Uma bela ferida

mimesis
autor: carlos machado

De vez em quando, bap­ti­za­dos, casa­men­tos e funerais, o pas­sado vem ter connosco. “Então, há quanto tempo! Tens andado desa­pare­cido!”, diz-nos alguém por cima do ombro. E logo nós “estás na mesma”. E sendo mentira, é verdade, porque já não estando na mesma, o passado que nos bate nas costas pensa “as mes­mas coisas” que sem­pre pen­sou e evoca os mes­mos son­hos que “jun­tos, lembras-te, par­til­há­mos”.

Ou, como diria um emped­ernido psico-sociólogo, as rup­turas que tecem as nos­sas existên­cias reenviam-nos a uma rup­tura essen­cial, con­sti­tu­tiva.

Reen­con­tro ou rup­tura e, esqueçam lá o psico-sociólogo, já sou eu a falar outra vez, a coisa abre-nos no peito uma bela ferida. Dói muito ver, de olhos nos olhos, o pas­sado que out­ros nos trazem. Entendamo-nos (tento, pelo menos, eu entender-me comigo), não se trata de sobrance­ria, de olhar os out­ros como alguém que já não quer­e­mos ouvir ou que não quer­e­mos, por pre­caução, que nos ouçam. O drama é que vemos nos out­ros, indes­men­tível, a preto e branco, um retrato nosso, implacável, que não podemos des­men­tir e não quer­e­mos recon­hecer. O prob­lema não “são eles”: o problema é espelhar-se nesse “eles” o “nós” que fomos. O que é insu­portável é o dire­ito ao esquec­i­mento que a sua pre­sença nos recusa.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.