Blog de escrita e de reflexão lúdicas. Um lema: chatices não!
Author: Manuel S. Fonseca
Eis a felicidade: estar sentado num fim de tarde de Verão, na mesa um fino estarrecedoramente gelado e um prato de jinguba. E Deus sentado, ali ao lado, sendo certo e sabido que Deus é Amor e só Amor.
Tarkovski ensinou-nos que o risco é o melhor do beijo
É a humildade que faz o futuro. A ambição é quase sempre um pneu furado. O meu futuro começa agora e eu, como prometi, venho dizer. A partir de agora, passo a escrever no grupo Cofina.
Às sextas-feiras, no Jornal de Negócios, quem ler a última página do Weekend, vai encontrar uma coluna com o título “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo“. Escrevo-a eu. Prometo contar vidas, situações e episódios insólitos ou de alto risco, para não falar, porque é só disso que vou falar, de fraudes, aventuras e embustes. Actualíssimas coisas do passado que se misturam com anacrónicas coisas do presente. Uma vez por semana, sempre à 6ª feira.
Mas há mais. À 3ª, 4ª e 5ª feira, na última página do CM (sim, o Correio da Manhã), vou servir uma “Bica Curta“. Três micro-crónicas sobre um drama, um sorriso, uma fúria, um esgar de tristeza do quotidiano.
E agora, pedia a todas as pessoas que saíssem para eu poder ficar só consigo. Já saíram? Vou contar-lhe um segredo. Há muito tempo que não partia com tanto optimismo e vontade para uma nova aventura. No Negócios, oferecem-me o espaço perfeito da crónica. No CM, o desafio das micro-crónicas tem a mesma exigência que se pede, na guerra, a atiradores de elite. Coitado de mim.
Tenho total liberdade de escrita e posso escrever com a ortografia em que aprendi a língua portuguesa. Estarei eu à altura do desafio? É a humildade que faz o futuro e eis o quero dizer: todas as condições me foram dadas, está nas minhas mãos, e só nas minhas mãos, escrever ou não o “Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo” e a “Bica Curta” com emoção, lúdica inteligência e um módico de paixão. Não sei, porque não sei mesmo, se serei capaz.
Foi esta a minha última crónica no Expresso. Escrevo neste jornal, que Francisco Pinto Balsemão fundou, desde 1981. Com duas interrupções, uma para escrever no extinto Semanário, a outra, para ajudar a fazer a SIC. Não há duas sem três, pensei quando voltei, há oito anos, com esta coluna a que chamei A Vida Dá o que o Cinema Tira. Não há duas sem três, digo, sem vontade, agora que saio. Escrevi com total liberdade e fiz mais um amigo, o Miguel Cadete, meu editor, de santa paciência, mas tão firme e tão apaixonado por fotografia, estranhas edições e incunábulos. Não me perdoaria se perdesse os homéricos almoços que nos irmanam.
Parto com gratidão. Como quando parti da SIC. Devo a Francisco Pinto Balsemão as oportunidades que mudaram e moldaram uma parte do que sou. Se devo muito do que que sou, e por esta ordem, ao meu liceu, ao curso de filosofia e a José Gabriel Trindade Santos, à Cinemateca e a João Bénard da Costa, o que as minhas idas a Cannes, a Berlim, luxos como Pordenone, as entrevistas que fiz a Coppola, a Anjelica Huston, a Storaro, tantos realizadores e actores, o que viajei e negociei pela SIC, dos grande estúdios de Hollywood ao Rio ou a Hong Kong, devo-o à visão de Balsemão. Deu-me na mão mundo. Obrigado, meu caro amigo, até à próxima conversa. Convido eu.
Adeus
Nunca serei um fanático de 1976. Pelas mesmas razões – já vão ver – não posso ser um fanático de 2018.
Havia um calor feio, suado, nas salas do aeroporto de Luanda. Abri a mala, cheia de livros, nada senão livros, e o inspector, vizinho do bairro ou ex-camarada do velho Éme, fechou a cara, como quem muda de passeio para não passar à minha porta: “Komé, vais bazar?”
Não posso, não posso ser fanático desse final de 76, ano em que bazei de Angola. Ao meu lado, o meu recente amigo Mulambo, com uma tensão clandestina, na mão o passaporte, todo ele passos em volta, estava à espera que a DISA o cangasse ainda antes de pôr o pé no avião.
Sonhamos sempre que, se nos despedirmos num aeroporto, ressuscitaremos Bogart e “Casablanca”. Mas o meu amigo Mulambo, e eu pelos olhos dele, só víamos em cada farda mais um major Strasser, o chefe dos nazis. As nossas camisas de manga curta já eram feitas da ameaça que teceria a tragédia dos milhares de torturados e fuzilados a que o 27 de Maio de 77 deu licença.
Já no avião, odiei os meus livros delatores, todos os livros, Borges e as bibliotecas, na cabeça a bater-me a desdenhosa acrimónia do inimigo: “Komé, vais bazar?”
Sentado ao lado, o meu tão recente amigo Mulambo, perseguido por ser da Revolta Activa, sussurrava estar tão certo que eles o viriam buscar ao avião, como eu estava certo disto: se dá cacho é bananeira. O Boeing no ar, Luanda agitada e nocturna sob os nossos pés, e o Mulambo resignava-se à antecipada fatalidade: “Vão mandar o avião voltar para trás.” O Mulambo a querer que o avião saísse de Angola, como o revolucionário Viktor Laszlo a querer sair de Casablanca, e eu, com o meu coração de Ingrid Bergman, a querer que congelasse ou fosse uma parede todo o espaço aéreo.
A 310 km por hora, ainda sobre a Corimba, ficavam para trás os beijos de adolescência, as aventuras humildes, meu liceu, meu bairro, minha alegria, o meu sonho pó de talco de ser angolano.
Nunca tinha dito um tão longo adeus. Hoje, digo outro. Ao Expresso, onde comecei a escrever em 1981. Saio pelo meu pé e já odeio o meu pé como odiei a mala de livros. Ao meu editor, a Balsemão, aos leitores abraço-os com oito anos de crónicas que me fizeram feliz como ao rapazinho que vê a primeira mulher nua. Digo adeus e sei: não sou um fanático de 2018, nunca serei um fanático da despedida.
Já disse duas vezes, aqui e aqui, que Meus Kambas é uma varanda pequenina com porta para a cozinha, onde recebo os amigos. Não é fácil sentar o Pedro Bidarra nessa varanda, como não é fácil sentar o Pedro Bidarra em lugar nenhum. Ninguém em seu perfeito juízo tenta sentar o Pedro Bidarra, porque ele é energia instável, movimento em estado puro, insentável. Nem a escrita dele, imitando-o, se senta, inquieta, em busca, como sabem todos os que o leram, no Escrever é Triste ou no romance (e não seria, por indefinível transumância de géneros, uma novela?) que dele publiquei, Rolando Teixo de seu título, emergentes ramos e raízes escondidas no seu conteúdo. Leiam agora este texto que ele me mandou, excerto de uma narrativa mais vasta em gestação.
Leda e o Cisne, Paolo Veronese
Os deuses em trânsito Pedro Bidarra
7.
Os deuses e as deusas, que na persecução dos seus enredos divinos tomam corpos mortais e neles habitam enquanto e como querem, para seu gozo e prazer, no fim abandonam-nos cruelmente, deixando-lhes apenas memórias do tempo em que aquela carne foi tocada pelo divino.
Sobre o cisne que Zeus encarnou para comer a Leda nada mais se soube depois de consumado o acto e do rei dos deuses se ter posto a andar de volta ao Olimpo. Podemos apenas especular que terá retomado a sua existência meramente aviária, grasnando estonteado atrás do bando pelos jardins e lagos do palácio do rei Tíndaro, tentando contar-lhes os quinze minutes, se tanto, de êxtase e glória; da sorte que lhe havia calhado quando, ao fugir de uma águia, caiu nos braços da Leda toda nua; e como depois foi só comê-la, estando ela, como estava, pronta e desconsolada pela negligência do consorte — quiçá motivada pelos sempre prementes assuntos do estado ou, talvez, pelas putas. Terá o desacreditado cisne levado o resto da vida a contar aos outros que era pai da Helena e dos Dioscuros? Por ventura. É claro que nenhum cisne, no seu bom senso aviário, terá crido em tão inverosímil narrativa; muito menos a companheira que, com toda a certeza, o terá para sempre olhado como o gabiru e ido fazer ninho com outro, talvez um cisne preto, para sublinhar a negrito o despeito e a vingança. Se foi assim que as coisas se passaram — o que terá uma probabilidade, no mínimo, tão grande quanto um cisne ter comido a Leda — só podemos especular.
E o que dizer do caso que envolve Anquises, Afrodite e uma anónima e princesa virgem que Afrodite encarnou para seduzir o bonito apascentador de cavalos? Sobre a princesa encarnada, e depois de consumada a união com Anquises, pouca história reza. Houve um parto, isso é certo, e a deusa, também é certo, ter-se-á desinteressado do assunto como é mister dos divinos. À pobre princesa terá restado um corpo com estrias, um ventre proeminente do alargamento que a gravidez sempre provoca, mamas descaídas e maltratadas pelas mordidas do bebé Eneias e tudo um pouco flácido; corpo que Anquises terá trocado, a fazer fé em hábitos que são de hoje e de sempre, por outras mais novas e frescas conquistas; até ser fulminado por um raio de Zeus, quando resolveu dar-se ares e, mesmo avisado, se pôs a contar o assunto à rapaziada: “Vocês sabem lá, eu comi uma deusa.” Quem não contaria? Ficou manco, o desbocado, rezam os mitos.
Afrodite é a mais cruel de todos e todas. Hoje habita a Beatriz, como outrora habitou a Madalena e a Patrícia. As artes da Beatriz são as mesmas artes, os mesmos truques hipnotizantes com que a Patrícia e a Madalena outrora me derreteram. Mas olhe-se a Madalena de hoje e veja-se toda a crueldade de Afrodite; encarna um corpo por uns tempos, uns anos na melhor das hipóteses, dá-lhe inelutáveis poderes de sedução, uma presença etérea, uma aura principesca, a capacidade de caminhar quase sem tocar o chão, uma autoconfiança que resulta da inconsciência da efemeridade, e depois farta-se, desencarna e resulta a velha Madalena. Como, a seu tempo, resultará a velha Beatriz. No caso da Madalena, como em tantos outros que todos tão bem conhecemos, os corpos abandonados pela deusa são por fim tomados por Harpias estridentes que debicam a paciência das vítimas até à cirrose, ao AVC, ao cancro ou à loucura. Mas até lá, enquanto Afrodite as habita, não há como resistir-lhes.
A Beatriz estava no meio das mulheres. Mais uma vez, sentindo a minha presença, virou a cabeça sobre o ombro e olhou-me como a Kalipigos. Depois virou-se e avançou na minha direcção, sorridente, fresca, muito bela, sem tocar com as sandálias no chão, deixando atrás de si a entourage alcoviteira a mirar-me dos pés à cabeça. Senti-me pegar fogo. Ainda sim, e pela primeira vez, consegui articular uma palavra na sua presença:
— Olá — disse.
— Olá tio.
O cumprimento escorreu como balde de água fria lançado sobre o fogo que acabara de atear. Mas um homem feito não foge; fica posto e aguenta a humilhação. Sorri o meu mais jovial sorriso.
Estou eu a começar a sentar-me em 2019 e não é que me olha nos olhos a minha velha Hermes Baby? Tem 53 anos e está muito bem conservada, o que as fotografias não desmentem. Eis, o que me faz sentir bem, hoje. É mesmo por ter o meu passado bem conservado que mais sinto vontade de entrar em 2019. No meu passado, vejo o meu futuro.
Um excelente 2019 a todos.
A minha Hermes Baby
Esta é a única coisa verde de que gostei em toda a minha vida. A única coisa verde de que gostarei em toda a minha vida. Durou, durou, durou: dos meus 12 anos até surgir o milagre da informática. Eis a minha Hermes Baby.
Fez rádio no Equipa de Brandão Lucas e no catolicíssimo Água Viva, nos trópicos – já escrevia sozinha as minhas pouco mais do que adolescentes rubricas, O Rei Morreu Viva o Rei e as Crónicas do Aracnídeo. E rádio ainda foi o que fez em Portugal, muitos anos depois, com o Sena Santos, nos noticiários da RDP.
Bateu os aeroportos de Luanda, Lisboa, Lobito, Paris, Funchal, Nova Iorque e Los Angeles, tanto fez a gare de caminho de ferro do Huambo, como a de Hendaye e a de Grenoble; palmilhou estradas de Angola e atravessou a Espanha de Franco, estavam para ser executados dois bascos. Passou os Pirinéus, deliciou-se com os Alpes. Escreveu, cinéfila e festivaleira, de Tróia, de Cannes, de Berlim, de San Sebastian. Entrevistou a Helma Sanders-Brahams com vista para o Wannsee, visitou a Cinémathèque Française e a Filmoteca Española. Começou, em San Francisco, a escrever o livro-catálogo sobre Francis Ford Coppola.
A minha Hermes Baby teve uma juvenil costela revolucionária: fez a revolução, pouco cultural, pouco canónica, em Angola — o que se gastou em stêncil, meu bom Deus. Esteve na frente de combate da dipanda, Lobito, Sumbe, Luanda. Atacou a reacção e a social-reacção. Foi a França, voltou a Portugal. Bateu Direito, em Lisboa, Direito em Luanda, aflorou Sociologia em Grenoble, para acabar a servir a Faculdade de Letras, da Universidade Clássica de Lisboa: tratou-a bem o José Gabriel e nem o M.S. Lourenço, de Filosofia Contemporânea, e muito menos o Padre Manuel Antunes, se zangaram com ela. Funcionou na Cinemateca, tantos anos; depois, emprestada aos ciclos da Gulbenkian, todo o Ciclo de Cinema Musical e a Ficção Científica, recebeu ordens de João Bénard da Costa. Internacionalizou-se nos Cahiers du Cinéma, graças ao senhor Manoel de Oliveira, e no Dictionnary of Films and Filmmakers, por intermediação do Rui Santana Brito. Proletarizou-se nas revistas do voluntarioso Duarte Ramos, aburguesou-se no Expresso de Balsemão em mil críticas de bola preta, aligeirou-se num divertido Semanário sob a asa nonchalant de Vitor Cunha Rego.
Escreveu com indignação, algum idealismo, pedinchou, protestou, rejeitou, amou quase sempre, mas não me lembro que, verde de sua natureza e verde da inveja do imprestável usuário, tenha verdadeiramente odiado. De vez em quando ria-se e escrevia vermelho. Está ali, a dois passos do pc, num recolhimento verde e vivo. Já me disse: se um dia precisares… nunca se sabe.
Sem desprimor, podias ter sido bem melhor, meu caro 2018. Os livros foram um tormento, minados por uma crise subterrânea e clandestina. O nosso Escrever é Triste está suspenso à espera de um boca a boca ressurreccional. E eu saio do Expresso, desse A Vida Dá o que o Cinema Tira, de que tanto gostava. Bem sei, bem sei, mea culpa…
Só agora, já no fim, arrependido, tentaste redimir-te. Sem desprimor, não leves a mal, mas podia ter sido melhor, meu caro 2018. Só te perdoo por me teres aberto os olhos e me teres mostrado que ninguém é nada na vida se não tiver também uma Página Negra.
É tempo de despedida. Que venha 2019. E, afinal, reconheço-te, 2018, um mérito: puseste-me na mão um estandarte de paixão. Já não me lembrava de atacar com tanto optimismo um ano como agora parto para cima de 2019. Com uma alegria de Chalana, com a fé de uma Joana d’Arc. Parto para outra aventura de escrita. E a minha Guerra e Paz avança para uma parceria que não se envergonha da sua ambição. Já digo, logo digo. Agora é tempo de celebrar o adeus e o novo dia. Crepúsculo e aurora.
De há uns anos para cá, todos os anos são anos de despedida, de irremediável adeus. Este ano, disse adeus a Jorge Adib. Meu amigo brasileiro, alto quadro da Globo, um desses belos e ágeis dinossauros que fez a primordial televisão de antigamente. Gostava, pelo puro prazer de me agradar, de dizer bem dos programas que eu produzia e, agora, dos livros que eu editava. Nunca deixarei de o lembrar – a ele e a minha muito mais jovem amiga Marise Caetano – com ternura incondicional
à Marise, ao Jorge
Terá sido por causa das ostras? E não juro, porque os camarões vermelhíssimos, espalhados sobre uma cama de gelo, iam, à velocidade da luz, dos olhos para o palato. O velho Westwood Marquis tinha então o melhor brunch de domingo de Los Angeles. Aos veludos, talvez roubados a bordéis de excelência do século XIX, juntava um pianista igualzinho ao grande Countie Basie. Um tipo nostálgico sentia-se ali em sua casa.
Nostálgico como eu, quem lá veio almoçar comigo foi Jorge Adib, director da TV Globo, quase um filho, diziam-me, do fundador, esse Roberto Marinho que, um dia, correu com a polícia da ditadura brasileira, que viera à redacção da Globo prender uns comunistas: “Fora daqui, quem trata dos meus comunistas sou eu!”
Jorge Adib, como Roberto Marinho, podia tolerar os seus comunistas e detestar ditaduras, mas gostava das mulheres. Tinha, diga-se, a suave arte de falar com as mulheres.
Mas deixo o Jorge sentado com a querida Marise Caetano, a brasileira mais escandinava que conheço, amante de neve e frio, e viajo aos meus vinte anos, à primeira vez que percebi o que era falar com as mulheres. A coisa passou-se no Hexágono, sofisticada pastelaria do Lobito.
Estava com um amigo tão taranta como eu e um ex-capitão do exército português que andara aos tiros na Guiné e trazia nos olhos azuis, e nos cabelos negros, que o 25 de Abril desgrenhara, uma tristeza dos diabos. Julgo que andaria a querer redimir em utopia o que já saboreara de medo, angústia e morte. Ao lado da nossa mesa revolucionária sentaram-se três vezes vinte anos de mulheres bonitas. Eu e o meu amigo crescemos em feromonas e olhares fulminantes. Elas viraram as costas. Havia uma, de olhos verdes, cabelo moreno onde se podia ficar preso a vida inteira. O nosso ex-capitão disse-lhe a mais banal das frases. Misturou um conselho – que o “molotof” era a sobremesa da casa – com um galanteio sincero sobre a cor esmeralda dos olhos dela. Um minuto, juntámos as mesas, e três jovens mulheres dedilhavam as suas harpas de sombras, contando-nos os sonhos de vida que tinham. Soube, pela boca de um capitão, depois de Abril, que se podia falar às mulheres. Se isto não é a revolução, o que será a revolução?
E volto à sala onde deixei o Jorge e a Marise. A nossa atenção concentra-se, agora, numa outra mulher, uma mulher só, nem feia, nem bonita, sentada duas mesas à frente da nossa. Foi o radar infalível da Marise que a detectou. Viu-a chegar e ir buscar duas, três ostras. Viu que as comia com vagar e sem preconceito. E viu-a voltar para mais três, talvez seis. A partir daí, a mulher só, de peito discreto, pernas altas a que uns saltos altos emprestavam autoridade, experimentou tudo: das blueberry pancakes aos cogumelos selvagens embrulhados em gruyère e fitas de bacon fumado a macieira, da salada de lagosta ao feijão preto com ranchero sauce e abacate ao lado.
Não havia, na mulher só, indícios de voracidade. Comia à imperceptível velocidade do movimento de rotação da terra. Imagino que os alimentos se integrassem, com a mesma harmonia que se diz das esferas, nos tímidos seios, nas rosáceas ancas, nas meias luas do competente rabo.
O Jorge levantou-se: “Manuelzinho, pô, vou falar com essa mulher”. Foi e disse-lhe: “Senhora, creia-me admirador eterno do prazer com que come. Serviu-se 25 vezes. Não veja na contabilidade outra coisa que não seja o meu mais sublime e deliciado espanto. Nunca um brunch me soube tão bem.” As gargalhadas da mulher foram a explosão de júbilo a coroar um repasto real. As ostras podem ser boas, mas a mulher que ri é muito melhor.
Poucas maneiras de acabar o ano me parecem mais justas e mais belas do que visitar as mulheres de Egon Schiele. Pudesse eu, e estaria agora, a 31 de Dezembro deste ano de 2018, a rever em Viena o que de Egon Schiele pudesse devorar. Esta é a revisitação nostálgica de uma viagem de 2017, a convite da extinta revista Epicur.
Entra-se em Egon Schiele pela mulher de saias levantadas. A saia pode ser verde ou vermelha, mesmo azul, mas a paisagem que revela tem sempre as quatro impronunciáveis letras dessa coisa que outro pintor disse ser a origem do mundo. O sexo feminino, essa palavra de quatro letras que é a mais proibida, a mais subversiva de todas as palavras, abre-se e murcha, oferece-se e nega-se, incha ou seca, em centenas de telas de Schiele. Arrisco: durante um terço da sua vida os olhos de Schiele estiveram especados, ou melhor, avidamente enfiados numa juvenil, madura ou decadente vulva.
Quero, em defesa do meu bom nome, dizer aos meus leitores que estou a falar de arte. Falhei a vernissage por ter perdido o avião e pude assim, no dia seguinte, olhar descansado e sem falsos pudores para a exposição de Egon Schiele que o Albertina, um dos mil museus de Viena de Áustria, ofereceu ao mundo.
É um museu ecléctico, o Albertina, em cada piso uma exposição. Quando eu lá fui, desta vez, de elevador, fui da sala “Monet a Picasso” para a mostra de Arte Contemporânea, que junta Anselm Kiefer, Andy Warhol e o rato Mickey de Gottfried Helnwei. Um lance de escadas levou-me de Egon Schiele à mostra “De Poussin a David” e um cinéfilo como eu, antes de chegar à cave, tinha de se embasbacar com a colecção de fotografias da Cinemateca de Viena.
Orgulhemo-nos patrioticamente. Há uma mão portuguesa a sustentar tanta arte. Emanuel Teles da Silva, descendente pela parte da mãe dos Condes de Tarouca, filho do Embaixador português, tornou-se cidadão austríaco e conselheiro de Carlos VI, tutelando com devoção a educação da infanta Maria Teresa. A infanta não foi, depois de ser coroada imperatriz, insensível a tão esmerados cuidados pedagógicos, correndo o rumor de ter gratificado o mestre com a regular contemplação da mesma frondosa paisagem que Schiele obsessivamente pintou, tarefa que o conde Silva-Tarouca terá executado com discrição e reserva antónimas da tortura, convulsão e rasgada exuberância do pintor. A exuberância que mais se reconhece ao conde português foi então a da conversão do edifício que é hoje o Albertina num palácio para sua residência.
Schiele não pintou palácios, mas pintou paredes de casas pobres. O que me deliciou foi que as pintou com a mesma deformação, as mesmas cores, a mesma intensidade com que pintou o sexo das suas modelos. São paredes vivas e em drama, como as mulheres nuas que levantam as saias, às vezes muito, como Schiele faz questão de escrever nos títulos que deu a cada uma das suas obras. Levantam muito as saias e abrem desmesuradamente os olhos, com excepção da mulher que se masturba, um dedo tão mais tacteante quanto os olhos se cerram.
Há outros nus no Albertina, mas nenhum se compara aos nus em ferida de Schiele. Basta subir ao piso de cima e ver os rabos femininos que os impressionistas pintaram entre ervas e árvores. Há neles um naturalismo sem metafísica, quase um retrato. No piso de baixo, Schiele deforma, aumenta, confronta-se, convulso, com a visceralidade da realidade. Quando se trata da mulher nua, eu diria que é muito melhor estar um piso abaixo do que um piso acima.
Egon Schiele foi um pintor austríaco. A sua obra fez-se, no essencial, entre 1910 e 1918, ano em que a gripe espanhola o palmou da vida e o levou para o inferno que é a morte. Em menos de dez anos, olhos postos onde já disse, arrancou a ferros a imortalidade.
É mentira! E se me voltarem a perguntar, voltarei a dizer que é mentira. Marilyn, em The Misfits, não interpretou personagem nenhuma. Vingando-se de Arthur Miller, o marido com que estava a romper o seu terceiro casamento, foi só ela mesma, ela, a própria, ao longo desse filme maldito de tantas maldições confirmadas ao longo dos 58 anos que já passaram.
O genérico final do filme desmente-me: está lá escrito que a personagem de Marilyn se chama Roslyn Taber. Começamos por vê-la a tentar memorizar as falas que vai dizer ao juiz para se divorciar e não demoramos muito a saber que foi stripper, perdendo no bar duma cidade perdida o que os homens supõem que as mulheres perdem por eles ganharem, quando ganham, alguma coisa. Que se lixe o genérico, não há personagem nenhuma: The Misfits, como qualquer filme, mente com os dentes todos, e se os filmes têm dentes!
The Misfits é um filme de John Huston. Quem o escreveu – porque embora nestes tempos tão visuais custe reconhecê-lo, os filmes são escritos – foi Arthur Miller. Escritor, dramaturgo, se algum dia no século 30 alguém se lembrar dele há-de ser, se ainda houver raiva masculina, por ter sido marido de Marilyn. A mesma raiva que, agora, me faz ser injusto.
Miller era dono de uma mente literária e convencera-se que Marilyn nunca tivera um papel à sua medida. Via, como todos os literatos, mal cinema. Bem lhe podiam mostrar o Gentlemen Prefer Blondes do Hawks ou o Seven Year Itch do Billy Wilder que ele sempre os veria sem os ver.
O que ele via era a Marilyn que tinha à frente dos olhos. Via o ciclone emocional do casamento deles. Via, de Marilyn, a insatisfação voluptuosa, redonda e carnal, tão infantil às vezes, via a invulgar dualidade cartesiana que era a alma e o corpo dessa mulher.
Era isso que via, e foi o que Miller escreveu. Quando leu o script, Marilyn não gostou do espelho. Se calhar, adivinho eu, já se tinha visto assim e já se tinha visto melhor. E vingou-se.
A conselho de Truman Capote, Marilyn fora aluna de Constance Collier, actriz britânica e shakespeareana, e aprendeu com ela que não tinha teatro dentro de si. Katharine Hepburn, Bette Davis, até mesmo Lauren Bacall, tinham teatro, colocação, dicção. Ela não. O que tinha, e a professora Collier lhe mostrou, era fragilidade, a súbita luminosidade de um raio de sol, a beleza subtil de uma labareda no meio da noite. Coisas que não enchem um palco, mas fazem a felicidade da câmara de cinema. Como em The Misfits. Filmada por Huston com um soft focus que a faz irreal, Marilyn paira no ar como pólen e a voz com que diz as falas é de uma ingenuidade de jardim-escola.
Passara tudo por Marilyn: abusos, violência, droga, humilhação. Mas nesse filme, em frente à câmara, Marilyn era só a imagem da inocência depois do pecado, a virgindade que, afinal, nunca se perde. E deixem-me dizer-vos: santo Deus, o que a inocência e a virgindade podem ser tristes.