adolf Hitler e Vladimir Ilitch Ulianov, mais conhecido por Lenine, nunca trabalharam. Hitler viveu de pensões que lhe permitiram viver em Viena de Áustria a roçar o cu pelas paredes e Lenine às custas da mãe que o financiava, permitindo-lhe a sua carreira de revolucionário profissional. Nunca trabalharam. Une-os o elo, o festivo laço do estereótipo.

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Hitler, Mein Kampf

 

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O Mein Kampf é um livro de ódio. Agora, com a florescência dos populismos percebêmo-lo melhor ainda, o Mein Kampf é um livro a ler e debater. Proibi-lo, como se fez durante décadas, é criar-lhe uma aura que o livro não merece, e que uma análise atenta logo desvanece.

Publiquei o livro na Guerra e Paz editores, vai fazer três anos. E entendi contextualizá-lo, fazendo-o preceder de um texto a que dei o título auto-explicativo de Ascensão, Poder  e Crime do nazismo, juntando a esse texto abundante material fotográfico da violência e genocídio desses anos 30 e 40. O livro constitui um dos grandes êxitos editoriais da Guerra e Paz. Deixo aqui um breve excerto desse meu texto.

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Hitler alimentava a sua ideologia racial com alguns pós pilhados ao darwinismo, com generosas doses de eugenismo, racismo científico, que era então o ar do tempo, e um caldeirão esotérico e místico. Na sua prática, o nazismo foi uma ideologia de um ateísmo nimbado a um patético paganismo. Decididamente, uma ideologia anti-cristã, que o triunfo da vontade e a exigência de se se incarnar um vagamente darwinista papel do mais forte não contemplavam a baixeza do amor ao próximo.

O Nacional-Socialismo é, nalguns dos seus traços ideológicos, uma caricatura do marxismo que, talvez por filosófico complexo de inferioridade, odeia e combate. Alemão, como o marxismo, o nazismo sabe que é filosoficamente mais burro, que escreve pior a língua alemã, que nem afastadíssimo primo é do melhor que a filosofia alemã legou ao mundo. O nazismo é também, como o marxismo, anti-capitalista. Recorde-se que o partido nazi, NSDA, se chamava Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Ao marxismo, o nazismo copiou a base operária. Ataca, como o seu rival vermelho, a ideia de propriedade, mostrando a sua irrelevância face ao papel patriarcal que o Estado passa a assumir na sociedade homogeneizada que o colectivismo nazi vai utopicamente engendrar. Numa transformação alquímica, Adolf Hitler converte a luta de classes de Marx numa luta de raças. A destruição do judeu é o propósito final dessa luta – pelo caminho liquidar-se-iam os comunistas, extinguir-se-ia a democracia e os partidos, punha-se um freio estatal à economia de mercado.

Pode dizer-se que o motor do nazismo foi o ódio: ao judeu, ao comunismo, à democracia parlamentar e ao liberalismo económico. Foi, foi sim. Mas, tanto como o ódio, o motor do nazismo foi Adolf Hitler.

  1. O judeu

Para Adolf Hitler, o judeu acolhe e é a fonte de todos os males do Mundo e do Tempo. Historicamente, para Hitler, o Tratado de Versalhes, que humilhava e agrilhoava o Povo Alemão, fora o resultado de uma conspiração do judaísmo internacional, dos banqueiros judeus, fossem eles ingleses ou franceses.

O judeu era, portanto, responsável pelo capitalismo e pela secreta conspiração da alta finança. Era o judeu que espalhava a ideologia materialista que induzia à ganância um povo cuja virtude era a temperança.

Mas era também o judeu que espalhava a ideologia comunista, a ideologia criadora da dupla ameaça bolchevista, ameaça interna e subjacente da República de Weimar, ameaça externa com o crescimento do comunismo soviético.

O judeu era agiota, banqueiro, comunista. Mas era também, no ideário nazi, um ser física e moralmente sujo, um bacilo, um piolho. Incapaz de se ligar à nação, o judeu era a faca sempre apontada às costas do patriota alemão. Se era rico, explorava o povo. Se era intelectual, era o agitador subversivo que trouxera ao povo alemão a desgraça que era a República de Weimar, a intragável democracia parlamentar. A pureza ariana tinha de ser protegida do judeu – o judeu era o violador de que a donzela ariana tinha de ser escondida. O odiado Eterno Judeu era responsável pela sífilis e pelo comunismo, pela imprensa e pelo capitalismo

O judeu não podia ser cidadão. Privado de todos os direitos, o judeu devia, numa visão benigna, ser expulso da pátria alemã. Numa solução ideal, deveria ser erradicado da face da Terra.

A patologia de Hitler tinha proporções homéricas: um dia soube que a mulher de um seu general fizera, na juventude, fotografias pornográficas. O autor das fotos fora um fotógrafo judeu. Ora, Hitler tinha sido padrinho do casamento e beijara a mão a essa mulher. Quando soube, horrorizado com a lembrança dos beijos dados na pele de uma mulher que estivera nua com um fotógrafo judeu, Hitler tomou, nesse dia, sete banhos sucessivos. Ter-se-á esfregado com pedra-pomes?

Vida e destino, Vassili Grossman

Não li, como ninguém leu, todos os romances do século XX. Dos que li, e dos que, não os tendo lido, tive conhecimento, este é porventura o maior romance do século. Caótico, convulso, irrespirável, restitui-nos a abjecção, pejada de heroísmo, idealismo, tortura e massacre, dos dois cancros do século, o nazismo e o comunismo. Vida e Destino não é um romance como os outros. Rasga-nos por dentro.

Grossman

Vida e Destino: os filhos da puta sabiam
Manuel S. Fonseca

O século XX teve dois tumo­res cere­brais: o nazismo e o comu­nismo. Malig­nos os dois. Ambos pra­ti­ca­ram geno­cí­dios em que pere­ce­ram milhões de seres huma­nos. No holo­causto nazi, os judeus foram as prin­ci­pais víti­mas: 6 milhões assas­si­na­dos nas ruas, com­boios, cam­pos e cre­ma­tó­rios; no holo­causto esta­li­nista, os judeus vol­ta­ram a ser um dos alvos, fazendo parte dos 10, 15 (ou terão sido 20?) milhões de víti­mas com que a bar­bá­rie do Par­tido Comu­nista, a pur­gas, depor­ta­ções e gulags, ata­pe­tou o soci­a­lismo soviético.

Tudo isto, sendo, com a passagem dos anos, da banal da ordem dos fac­tos, cons­ti­tui um ino­mi­ná­vel hor­ror. Pela arbi­tra­ri­e­dade e ausên­cia de razão, a não ser que o puro mal seja razão, este é o maior hor­ror da his­tó­ria conhe­cida da huma­ni­dade. Fal­tava ao século XX um livro que, em espe­lho, devol­vesse ao nazismo e ao comu­nismo o rosto comum, rosto de las vie­jas goyes­cas. As 855 pági­nas de “Vida e Des­tino” são as pági­nas desse livro.

Vas­sili Gros­s­man, o seu autor, toma como cen­tro um epi­só­dio, a bata­lha de Esta­li­ne­grado. A cidade é uma Tróia des­feita: ruí­nas, fome, cadá­ve­res pin­tam o caos de vinte Guer­ni­cas. Ale­mães e sovié­ti­cos com­ba­tem e matam-se, heróica e patri­o­ti­ca­mente, por cada metro de rua, parede a parede, casa a casa. Aqui­les e Hei­tor rein­car­na­ram no heroísmo de milha­res de sol­da­dos sovié­ti­cos, na valen­tia dos seus capi­tães e generais.

Mas “Vida e Des­tino” é uma falsa epo­peia. Quando Vas­sili Gros­s­man nos leva para longe de frente de com­bate, correm-se as cor­ti­nas das ide­o­lo­gias tota­li­tá­rias e entra­mos nos cam­pos de con­cen­tra­ção. Nos fas­cis­tas pri­meiro, nos comu­nis­tas depois. Os olhos de Gros­s­man tinham visto antes o que os dedos dele escre­ve­ram depois neste livro. Ele viu e fez os pri­mei­ros rela­tos sobre os cre­ma­tó­rios nazis para os jor­nais sovié­ti­cos. No jul­ga­mento de Nurem­berga, esses rela­tos foram apre­sen­ta­dos como docu­men­tos de prova. Neste livro, num dos capí­tu­los, o lei­tor acom­pa­nha a ins­pec­ção de altos qua­dros do Reich a um campo que vai ser inau­gu­rado. Toda a gente fez o seu tra­ba­lho e os for­nos estão pron­tos a quei­mar carne, a quei­mar ner­vos e ossos. Os altos qua­dros, gene­rais e minis­tros de Hitler, cumprimentam-se pela efi­cá­cia, pela qua­li­dade inex­ce­dí­vel dos equi­pa­men­tos, e come­mo­ram erguendo taças de cham­pagne – têm orgu­lho na sua fábrica de morte.

Não são as úni­cas pági­nas de “Vida e Des­tino” que se lêem com um sobres­salto vis­ce­ral. Se a inu­ma­ni­dade amo­ral dos SS nos faz estre­me­cer, tam­bém é con­vulsa a lei­tura dos capí­tu­los em que segui­mos Sófia e David.  O acaso e os ale­mães juntaram-nos num com­boio que vai da Rús­sia para um dos cam­pos. David é um miúdo de cinco anos e está só. Sófia é uma jovem médica e tro­peça nele, no escuro da car­ru­a­gem cheia de pri­si­o­nei­ros. Adopta-o. Protege-o ao longo da via­gem agó­nica. No campo, os ale­mães espe­ram estes judeus rus­sos com a fes­tiva música, o ladrar dos cães, a gri­tada e velo­cís­sima orga­ni­za­ção que ater­ro­riza e con­funde. Grita-se banho; vão levá-los para o banho. Médi­cos e outros espe­ci­a­lis­tas podem pas­sar para outra fila. Sófia per­cebe logo a dife­rença entre as duas filas. Tem esco­lha e esco­lhe não aban­do­nar este David de estrela ao peito e cinco anos soli­tá­rios e ino­cen­tes. Acompanha-o, serena, para essa luc­tí­fera sala de banho. Aperta-o con­tra o seu ven­tre e no momento fatí­dico, quando as luzes se apa­gam e um acre odor se espa­lha, sabe que é mãe. Ser mãe tanto é dar à luz, como dar um filho à eterna escuridão.

Nas 855 pági­nas deste livro há outras mães. A mais pun­gente é a mãe da Vík­tor Strum, o mais pro­ta­go­nista dos vinte ou trinta pro­ta­go­nis­tas de “Vida e Des­tino”. Ela ficou numa cidade ucra­ni­ana que os ale­mães ocu­pa­ram. Os con­quis­ta­do­res logo lhe lem­bram o que já esque­cera, que é judia. Despejam-na num gueto e sabe que a vão enter­rar na vala comum que os pró­prios judeus ras­gam na terra fria. A mãe de Vík­tor con­se­gue ainda escre­ver ao filho uma carta de des­pe­dida. São pági­nas cheias de vida e morte, onze pági­nas que car­re­gam a bon­dade e a mal­dade da con­di­ção humana. Onze pági­nas de trai­ção e mes­qui­nhez, de absurdo e abjec­ção, de ines­pe­ra­dos e reve­la­do­res ges­tos reden­to­res. Uma mãe escreve a um filho sabendo que é a última vez que lhe fala e é tão difí­cil, tão atroz, escre­ver a última linha, a que se sabe que é a última linha, por­que todas as car­tas têm de acabar.

Entre­tanto, em Esta­li­ne­grado combate-se. Já nem é o heroísmo que move as tro­pas rus­sas. Uma des­me­dida dis­po­ni­bi­li­dade para o sacri­fí­cio, a abdi­ca­ção de tudo o que é humano, leva o Exér­cito Ver­me­lho ao triunfo. E tal como Napo­leão Bona­parte foi per­so­na­gem da “Guerra e Paz”, de Tols­toi, tam­bém Adolf Hitler é con­vo­cado por Gros­s­man para a sua “Vida e Des­tino”. Quase ouvi­mos os pas­sos macios e outo­nais do monstro alemão na flo­resta de Gör­litz. Hitler cami­nha num reco­lhi­mento monás­tico, um pé na Poló­nia, outro na Lituâ­nia. Ele era, ontem, o poder ulu­lante, a águia de asas mai­o­res do que o mundo. Hoje, de Esta­li­ne­grado, anunciaram-lhe a der­rota do seu 6º Exér­cito. Para gran­deza da Nova Ale­ma­nha, Hitler ateara a guerra ao mundo, cre­mara milhões de humanos nos seus for­nos. Agora, os tan­ques sovié­ti­cos abrem-lhe no cora­ção um inferno de gelo e dúvida. Esta gelada der­rota acaba de lhe meter uma lâmina de medo no ventre.

Hitler sabe que, atrás das árvo­res, há mil sol­da­dos invi­sí­veis a protegê-lo, mas cami­nha sozi­nho e a flo­resta húmida acorda nele um sonho afli­tivo. Sente que se trans­for­mou no Pequeno Pole­gar. Esque­cido dos mil sol­da­dos vigi­lan­tes, adi­vi­nha olhos e den­tes de lobo mau, entre as altas árvo­res, pron­tos a estraçalharem-no. Um ter­ror infan­til apodera-se deste senhor do mundo. Em duas pági­nas, Gros­s­man faz a mais arre­pi­ante des­cri­ção de Hitler que já li. O medo que lhe con­gela os ossos é o medo de quem sabe o que fez. O filho da puta sabia. Não há nenhuma bana­li­dade. Hanna Arendt estava enganada.

Vida e Des­tino” é um vasto mural que pinta a pátria de Esta­line como um labi­rinto de ter­ror. Não há sos­sego para o homo sovi­e­ti­cus. Um herói de guerra, mesmo vito­ri­oso, pode ser acu­sado no seu regresso a casa. Não há cá Pené­lo­pes à espera. Uma ligeira hesi­ta­ção antes do assalto vito­ri­oso para evi­tar per­das des­ne­ces­sá­rias aos seus sol­da­dos, uma frase per­dida que disse na cama à agora ex-mulher, bas­tam para que um dedo acu­sa­dor, um rumor anó­nimo, uma acu­sa­ção sem rosto, aba­tam o herói. Feita a denún­cia, ini­ci­ado o pro­cesso de pri­são e tor­tura já nada o pode deter. O herói preso é como o leproso: quem o tocar contamina-se. Todo o heroísmo é sus­peito, sus­peita é toda a fide­li­dade E não há defesa. É o que o Comis­sá­rio Kri­mov vai apren­der na carne e no espí­rito: não há defesa con­tra a acu­sa­ção em nome de um Par­tido ruti­lante que exsuda a mais maiús­cula Ver­dade. Não há limi­tes para a tor­tura, ines­ca­pá­vel, impa­rá­vel, enquanto ao acu­sado sobrar uma rés­tia de iden­ti­dade. Não é o corpo esfran­ga­lhado e em san­gue, os rins reben­ta­dos, cagares-te todo, que os inter­ro­ga­do­res que­rem. Estás preso, já fize­ram de ti uma suja e doida rata­zana no esgoto e isso é só o começo. Os inter­ro­ga­do­res querem-te a ti. Que­rem esse teu eu, que­rem que ele se entre­gue, que con­fes­ses ter feito o que nem pela cabeça te pas­sava que podia ser feito. Foda-se, alguma culpa hás de ter, lá no fundo, mas não te esfor­ces a pro­cu­rar, aceita as acu­sa­ções que te ofe­re­cem. (Assina, cara­lho!) Con­fessa, assina e denun­cia alguém ou mais dois ou três. Uma sovela incan­des­cida perfura-te o crâ­nio: estás sozi­nho e não sabes quem te denun­ciou. Per­deste a con­fi­ança na tua mulher, na tua mãe, nos teus filhos. És nin­guém e só nin­guém sobreviverás.

No campo de con­cen­tra­ção sovié­tico, encon­tra­mos Abart­chuk, o fiel comu­nista que o Par­tido con­de­nou: ele sabe que nada fez con­tra o Par­tido, que o acu­sam injus­ta­mente. Toda­via, Abdart­chuk resigna-se. O Par­tido tem de cas­ti­gar e Abdart­chuk aceita, mais humilde do que Job, fazer parte da suposta peque­nina mar­gem de erro que o viti­mou. Mesmo ali, no campo de con­cen­tra­ção, cas­ti­gado e sem culpa, tem uma neces­si­dade infan­til, reli­gi­osa, de apro­va­ção. No teu íntimo pen­sas que estás ino­cente?Mas que sus­pei­tís­simo íntimo é esse que se arroga cer­te­zas con­tra a von­tade do Par­tido? Não se é preso por nada. As pur­gas de 1937, o torpe ter­ror das depor­ta­ções, milhões de cam­po­ne­ses, tra­ba­lha­do­res, pro­fes­so­res, padres, músi­cos, comu­nis­tas assas­si­na­dos, não foram um erro. Os milhões de mor­tos, a denún­cia per­ma­nente, os pais denun­ci­a­dos pelos filhos, o ter­ror de se dizer uma pala­vra equi­voca, são a con­sequên­cia lógica, a ins­ta­bi­li­dade intrín­seca ao mundo novo de que o Par­tido é o único sol. As teo­rias polí­ti­cas heli­o­cên­tri­cas são fodidas.

Já disse que Vík­tor Strum é o mais pro­ta­go­nista dos pro­ta­go­nis­tas de “Vida e Des­tino”. A Aca­de­mia de Ciên­cias reconhece-lhe o génio mate­má­tico e uma des­co­berta na sua área da física nuclear converte-o quase numa vedeta. Fez uma descoberta científica decisiva. Mas será que a ciên­cia, essa pre­tensa guar­diã da razão, pode pre­va­le­cer con­tra os prin­cí­pios leni­nis­tas? Nunca! E muito menos se o cien­tista é um judeu. Os nazis tinham recor­dado à mãe de Vik­tor, numa cida­de­zeca da Ucrâ­nia, que ela era judia. O Par­tido lem­brará a Vik­tor o mesmo opró­brio. Acusam-no de des­vio ide­o­ló­gico, por­que podiam acusá-lo do que qui­ses­sem. Tiram-lhe tudo, a come­çar pelo labo­ra­tó­rio na Aca­de­mia. O por­teiro da casa onde vive já nem sequer o cum­pri­menta. Vík­tor começa a dolo­rosa pere­gri­na­ção pelos escon­sos túneis que con­du­zem ao Vale das Som­bras. E é neste ponto do romance que, tal como Hitler, tam­bém Esta­line apa­rece.  A des­co­berta cien­tí­fica de Vík­tor é dema­si­ado impor­tante para o Poder. Esta­line pre­cisa dele e telefona-lhe: “Como é que está a cor­rer o seu tra­ba­lho?” Fala dois minu­tos com ele. No dia seguinte, o labo­ra­tó­rio reabre-se, o por­teiro cumprimenta-o. Como se as acu­sa­ções, o ter­ror das sema­nas ante­ri­o­res tives­sem sido apa­ga­das, nunca tives­sem exis­tido. Esta­line ia deixá-lo ser con­de­nado, pro­va­vel­mente ser morto num campo gelado, só por­que era um judeu, sem outra culpa, sem nenhuma culpa, por­que podia acusá-lo do que qui­sesse. Bas­tou um tele­fo­nema de Esta­line, tão arbi­trá­rio a salvá-lo, como arbi­trá­ria seria a con­de­na­ção. Tal como Hitler, tam­bém este filho da puta sabia.

Na parte 2, capí­tulo 15 de “Vida e Des­tino”,  Gros­s­man põe-nos a ouvir a con­versa entre um filo­só­fico coman­dante de um campo de con­cen­tra­ção nazi e um velho bol­che­vi­que pri­si­o­neiro, cama­rada de Lenine, um dos heróis da Revo­lu­ção de 1917. O nazi ama o revo­lu­ci­o­ná­rio comu­nista e quer ser amado por ele. Diz-lhe: “Quando nos olha­mos na cara um ao outro, olha­mos não só para uma cara odi­osa, mas tam­bém para o espe­lho.” E é só o ale­mão que fala: “Seja hege­li­ano, meu mes­tre… Acha que hoje olham para nós com ter­ror e para vocês com amor e espe­rança? Acre­dite que não: quem olha com ter­ror para nós, olha para vós com o mesmo ter­ror.

Vida e Des­tino” é o livro que reco­lhe as duas gran­des tem­pes­ta­des do século XX. Um livro con­vulso, caó­tico, às vezes irres­pi­rá­vel. Nele se escreve a impi­e­dosa con­fron­ta­ção do nazismo e do comu­nismo, a impi­e­dosa fusão dos dois no mesmo pro­cesso de ter­ror arbi­trá­rio, imo­ral, abjecto. E, no entanto, as pes­soas movem-se. Ape­sar do ter­ror, do dan­tesco espec­tá­culo de tor­tura e morte, os seres huma­nos con­ti­nuam a viver. “Vida e Des­tino” ter­mina no silên­cio de uma flo­resta fria. Fica­mos a saber – é Vas­sili Gros­s­man a dizê-lo – que há mais funda tris­teza nesse silên­cio do que no silên­cio de qual­quer Outono.

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Vas­sili Gros­s­man escre­veu “Vida e Des­tino” no final dos anos 50. Em 1960, quis publicá-lo na revista “Znamya”, mas o KGB apre­en­deu o manus­crito. Em 1962, fez nova ten­ta­tiva junto das auto­ri­da­des, mas foi-lhe dito que a publi­ca­ção do romance pro­vo­ca­ria mais danos ao regime do que os que já cau­sara “o Dou­tor Jivago”, de Pas­ter­nak. “Nem daqui a 200 anos, o seu romance será publi­cado”, disse-lhe o grande ideó­logo do Polit­buro, Mikhail Sus­lov. Gros­s­man mor­reu dois anos depois. Julgou-se que a obra teria sido des­truída pelo KGB, mas um amigo de Gros­s­man e o cien­tista Andrei Sakha­rov con­se­gui­ram, em 1974, fazer che­gar uma cópia a França, onde pri­meiro foi edi­tada. Na Rús­sia, foi publi­cada, depois da Glas­s­nost de Gor­ba­chev, em 1988. A edi­ção por­tu­guesa, da Dom Qui­xote, é de 2011.