O suor do rosto

Primeiro 1º Maio no Porto

Bica Curta servida no 1º de Maio, no CM , há duas semanas

No 1º de Maio, ergo a bica cheia à gloriosa luta dos trabalhadores anarquistas que no século XIX quis civilizar o trabalho operário. Alguns morreram na forca, inocentes.

Cresci num meio de oficinas, serrações, portos e caminhos de ferro. Gente com orgulho no labor físico, no suor do rosto, na perfeição do seu trabalho. Todos confessavam um desejo: não quero que o meu filho vergue a mola como eu! Queriam os filhos em profissões a milhas da ferrugem. Não os queriam a sujar as mãos e o rosto de terra, óleo, tinta e pó das obras. Lutaram por um mundo melhor: uma educação que livrasse os filhos da maldição do violento trabalho manual.

Nunca trabalharam

Lenine

Tem dias. Dias em que me apetece correr os estereótipos a pontapé. Outros dias em que beijaria o primeiro estereótipo que me saísse debaixo da pedra a que tivesse dado um pontapé. Dou um exemplo, esse lugar-comum, essa frase batida, «les beaux esprits se rencontrent», que tem uma variante portuguesa plebeia, a saber, «os extremos tocam-se». Topo com esse estereótipo e estava capaz de lhe morder a orelha com um apetite de Mike Tyson ou de o pôr KO ao primeiro gancho de esquerda, fosse eu Muhammad Ali.

Mas foi uma raiva que logo engoli quando me pus a pensar que Adolf Hitler e Vladimir Ilitch Ulianov, mais conhecido por Lenine, nunca trabalharam. Hitler viveu de pensões que lhe permitiram viver em Viena de Áustria a roçar o cu pelas paredes e Lenine às custas da mãe que o financiava, permitindo-lhe a sua carreira de revolucionário profissional. Nunca trabalharam. Une-os o elo, o festivo laço do estereótipo.

HITLER/JAEGER FILE