Sopra-se no fumo da noite

billie

Devem ser as tan­tas da manhã. Esta mulher de cabelo apa­nhado, rosto limpo, sopra pala­vras com uma vibra­ção suave, dolente, alguns ris­cos de rou­qui­dão. E há homens escon­di­dos na noite: sopram à volta dela, perto e longe dela.

Balou­çam, ligei­ros, os brin­cos nos lóbu­los da mulher que sopra. Na boca dela desenha-se, fine and mel­low, a doçura noc­turna, per­dida, de um sor­riso. A mara­vi­lhosa iro­nia do seu olhar.

São estas as palavras que a boca de Billie Holliday sopra. Escreveu-as ela também.

My man don’t love me
Treats me oh so mean
My man he don’t love me
Treats me awfully
He’s the lowest man
That I’ve ever see
He wears high trimmed pants
Stripes are really yellow
He wears high trimmed pants
Stripes are really yellow
But when he starts in to love me
He’s so fine and mellow
Love will make you drink and gamble
Make you stay out all night long
Love will make you drink and gamble
Make you stay out all night long
Love will make you do things
That you know is wrong
But if you treat me right baby
I’ll stay home everyday
If you treat me right baby
I’ll stay home everyday
But you’re so mean to me baby
I know you’re gonna drive me away
Love is just like the faucet
It turns off and on
Love is like the faucet
It turns off and on
Sometimes when you think it’s on baby
It has turned off and gone

 

Não é separação, é solidão

E_Hopper

Bem sei que é de Cole Por­ter. Bas­ta­ria para que fosse His­tó­ria. E há can­ções de que gos­ta­mos por terem sido História. Tê-la can­tado Ella Fitz­ge­rald só a faz ainda mais His­tó­ria.

Perdoem-me se penso e me atrevo a dizer que K. D. Lang arran­cou “So in Love” da His­tó­ria e fez con­tem­po­râ­nea a pai­xão que Por­ter lou­vou em 1948. Pouco inte­ressa que o céu se encha de estre­las: é negrís­sima noite o que sai da voz de Lang. Quem aqui ama, ama com abso­luta cons­ci­ên­cia de amar sozi­nho. Não é uma sepa­ra­ção que se chora, é lúcida memó­ria num oce­ano de soli­dão o que sai da boca desta mulher .

As ancas de John Wayne

john-wayne

Era mais fácil falar das pernas de Angie Dickinson, mas vou obrigar-me a só olhar para o cinturão, coldre e colt de John Wayne. Sei do que falo, xerife foi a primeira coisa que fui na vida, revólver à cintura, uma longa cana de mamoeiro a fazer de Winchester. Também fui índio e bandido, mas xerife era a minha devoção, meio John Wayne, meio Buck Jones, insofismável semi atestado da minha caretice infantil.

O cinturão de Wayne, de que não tiro os olhos, atravessa em lento bamboleio o “Rio Bravo”, que Howard Hawks filmou, em 1959, a fechar a década em que um vivíssimo amarelo, mais amarelo do que o “Cristo Amarelo”, de Gauguin, se derramava nos melhores westerns. Amarelíssima era a camisa de Joan Crawford em “Johnny Guitar” e do mesmo glorioso amarelo era a blusa de Feathers, personagem de Angie Dickinson que, em “Rio Bravo”, mostra os negros collants a Wayne.

Mas não é dos collants e das pernas louva-as Deus de Angie Dickinson que venho falar. Se tenho palavras é para o cinturão, coldre e colt que cingem as vastas ancas de Wayne. Foi por causa desse xerife e do sólido andar dele que Hawks fez o filme.

“Rio Bravo” foi a arma de que Hawks puxou para abater Fred Zinnemann, autor do célebre “High Noon”. Medíocre, como quase todos os filmes célebres, pensou Hawks. “High Noon” tinha um xerife, Gary Cooper. Prendera um poderoso facínora e um regimento de fora-da-lei vinha atacar o acossado xerife e resgatar o seu führer ou secretário-geral. Gary Cooper ia, de porta em porta, tentando montar a sua geringonça. Todos lhe viravam as costas, até a branca e radiosa noiva, Grace Kelly.

Ouçam a zanga épica de Hawks: “Um bom xerife não vai pela cidade, como galinha tonta a pedir ajuda a toda a gente para ser salvo no fim pela noiva quaker.” Os heróis de Hawks são profissionais e estão sentados nas suas angústias: Wayne na solidão, Dean Martin na bebida, Walter Brennan na perna coxa, os 18 anos de Ricky Martin num “que-se-lixismo” inocente. Buscam a redenção individual, encontram-na no grupo, salvando a cidade cercada, num filme quase sem grandes planos.

Para xerifes diferentes, filmes diferentes: os planos de “High Noon” estão cheios de significado, os de “Rio Bravo” estão cheios de alegria; os enquadramentos de Zinnemann são a régua e esquadro, os de Hawks são uma festa de cor.

Angie-

Ah, no Lloyds of London, um milhão de dólares segurava as pernas de Angie Dickinson.

 

Palmar 20 milhões ao banco

collage-mesrine

Foi antes de se inventar o assalto ao banco. Era disso que, nos anos 60 e 70, se queixava a polícia francesa: Jacques Mesrine assaltava bancos antes de se inventar o assalto ao banco. Corrijo e digo à verdade, o que ainda não se inventara fora o asséptico assalto ao banco. Nem nos sonhos dos mais pervertidos havia um húmido Lehman Brothers, um BPN de perna aberta, um nuínho BES.

Jacques Mesrine era um facínora, o que anda ali troca-troca com o herói e a lenda. Teve berço mais fofinho do que o meu, pais donos de fábrica de rendinhas de luxo, que hoje aflorariam com gosto a virilha dos anjos, mesmo os da Victoria’s Secret, tivessem os anjos virilha. Os pais queriam-no nos Altos Estudos Comerciais de Paris, mas Mesrine preferiu fazer a sua discência nos altos estudos do único bairro sublingual de Paris, o Pigalle.

Quantos bancos assaltou Mesrine? De quantos tiros e mortes se fez a cauda em fogo do cometa que ele foi na galáxia do crime em França? E já voltei a mentir, sem precisar. Afinal, uma crónica não é nenhuma audição de comissão parlamentar e aqui pode-se, sem perigo, louvar e dar graxa à verdade: Mesrine mundializou o crime, levando-o da hexagonal França à Suíça, ao Québec, aos Estados Unidos, à Venezuela, de férias a Palma de Maiorca.

Eça cantou a singularidade de uma rapariga loura. Eis a singularidade deste assaltante de bancos: a recidiva. Mesmo os portugueses que não lêem estas crónicas conhecem o termo das bulas dos eufóricos anti-depressivos que lhes animam os dias. A recidiva de Mesrine é especial: não se limitava ao facto dele repetir assalto sobre assalto. Mesrine voltava ao mesmo banco e assaltava-o, de novo, no dia seguinte. Talvez tivesse, como eu do peixinho, a obsessão do dinheiro fresco. Uma variante: também assaltava dois bancos de seguida, numa óbvia economia de escala, prova de que Pigalle ensina tão bem gestão, como os Altos Estudos Paris.

Mas eis o mais singular sinal particular deste bandido, que nunca foi rapariga loura, mas foi homem de mil caras, vinte perucas, bigodes, óculos de intelectual ou de boçal, tudo disfarces que ele usou para iludir o faro da polícia, deixando-a a latir. A segunda singularidade de Mesrine era a fuga. Fugiu de prisões descuidadas e de prisões de alta-segurança. Fugiu mesmo em pleno julgamento, apontando uma pistola ao juiz, fazendo-o refém.

A par do gosto que tinha por singulares raparigas louras com um passado, dignificando sem preconceito a experiência do alterne, Jacques viveu com gáudio e arte a relação com os media. Fê-los felizes, mantendo relação orgástica, em particular com o excelso e gauchista “Libération”, e servindo-se deles para atacar as hediondas condições das prisões ou anunciar uma filosofia que faria escola: “Eu não assalto velhinhos na rua. Se palmo 20 milhões a um banco, qual é o drama?”

O comissário Broussard foi o seu fiel perseguidor e um dia cercou-o em casa. Mesrine ficou sem escapatória. Parlamentaram. Quando abriu a porta à polícia Jacques estava de charuto na boca, uma taça de champagne na mão, que ofereceu ao comissário: “Broussard, prendes-me, mas com estilo!”

Voltaria a fugir. A polícia monta-lhe então uma emboscada, porta de Clignancourt, em Paris, enfiando-lhe um camião à frente do carro e fuzilando-o com 18 tiros, antes de, diz-se, fazer qualquer aviso. A mulher que ia com ele sete balas no corpo, uma num olho, sobreviveu. Quem não escapou foi o caniche que ela levava ao colo. Estava morto e pronto a enterrar o mais amado inimigo número um da França no século XX.

Publicado na minha coluna Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo, no Jornal de Negócios

O espelho

Os espelhos enganam, desarmam, são abomináveis, segundo Jorge Luis Borges: por causa da sua obsessiva tendência para a multiplicação. No vídeo, há um miúdo que descobre, lúdico e risonho e sem metafísica, o reflexo destes versos de Borges.

Dios ha creado las noches que se arman
de sueños y las formas del espejo
para que el hombre sienta que es reflejo
y vanidad. Por eso nos alarman.

Deus criou as noites que se armam
de sonhos e as formas do espelho
para que o homem sinta que é reflexo
e vaidade. Por isso nos alarmam.

As vaias

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Caricatura do Skandalkonzert de 1913

Em 1913, o espectador selecto vaiava. Duas dessas vaias ganharam as asas da lenda e do mito. Vamos à primeira.

31 de Março de 1913, há pouco mais de 106 anos, na pacata Viena de Áustria, no Wiener Musikverein, cuja sala principal tem uma assombrosa acústica, Arnold Schoenberg dirigiu um concerto memorável. O programa começou com uma peça de Anton Webern. Seguiram-se outras peças, uma do próprio Schoenberg, até a orquestra atacar duas canções de Alban Berg sobre poemas de Peter Altenberg, que acabara de ser internado num asilo. O supremo vanguardismo da escolha, culminando com Berg, provocou uma realíssima sublevação na sala. Opositores e defensores de Schoenberg envolveram-se em cenas de pancadaria e destruição da sala. Levado a tribunal, o organizador do concerto,  Erhard Buschbeck, foi acusado de agressão a murro. Testemunhou por ele, Oscar Straus, que o defendeu declarando que o soco de que Buschbeck era acusado fora o mais harmonioso som do concerto. Ficou para a História como o Skandalkonzert.

Dois  meses depois, em Paris, a estreia da Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky, provocou um motim, com facções do público a atirarem tudo o que tinham à mão aos outros.

Lembrei-me destas vaias – que ecoam nas nossas cabeças como se lá tivéssemos estado – porque já nas nossas vidas de carne e osso as voltámos a ouvir. Foi no Carnegie Hall, a 18 de Janeiro de 1973. Era uma quinta-feira e o concerto começou às 8 da noite. O maestro Michael Tilson Thomas convidara o vanguardista Steve Reich a compor uma peça para um dos seus concertos. Reich, compositor contemporâneo minimalista (isto para andarmos depressa e não muito mal), ofereceu-lhe uma peça, Four Organs, que começa com maracas e é, depois, levada aos céus, num crescendo, por quatro orgãos amplificados. Rock ‘n roll dirão os leitores desta Página Negra. A selectíssima assistência do Carnegie Hall, que era tudo menos rock ‘n roll, estava estupefacta. Tossiram primeiro, Um uuuhh e dois búus depois, um berreiro desgraçado a seguir; uma senhora de arminho caminhou até ao palco, tirou um sapato e começou a bater com o salto na madeira; de um dos primeiros lugares mais caros, alguém gritou em desespero: “Está bem, eu confesso”. Os músicos, tão persistentes como as maracas, mal se ouviam, mas levaram aquele Four Organs até ao fim. Quando acabou, a um segundo de silêncio sucedeu-se um tumulto de enleados bravos e bús. Steve Reich, branco como a cal, saiu do palco sem se dar conta de que tinha conquistado a eternidade.

Just for the record, embora isso não interesse nada, acho estes 15 minutos fabulosos. Lindo: as variações são delicadíssimas, subtis surpresas numa só aparente planície de repetição.

Mais África

Mara-X-Phone-Android

Bica Curta servida no CM, 5.ª feira, dia 13 de Junho

Chama-se Mara e é o primeiro telemóvel criado em África. Desenvolvido no Ruanda, vai ser produzido ali e na África do Sul. Écrã Gorilla Glass, som Dolby, processador de 8 núcleos, custa 140€. Eis o que África precisa. De iniciativa, indústria, cooperação entre nações. O empreendedor é Ashish Thakkar, indiano nascido em Londres, infância e adolescência vividas no Ruanda, como eu em Luanda. Primeiro o tirano Idi Amin, depois o genocídio expulsaram-no, mas Ashish voltou. África é a sua bica curta.

Ouço muito paleio de ressentida negritude e autenticidade identitária. Ora, a África precisa de menos queixa e muito mais empresas.

O pai de John Kennedy

Gloria & Kennedy
Gloria Swanson & Joseph Kennedy

As mãos de um católico

Sei lá se Joseph P. Kennedy gostava de cinema. Sei que nos filmes em que nós vemos sonho, ele viu ouro. Estou a falar do Kennedy pai dos Kennedys e o cinema, 1927, é o mudo dos estúdios de Hollywood dirigidos por judeus, que vendiam roupa em feiras do Relógio, da Rússia à Hungria, antes de desembarcarem na abençoada América.

A Kennedy, católico, já com sete pequeninos Kennedys, entrou-lhe no olho direito o reflexo dourado de Hollywood. Viu salas arrebatadas por drama e aventura, salas de joelhos no chão a venerar a luz e sombra de heróis e divas espelhados numa tela e percebeu: é o negócio do século! Não podia era ser percebido por tipos cuja experiência de gestão fora a de passar a ferro cem pares de calças num dia.

Kennedy vinha da Wall Street e fez entrada de leão. Convidou os dez maiores passadores de calças de Hollywood a virem falar a Harvard e fez, com os dez discursos, um livro com capa de ouro, que lhes ofereceu a seguir. Tinha-os na mão. Em quatro anos, Kennedy, o papá, inventou a verticalização dos estúdios, inundando-os de capital e assegurando o controlo da produção, distribuição e exibição.

Agora vejamos, aquele era o tempo de Gloria Swanson. Valia mais do que uma off-shore. Oito batedores de moto precediam o esplêndido carro que a levava, crianças nos passeios acenavam-lhe com bandeirinhas e flores, na sua mansão as casas de banho eram de mármore negro, as banheiras de ouro. Casara, em Paris, com o Marquis de la Falaise de la Coudraye.

“Não!”, foi o que ela disse ao contrato de um milhão de dólares com a Paramount. E metera-se a produtora dos seus filmes. Andava, agora, aos papéis. Foi ter com Kennedy, claro. Viram-se. Ele viu a mulher pequenina, um metro e cinquenta de estrelato, um anélito afrodisíaco de estremecer. Ela viu as belíssimas mãos louras dele, gestos a desenhar arabescos e dedos abertos a sublinharem um riso franco. Dali a nada, o tempo de meter o marquês francês num iate para um inteiro dia de pesca (e é, por isso, que as relações da França com a América são o que são), e as mãos dele já se escondiam nela, a boca na boca dela. Nas memórias, Swanson escreveu: “Era um cavalo selvagem a querer livrar-se das cordas, enérgico, a correr louco para ser livre.” E lembra-se do impetuoso clímax.

As contas? Vamos pedir a Joseph P. Kennedy para ver a contabilidade e passemos ao próximo episódio.

Roçar-se pelo delírio

Aí estão eles, embrulhados na mesma cama: Kennedy, o pai de todos os Kennedys, e Gloria Swanson, a maior diva dos anos 20. Kennedy despachou o marido da Swanson para um dia de pesca no alto mar e mandou Rosa, sua mulher, ter o oitavo filho em Boston, longe de Hollywood. Livres, foi uma cama diária de três anos e não lhes chegava: levaram os lençóis para o cinema.

Kennedy era já o estratega financeiro de três grandes estúdios. Ficou também à frente da produtora de Gloria. Subiu-lhe, do baixo-ventre à cabeça, a vocação de produtor. Chamou o mais heterodoxo génio de Hollywood, Eric von Stroheim, e pediu-lhe uma obra-prima para o metro e cinquenta de mulher que o fazia roçar-se pelo delírio. O que Stroheim lhes contou aterraria o mais pintado.

Vejamos, Gloria Swanson seria, no filme, uma lindíssima noviça. Mas o noivo de uma rainha iníqua e louca poria nela a cobiça dos seus olhos lúbricos. Apontar-lhe-ia para os tornozelos a dizer que lhe caíra aos pés a mais íntima peça de lingerie. Ela, humilhada e em fúria, tiraria a cobiçada peça e, escandalizando as freiras, atirava-lha à cara. O príncipe cheiraria com vagar os folhos do troféu e raptaria a dona, imiscuindo-se-lhe na desprotegida inocência. Não quereria já casar com a rainha. A funestíssima soberana descobriria, chicoteando a já pouco noviça e expulsando-a do reino. A fugitiva de Cristo desaguaria em África, a dirigir com tal estúrdia um bordel, que lhe chamariam Queen Kelly.

A esta edificante história do próprio Stroheim, chamou ele “The Swamp”, pântano, se for mal traduzido, ou lamaçal, se quisermos ser autênticos. Kennedy e Swanson chamaram-lhe pêra doce. E meteram-lhe, primeiro um, depois todos os dentes. Foi a mais mítica de todas as catástrofes da história do cinema. Um vingativo acto de Deus.

Nas filmagens, Kennedy submergiu Swanson em generosidade e galantaria. Construiu-lhe um chalé, deu-lhe casacos de arminho. O mundo deles tinha a leveza de umas farófias do meu querido e falecido senhor Armindo. Mas o filme, “Queen Kelly”, foi um desastre sublime. E Kennedy voltou a financeiro, pondo-se ao fresco da pele de produtor. Swanson, sozinha, foi ver as contas. Devia um milhão de dólares, num rol que incluía o generoso chalé e os galantes casacos de arminho.

Será extrapolar muito dizer que começou aqui um certo penchant catastrófico da família Kennedy por Hollywood?