Uma bela ferida

mimesis
autor: carlos machado

De vez em quando, bap­ti­za­dos, casa­men­tos e funerais, o pas­sado vem ter connosco. “Então, há quanto tempo! Tens andado desa­pare­cido!”, diz-nos alguém por cima do ombro. E logo nós “estás na mesma”. E sendo mentira, é verdade, porque já não estando na mesma, o passado que nos bate nas costas pensa “as mes­mas coisas” que sem­pre pen­sou e evoca os mes­mos son­hos que “jun­tos, lembras-te, par­til­há­mos”.

Ou, como diria um emped­ernido psico-sociólogo, as rup­turas que tecem as nos­sas existên­cias reenviam-nos a uma rup­tura essen­cial, con­sti­tu­tiva.

Reen­con­tro ou rup­tura e, esqueçam lá o psico-sociólogo, já sou eu a falar outra vez, a coisa abre-nos no peito uma bela ferida. Dói muito ver, de olhos nos olhos, o pas­sado que out­ros nos trazem. Entendamo-nos (tento, pelo menos, eu entender-me comigo), não se trata de sobrance­ria, de olhar os out­ros como alguém que já não quer­e­mos ouvir ou que não quer­e­mos, por pre­caução, que nos ouçam. O drama é que vemos nos out­ros, indes­men­tível, a preto e branco, um retrato nosso, implacável, que não podemos des­men­tir e não quer­e­mos recon­hecer. O prob­lema não “são eles”: o problema é espelhar-se nesse “eles” o “nós” que fomos. O que é insu­portável é o dire­ito ao esquec­i­mento que a sua pre­sença nos recusa.

A baba da austeridade

labirinto
o labriritno da democracia?

Bica Curta servida no CM, 4.ª feira, dia 19 de Junho

Repetirei a cada bica curta: precisamos da direita e da esquerda. E não falo de boxe, falo da política. A democracia é um labirinto. Como a vida. A utopia sim, apregoa e vende o paraíso definitivo em que se vive feliz para sempre. O terrível preço que a humanidade já pagou por paraísos jamais cumpridos!

Desconfiemos das soluções mágicas que erradicam a insegurança, o desemprego, a dívida ou o déficit. São falsas: nenhum guindaste nos põe à porta um mundo melhor. Basta olhar para Portugal: de Vítor Gaspar a Centeno segue, lento como um caracol, o trabalho de limpeza da baba da austeridade. Dá trabalho: à esquerda ou à direita.

Confraria do vermute, do conhaque e do traçado

falcoes-da-noite

Imaginemos que alguém se lembrava de dar música à pin­tura de Hop­per. E imaginemos que alguém se lembrava de criar uma banda sonora para Edward Hop­per armando a estra­nha com­bi­na­ção de Frank Sina­tra e Nel­son Gon­çal­ves. Que a mim me parece até bem lógica. Olhem lá para cima para Hopper e ouçam aqui em baixo Sinatra.

Dir-me-ão – já me disseram – Sina­tra sim, mas porquê Nel­son Gon­çal­ves?

Só sei que esse bra­si­leiro, filhos de pobres pais por­tu­gue­ses, homem de cin­quenta modes­tís­si­mos ofí­cios e de cem rotun­dos falhan­ços, tem uma voz antiga, trá­gica, operática. Voz hiper­bó­lica onde a de Sina­tra é de uma angus­ti­ada harmonia.

Não quero saber, e quando o nosso santo corpo e os nossos pacientes ouvidos não querem saber é por­que têm razão! E jura­ria que ambos, Sinatra e Gonçalves fazem parte “dessa estra­nha con­fra­ria do ver­mute, do conha­que e do tra­çado”. É natu­ral que tenham bebido jun­tos no soli­tá­rio bar de Hopper.

Eyes wide shut

avião

 

Contaram-me este conto e já se sabe que quem conta um conto…

Estou há cinco minutos de olhos fechados. Numa boca do fogão ferve a água de uma panela com batatas e uma couve. A couve lombarda demora mais a cozer e já estava ao lume dez minutos antes de ter juntado as batatas.

A casa está calada e a rua num silêncio que os vidros duplos das janelas reforçam. Mas passam aqui por cima muitos aviões e, claro, cada um que passa estilhaça a calma das sete horas da tarde. Passa agora outro e lembro-me que a couve lombarda é de cultura biológica. Digo isto, não porque seja importante ou tenha alguma relação com o avião, mas apenas para sublinhar, agora que o estrondo do avião que passa apaga a esperança de outros sons, que tenho uma panela com água a ferver ao lume. Aliás, as batatas são também de cultura biológica. Hei-de grelhar, depois, uma posta aberta de garoupa. Quando se está de olhos fechados, pensa-se em tudo e é com uma irritação fútil e descabelada que o preço do quilo da garoupa insiste em impor-se-me. O quilo da garoupa à posta está a 48€, embora seja provável que no mercado de Benfica se consiga a melhor preço.

Quando fechamos os olhos, os pensamentos ficam muito claros e distintos, embora se lhes desorganize a hierarquia. Tão depressa estamos a pensar na existência de Deus, como no gato que apareceu, intempestivo, nas escadas das traseiras durante uma semana. Primeiro não lhe liguei, mas era um gato muito jovem e deve ter caído de um dos ramos altos. Os muros, tão inóspitos, não o deixaram voltar a casa e, em poucos dias, já estava magro e trazia nos olhos uma abatida sonolência. Comecei a dar-lhe de comer. Comprei um saco de comida seca e outro com um miminho de comida húmida.

Estava a dizer que, de olhos fechados, se pensa muito na existência de Deus. Mas só por absurdo é que se consegue ir muito além da sensata conclusão de que ou Ele existe ou não existe. A tendência, sempre que, como agora passa um avião é pensar que Ele existe. Por outro lado, se há coisa de que não tenho dúvidas é da alergia que tenho a pêlo de gatos e cães. Tive de mandar vir uma organização amiga dos animais recolher o pobre do gato. Apanharam-no no terraço. Sei que há, no terraço, uma fenda que nunca se conseguiu encontrar e por onde se infiltra a água que, nos dias de muita chuva, cai, pingo a pingo, na casa de banho de serviço. Não há nada pior do que um barulho rítmico. É um som que não suporto.

Não ouço só a água em ebulição. Deixei lá dentro, na sala, o telemóvel a carregar. O nítido plim do Messenger avisa-me de que alguém me mandou um recado. Não me mexo, concentro-me e sei que deitei, ponho sempre, um fio de azeite na água em que cozo a couve e as batatas. E ainda me chega um invasivo e agreste segundo plim do Messenger antes de outro avião passar a descer para o aeroporto. Penso que se me concentrasse nos aviões como me concentro na panela de batatas, conseguiria distinguir o som de um Airbus ou de um Boeing, talvez até as subtis diferenças que há, por certo, entre os aparelhos da KLM, os da TAP e os da British Airways.

Se abrisse a janela ouviria os pássaros a chilrear nas árvores das traseiras. Há ali um grande jardim de um palacete e, no começo da manhã e ao fim da tarde, as árvores enchem-se de vida. São sete da tarde e os impecáveis e impiedosos vidros duplos separam-me tanto de Deus como da música dos pássaros. Mas dei conta que arrancou agora o frigorífico. É um Smeg, quase que lhe ouço a cor vermelha. Tem um sistema de frio: estático no congelador, ventilado para o refrigerador. Em boa verdade o que me interessa é que tem quatro prateleiras e 1,51 m de altura. É quase música o som suave do seu ciclo de trabalho.

Não é que eu não goste de música e peço que não me levem a mal, mas quando fecho os olhos desligo tudo, música, rádio e  televisão. De olhos fechados, prefiro ouvir a madeira de um móvel que estala, os sapatos no andar de cima, um grito na rua. No escritório em que trabalho são as sirenes das ambulâncias e as da polícia. Um colega mais viajado diz que é a nossa little New York, mas talvez seja só ele a fazer-se interessante. Em todo o caso, é raro eu fechar lá os olhos. Há coisas que não são para ali chamadas.

Dizia eu que gosto dessa música aleatória que a casa toca quando fecho os olhos. O fogão e o telemóvel, os aviões e os pássaros, uma árvore que range, uma descarga de autoclismo se encostar os ouvidos à parede. E, quando o silêncio é denso como uma fatia de pão barrada a manteiga de amendoim, chego a ouvir a música do meu corpo, uma pequenina floresta de sons agudos dentro da cabeça, o solo de bateria do coração, os borborigmos entre o estômago e o intestino, culpa do glúten que não consigo evitar.

As batatas já devem estar cozidas. Tenho de ir espetar-lhes um garfo. E tirar do frigorífico a posta de garoupa. Hei-de deitar um fio de azeite no grelhador, flor de sal qb na carne rosada da garoupa. A alegria breve de um copo de vinho branco. E não vou comer pão. Abro os olhos, foge o silêncio, regressa o tempo e acorda a casa. Virão mais tarde os aviões da noite.

O dedo mindinho

negzzia

Bica Curta servida no CM, 3.ª feira, dia 18 de Junho

A iraniana Negzzia, de 29 anos, descobriu a liberdade de fotografar nua. Gostou. Mas essa é uma liberdade que o Irão pune com chicotadas em público. A iraniana Negzzia descobriu a liberdade do amor, mas a mãe deixou de lhe dirigir a palavra ao saber que ela já não era virgem. Negzzia teve de fugir. Ouvira o “Ne Me Quitte Pas, e escolheu Paris. Preferiu dormir na rua, fome e nem a bica curta, a ceder a chantagens sexuais. Às vezes, o lado do bem triunfa e Negzzia é agora modelo, com residência em França.

Negzzia, no seu dedo mindinho, escreveu: Deus. O dedo mindinho do poder islâmico, cego de raiva, não vê, não ouve, nem lê.

A alegria é a repetição

Ah, vou confessar-vos que o meu melhor sonho era ir aqui com os meus melhores amigos e can­tar, asso­biar, bater pal­mas com esta gente que está ali em êxtase no vídeo, enfim, soprar­mos nas mes­mas cornetas.

Espanta-me o ter­rí­vel erro em que tanta gente teima. Como é que não per­ce­be­ram que a ale­gria, a maior ale­gria, é fazer sem­pre a mesma coisa? Pode haver alguma coisa melhor do que can­tar sem­pre a mesma can­ção? Já viram o sereno aroma que se evola (ó meu Deus, eu disse mesmo evola?) dos mesmo ver­sos repe­ti­dos anos a fio, sem a angús­tia de pala­vras novas de que pode­mos não nos recordar?

Do que gosto é de saber que que­re­mos todos can­tar as mes­mas can­ções, seguir o mesmo ritual de asso­bios, aplau­sos nos pon­tos cer­tos, nos pon­tos que todos sabem, num coro que afina e desa­fina por unanimidade.

Este é um dos inenarráveis prazeres do Verão lon­drino, a Última Noite, Last Night of the Proms. Sabe bem entrar nessa mul­ti­dão unís­sona, can­tar debaixo da brisa de uma única ban­deira, que são mil bandeiras. A ale­gria é can­tar mil vezes o “Rule Bri­ta­nnia”; a ale­gria é a ausên­cia de surpresas.

Judite e Holofernes

JUdith

É já dia 27 que vai a leilão esta bíblica Judite, a cortar o pescoço ao general assírio Holofernes. Viúva, a judia Judite, para salvar a sua cidade, Betúlia, cercada pelos assírios, seduz o general inimigo, embebeda-o e, com um golpe de espada, decapita-o. Regressa, depois, a Betúlia com a cabeça, que os judeus exibem às tropas adversárias, vencendo-as.

O quadro, descoberto há poucos anos, tem sido objecto de controvérsia. No dia 27, será leiloado como um Caravaggio genuíno. A base do leilão é de 30 milhões de euros, mas espera-se que ele acabe comprado por 100 a 120 milhões.

Caravaggio pintara, alguns anos antes, julga-se uma tela com esse mesmo tema, a viúva Judite de branco e ao centro. Na pintura a leilão, Judite está à direita e veste-se de negro.

Quero avisar já os leiloeiros, em Toulouse, que não licitarei. O valor está ligeiramente acima das minhas possibilidades, como largamente acima das minhas possibilidades está dizer se este “Judite e Holofernes” é ou não autoria do mais apaixonantes dos pintores ou se é de um discípulo franco-flamengo, Louis Finson. A olhar para o negro de uma e de outra das duas belíssima telas, gostaria de acreditar que a mão de Caravaggio, pincel como uma espada, pintou as duas.

udit_y_Holofernes,_por_Caravaggio