Uma bela ferida

mimesis
autor: carlos machado

De vez em quando, bap­ti­za­dos, casa­men­tos e funerais, o pas­sado vem ter connosco. “Então, há quanto tempo! Tens andado desa­pare­cido!”, diz-nos alguém por cima do ombro. E logo nós “estás na mesma”. E sendo mentira, é verdade, porque já não estando na mesma, o passado que nos bate nas costas pensa “as mes­mas coisas” que sem­pre pen­sou e evoca os mes­mos son­hos que “jun­tos, lembras-te, par­til­há­mos”.

Ou, como diria um emped­ernido psico-sociólogo, as rup­turas que tecem as nos­sas existên­cias reenviam-nos a uma rup­tura essen­cial, con­sti­tu­tiva.

Reen­con­tro ou rup­tura e, esqueçam lá o psico-sociólogo, já sou eu a falar outra vez, a coisa abre-nos no peito uma bela ferida. Dói muito ver, de olhos nos olhos, o pas­sado que out­ros nos trazem. Entendamo-nos (tento, pelo menos, eu entender-me comigo), não se trata de sobrance­ria, de olhar os out­ros como alguém que já não quer­e­mos ouvir ou que não quer­e­mos, por pre­caução, que nos ouçam. O drama é que vemos nos out­ros, indes­men­tível, a preto e branco, um retrato nosso, implacável, que não podemos des­men­tir e não quer­e­mos recon­hecer. O prob­lema não “são eles”: o problema é espelhar-se nesse “eles” o “nós” que fomos. O que é insu­portável é o dire­ito ao esquec­i­mento que a sua pre­sença nos recusa.

A mudança, os despojos

gabinete

Chegou-me ontem esta foto. É a de um gabinete em mudanças. Foi o meu gabinete nos mais de quatro anos de director de programas da SIC, de 2001 a 2005. Teve outros inquilinos, alguns amigos meus. Mas fui eu que o concebi e mandei fazer o armário ao fundo e a estante que se adivinha à esquerda, ao fundo.

Morei aqui mais de quatro anos. Já morava, antes, nessa SIC de Carnaxide, Estrada da Outurela, há mais de nove anos: alguns meses a dirigir a programação estrangeira, convidado por Maria Elisa, logo a seguir, por proposta de Emídio Rangel, 9 anos como director-adjunto de programas. Ao todo, morei aqui 13 anos e meio, e se eu gosto do número 13.

Foi uma das boas e felizes experiências da minha vida. De nada me arrependo, algumas coisas, por certo, poderia ter feito melhor, de três ou quatro, orgulho-me. Agora, a SIC mudou-se para Paço de Arcos, para um edifício mais nobre do que esta singela construção que transformou um armazém de bananas no que foi a estação de televisão mais inovadora e criativa de Portugal (eis o que penso e já sorrio de assim pensar). Olho para estes despojos, para esta mesa e prosaicas cadeiras, que já não foram as minhas, para os imprestáveis papéis, caixotes, para as lâminas quebradas da persiana da direita, e adivinho a futura solidão, silêncio, ausência de tempo e vida.

Onde estará a mesa redonda, de madeira castanha, à volta da qual se sonhou e riu, ouvi protestos e ofereci o ombro a choros de baba e ranho? Onde andará, em que recanto cósmico, tanta ambição, tanta apreensão, tanta energia, tantas unhas roídas de expectativa por profissionais experientes, por jovens mais arrebatados do que o Gene Kelly do Singin’ n the Rain, por actrizes e apresentadoras que desembarcavam na Outurela com inocências de Shirley Temple? Onde andará a minha tão heterodoxa equipa da Direcção de Programas? Onde andarão a Carmo, a Ana, a Isabel e a Luísa, o meu quarteto quotidiano, tão protector e afectivo?

Olho para esta foto e sei que fica, agora, ali, a casa abandonada, a insonora porta fechada. Tão triste a casa que se deixa. E agora sei, por que traduzi, um dia, este poema que Philip Larkin:

Tão Triste a Casa

Tão triste a casa. Fica como a deixaram,
Moldada pelo conforto dos últimos a partir,
Como se quisesse convencê-los a voltar.
Na ausência de alguém para satisfazer, murcha,
Coração incapaz de esquecer o abandono

E voltar outra vez ao que era antes,
Há muito perdida a visão alegre do que as coisas
Deveriam ser. Ainda se pode ver como era:
Basta olhar os quadros e os talheres.
No banco do piano, as músicas. Aquele vaso.

 

As feridas da memória não se curam a betadine

black

De vez em quando, bap­ti­za­dos, casa­men­tos e funerais, o pas­sado vem ter connosco. “Então, há quanto tempo! Tens andado desa­pare­cido!”, diz-nos alguém que “está na mesma”, que na mesma pensa “as mes­mas coisas” que sem­pre pen­sou e evoca os mes­mos son­hos que “jun­tos, lembras-te, par­til­há­mos”.

Ou, como diria um emped­ernido psico-sociólogo, as rup­turas que tecem as nos­sas existên­cias reenviam-nos a uma rup­tura essen­cial, con­sti­tu­tiva. O que, se mal percebo, quer dizer que a ruptura é que nos funda e que sem mudança estaríamos mortos.

Mas é do amigo que já mal nos lembrávamos e “ai, mas como é que este gajo se chama?” que estávamos a falar. Reen­con­tro ou rup­tura, a coisa abre-nos no peito, e isto sou eu a falar outra vez, uma bela ferida. Dói muito ver, de olhos nos olhos, o pas­sado que out­ros nos trazem. Entendamo-nos (tento, pelo menos, eu entender-me comigo), não se trata de sobrance­ria, de olhar os out­ros como alguém que já não quer­e­mos ouvir ou que não quer­e­mos, por pre­caução, que nos ouçam. O drama é que vemos nos out­ros, indes­men­tível, a preto e branco, um retrato nosso, implacável, que não podemos des­men­tir e não quer­e­mos recon­hecer. O prob­lema não “são eles: o que é insu­portável é o dire­ito ao esquec­i­mento que a sua pre­sença nos recusa. Já fomos e agora já não queremos ser aquilo que os olhos dos outros vêem em nós.

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