Para cortar pulsos

Isto é para se ler e ouvir de solidão em fogo. 

Não faço ideia. Talvez seja um bolero, talvez seja um blues. Sei que me cativa a electricidade da coisa. A electricidade não impede o derrame sentimental com laivos líricos. Nem impede o humor que nunca descamba na irrisão.

“No me llores mas” é o tema. O guitarrista, que agora mesmo acho o melhor do mundo, é Marc Ribot. A extraordinária banda é Los Cubanos Postizos.

E entretanto pus-me a ouvir “Aurora en Pekin” e começaram a aparecer-me cortes nos pulsos. Tem a beleza de uma lâmina.

A bela virgem

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Bica Curta servida no CM, 4.ª feira, dia 20 de Novembro

Foi antes da bica curta, século XIII. Após longa guerra, Luís VIII, católico rei francês, venceu uma seita herética. Voltava a casa, mas apanhou uma disenteria de alto lá que o baile não pára. O precário Serviço Nacional de Saúde da época declarou: a doença era do jejum sexual, dormir com uma virgem curava-o. Hesitariam os ministros de Costa, Macron ou Boris?  Não hesitaram os ministros do rei: meteram-lhe na cama uma bela virgem. O rei, com mansa gentileza, afastou-a. Preferiu morrer do que curar-se à custa de um pecado mortal.

Que pecados mortais se enfiam hoje na cama do poder? Afastarão com mansa gentileza as belas virgens?

É de Marx, um belo livro

Já se sabe que se é da Guerra e Paz eu publico sempre!

Em 2016, a Guerra e Paz publicou, por serem livros que serviram de bandeira ideológica a grandes movimentos nacionalistas ou internacionalistas, uma trilogia que incluiu o Manifesto Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels, o Mein Kampf, da Adolf Hitler, e o Pequeno Livro Vermelho, de Mao Tsé-Tung.

Os três livros foram precedidos por estudos críticos, situando historicamente o papel de cada um deles e as consequências, todas elas trágicas que os movimentos políticos, que deles se reivindicavam ou reivindicam, acabaram por gerar.

Curiosamente, essas edições críticas tiveram uma extraordinária receptividade junto dos nossos leitores, obrigando a editora a reeditá-los. É esse êxito que vamos recordar nos próximos dias, trazendo aqui excertos dos textos críticos que os enquadram, a começar pelo Manifesto Comunista.

No texto de introdução de Manuel S. Fonseca lê-se:

«Publicado originalmente em língua alemã, o Manifesto coincide com a Primavera dos Povos, fogueiras da revolta a arderem por toda a Europa, com revoluções na Alemanha, França, Itália, Império Austríaco, Hungria, Polónia, Ucrânia, Dinamarca. O Manifesto não foi o rastilho dessas revoluções, cujos agentes não o podiam ainda ter lido. O texto de Marx, participando do ar dos tempos e exprimindo a sua Angst, era um texto ilustremente desconhecido das massas  revolucionárias que protagonizaram essas insurreições, com excepção de parte dos  revolucionários e operários alemães que, esses sim, podiam ter acedido às teses de Marx, fosse na edição em livro referida, fosse nas diferentes edições do jornal Neue Rheinische Zeitung, editado por Marx. Extintos os fogos e os ímpetos revolucionários de 1848, parecia ter-se apagado a luz do Manifesto. Durante duas décadas não teve mais leitores do que o mais obscuro poema de Hölderlin. Tudo indicava que o «comunismo crítico» corria o risco de se converter numa peça política e filosófica que a História varreria para debaixo do seu obtuso tapete.

Foi outra revolução a dar gás, ou carvão (metáfora talvez mais adequada à nascente Revolução Industrial), às teses de Marx e Engels. A praxis precedeu – ou pelo menos legitimou – a teoria. Em plena Guerra Franco-Prussiana, as massas populares parisienses, sentindo-se traídas pela capitulação do Governo francês perante o exército invasor, sublevam-se, submetendo a Guarda Nacional, e instauram, a 18 de Março de 1871, o primeiro governo operário da História, a Comuna de Paris. Sonho, utopia, grito de sofrida e patriótica revolta, a Comuna de Paris teve vida curta: 62 dias que acabaram num rio de sangue e morte. As tropas francesas, feito o armistício com os alemães, assaltaram Paris, a 21 de Maio, e mataram 20 mil dos seus cidadãos, prendendo outros 40 mil, muitos dos quais viriam a ser executados, numa semana de barbárie e pesadelo.

Marx foi um incansável paladino da Comuna. Por essa altura, o filósofo era membro da Primeira Internacional, integrando o comité central, e já publicara O Capital, mas sobretudo a Contribuição para a Crítica da Economia Política, que fora um enorme êxito teórico e editorial. Com a defesa da Comuna, Marx avalizou e procurou dar corpo teórico à insurreição violenta e armada que, bandeira vermelha ao fresco vento de Paris em Março, se converteu no primeiro governo da História a declarar que exercia o poder «representando o interesse dos trabalhadores». No ano anterior, com a Guerra Franco-Prussiana em curso, Marx incitara os trabalhadores a apoiar o governo burguês republicano que, em Setembro de 1870, depusera Napoleão III. Menos de seis meses depois, a rápida evolução dos acontecimentos leva-o a dar suporte teórico à tomada revolucionária do poder. E o Manifesto voltou a ser lido.»

E mais adiante:

«Movido por uma concepção materialista da Histó­ria, o Manifesto apresenta, e esse é um dos elementos que permanece válido hoje, uma análise que nos mete pelos olhos dentro o dinamismo das relações de produ­ção capitalistas e as suas conquistas civilizacionais. (As viagens marítimas portuguesas são uma dessas con­quistas – com referência explícita de Marx à passagem do cabo da Boa Esperança.)

Outro elemento surpreendente para o leitor actual é ver como hoje, muito mais do que em 1848, é certeira a descrição de um mercado global, com o desapare­cimento de fronteiras e com um desenvolvimento ini­maginável dos transportes e das comunicações. Marx é mais profeta e mais visionário do que os poetas, do que um Blake, por exemplo: em 1848, o profeta Marx teve uma visão perfeita da actual globalização. Parecia estar a falar do presente e estava, afinal, a descrever o futuro.

Onde é que as previsões do Manifesto falharam? Clamorosamente, na previsão de uma queda próxima do capitalismo, que Marx via exangue e à beira de uma crise que uma revolução à escala europeia se prepa­rava para varrer. Falhou, por isso, a previsão da vitó­ria inelutável de um proletariado ao que o capitalismo reservaria apenas um futuro de pauperização. Mesmo o carácter revolucionário (e redentor) do proletariado, como Marx o via, não se cumpriu e, se uma parte do proletariado engrossou as hostes dos partidos co­munistas, ao longo do século XX, largos e maioritários segmentos da classe operária fizeram escolhas refor­mistas, militando em partidos que, para usar uma ex­pressão portuguesa recente, são do «arco da governa­ção». E grande parte dos «10 mandamentos» que são as reivindicações de Marx no Manifesto foram reali­zadas, sem sangue, pelas democracias parlamentares que estes partidos reformistas criaram.»

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Amar, Amar

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Publicado no CM, na 3.ª, dia 19 de Novembro

Quem é que, a tomar a bica curta, não jura por uma sociedade justa? Até o cínico, num momento de fraqueza, quer a sociedade justa. Mas uma coisa é querer, outra é fazer.

Quem mais grita, quem exige o paraíso já, em geral tem na boca os deserdados e famélicos da terra, mas nada tem, em boa verdade, para lhes oferecer. Prometem amor quando o que os deserdados precisam é de política económica. Foi a economia de mercado que organizou a produção de bens e de serviços a baixo custo e à mão da maioria.

A educação, a saúde, a ciência e o estado social são conquistas do mercado e da concorrência com ética. Amar é ter política económica.

Oh que amor tão calado que é o da morte

Bécquer
A 22 de Dezembro de 1870, assistia a atónita Espanha a um total eclipse do sol, morreu Gustavo Adolfo Bécquer. O seu Romantismo tardio fundou a moderna poesia espanhola, mérito que partilha com Rosalia de Castro, poeta galega sua contemporânea. Escreveu: “Oh que amor tão calado que é o da morte! / Que sono o do sepulcro tão tranquilo!”.

As suas “Rimas” são de uma elegância e de um refinamento inultrapassáveis. Como neste curto poema (“La mejor poesia escrita, es la que no se escribe”), esplendidamente irónico e subtil:

Asomaba a sus ojos una lágrima,
y a mi labio una frase de perdón;
habló el orgullo y se enjugó su llanto,
y la frase en mis labios expiró.

Yo voy por un camino, ella por otro;
pero al pensar en nuestro mutuo amor,
yo digo aún: “¿Por qué callé aquel día?”
Y ella dirá: “¿Por qué no lloré yo?

Ou seja, e mal vertido para português

Assomava a seus olhos uma lágrima,
a meus lábios uma frase de perdão;
falou o orgulho e enxugou-se o seu pranto,
e a frase nos meus lábios expirou.

Eu vou por um caminho, ela por outro;
mas ao pensar no nosso mútuo amor,
digo ainda “Por que me calei aquele dia?”
E ela dirá: “Por que não chorei eu?

David e a cabeça de Golias

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Nada é real. Um rapaz, túnica presa de um só ombro, tem uma tranquila espada na mão direita enquanto a esquerda segura pelos cabelos uma cabeça de homem, apenas uma surpreendida cabeça de homem, sem corpo. Poderia ser de uma violência inaudita – se fosse real. Mas nada é real.

As figuras saem do negro, um negro saturado. Não é um negro de noite, é um negro inventado por olhos iníquos, olhos de bas-fond. O negro donde emergem o rapaz e a cabeça do homem, digo, David e a cabeça de Golias – negro tão liso, tão cego – só pode ser um negro completamente pintado. Houve quem dissesse que pintar assim era destruir a pintura.

E, no entanto, David, a espada e a cabeça de Golias vêem-se tão bem, tão definitiva e vivamente recortados. E basta olharmos um segundo para sabermos que não há nenhuma forma física da luz os iluminar desta maneira. Nem é preciso. Esta é uma pintura anterior ao fiat lux do Génesis: a luz não vem, não tem de vir de lado nenhum: a luz é o que, por pura ilusão, pensamos ser os corpos. O braço, o torso, o linho branco da túnica de David, David ele mesmo, o fio da espada, são luz. Luz de dentro, não luz de fora. Teatro negro, teatro de luz. Sem uma única sombra.

 Não admira que, corria o ano de 1609 e tendo Caravaggio 38 anos, tenha sido uma das suas obras finais.

Dança húngara

Brahams
O autor

Todo-o-Mundo ama e Ninguém faz fine bouche à Dança Húngara nº 5 de Johannes Brahms. Atraído pelo calor colectivista, eu também gosto.

E, no entanto, seguindo à letra a proposta de Brahms, dançar os três minutos deste tema exige solidão, destreza e liberdade individuais, pés velozes, imaginação alada.

Há temas para dança colectiva, outros para a ritmada união de um par, e há este apelo a um feroz e móvel individualismo. Por muito mal que esteja a ouvir Brahams é assim que o ouço.

Interpretado, mais suave do que energicamente, pela Orquestra Sinfónica do Bolshoi, dirigida pela bela Tomomi Nishimoto.