A mulher que ri

De há uns anos para cá, todos os anos são anos de despedida, de irremediável adeus. Este ano, disse adeus a Jorge Adib. Meu amigo brasileiro, alto quadro da Globo, um desses belos e ágeis dinossauros que fez a primordial televisão de antigamente. Gostava, pelo puro prazer de me agradar, de dizer bem dos programas que eu produzia e, agora, dos livros que eu editava. Nunca deixarei de o lembrar – a ele e a minha muito mais jovem amiga Marise Caetano – com ternura incondicional

W-LA

à Marise, ao Jorge

Terá sido por causa das ostras? E não juro, porque os camarões vermelhíssimos, espalhados sobre uma cama de gelo, iam, à velocidade da luz, dos olhos para o palato. O velho Westwood Marquis tinha então o melhor brunch de domingo de Los Angeles. Aos veludos, talvez roubados a bordéis de excelência do século XIX, juntava um pianista igualzinho ao grande Countie Basie. Um tipo nostálgico sentia-se ali em sua casa.

Nostálgico como eu, quem lá veio almoçar comigo foi Jorge Adib, director da TV Globo, quase um filho, diziam-me, do fundador, esse Roberto Marinho que, um dia, correu com a polícia da ditadura brasileira, que viera à redacção da Globo prender uns comunistas: “Fora daqui, quem trata dos meus comunistas sou eu!”

Jorge Adib, como Roberto Marinho, podia tolerar os seus comunistas e detestar ditaduras, mas gostava das mulheres. Tinha, diga-se, a suave arte de falar com as mulheres.

Mas deixo o Jorge sentado com a querida Marise Caetano, a brasileira mais escandinava que conheço, amante de neve e frio, e viajo aos meus vinte anos, à primeira vez que percebi o que era falar com as mulheres. A coisa passou-se no Hexágono, sofisticada pastelaria do Lobito.

Estava com um amigo tão taranta como eu e um ex-capitão do exército português que andara aos tiros na Guiné e trazia nos olhos azuis, e nos cabelos negros, que o 25 de Abril desgrenhara, uma tristeza dos diabos. Julgo que andaria a querer redimir em utopia o que já saboreara de medo, angústia e morte. Ao lado da nossa mesa revolucionária sentaram-se três vezes vinte anos de mulheres bonitas. Eu e o meu amigo crescemos em feromonas e olhares fulminantes. Elas viraram as costas. Havia uma, de olhos verdes, cabelo moreno onde se podia ficar preso a vida inteira. O nosso ex-capitão disse-lhe a mais banal das frases. Misturou um conselho – que o “molotof” era a sobremesa da casa – com um galanteio sincero sobre a cor esmeralda dos olhos dela. Um minuto, juntámos as mesas, e três jovens mulheres dedilhavam as suas harpas de sombras, contando-nos os sonhos de vida que tinham. Soube, pela boca de um capitão, depois de Abril, que se podia falar às mulheres. Se isto não é a revolução, o que será a revolução?

E volto à sala onde deixei o Jorge e a Marise. A nossa atenção concentra-se, agora, numa outra mulher, uma mulher só, nem feia, nem bonita, sentada duas mesas à frente da nossa. Foi o radar infalível da Marise que a detectou. Viu-a chegar e ir buscar duas, três ostras. Viu que as comia com vagar e sem preconceito. E viu-a voltar para mais três, talvez seis. A partir daí, a mulher só, de peito discreto, pernas altas a que uns saltos altos emprestavam autoridade, experimentou tudo: das blueberry pancakes aos cogumelos selvagens embrulhados em gruyère e fitas de bacon fumado a macieira, da salada de lagosta ao feijão preto com ranchero sauce e abacate ao lado.

Não havia, na mulher só, indícios de voracidade. Comia à imperceptível velocidade do movimento de rotação da terra. Imagino que os alimentos se integrassem, com a mesma harmonia que se diz das esferas, nos tímidos seios, nas rosáceas ancas, nas meias luas do competente rabo.

O Jorge levantou-se: “Manuelzinho, pô, vou falar com essa mulher”. Foi e disse-lhe: “Senhora, creia-me admirador eterno do prazer com que come. Serviu-se 25 vezes. Não veja na contabilidade outra coisa que não seja o meu mais sublime e deliciado espanto. Nunca um brunch me soube tão bem.” As gargalhadas da mulher foram a explosão de júbilo a coroar um repasto real. As ostras podem ser boas, mas a mulher que ri é muito melhor.

adib

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