Adeus

Foi esta a minha última crónica no Expresso.
Escrevo neste jornal, que Francisco Pinto Balsemão fundou, desde 1981. Com duas interrupções, uma para escrever no extinto Semanário, a outra, para ajudar a fazer a SIC. Não há duas sem três, pensei quando voltei, há oito anos, com esta coluna a que chamei A Vida Dá o que o Cinema Tira. Não há duas sem três, digo, sem vontade, agora que saio. Escrevi com total liberdade e fiz mais um amigo, o Miguel Cadete, meu editor, de santa paciência, mas tão firme e tão apaixonado por fotografia, estranhas edições e incunábulos. Não me perdoaria se perdesse os homéricos almoços que nos irmanam.
Parto com gratidão. Como quando parti da SIC. Devo a Francisco Pinto Balsemão as oportunidades que mudaram e moldaram uma parte do que sou. Se devo muito do que que sou, e por esta ordem, ao meu liceu, ao curso de filosofia e a José Gabriel Trindade Santos, à Cinemateca e a João Bénard da Costa, o que as minhas idas a Cannes, a Berlim, luxos como Pordenone, as entrevistas que fiz a Coppola, a Anjelica Huston, a Storaro, tantos realizadores e actores, o que viajei e negociei pela SIC, dos grande estúdios de Hollywood ao Rio ou a Hong Kong, devo-o à visão de Balsemão. Deu-me na mão mundo. Obrigado, meu caro amigo, até à próxima conversa. Convido eu.

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Adeus

Nunca serei um fanático de 1976. Pelas mesmas razões – já vão ver – não posso ser um fanático de 2018.

Havia um calor feio, suado, nas salas do aeroporto de Luanda. Abri a mala, cheia de livros, nada senão livros, e o inspector, vizinho do bairro ou ex-camarada do velho Éme, fechou a cara, como quem muda de passeio para não passar à minha porta: “Komé, vais bazar?”

Não posso, não posso ser fanático desse final de 76, ano em que bazei de Angola. Ao meu lado, o meu recente amigo Mulambo, com uma tensão clandestina, na mão o passaporte, todo ele passos em volta, estava à espera que a DISA o cangasse ainda antes de pôr o pé no avião.

Sonhamos sempre que, se nos despedirmos num aeroporto, ressuscitaremos Bogart e “Casablanca”. Mas o meu amigo Mulambo, e eu pelos olhos dele, só víamos em cada farda mais um major Strasser, o chefe dos nazis. As nossas camisas de manga curta já eram feitas da ameaça que teceria a tragédia dos milhares de torturados e fuzilados a que o 27 de Maio de 77 deu licença.

Já no avião, odiei os meus livros delatores, todos os livros, Borges e as bibliotecas, na cabeça a bater-me a desdenhosa acrimónia do inimigo: “Komé, vais bazar?”

Sentado ao lado, o meu tão recente amigo Mulambo, perseguido por ser da Revolta Activa, sussurrava estar tão certo que eles o viriam buscar ao avião, como eu estava certo disto: se dá cacho é bananeira. O Boeing no ar, Luanda agitada e nocturna sob os nossos pés, e o Mulambo resignava-se à antecipada fatalidade: “Vão mandar o avião voltar para trás.” O Mulambo a querer que o avião saísse de Angola, como o revolucionário Viktor Laszlo a querer sair de Casablanca, e eu, com o meu coração de Ingrid Bergman, a querer que congelasse ou fosse uma parede todo o espaço aéreo.

A 310 km por hora, ainda sobre a Corimba, ficavam para trás os beijos de adolescência, as aventuras humildes, meu liceu, meu bairro, minha alegria, o meu sonho pó de talco de ser angolano.

Nunca tinha dito um tão longo adeus. Hoje, digo outro. Ao Expresso, onde comecei a escrever em 1981. Saio pelo meu pé e já odeio o meu pé como odiei a mala de livros. Ao meu editor, a Balsemão, aos leitores abraço-os com oito anos de crónicas que me fizeram feliz como ao rapazinho que vê a primeira mulher nua. Digo adeus e sei: não sou um fanático de 2018, nunca serei um fanático da despedida.

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Publicado no Expresso